quarta-feira, janeiro 27, 2010

IMPRESCINDÍVEIS



– Sem o Filipe e o Ricardo não dá pra começar a pelada.
– Ricardo já está aí. Alá a bola dele. Foi à padaria tomar um sorvete.
– E o Filipe?
– A mãe dele disse que ele só vem depois de estudar.
– Filhinho de mamãe, mas sem ele não tem jogo.

A Rua Alberto Limonta tinha configuração hostil aos adeptos de uma boa pelada. E logo ela havia escapado do intenso tráfego que invadia as outras ruas do bairro. Sem espaços para um campinho, a garotada se virava no velho futebol de rua.
A Rua começava com ladeirinha leve e terminava em subida inclemente. Era comum os infelizes que moravam lá no alto, antes de começar a escalada, soltar uns dois putaquepariu e três ou quatro cacildas.
Entre a tênue subida e o paredão, havia 50, 60m de planície. Infelizmente, quis o Tinhoso que no metro 20 do paraíso morasse d. Rosaura. A feladaputa da velha tinha dois prazeres na vida: rasgar as bolas que caíam em sua casa e atirá-las rasgadas na rua.
Em 2010, d. Rosaura já estaria morta. Um dos peladeiros já haveria providenciado sua ida para a cidade dos pés juntos. Naquela época, no entanto, a molecada se conformava em malhar a velha, transmutada em boneco, no Sábado de Aleluia. Era o judas oficial da rua. D. Rosaura, era ela em nossas mentes, levava porrada até as entranhas de algodão saírem. Depois a queimávamos. Antes, por alguns dias, o boneco ficava exposto no poste, com o nome da velha seguido de qualificativos criativamente desabonadores.
Soluções havia. Jogávamos no começo da rua, muitas vezes. Início de partida, atacar subindo a ladeira era tranquilo. Dez minutos de jogo e parecia que os atacantes escalavam o paredão do final da rua. Já quem atacava para baixo ganhava velocidade vertiginosa. Quase sempre os bolivianos venciam.
No platô, jogávamos a pelada de sábado. À tardinha, fazíamos dois times de 8 e jogávamos à exaustão ou até um grosso atirar a bola além dos muros da velha aloprada. A bola caía dentro da casa de d. Rosaura e minutos depois voltava retalhada.
Perdíamos duas a três bolas por mês. Hamilton, certa vez, quase agrediu a velha. Por causa dela, seu prestígio com a rapaziada andava baixíssimo. As últimas três pelotas foram isoladas por ele. No rachuncho para comprar bola nova, o grosso perpetrador do crime de enviar a gorduchinha para o colo da velha sempre entrava com a metade do valor. Justíssimo, então, ter Hamilton quase agredido a anciã dentro da padaria. Sorte da retalhadora o fato ter-se dado em hora de pão quentinho. Muita gente esperando a bisnaguinha, muita gente para segurar o galalau enfurecido. Daquela a velha escapou.
Quase ao mesmo tempo chegaram dois novos moradores na rua: Filipe e Ricardo.
Ricardo morava no casarão do início da rua. Nós o víamos como um milionário. Garoto bacana, bom jogador, excelente amigo, brigava bem e, principalmente, era um mão-aberta. As bolas passaram a ficar por conta dele. Nunca mais precisamos comprar redondinhas. Até o Hamilton voltou a jogar.
O inconveniente é que, às vezes, um ignorante rifava o balão de couro logo no começo da pelada. Como ninguém mais precisava comprar bolas, a velha cautela do jogo mais suave nas imediações da casa maldita foi pras cucuias. Antes os zagueiros se preocupavam em virar o corpo para porrar a preciosa em direção oposta à do antro da devoradora. Agora, jogavam como odvans: chutavam para onde apontava o nariz. Por mais perdulário que fosse, Ricardo não punha outra bola em jogo no dia de tragédia. Só na próxima pelada. E até isso um dia acabaria, intuíamos todos.
Filipe chegara à Rua menos de um mês depois de Ricardo. Não se entrosou com ninguém. Quando fomos batizá-lo, quase a mãe dele chamou a polícia. “Se encostarem um dedo no meu filho, mato um”. Ninguém duvidou que ela mataria um, dois, três... Quantos fossem necessários.
Enquanto Ricardo era adorado, por Filipe nutríamos indiferença. Ele, por sua vez, não se preocupava em fazer amizade com ninguém. Filho único, a mamã o paparicava de maneira ultrajante. A irmã, um ano mais nova, era um petisco que todos sonhávamos saborear.
Não só esses eram os defeitos do Filipinho. Bom, a irmã entra na coluna das qualidades. Voltemos ao defeito, o mais grave: era menino de recados de d. Rosaura. A mamã dele conhecia a velha de outros enterros. Vivia na casa da megera. Filipinho comprava pão, buscava cerveja preta e escolhia frutas para a bruaca, sempre na maior alegria. Até a feira o pilantrinha ia com a vovó, no maior carinho. Como gostaríamos de cobrir Filipinho de porrada.
Em bela tarde outonal, os dois irmãos resolveram apreciar a pelada que ia animadíssima. Ricardo já havia mandado duas ou três letras para a menina. Ele era o mais experiente entre todos nós. A fofinha, lá pelas tantas, pediu: “Por que vocês não deixam meu irmão jogar?” Todos fingimos que não ouvimos. Ricardo, não. Cedeu sua vaga, cavalheirescamente, e foi postar-se ao lado da uvinha. Hamilton irou-se pela entrada de Filipinho e muito mais pela ousadia de Ricardo. Ele anunciara para todos o seu interesse na menina. Fizera reserva. Ricardo não respeitou. Tão puto ficou que relembrou os velhos tempos e rifou a bola dentro da casa de d. Rosaura.
Antes que reagíssemos, Filipinho correu em direção a casa e, com a familiaridade de um molequinho de favores, foi entrando. Segundos depois saía com a bola. A primeira a sair viva da mansão ignominiosa.

– Ó, o Filipe tá vindo.
– Pô, Filipe já estamos te esperando há mais de meia hora.
– Minha mãe tava passando a lição comigo. Vou comprar pão pra ela e a gente começa.
– Aí, cunhado, vou lá com você.
– Hamilton, pare com isso. Se minha irmã te escuta...

sábado, janeiro 23, 2010

CRÉDULO

Sem Internet, o crédulo liga pra assistência técnica da OI Velox.
Depois de driblar as muitas máquinas, o crédulo ouve voz aparentemente humana.
– Boa tarde, em que posso ajudá-lo?
– Estou sem Internet. É meu instrumento de trabalho, gostaria de saber o que está havendo?
O crédulo é um inocente. Crê, firmemente, que suporte técnico tem ciência do que diz.
– O senhor já verificou as conexões? A tomada está ligada?
– Já verifiquei tudo, mas olharei novamente.
– ...
– Está tudo ok.
– Clique em Painel de Controle para verificarmos as configurações.
Os próximos 10 minutos, o crédulo passa ouvindo a autoridade em Informática dizer vários números que deveriam ser digitados no lugar dos outros que lá estavam. Mesmo sendo um jumento, e não só em tecnologia, o crédulo pensa que aqueles números que lá estavam funcionaram tão bem até uma hora atrás, qual a razão de agora estarem errados.
– E aí, senhor, a conexão voltou?
– Não.
– Tem chovido muito por aí?
– A chuva pode ter causado o defeito?
– Não, me desculpe, é que estou em Uberlândia e vou este fim de semana pro Rio.
– ...
– Senhor, estão ocorrendo reparos emergenciais em sua região, a conexão deve ser restabelecida até as 16h.
O crédulo pensou por que o técnico o tinha feito se abaixar, se enfiar por trás dos móveis reconectando fios, se aporrinhar com aquela numeralhada toda para, no fim, informar que o problema era da empresa?
– Obrigado, às 16h, se não houver solução, ligo de volta.
O crédulo, burro mas boa gente, ligou mais umas três vezes. Conectou e reconectou fios. Ouviu, no final, as três vezes, que estavam fazendo reparos em sua área. Imaginou ter ouvido risadas abafadas, as três vezes. E a Internet como foi, voltou. Misteriosamente.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

ISRAEL



Metrô vazio. Milagre, principalmente depois do choque de ordem. Sem baldeação está vindo gente de Araruama passear no trem subterrâneo, dizem as autoridades.
Entrei, sentei e, do meu lado, um empresário não largava os celulares. Em um ele falava, no outro gerenciava os emails.
– À noite tenho uma reunião... Depois?... Pode ser... Que horas?... Fechado, dou meu jeito, nos encontramos às 22h da noite.
No banco em frente, um pai e seu pimpolho. Pimpolho esperto.
– Pai, 22h da noite não está errado?
O pai olhou pro filho de cara feia.
– Israel, cala a boca.
O garoto insistiu.
– Pai, você não me disse que ou a gente fala 10h da noite ou 22h? Que 19h da noite, 20h da noite é burrice?
O empresário guardou o celular dos emails no bolso e olhou atravessado pra criança. Virou-se pro pai constrangido e mandou:
– O seu filho é muito inconveniente. Fica prestando atenção na conversa dos outros pra corrigir.
O pai, claro, saiu em defesa do inocente.
– O senhor está falando alto, o vagão inteiro está ouvindo sua conversa. É uma criança. Como dei esse exemplo pra ele noutro dia...
– Por que 22h da noite está errado? Quis enfatizar.
– 22h só pode ser da noite.
– Olha, meu amigo, sou um cara de paz, mas tá faltando pouco para mim fazer uma bobagem.
O pai, apavorado, tentou cobrir a boquinha do filho, mas o moleque era rápido.
– Ahhhh! Esse cara é burro mesmo. Não é para mim fazer. É para eu fazer.
O empresário ia partir pra ignorância. Segurei-o, enquanto pai e filho escapavam na providencial parada do Metrô. Não sem antes o pequeno Israel parar e tripudiar:
– Burro, burro, burro.
O empresário voltou a ira para mim.
– O senhor não tinha de se meter... Não tinha de se meter.
– Meu amigo, se você agride uma criança vai preso e o pessoal pode até linchá-lo – ponderei.
– Eu não tenho nada com os pessoal. Quero que os pessoal se danem.
Virei pro lado, abri meu livro e pensei: “se o pequeno Israel ainda estivesse por aqui ia ter morte”.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

PETER TOSH



Estou ouvindo Peter Tosh.
Impressionante como o reggae produzido na pequena Jamaica dominou o planeta.
Ponha o Vagarosa, da celebradérrima Céu, e ouve-se reggae.
Peter Tosh, Bunny Wailer e Bob Marley conquistaram sua terra e depois o mundo com a hipnótica música que fizeram. Catch a fire é um dos discos mais assombrosos que ouvi. Foi o primeiro da dominação planetária conduzida pelos Wailers.
Todos se separariam. Marley foi o mais popular. Tosh, no entanto, era tão genial quanto ele. Bunny ficou pela Jamaica. Parece que nunca se interessou muito pelo sucesso.


Peter Tosh fazia música engajada de qualidade. Levou muita porrada na Jamaica. Saiu de lá, conheceu a fama e a glória, e foi assassinado em Kingston, em episódio malexplicado.
Se você é chegado a uma ganja, a música de Tosh deve descer redonda. Digo deve porque sempre fui careta. Tenho certeza, no entanto, que o mais próximo que cheguei de um barato foi ouvindo Tosh. Crystal Ball nas caixas.

sábado, janeiro 09, 2010

COISA BONITA DE SE VER - Zooey Deschanel



Zooey Deschanel é uma gracinha e não só isso.
É boa atriz e manda bem cantando.
Confira em Volume One, do She & Him.

PRIMEIRO VOTO


Quinta-feira, li um texto tão bom, escrito pela Cora Rónai, em O Globo, que fiz algo quase inédito em minha vida: enviei texto elogioso para um colunista. Lembro-me que só uma outra vez tomei atitude semelhante, quando encaminhei opinião para outro colunista que gosto de ler: Arthur Dapieve (agora mesmo, ouço The Wall influenciado pela leitura da coluna dele).
Não tenho a menor pretensão de reformar o mundo, mas resolvi, depois desse meu descabaçamento, que todo texto prazeroso que ler, em qualquer lugar, será acompanhado de uma carinhosa missiva escrita por este Gordo com sinceros agradecimentos ao autor.
Rotineiramente, leio duas revistas semanais, três ou quatro mensais, jornais diários, sítios de internet e outros parangolés legíveis que caem em minhas mãos. 95% do material que empurro para dentro do meu cérebro segue diretamente pro intestino e de lá para o esgoto, onde empreendem viagem rumo ao oceano com seus legítimos irmãos, os cagalhões. Por que então não valorizar os 5% de preciosidades que envio pro cérebro e lá ficam?
Este é meu primeiro voto de 2010: elogiar os que merecem elogios.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

PIN-UPS - As mulheres antes do Photoshop


Lily Allen, claro, é exceção. É pin-up moderna. Quando precisa é photoshopada. Mas acho que ainda não é o caso.

GONZAGA



Gonzaga era querido na comunidade. Cara alegre, prestativo, integrado.
Pau pra toda obra, apesar de na comunidade as casas serem todas de tijolo, porque esse negócio de barraco de madeira já foi.
Mas, como apregoa Pierre Cliché, a vida é uma caixinha de surpresas. O bom Gonzaga teve um colapso e finou-se.
Consternação total. Gonzaga deixou mulher e uma filha de 12 anos, Giovana.
Cerqueira, presidente da Associação de Moradores da comunidade acercou-se de Sheila, a viúva, e propôs:
– Sheila, conheço o Gonzaga há mais de 30 anos. Eu o trouxe pra cá. Fui padrinho do casamento de vocês. A Associação paga enterro e qualquer outra despesa, mas você tem de permitir que eu faça duas coisas: chamar a primeira mulher dele com os filhos e convidar o pr. Bocaiúva para fazer a cerimônia fúnebre.
– Eu aceito, até porque acho que não é momento de rancores, mas gostaria que o enterro fosse no Jardim da Saudade e que a Associação providenciasse ônibus para levar as pessoas da comunidade.
– Vou alugar três ônibus. O Gonzaga era muito querido e respeitado.
O enterro no dia seguinte reuniu mesmo uma multidão. Os três ônibus foram abarrotados. O pr. Bocaiúva chegou a comentar com Cerqueira:
– Que bênção, Cerqueira. A Palavra será pregada e, certamente, não voltará vazia. Deus vai me usar, poderosamente, para falar a esses descrentes e obra magnífica será realizada. Tudo para honra e glória do Senhor.
– Não seria melhor fazer a cerimônia aqui na Associação, pastor?
– Vamos fazer no cemitério, lá haverá mais almas. As daqui e as dos parentes do primeiro casamento.
Sol escaldante, multidão espalhada pelo gramado do cemitério e o pastor falava, falava e falava. Não contente de só ele falar, abriu espaço para que quem desejasse dissesse alguma coisa sobre o irmão Gonzaga. Irmão por conta do sacerdote. Gonzaga jamais havia pisado em igreja evangélica ou católica. Era conhecido filho de Ogum.
A segunda mulher de Gonzaga aproximou-se do microfone:
– Todos sentiremos muita falta do Gonzaga. Um homem que conquistou toda a comunidade com sua simpatia, seu sorriso, sua prontidão. Gonzaga estava sempre bem-humorado, feliz. Mas, meus amigos, é bom que se diga que nem sempre foi assim. Há 15 anos, quando nos conhecemos, Gonzaga era infeliz, amargurado, torturado. Graças ao supremo criador de todas as coisas, ele viveu feliz os seus últimos anos.
O pr. Bocaiúva olhou para o público e viu uma mulher se aproximando. Cerqueira sussurrou em seu ouvido: “É a primeira mulher do Gonzaga”.
A lourona trovejou:
– Fui casada com o Gonzaga por 16 anos. No início de nosso matrimônio tínhamos uma mercearia que existia há mais de 40. Herdei-a de meu pai e nela trabalhei desde a meninice. Quando me separei do Gonzaga, a mercearia estava falida. Depois de separada comecei outro negócio, que vai muito bem. Tenho dois filhos na faixa dos 20 anos. Criei-os sozinha. Nunca tive ajuda do Gonzaga. Acabei de ouvir que ele vivia feliz. Como, se estava sempre me pedindo dinheiro emprestado, reclamando da vida, suplicando preu aceitá-lo de volta porque não aguentava mais morar na favela.
A essa altura, o pr. Bocaiúva sentiu que a coisa ia desandar, mas não negou a palavra ao Cerqueira.
– Meus amigos, todos sabem que conheço o Gonzaga há mais de 30 anos. Conhecia-o quando era casado com a Clotilde. Eles se separaram por circunstâncias da vida. O que não podemos é lançar lama na reputação de um homem que deu a vida pela comunidade.
Silvério pediu o microfone e o pr. Bocaiúva não sabia mais o que fazer.
– Amados, em primeiro lugar, um reparo. É inapropriado chamarmos de irmão um homem que não pertence a nenhuma igreja cristã. Em segundo lugar, gostaria de perguntar o que, exatamente, o Gonzaga fez pela comunidade? Era um camarada simpático e que cumprimentava a todos. Só isso. Prestativo? Nunca soube que ele socorreu alguém, jamais o vi participando dos mutirões. Lembro-me dele participando das peladas, reunido no boteco assistindo jogo pela TV e gritando, ébrio, em todos os gols do Botafogo: “Esse time me faz sofrer, mas é também o que me faz aturar esta vida de merda”. Perdoem-me por usar esta palavra torpe, amigos.
O pr. Bocaiúva percebeu que tinha de dizer alguma coisa. O quê?
– Meus amigos, a quem honra, honra. Temos de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Afinal, não é a Bíblia a palavra inerrante de Deus, nossa regra de fé e prática? Acalmemo-nos, então, e prossigamos com o enterro.
O filho mais velho de Gonzaga tomou o microfone do pastor e falou exasperado:
– Meu pai sempre traiu minha mãe. Roubou-a. Ela, não sei por que, sempre o amou. Não o aceitou de volta por nossa causa, os filhos. Ele já a havia levado à falência. Ela fez questão de vir aqui. Nós viemos por causa dela. Ele era um canalha.
O pr. Bocaiúva arrependia-se por ter começado aquela bagunça.
– Me deixa falar.
Era a filhinha de 12 anos de Gonzaga.
– Papai não era nada disso que vocês estão dizendo. Ele me ajudava com as lições de casa, me dava conselhos, me perguntava sobre como tudo ia no colégio, sempre ligava para saber se eu precisava de alguma coisa. Era o melhor pai do mundo. Todas as noites, depois que mamãe dormia, ele ia ao meu quarto e beijava minha boca. Beijo de língua.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

PLANO DE CARREIRA



Verinha era menina bonita, responsável, tinha bom emprego e apenas 20 anos.
Os pais orgulhavam-se da filha.
O irmão, João, era músico de talento reconhecido. Aos 18, tocava em um grupo de MPB que lhe rendia uns trocados. Abandonou a escola e dedicava-se à música, integralmente.
Os pais orgulhavam-se do filho. Tinha prestígio. Até na TV já aparecera.
A caçula, Joaninha, aos 17 já alcançara a independência financeira. Quando completou 15 anos, disse pros pais: “Vou ser garota de programa. Preciso aproveitar meu apogeu físico. Vou leiloar meu cabaço pela Internet, depois faço programas por uns dois, três anos. Registrarei tudo. Será material para um livro. Talvez precise dizer, papai, que você abusou de mim quando eu tinha 12 anos. E você, mamãe, direi que se omitiu. Em talk shows dá o maior pé esse tipo de história. Acho que depois do livro rola filme, peça de teatro, programa de TV”.
Os pais orgulhavam-se de Verinha.
Orgulhavam-se de João.
Mas Joaninha... Dos três, foi a única que sempre teve um plano de carreira.
Estava na TV. Foi comovente o programa em que ela contou os abusos que sofrera, mas perdoava os papais que tanto amava. O livro vendia horrores e o filme estava engatilhado.
O cabaço valeu um apartamento.
Inacreditável!
Não era pra se orgulhar de uma filha assim?

segunda-feira, janeiro 04, 2010

FATALIDADE, ACASO, SORTE, DESTINO...


Sou fatalista.
O que tem de ser é.
No deslizamento de terras na Ilha Grande, morreram turistas e ilhéus.
Lamentei pelos ilhéus, mas minha atenção voltou-se para os turistas.
Os 11 de uma cidade do interior paulista.
Reuniram-se durante o ano, planejaram a temporada na Ilha, antegozaram as delícias do mar.
O mais pessimista do grupo deve ter perguntado: “E se chover?”
Choveu.
Chuva que atrapalhou o banho de mar, que moveu a terra, que matou.
Os três amigos.
Entre eles, a jovem filha do dono de uma pousada.
Nenhum hóspede da pousada morreu.
A adolescente tinha um quarto especial para ela. Ficou intacto.
Na hora do deslizamento, a menina estava no quarto dos amigos.
Este quarto, sim, foi soterrado. Os três morreram.
Fatalidade. Acaso.
Penso como os antigos: “Todos têm sua hora”.
Uma merda isso.

terça-feira, dezembro 22, 2009

O DIABO É FÓ





Sou um zapeador inveterado, viciado, alucinado.
Não só no sofá, vendo TV, no rádio, também, trabalhando no computador.
Aliás, acho que esse é o motivo de não abandonar meu radinho de pilhas.
Numa dessas, ouço um pregador pertencente à igreja mãe de todas as igrejas exploradoras: “Participe da campanha, abrace a fé. Não deixe o diabo atrapalhar você. Às vezes você quer participar e resolve que vai abraçar a fé. Aí, naquele mês, você tem uma enfermidade, precisa comprar remédios, antibióticos. Antibiótico é caro. Mais de 50 reais, alguns. Aí você pensa, puxa, logo agora que eu ia começar a campanha. Não, meu amigo, minha amiga. Isso é o diabo. O diabo não quer que você participe da campanha...”
A esta altura fui pra outra estação. Ato contínuo, levantei-me pra vomitar.




segunda-feira, dezembro 21, 2009

HUMILDES


– Julinho, viu aquela parada pra mim?
– Que parada, Gomes?
– Já percebi que não viu. O emprego pro Jeremias. Aquela vaga que você me disse que pintou no seu trabalho.
– Ainda não. Gomes, o cargo não tem salário alto, mas é estratégico. Quem pegar a vaga vai lidar diretamente com o homem. Se for um traíra, fode a gente.
– O Jeremias é cara humilde, prestativo. Gente boníssima. Não pisa numa barata.
– Cara, tenho maior cagaço de humildes.
– Julinho, e nossa amizade?
– Se depender de eu indicar o humilde, acabou.

domingo, dezembro 20, 2009

TV FECHADA - Espaço Aberto (Globo News), com Edney Silvestre


Não tenho o hábito de ler poesia – o que estou pretendendo mudar – por isso não são muitas, ainda, as que me impressionam.
Assistindo Espaço Aberto, na Globo News, apresentado por Edney Silvestre, conheci o poeta português José Luis Peixoto. No final do programa, Silvestre pede a Peixoto que leia uma poesia, especificamente. Gostei demais e sairei atrás dos livros de Peixoto, que também é romancista e ensaísta.
Aliás, ele está no Brasil para lançar o romance Cemitério de piano.

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Alexandre Castro deve fechar Alegria na Rua


Quadrilhas de meninos malabaristas têm assaltado motoristas nos semáforos da Zona Sul do Rio de Janeiro. Os furtos não causaram dissabor apenas às vítimas. O professor Alexandre Castro está triste. Ele que nem automóvel possui, preocupado, sempre, com a emissão de carbono na atmosfera. A preocupação justifica-se.
Há 15 anos, Castro criou a ONG Alegria na Rua. O objetivo da ONG era treinar meninos malabaristas para atuar em semáforos. Os aprendizes distrairiam a população, receberiam pequena ajuda de custo e depois seriam inseridos no mercado de espetáculos circenses.
A iniciativa teve tanto sucesso que logo os cariocas viam em praticamente todos os sinais, ou semáforos como prefere o paulistano Castro, meninos fazendo malabarismo com laranjas.
Obviamente, nem todos os meninos malabaristas são egressos da Alegria na Rua. Motivadas, no princípio, pela oportunidade de ganhar algum trocado, crianças despreparadas aproveitaram-se da boa ideia da ONG e espalharam-se pelos cruzamentos cariocas.
O prof. Alexandre Castro, em entrevista à revista Veja, truculento semanário da capital sertaneja, alertava: “Essas crianças passam o dia na rua, são exploradas por adultos, não frequentam escola. Temo que, no futuro, insufladas por degenerados que as exploram, cometam o ato vil de surrupiar os bens e, quiçá, tirar a vida de incautos”. Os fatos comprovam o vaticínio do mestre.
A Alegria na Rua sempre se preocupou em manter seus meninos equilibristas na escola. As crianças estudam na parte da manhã, almoçam (comida vegetariana, como orienta o mentor da ONG) e saem para as ruas. Castro informa: “47% dos meninos equilibristas treinados por nós conseguem colocação em circos do Rio de Janeiro. Muitos foram convidados para trabalhar em outros Estados. Nosso grande orgulho são os Orange Family, três garotos que estão impressionando o mundo atuando no Cirque Du Soleil”.
O prof. Alexandre Castro conclui informando, ainda, que toda a estratégia da Alegria na Rua será repensada. “Verei se vale a pena prosseguir. A ideia original já estava sendo deturpada. Nunca foi intenção nossa estimular a mendicância. Sempre quisemos formar cidadãos autossustentáveis, verdes, vegetarianos, amiguinhos da camada de ozônio. Se perceber que isso não será possível, prefiro encerrar o trabalho da Alegria na Rua”.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

BAT MASTERSON


Em visita a família amiga, lá pelas tantas alguém mencionou a morte, aos 90 anos, de Gene Barry. Na sala, quase todos nos lembramos do personagem que o ator viveu em série que fez muito sucesso aqui no Brasil, na década de 60: Bat Masterson.
A musiquinha da série foi cantada em coro, comentamos alguns aspectos do filme e mudamos de assunto, como ocorre nos bons papos sem compromisso.
À noite, já em casa, voltei a pensar no velho herói e me lembrei de um momento traumático de minha vida: o dia em que fui Bat Masterson.
Um carnaval qualquer do começo da década de 60, meu pai levou-me à matinê do Clube da Light, no Grajaú. Estava fantasiado de Bat Masterson. A fantasia era um sucesso entre a criançada. Tinha bengala (a minha foi feita na carpintaria da Projetil), cartola, colete, gravatinha borboleta e revólveres.
Bat Masterson, o da televisão, era canhoto e usava só um revólver. Ganhava as paradas mais no charme do que com as armas. Geralmente, resolvia as pendências com algumas bengaladas.
O Masterson do Clube da Light usava dois revólveres prateados, dispensava o paletó (concessão ao verão carioca) e era avesso a conflitos físicos. A bengala, então, era cenográfica.
O Clube da Light era reduto de uma elitezinha merdéu. Na década de 50, não era permitida a entrada de negros em suas folias. Nos anos 60, meu pai era da diretoria do clube (e negro), por isso era lá que pulávamos no Carnaval.
Na portaria, a funcionária desarmava os Ivanhoés, Vigilantes Rodoviários, Zorros e, desgraçadamente, Bat Mastersons. Tive confiscados meus revólveres e bengala. Criança fica aborrecida, irritada, chateada... Eu, precoce, fiquei foi mesmo puto da vida.
“No final, é só pegar de volta, filhinho”, falou a mocinha. “Filhinho é o caraio”, acho que pensei em dizer, mas não disse.
No salão, o roda pra lá roda pra cá dos bailes carnavalescos. Era muito criança para aproveitar a única coisa boa de bailes de carnaval, o ninguém é de ninguém, mas me divertia. Criança se diverte com pouca coisa.
Fim de baile, vamos à portaria recolher as armas. A mocinha já tinha ido embora. Meu pai gostava de um papo e nunca se apressava. Muita gente fora embora. E um puto, filho de pai antissocial, levou minhas pistolas.
O porteiro me apresentou dois revólveres mixurucas, pretos, fininhos. Gostaria de ter reagido com mais bravura, mas chorei, chorei muito, chorei de fazer escândalo. Meu pai pegou a bengala da mão do porteiro e me confortou: “Depois eu compro outros revólveres iguais aos antigos pra você”.
Nunca comprou, mas me deu muitos discos e livros. Acho que ganhei com a troca. Não tenho sangue frio para ser matador.

sábado, dezembro 12, 2009

QUAL O GÊNERO?


Sobre The fall, novo disco de Norah Jones, a crítica de Veja diz: “Seu estilo musical que já foi definido erroneamente como jazzístico, está agora mais próximo do folk de artistas como Joni Mitchell e Aimée Mann”.
A Rolling Stone aponta para outra direção: “Os fãs mais puristas de Norah Jones com certeza estranharão este seu novo disco. Não é para menos, pois ela deixa de lado o revestimento de pequena diva do jazz com um pé no country e assume uma postura mais, digamos, indie e experimental”.
Os caras não se entendem, mas isso não importa. Certo é que Norah Jones, em The fall, deixa o piano e empunha a guitarra.
Mais importante: faz um ótimo disco. Se de jazz, country, indie ou samba, não interessa.

JINGLE BELLS


– Cardoso, você parece que come merda. Por que você sentou no lugar do Ratão?
– Sabia lá que era lugar do Ratão. Cheguei da casa da mãe, vi o movimento na quadra, lembrei do jogo do Dia dos Pais e resolvi dar uma olhada. Estava cheião, vi o lugar vazio no meio da arquibancada, fui pra lá e sentei.
– Cara, não chama a arena de quadra. O Ratão já mandou matar por causa disso.
– Arena pra mim é aquela porra de romano, grego, turco, sei lá.
– Você sentou do lado da Madá, mulher do Ratão. O lugar do lado dela é dele. Você não sabe disso?
– Sabia não. Se soubesse, cê acha que ia sentar lá. Mas fiquei longe dela. Tinha o maior espação. Não encoxei a dama, de jeito nenhum.
– Se encoxasse tava morto.
– Sei não, ela me deu umas olhadas. E, ó, ela não falou que não podia sentar do lado dela. Ninguém falou.
– Todo mundo sabe que não pode. O Ratão, quando mandou construir a arena na comunidade, avisou que aqueles dois lugares jamais poderiam ser ocupados.
– Foi a primeira vez que fui na quadra.
– Arena, caraio. Eles não querem saber disso. Se manda, ouvi um zunzunzum que vão te dar uma lição.
– Porrada?
– Matar, pra dar exemplo. A Madá ficou muito chateada.
– Do outro lado dela tinha uma mina sentada.
– O lado direito dela pode ser ocupado. O esquerdo é do Ratão.
– Vou morrer por causa disso? E se eu falar com o Ratão?
– O Ratão tá preso há três anos. Pegou um gancho de 20. Você é desligado, mesmo.
– Vou ficar na casa da minha mãe.
– O Ratão vai sair no Natal pra visitar a família. Não vai voltar, claro. Levo um papo com ele.
– Valeu.
– Agora, cai fora. Não vai nem em casa. O pessoal tá querendo mostrar trabalho. No indulto de Natal saem mais uns quatro da elite. Quem tá aqui fora precisa deixar claro pro Ratão que tem valor. Ah, se eu quebrar essa pra você, daqui pra frente procure conhecer melhor as leis da comunidade. As lá de fora ninguém respeita. Já as daqui...

quinta-feira, dezembro 10, 2009

DESACELERANDO


Este blog não é o melhor lugar para se ler comentários sobre o que está, hoje, nos noticiários. Lutei durante muitos anos contra o vício maldito da novidade. Venci-o, enfim.
A ansiedade de querer saber sobre tudo e no final descobrir que nada sabia. Esta ansiedade, mandei pras picas.
Não me interessa mais conhecer o grupo de rock que será o melhor do mundo na semana que vem. Curto o antigo, calmamente. Por exemplo, nada mais velho e delicioso do que Colour me free! da igualmente deliciosa Joss Stone. Jovenzinha esperta, sabe que o que é bom não precisa, necessariamente, ser novo.
Todo esse trololó pra dizer que, lendo uma Época antiga, dei de cara com frase absurda de Januário de Santana, técnico em eletrônica espancado por seguranças do Carrefour de Osasco, no Estado Sertanejo.
Em tempo, Januário é negro.
“Os seguranças falaram que eu ia roubar o Ecosport e a moto. Quando disse que o carro era meu, bateram mais ainda. Já passei outros constrangimentos com esse carro. Acho que vou vender”.
Negro aqui em Lulalândia só pode ter fusquinha, de preferência com o escapamento furado, fazendo esporro.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Jewel Staite


A drª Jennifer Keller, de Stargate Atlantis, grande série que termina agora aqui no Brasil. A única série assistida por mim de cabo a rabo. O rabo, ainda não vi.

PELO NÚMERO


Desembarcou do táxi e arrastou-se até a entrada do INSS.
Foi até o guichê. Encaminharam-no ao fundo da sala. Vão chamá-lo pelo número da senha.
Sentou-se. Cinco minutos depois foi chamado.
O funcionário anotou, teclou, anotou mais um pouquinho e orientou-o a esperar na sala à direita. Vão chamá-lo pelo número da senha.
Levantou-se, andou até a sala indicada, sentou-se e esperou.
De onde estava via todo o amplo salão. Do lado de dentro do balcão, gente estranha. Feios, todos. Falavam e não olhavam para aqueles com quem estavam falando, os do lado de fora.
O guarda que lhe informou o guichê onde deveria ir, ao entrar na agência, lia um jornal e dele não tirou os olhos.
A criatura enorme que lhe deu a senha devorava um saco de biscoitos e, preocupada com a eventual fuga de um dos recheados de chocolate, mantinha olhos atentos no pacote. A gordona comia, escondia os biscoitos com o corpanzil e passava as senhas.
O funcionário que checou seus documentos, por um instante fugaz, cruzou o olhar com ele. Desviou-o, rapidamente. Ficou tão perturbado com a imprudência que levantou-se e disfarçou bebendo um pouco de água.
Viu seu número no luminoso. Número 4.567, sala 5.
– Bom dia, doutor.
A resposta, um grunhido ininteligível.
O médico olhava com atenção a tela do computador.
Sentou-se.
– Por que o senhor veio aqui?
Fez as queixas, apresentou razões, mostrou que estava difícil trabalhar no estado presente.
Sem desviar os olhos do computador (será que estava jogando Paciência?), pediu os exames.
Passou a tomografia, exames de sangue, eletrocardiograma, teste da farinha... Todos condenando-o à morte próxima.
Apresentou laudos de ortopedista, cardiologista, angiologista, proctologista... Unânimes em considerar milagroso o fato de ele ainda respirar.
Ainda de olho na tela do computador (deveria estar vendo a Flávia Alessandra), grunhiu:
– O senhor pode ir. Em 15 dias uma correspondência chegará à sua casa deferindo ou não seu pedido.
Levantou-se, arrastou-se até a rua e fez sinal prum táxi.
Sentou-se no banco de trás. O motorista olhou em seus olhos e perguntou:
– Pra onde vamos?
Uma alegria difícil de conter tomou conta do homem:
– Graças a Deus voltei a meu mundo.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

ORGULHO


Um pai, diante de ataque de fúria do filho craqueado, chamou a polícia.
Os homens da lei chegaram e o doidaço trancou-se no quarto.
A polícia invadiu o quarto, o rapaz resistiu e atacou um dos policiais com uma faca.
O bem treinado guardião da ordem, em defesa própria, sacou a arma e sapecou 12 tiros no alucinado.
Essa é a polícia que me enche de orgulho.

DONO DO PEDAÇO

Fácil não seria.
Juju acabara de sair de um tumultuado romance.
O ex era soldado, homem de confiança do Homem.
De qualquer forma, Dorival não era de perder oportunidades. Sondou pra se informar se a menina estava mesmo liberada ou se estava no castigo. Liberação feminina era coisa lá de baixo. Na comunidade, as minas eram vadias, cachorras, e muitas adoravam isso, e quando se envolviam com o pessoal do movimento viajavam ao passado e viviam em tempos bíblicos, veterotestamentários. Só o macho da espécie podia repudiá-las.
Na discretíssima apuração, soube que AK dispensara Juju, que era a terceira fêmea do pedaço à sua disposição. Dorival não pôde deixar de pensar. Se Juju, tesão dos tesões, companheira imaginária de suas noites insones, era a terceira, as outras duas, putaquepariu.
Um amigão ainda lhe deu toque esperto. Dá um tempo, espere pra ver se AK se adapta à nova mulher e depois se aproxime.
Dorival acatou a orientação. Estava afoito, mas não queria morrer aos 19 anos.
Na escola, namorou Juju. Beijinho pra lá, beijinho pra cá. Conheceu mãe, pai. Almoçava na casa da gata de vez em quando. Mas Juju era jogo duro e ele queria porque queria comer aquela prenda. Não comeu, comeu uma outra, Juju soube e o dispensou.
A dor de corno foi grande. Mesmo corno não sendo. Correu atrás, chorou, se humilhou, pediu ajuda dos, quem sabe um dia?, futuros sogros. A menina estava e permaneceu irredutível.
Antes dos 18 ela desfilava com AK. Ele, ainda desconsolado, foi abordado pelo ceifador. “Aí, a mina tá comigo. O primeiro aviso é pra você ficar longe; o segundo não haverá, te encho de porrada e bala. Depois te queimo.”
AK era homem convincente. Nunca mais chegou perto de Juju. Olhava-a de longe, com medo, pavor, terror, amor, desejo, angústia.
Uma tarde, em plena Uruguaiana, Juju segurou em seu braço. Quando viu que era ela, se desmanchou de felicidade e horror. “Me arrependo tanto de não ter aceitado seu pedido de perdão. Você é o meu amor. Sou respeitada no morro, mas não tenho respeito por mim. AK tem duas mulheres, filhos, eu sou a cachorra.”
Saiu dali voado. Trabalhava, ganhava uma merreca, ajudava em casa, pagava faculdade, tudo pra sair do lugar em que vivia. É uma merda um lugar onde um homem não pode ganhar uma mulher no papo.
Esperou o período de adaptação de AK. Pediu a Juju, por email, que lhe desse nova oportunidade. Ela deu a oportunidade e quis dar outras coisas tantas vezes negadas. Queria dar logo. Se tivesse se deixado levar pela palpitante cabeça que vivia entre suas pernas cairia, imediatamente, nos braços da bela Juju.
Antes do batente e de embarcar no trem, Dorival tomava seu cafezinho frugal na padaria da saída da comunidade. Pão, manteiga, café com leite, olhe lá. Ao seu lado, no balcão, o temido AK. Os olhares se cruzaram. AK mordeu o pão abarrotado de queijo, generosamente fornecido pelo dono da padaria, que tinha cu e medo, e disse afavelmente a Dorival:
– Fui informado que você está pensando em ficar com a Juju”.
Dorival protestou:
– Nada disso, esse pessoal fala demais.
– A parada é a seguinte, gosto daquela mina, mas não sou olho grande. Não estou dando a atenção devida a ela. Pode ficar, mas quando eu estiver a fim, vou chegar lá.
– AK, você é um cara generoso, mas, realmente, não tem nada a ver. A Juju é uma amiga, gosto da família, mas é só isso.
Dorival voltou em casa, se despediu da mãe, “vou ficar dormindo na empresa”, e caiu na poeira. A mãe morava na comunidade desde que nascera e de lá não sairia.
Alugou um quarto, começou um namoro com uma colega de trabalho, casou-se com ela e os dois foram viver em um conjunto habitacional na periferia.
Juju, não viu mais. De vez em quando, lembrava-se dela. Quando isso acontecia, trancava-se no banheiro e tocava uma bronha doída.

quinta-feira, novembro 26, 2009

DEUSA


Há dois séculos, em uma premiação do Video Music Awards (VMA), Kanye West tomou o microfone da mão de Taylor Swift, a vencedora da categoria melhor clipe, e disse que o clipe do ano era o de Beyoncé.
Deu a maior confusão e muita gente caiu em cima do maleducado, inclusive o Nobel da Paz, Barack Obama.
Olhando retrospectivamente, com distanciamento temporal, este Gordo ousa dizer que West estava coberto de razão e não precisava ter se desculpado pelo que fez.
Taylor Swift vende muito mas é uma cantorazinha comum.
Beyoncé é outro departamento.

O NERVOSINHO


Padaria pequena, uma lojinha. Vende pão, biscoitos, jornais... Os populares.
O dia inteiro vazia. Quando sai o pão quente, os quatro condomínios enviam seus representantes. E a acanhada lojinha enche.
Às sete da manhã sai a primeira fornada e não é que exatamente nesta hora apareceram por lá, dia desses, três ladrões madrugadores.
– Aí, se todo mundo cooperar, sai tudo vivo. Dondom, vigia os fundos.
D. Deolinda, 90 anos bem vividos, é metódica. Acorda às 6h, ouve a programação da Rádio Rio de Janeiro, kardecista que é, às 6h40 vai à padaria, compra o pão e faz café pra filha e pro neto. Toma um gole de café, come um pão francês sem manteiga e às 7h30 está no tai-chi-chuan da comunidade.
– Meu filho deixa eu ir embora. Sou idosa, posso morrer de nervoso.
– Vovó, vai lá pra trás – gritou o meliante.
Dondom, lá dos fundos, chamou a atenção do colega de labuta:
– Deixa a vovó ir embora. Aqui é jogo rápido.
D. Deolinda nem esperou o final da discussão e foi saindo. Saiu e dez metros depois, na rua, ligava pra filha do celular:
– Estão assaltando a padaria.
A filha, “A senhora está bem?”, “Vem pra casa.” Em seguida, ligou pra polícia.
Tem coisa que parece que só acontece em ficção, mas d. Deolinda entrava em casa e a polícia já estava dando voz de prisão pros ladrões.
Está certo que o assalto demorou mais do que o planejado. Sete da matina, no caixa não tinha nem 50 reais. Os 12 clientes estavam sem nenhum. A prática do pendura ainda é muito comum nos bairros proletários do Rio. Os dois assaltantes que estavam na frente não se conformavam. O nervosinho queria dar porrada.
Mais espantoso, ainda, era estar passando uma viatura pela rua principal do bairro, quando o chamado da Delegacia foi feito. Os policiais chegaram e deram voz de prisão no bando. Policiais audazes. Se as armas dos dois fossem de verdade, teriam tombado ali mesmo.
Dondom, que estava nos fundos, dando uma olhada nas manchetes de um jornal que surrupiara, saiu de fininho. Não correu, andou rapidamente. Para evadir-se precisaria pular as grades do condomínio proletário, que segue o último grito carioca de encimar muros com rolos de arame farpado. É a estética Auschwitz.
Não perdeu a calma. Sentou-se em um banco, abriu o jornal e ficou por ali, dando uma de migué. De onde estava, via a saída do condomínio que se localizava ao lado da padaria. Viu, também, o policial vir em sua direção. Esperou. Acima do peso, correr, pular muros, não era pra ele. Estava na hora de repensar sua carreira.
– Cidadão, por acaso o senhor viu alguém em atitude suspeita por aqui? A padaria quase foi assaltada e parece que um dos elementos escapou pelos fundos.
– Policial, eu estava distraído lendo o jornal. Vi um homem passar entre os blocos há uns cinco minutos, mas ele não estava correndo.
– Obrigado, cidadão. Vou averiguar.
Dondom pensou. “É bom ser branco nessa terra de louros. Se fossem os companheiros neguinhos, não tinha cidadão, ele iria me enquadrar”. De qualquer forma, não poderia ficar ali. Iria se arriscar. Passaria pelo portão. Ninguém ia dedurá-lo. O cagaço da cabeçada o protegeria. Aproveitou o policial voltando e o acompanhou.
Lá fora, um camburão havia chegado. As vítimas olharam pra ele, o reconheceram, mas ficaram na moita. Seu olhar cruzou com o dos companheiros, enquanto se afastava. O nervosinho olhou pra ele e riu. Levou um safanão do policial.
– Tá rindo de quê, babaca?
– Da vida, policial, da vida – continuou rindo e apanhando o nervosinho.

sábado, novembro 21, 2009

De bobeira

Em um Rio de Janeiro de muitos crimes, um que nem se sabe se foi ou não me impressionou. Para prosseguir, admitamos que houve um assassinato e, consequentemente, um assassino.
O assassino é jovem. Naquela noite não estava mais entediado do que usualmente.
Não tem namorada, está sem dinheiro, não acompanha novelas.
Ia para casa, fazia o caminho de todo dia, por cima do viaduto.
Encostou-se na grade, acendeu um cigarro e olhou o movimento da Av. Brasil, embaixo de onde estava. Àquela hora não se comparava com o dos horários de pico, mas cada ônibus que passava o fazia sentir uma vibração que o irritava.
Reparou nos blocos de concreto espalhados pela calçada. Forte, se quisesse levantava-os com facilidade. Bom, talvez não conseguisse. A falta de dinheiro o afastara da musculação. Abaixou-se, ergueu o maior bloco que vira ali por perto. Precisou esforçar-se. Apoiou-o na grade do viaduto e respirou fundo.
A distância avistou o ônibus se aproximando. De manhã um feladaputa de um motorista o deixara na pista, braço estendido. No ponto, riram de sua indignação. Bateu boca com um dos caras que riram. Escolheu o menor, mas o tampinha o encarou. Acabou afinando, o anão poderia estar armado. Motorista desgraçado.
Jogou o pedregulho em cima do ônibus que passava. Não por causa do motorista que o deixou a pé. Lançou o bloco de concreto porque estava ali de bobeira. Só por isso.
O choque da pedra com a lataria do ônibus fez um estrondaço.
Viu o ônibus se afastando, diminuindo a velocidade e parando. Pelo meio da pista atravessou o viaduto. Lá de baixo não seria visto. Em casa a mãe o esperava com um farto jantar.
No dia seguinte, este homem soube que a pedra que lançou matou uma mulher que dormia dentro do ônibus. Eu gostaria de acreditar que ao tomar ciência da morte da inocente o homem sentiu corroer-lhe as entranhas doloroso remorso e, desesperado com seu ignominioso crime, verteu lágrimas de sangue.
Mas, por que me enganar? O homem, se soube o que fez, provavelmente, deu de ombros e pensou: azar o dela.
No bar, tomando um chopinho com os chegados, contou a história.
Uns não creram: “Você adora contar lorotas”.
Outros, por conhecê-lo melhor, acreditaram e o invejaram: “Um dia farei algo grandioso assim”.

Expectativa

Fim de semana tenso.
Futebol é uma das poucas coisas que me mobilizam.
Especificamente, o Flamengo.
Se a vitória contra o Goiás vier (tenho dúvidas porque vi o Flamengo perder para aquele timeco mexicano com três gols do gordinho) e o Botafogo tirar um pontinho sequer do medíocre time do São Paulo, acho que chegaremos lá.
Será o coroamento de um grande ano para mim.
Neste período, livrei-me dos grilhões da religião e serei campeão.
Parece pouco e é mesmo. O bastante, por enquanto.

sexta-feira, novembro 13, 2009

PAPEL & CARNE


Morreu mais uma mulher fazendo lipoaspiração.
Vinte e dois anos, 53kg e, segundo o marido, sem necessidade de fazer a intervenção.
O DIA informa que a estética da clínica disfarçava sua falta de estrutura.
Visitei há dois anos uma escola. O diretor/dono do estabelecimento queria publicar texto publicitário em jornalzinho que eu trabalhava.
Orgulhoso, mostrou-me a requintada recepção. “Aqui começamos a conquistar os pais dos alunos”, disse com um sorriso. Depois fomos à sala de informática. “Vinte computadores, internet em banda larga. Aqui ganhamos os alunos”, gargalhou vitorioso.
Nunca ouvi referência à boa qualidade de ensino daquele educandário. Creio que importante, e o que dá retorno financeiro, é ser esteticamente vistoso.
Eu, comilão, não posso ver uma bela vitrine de doces, principalmente se dentro dela estiver se exibindo uma atraente fatia de torta de chocolate. Algumas vezes, na primeira bocada, vem a decepção. Bonita, sim, gostosa?, de jeito nenhum.
A aparência impressiona e nos condiciona. Era assinante da TVA e ficava impressionado com a idade avançada e feiúra dos apresentadores de telejornais da RTP, emissora estatal portuguesa. Gostava do telejornal da emissora portuguesa exibido na madrugada, que focalizava a África de língua portuguesa. Acostumei-me com os apresentadores que passam longe do padrão global de beleza, mas são competentíssimos, que é o que realmente importa.
A Globo e todas as outras emissoras brasileiras que a emulam têm em seus telejornais cotas de apresentadores de terceira idade e negros. Falta um representante gordo, mas gordo, definitivamente, não pega bem em TV. A não ser como entretenedor.
Gordinhas, também não. O padrão é o esqueleto. As mulheres creem nisso e fazem sacrifícios inimagináveis para alcançar corpos muitas vezes construídos no Photoshop.
Fernanda Young, com quem me divirto nas noites de domingo (vendo-a no GNT, claro), posou seminua para a Playboy. Disse ela que sentiria inveja da Fernanda da revista. Os profissionais da Playboy a fotografariam nos melhores ângulos, fariam centenas de fotos e escolheriam as perfeitas. Depois, o pessoal da arte retocaria o que já estava ótimo. Uma Fernanda muito diferente da Fernanda real.
Todos somos atraídos pelo belo. O homem perde o rumo quando uma beldade se aproxima. O fascínio da beleza é incontestável. Não é a beleza, no entanto, que garante vida de qualidade. Há outras características pessoais a se considerar.
Eu, há muito tempo, divido as mulheres em duas grandes categorias: as de papel e as de carne. As de papel, vemos nas revistas, na TV, nos filmes... Pelas de carne passamos todos os dias e é a elas que temos de agradar. São elas que precisamos conquistar.
Quando homens e mulheres de carne se confundem e desejam ser seus duplos de papel, morrem. E é uma morte tola porque só aloprados preferem humanos de papel.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Eu, não!!!


No post aí embaixo retorna o baba-ovo.
Aqui, o irmãozinho dele: o Não Fui Eu.
Baba-Ovo e Não Fui eu são gêmeos.
São mestres no jogo de empurra.
Estão na Bíblia, no começo da história da humanidade, no belo e alegórico relato do início de tudo.
A mais recente aparição de Não Fui Eu aconteceu hoje.
À pergunta sobre quem foi o responsável pelo apagão que jogou o país em trevas, ouvimos Itaipu dizer: “Foi Furnas, problema de transmissão”.
Furnas tirou da reta: “Foi Itaipu, problema de geração”.
O Governo: “Foi uma tempestade, acidente climático”.
Deus: “Peraí, já estão jogando na minha conta?”

Fundo musical: Lost sides, DOVES

BABAOVISMO, DE NOVO

Na prova do ENADE, exame que avalia as faculdades, várias questões enaltecendo o governo lulista e descendo o cacete na imprensa. O Globo publicou.
O assunto será esquecido mais rapidamente do que é costumeiro por causa do apagão desta madrugada. De qualquer forma, comento.
Quem lê este blog sabe que tenho ojeriza de baba-ovos. Aparentemente, as questões boca no saco, formuladas no ENADE, foi trabalho de babaovistas militantes e radicais. O serviço de confecção das provas foi terceirizado (Natal gordo pros mesmos) e, por que não?, uma lambidinha no escroto governamental poderia render outra tetinha mais pra frente.
Toda organização que privilegia o babaovismo corre esse risco. O baba-ovo produz muita saliva e acaba encharcando o saco do chefe. Lula gosta, mas houve exagero.
Ainda bem que veio o apagão.

Fundo musical: With teeth, NIN

terça-feira, novembro 10, 2009

BOLACHA


O velho roqueiro nunca foi muito ligado em rótulos.
Jamais entendeu as diversas divisões do rock.
Pro velho há só duas: suave e pesado.
Até bem pouco tempo, indie rock, no entendimento do veterano, era rock indígena, rock com batidas tribais. Trance, acid, house, sweet, glam, o velho caga pressas classificações.
O velho roqueiro não baixa músicas na internet. Um brontossauro, o cara.
Música pros ouvidos dele deve sair de fita cassete, vinil e, vá lá, cd.
O velho roqueiro não é muito chegado a comprar CDs em lojas virtuais. Ainda hoje, pela rede, só compra na Velvet. “Qualquer bronca eu falo com o André pelo telefone”.
O prazer do velho é fuçar as prateleiras das lojas. “No tempo da Farelo, o Preto ligava pra mim e dizia: ‘Chegou um novo carregamento’”.
O velho sentava-se no chão da loja e escolhia os vinis antes de irem pras prateleiras.
O velho roqueiro não costuma se deixar levar pela opinião de críticos. Às vezes, coincide de ele gostar de discos bem avaliados por críticos detestáveis.
O velho roqueiro é muito contraditório. Não liga pra críticos, mas lê os palpites dos caras.
O velho roqueiro adorou o último Guns’n’Roses. É amarradão nos três Kasabian. Empire, inclusive. Chorou com o ao vivo do Leonard Cohen. Ficou com uma pulga atrás da orelha com o Gossip domesticado. Amou, ama, amará Polly Jean Harvey.
O velho roqueiro me disse que comprará o novo da Joss Stone, mas o que queria era ter dinheiro para assistir o show do petisquinho. O velho é machista, sacumé.
Encontrei o velho em Madureira. Mancava. Contou-me que está com um probleminha na coluna. Mostrou-me uns vinis que garimpou. Estava feliz abraçado a Ted Nuggent e Pat Benatar.
Entramos numa pastelaria, mandamos vir quatro esfihas e dois caldos. Depois saímos e deixei o velho no ônibus.
O velho roqueiro jamais teve um automóvel. “Vou deixar de comprar minhas bolachas pra sustentar carro?”
O velho roqueiro é a única pessoa que chama disco de bolacha.
E eu o único a chamar cd de disco.

segunda-feira, novembro 09, 2009

CRIANÇAS ZUMBIS


629, o ônibus do terror.
Embarco nele por preguiça.
Venho sentado, no metrô viajo em pé, tem baldeação...
Há um acordo entre a empresa e representantes da escória da humanidade.
No ponto final, a pivetada craqueada não pode embarcar. Uma parada à frente, as portas do coletivo são franqueadas ao que há de mais deprimente na bela cidade do Rio de Janeiro: as crianças zumbis.
Leio em O DIA sobre a vitória do Mengão e uma destroçada cai do meu lado. Sentei em frente à porta. Pedi a desgraça.
Dez segundos depois de se sentar ao meu lado a infeliz dormiu.
Gordo é ótimo colchão. Logo a jovem se espalhava.
Fedia, fedia muito.
A carapinha me espetava.
Ó que vivo em terra de bamba, mas já estava agoniado.
Pensei, vou resistir e aguentar este fim de feira no meu braço. Ela se acomodou melhor e senti seu narizinho, sua boquinha babada... Em meu interior, o velho homem gritou: “Politicamente correto o caraio. Sai dessa”.
Levantei-me e falei, não com uma menina, mas uma mulher feita, arrasada pela vida.
“Senta aqui no canto. É melhor pra você dormir”. Nenhuma resposta. Cutuquei a derrotada e nada. Estava viva, dando um rolê no inferno, certamente. Não dava para pular sobre ela. 150kg, sacumé. Voltei pro meu cantinho.
Fui babado, espetado, narigado. Quando chegar em casa vou tomar banho de álcool.
Na Itaoca, a zumbi acordou, levantou-se e aparvalhada, olhou em volta para ver se descobria onde estava.
Uma afrobrasileira gritou do fundo do ônibus: “Sandra, o Jacaré já passou há um tempão”.
Parada na porta, atrapalhou a passagem de outro zumbi que disse que ia dar porrada e a mandou tomar no cu. Espero que ela não siga a orientação do coleguinha. Morreria, se fosse transpassada pela espada de um tarado cego, surdo e desprovido de olfato.
Aproveitei para ficar em pé.
A colega aproximou-se e aconselhou-a a descer na Nova Brasília.
“Desce lá, atravessa a rua e pega o ônibus voltando. Pô, San tu morgou mermo, hein. Pensei que cê tivesse descido. Há quantos dias cê não dorme?”
Eu, o colchão, me afastei um pouco e olhei para aquela mulher devastada, de novo sentada.
“É aí, Sandra, desce.”
Ela desceu, atravessou a rua, quase foi pega por uma moto, segundos depois um carro quase a matou. Virei-me para a colega da zumbi e observei: “Ela não vai chegar viva ao Jacaré”.
“Essas meninas, em vez de usar a droga, a droga é que usa elas. Aí, eu uso, mas tenho quatro filhos pra criar. Me controlo. Alá aqueles dois são meus. Tio, cê acha que vou ficar igual a ela? Never. Parece a capa do Batman. Dezoito anos, acabadona. Tenho 22, mas, aí, tô gordinha. Controladona”.
Entendi que já tinha feito minha confraternização com os destroços da sociedade carioca. Sentei-me. Calei-me. Aquela velha comida pelo crack, 18 anos. Essa outra, 22. Encarquilhadas.
Resolvi que no expresso do terror não embarco mais. Crianças zumbis só pela TV.

Faça-me uma graça

Navegando pela Internet, no dorso da raposa de fogo, parei em um blog de artes & cultura. Era mais um site do que um blog. Vários colaboradores, cheio de bossas e parangolés.
Dei uma geral e vi que eles publicam textos enviados pelos leitores.
O texto tem de ser assim e assado, não pode ter saído em sites e blogs, o tamanho é este e fim de papo, se vai falar de filmes estes precisam estar em exibição, resenhas de livros, só lançamentos, decidimos se publicamos ou não o texto e não damos satisfação.
Cacomigo pensei: “Tantas exigências, se forem cumpridas deve rolar um bom cascalho”.
Porra nenhuma. Se eles gostarem de seu texto, o pagamento é se sentir honrado porque foi publicado.
De graça só escrevo aqui. Até porque não corro o risco de ter textos recusados.

domingo, novembro 08, 2009

Histórias da capital sertaneja


Já em idade provecta resolvi fazer curso de Letras.
Nos anos em que estudei, fiz um amigo ou outro, tinha meu grupo de trabalho com três coleguinhas especiais e usava os intervalos para tirar uma pestana.
A média dos estudantes do curso deveria estar por volta de 25 anos. Curso noturno, muita gente gramava para pagar as mensalidades.
Lembrei-me desse bom tempo a propósito do episódio da jovem de minivestido agredida com impropérios pelos colegas acadêmicos. Bom, a história rolou na capital sertaneja, o que, de certa forma, explica o bafafá.
Em minha turma, uma aluna padrão mulher filé destroncava pescoços de incautos ao passar. Sua voz era convite à libidinagem. Suas roupas mostravam bunda, peitos e o que mais couber em uma mente libidinosa. Não percebi da parte do corpo discente da universidade suburbana hostilidade alguma em relação à menina.
Uma outra, lindinha, lindinha, sempre envergava sainha curtinha e camiseta sobre a pele. Os faroletes estavam sempre acesos. Juventude, sacumé.
Quando os mestres mandavam formar rodinha para grupos de discussão, a formosurinha sempre estava sentada à minha frente. A bonitinha era agitada, balançava as pernocas sem parar. Os olhos do velho roqueiro eram atraídos para as coxas balouçantes. Não, ele jamais pensou em sapecar um safanão na safadinha.
A moça do minivestido foi expulsa da faculdade. Se este velho roqueiro entendeu os motivos, por usar vestido curto e provocar nos caipiras seus mais baixos instintos.
Que coisa!!!

sexta-feira, novembro 06, 2009

O ALFA ROMEO


Nem passou pela cabeça de Adilson que sua alegria se transformaria em aporrinhação.
Final da década de 80, o sortudo ganhou um Alfa Romeo em uma rifa. O Alfa, quando chegou ao Brasil, trazido pela Fiat, era destinado aos abonados. No entanto, tinha tantos problemas que logo foi deixado de lado pela montadora. Sem peças de reposição e voraz bebedor de gasolina, tornou-se um abacaxi para quem o tinha comprado.
Adilson não reclamava do carro. Fora sorteado entre mil participantes e gastara míseros 10 reais (fiz a atualização de orelha porque não sou de perder tempo com pesquisas minuciosas). Estava no lucro.
No Alfa, deu umas voltas com a família pelo aprazível bairro da Pavuna, fez umas duas viagens a Nova Iguaçu e resolveu passar o bólido pra frente.
Tentou vendê-lo, ninguém quis comprar. Resolveu fazer nova rifa. Mil números a 10 reais, mesmo que não vendesse tudo teria um belo ganho.
Foi com alguns carnês na mão que ele chegou ao trabalho e anunciou a rifa. Todos os colegas, menos eu, compraram para ajudar. Ninguém queria um Alfa Romeo, o carro que nem o dr. Cascatinha deu jeito.
Old, não. Comprou dois números e anunciou: “Meus orixás estão me dizendo que vou levar este Alfa”. Um arrepio de pavor percorreu a espinha de Adilson. Ele pensou: “Não, seria muito azar. Um, entre mil”. Se pudesse recusar-se a vender a rifa, o faria, mas pegaria mal.
Dez dias depois Adilson entrou na seção com um sorriso de sofrimento: “Old, você ganhou. Aqui estão as chaves do carro. Amanhã fazemos a transferência”.
Old, sorrisão aberto, bazofiou: “Não te disse, meus orixás são fortes”. Talvez fossem mesmo, só não entendiam nada de mecânica.
Os dias rolavam e em todos os eles ouvíamos Old espinafrar o carro e, por extensão, Adílson. “Bebe que nem um pinguço”; “Gastei uma fortuna com a transferência”; “As peças de reposição são caríssimas”; “Esse Adilson, com essa carinha de bobo, é um espertalhão”; “Se aparecesse quem me pagasse o que gastei com a transferência, vendia na hora”.
Old dava essa deixa e o Padre arrematava: “Eu compro”. Old desconversava, começávamos os trabalhos e, no dia seguinte, a ladainha recomeçava.
Um dia, Adilson retrucou: “Old, você levou o carro por 10 reais mais 50 da transferência. Venda o carro”. “Mas o malandrão aí levou mil no total da rifa”, chicoteou Old. “Isso não é problema seu. Maldita hora que vendi a rifa pra você”, disse e levantou-se da mesa o não mais pacífico Adílson.
Old levantou-se, também. Ia sair porrada. Do fundo da sala, ouvimos a voz do Padre: “Eu compro o carro por 60 reais”. Old, puto da vida: “Tá vendido”. O Padre levantou-se, não para brigar, e casou o dinheiro na mesa de Old. O velho homem de imprensa não pode refugar. Aceitou.
Parecia que a novela do Alfa chegara ao fim. Nada. Todos os dias, Old perguntava pelo carro. O Padre só dizia: “Está ótimo, sábado fomos à praia nele”. Old ficava inquieto: “Por que você não vem trabalhar nele?” O Padre explicava: “Na editora não tem estacionamento. Venho de lá pra cá de ônibus e pra casa vou na carona do chefe. É mais barato e ainda vou ouvindo a Tupi FM com o homem”.
Semanas pra frente e ainda ouvíamos falar do Alfa. O Padre só elogiava o carrão. “Confortável, ar condicionado siberiano, maciez nas pistas, dirigibilidade inigualável, um carrão, um carrão”, babava. Eu, companheiro de mesa do Padre no árduo trabalho de revisão de texto, alertava: “O Old tá ficando puto com seus elogios. Ele se arrependeu da venda do carro”. O Padre ignorava meus alertas.
De repente, o assunto saiu da pauta. Quando Bigode dava uma folga (coisa raríssima), falávamos de tudo, menos do Alfa. Um dia o Padre anunciou: “Vendi o Alfa. Troquei por uma Brasília”. Old arroxeou. Ele era proprietário de uma Brasília. Nunca a trocara porque não sabia dirigir outro carro. Verdade mesmo é que nem a Brasília ele dirigia. Peguei algumas caronas de 500m que quase me mataram de pavor.
“Por que você trocou o carro? Eu vendi o Alfa pra você ficar com ele”, interpelou Old.
“O Alfa quebrou e o conserto ficaria muito caro. Na oficina, o dono me propôs trocar a Brasília dele pelo Alfa. O cara é tarado por Alfa Romeo. Aceitei. É uma Brasília creme, 1980”, cartou o Padre.
“Porra, só dois anos mais velha do que a minha”, lamentou Old.
Aí o Padre tripudiou: “Você foi muito precipitado. Um homem experiente. Um Alfa Romeo por 60 reais. O melhor negócio que fiz na vida”.
Levantei-me e saí da sala. Do corredor vi Old disparar na direção do Padre.
Bigode tentou separar, mas a porrada comeu.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Igreja: legal, mas uma droga

Converti-me em 1975.
Diria melhor se afirmasse que a partir de 1975 passei a frequentar, regularmente, uma igreja.
Experiência sobrenatural na conversão? Bom, parei de fumar naquele dia e senti um desejo imperioso de atender o chamado que o pastor fazia para que fossem à frente os que aceitavam a Jesus como Salvador e Senhor. Não, não tinha a menor ideia do que era “aceitar a Jesus” nas bases que eram apresentadas.
Se naquele dia não houvesse ido à frente, como seria minha vida, hoje? Tenho convicção de que, necessariamente, não seria pior do que é. E aqui não reclamo da vida. Deus tem sido bastante generoso comigo.
Hoje, sigo comparecendo à igreja. Não tão regularmente. Sem engajamento. Consciente de que a igreja evangélica não oferece nada de novo à sociedade. É irrelevante.
Nos últimos 35 anos, passei por todas as fases por que passam aqueles que ingressam em um sistema religioso. Entendo que vivo ótimo momento de minha vida evangélica. Posso estar enganado, mas tentarei explicar.
Meus irmãos de fé, geralmente, relacionam seus momentos mais produtivos ao início da caminhada evangélica. Sob o estrito ponto de vista da igreja local, é verdade. É tempo de paixão e ignorância. E também de muita operosidade.
O evangélico com alguns anos de estrada e que já não tem a disposição de alguns anos antes, clama, culpado, ao Senhor: “Quero voltar ao primeiro amor”. Eu, não. (O texto em Apocalipse não tem o sentido imposto a ele, mas aqui não é o melhor espaço para discutir essas filigranas.)
Quando entramos em uma igreja (os que vêm de fora, porque há os que nela foram criados) o fazemos de olhos fechados e coração arreganhado. O mínimo que esperamos encontrar é um grupo diferente daquele que deixamos para trás. Isso não acontece.
Se tenho um grande arrependimento foi o de ter deixado para trás amigos que fiz. Ninguém nos diz para abandonarmos os amigos do passado. Ao contrário, somos incentivados a evangelizá-los. Na prática, isso é impossível. Há 35 anos as programações nas igrejas eram voltadas para dentro.
Lembro-me de aos domingos, no caminho da igreja, encontrar amigos e conhecidos indo para o futebol, a praia... Oito da manhã eu estava na igreja. Depois de EBD, culto e ensaio de coro, chegava em casa às 14h, almoçava, descansava e às 17h estava de volta para só retornar ao lar pelas 23h. Durante a semana, trabalhava e estudava. Sábados sempre havia atividade na igreja. Não era desagradável. Gostava muito da agitação. Poderia, no entanto, ter distribuído melhor meu tempo. Perdi contato com amigos e família por causa disso. É o primeiro amor.
A igreja não é composta de um grupo diferente. E aqui afirmo que igreja nenhuma é. Quem está dentro diz logo para os que chegam: “Não olhe para os irmãos. O modelo é Jesus. Ele jamais o decepcionará.” Se você desprender-se do gado perceberá que sua relação tem de ser mesmo com Deus. À sua volta os santos agirão como os perdidos. Na fase da paixão, nada será percebido. O apaixonado tudo releva. É um imbecil. A esta fase da vida cristã chamam, nas igrejas evangélicas, de a do primeiro amor. Ao se livrar dela, só desejarão a ela retornar os descerebrados.
Passado o primeiro amor, a vontade é de cair fora. Se ainda não formamos vínculos com os de dentro, tomamos o caminho da rua; se ficamos, nos transformamos em cínicos.
A igreja é nosso espaço de convivência. Os amigos do passado foram esquecidos. Seus amigos, agora, estão ali. A menina que você cobiça senta-se três bancos à frente do seu. O português foi esquecido, seu idioma é o evangeliquês. O sentimento de pertencer a um grupo é muito confortável. Dentro da igreja, se somos operosos, temos prestígio. Elegem-nos para ser coordenador geral do departamento de qualquer coisa. Poder é bom, mesmo um poderzinho de nada.
Há quem pare neste estágio e nele permaneça até a morte. As estranhezas são deixadas de lado, as incoerências percebidas são varridas para um canto do cérebro.
Pouco mais da metade de minha vida evangélica, vivi neste estágio e talvez ainda estivesse nele se o acaso não me levasse, no final da década de 80, a trabalhar em uma empresa da instituição evangélica a que minha igreja pertence.
Do final da década de 80 para cá, aprendi duramente como podem ser calhordas os líderes religiosos. Há calhordice maior do que a distorção do conceito do “ungido de Deus” explorado por pastores autoritários?
Habitualmente, ia a outras igrejas ouvir pastores diversos. Participava de palestras, frequentava congressos, respeitava os “servos de Deus”. Se alguém quiser arranjar confusão comigo, nos dias de hoje, basta me convidar para este tipo de atividade. Tomei aversão.
Conheci, profissionalmente, dezenas de homens que vivem à frente de igrejas e percebi neles algumas características alarmantes: vaidade extremada, egoísmo mórbido, cupidez desenfreada, ignorância jumentina e maldade, muita maldade.
É verdade que nesses anos conheci gente admirável, mas em muito menor número do que gostaria.
Quem priva de minha intimidade, sabe que estou longe de ser modelo de qualquer coisa, mas assim como não procuro para me ensinar matemática quem sabe menos da matéria do que eu, não posso perder tempo precioso de vida dando atenção a hipócritas que só falam e não vivem.
De qualquer forma, sigo em frente e permaneço na igreja, confiante em que Deus me mostrará o sentido de todas as experiências que vivi dentro da comunidade de fé. Não desejo voltar ao primeiro amor, o da fé cega, nem ao tempo do conformismo. Quero, sim, passar a um outro estágio: o de ser parte de uma igreja relevante, sendo eu relevante, também.

terça-feira, novembro 03, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Amanda Righetti


Pode ser vista toda semana no canal Warner, em The Mentalist.
A série é boa. Ela é ótima.

DISCRIMINAÇÃO


- O objetivo desta reunião é discutir ações que deem visibilidade à perseguição que sofremos. Os gordos formam o grupo mais discriminado entre todos os outros. Não são os gays nem os negros os mais implacavelmente enxovalhados: somos nós, os gordos.
- Bola, é sempre bom lembrar que temos representantes em todos estes grupos mencionados: há gordos de todas cores e raças, além de avantajados homossexuais.
- Por isso, Rolha, queridos e queridas, temos de pensar em ações que nos levem à mídia.
- Uma marcha não seria uma boa idéia? Tem marcha gay, marcha para Cristo, marcha contra intolerância religiosa, marcha pela paz... Por que não uma Marcha Fofa?
- Marcha Fofa? Aliá, você está de sacanagem?
- Não, Bola. Marcha Fofa é pura ironia. Trabalharemos com um eufemismo que os magros usam para nos qualificar.
- Aliá, há dois problemas sérios em sua proposta: Marcha Fofa é tão irônico que o povo que assiste TV não vai entender. Vão confundir com algo muito setorizado: Marcha Fofa = Marcha de Gays Gordos. O outro ponto, julgo mais importante: onde já se viu gordo participar de marcha.
- O Rolha tem razão. Em uma marcha não teremos espaço para apresentar todas as nossas queixas. Precisamos mostrar ao mundo que desde a pré-adolescência somos discriminados. Na escola somos alvos de chacota. Somos preteridos nos jogos de sedução. E, adultos, nem nos coletivos temos mais espaço para sentar.
- As poltronas de avião...
- Aliá, vamos dar ênfase aos assentos dos ônibus, para que não digam que o movimento é elitista.
- Sugiro, então, a invasão de uma loja do MacDonalds.
- Rolha, aí você já está querendo bagunçar. Não somos MST. O Governo não nos dá cobertura. Vai acabar todo mundo em cana... Pode falar, caro Mastodonte.
- Eu, por uma infelicidade, já estive preso. As cadeias não têm estrutura para receber o gordo.
- Mastodonte, valeu sua observação, mas não nos interessa, neste momento, tratar do sistema prisional.
- Vocês criticaram, mas proposta objetiva, até agora, só a minha: a Marcha Fofa.
- A companheira Aliá não deixa de ter razão. Alguém tem alguma proposta?
- Bola, estamos aqui há uma hora. Não seria bom pararmos prum lanchinho?
- A proposta do companheiro Vastidão é pertinente.
- Companheiros, sugiro, então, breve recesso até amanhã. Vamos pra Farra do Boi. Garçom, pode começar a servir o rodízio.

segunda-feira, novembro 02, 2009

JOGADOR DE FUTEBOL

Jogador de futebol gosta de dinheiro. Até aí nada demais. Eu também.
Jogador de futebol joga no clube que lhe dá mais dinheiro. Mesmo já atuando em um time que lhe pague um salário estratosférico.
Um exemplo entre muitos: Kaká, que amava o Milan, Milão, a Itália, foi para o Real Madrid ser galático. O dinheiro que ganhava na Itália era o suficiente para três existências nababescas do atleta. Não o condeno. Dinheiro nunca é demais, pensam alguns.
Jogador de futebol, à medida que se torna mais ávido por dinheiro, de uns tempos para cá inventou a babaquice de não comemorar quando faz gol contra o "time do coração".
Ontem, vimos Fred, artilheiro pó de arroz, em respeito à torcida do Cruzeiro, quase chorar a cada gol que fazia.
Há jogadores que, aos 23 anos de idade, já passaram por meia dúzia de clubes. Aos 30, 20 clubes depois, se pensarem como o bobalhão do parágrafo aí de cima, cada gol será momento de compungida tristeza.
Quando um jogador mais habilidoso dá um drible desconcertante, come a porrada dentro de campo: “O cara tá a fim de me esculachar”. Petkovic, num final de partida, deu um passe de trivela e causou indignação no botinudo adversário: “O time dele está ganhando, não precisava fazer presepada”. Agora, no momento orgásmico da partida de futebol, o pirocudo tira de dentro.
Caraio, onde vamos parar?

DELÍRIOS


– Eu e Woody Allen temos algo em comum. Cremos que o ser humano não é tudo o que imagina e que a vida é constituída de acasos.
– Você e Allen conversam muito?
– Conversamos. Ele pediu meu MSN. A gente papeia virtualmente.
– Em que idioma vocês se comunicam? Inglês, português?
– Não sei inglês e ele não domina o português.
– Então...
– Ele me achou atraente. Viu umas fotos minhas no MySpace. Fotos com a banda. Daquele show em Londres.
– Maria, que banda? Londres? Você nunca foi lá.
– Mas parece que ele vem filmar no Rio. Está animado, me disse.
– É especulação, ainda.
– Não, não. Vou te adiantar uma coisa. Prometa que vai ficar na sua, se não a imprensa começa a me aporrinhar.
– Pode dizer, faço boca de siri.
– O filme já está bem adiantado. Vai ser rodado em 2012. O roteiro só está dependendo de uma resposta minha.
– É?
– Se aceitar o convite dele, o filme caminhará em uma direção. Se não...
– Papel principal. Quero dizer, protagonista?
– Não, ele está apalavrado com a Penélope Cruz.
– Maria, estou preocupado com você. Esses seus delírios...
– Maneco, deixe de ser ciumento. Só tem lugar pra você em meu coração. Preciso aproveitar as oportunidades. Não terei 20 anos pra sempre.
– Maria, há 30 você não tem 20 anos. É uma cinquentona pra lá de bonita, mas...
– Pode não parecer, mas Woody pode ser muito insistente. Ele quer porque quer que eu faça esse filme. Exige que eu pare com a banda. Não quero deixar os garotos na mão.
– Sem sua voz essa banda morre, né?
– Ó a bobeira, Maneco. Sou guitarrista e compositora. Não canto.
– Vou pedir uma pizza, tá legal? As crianças estão dormindo?
– Gostei de saber que ele tem o ser humano em baixa conta. Amo cachorros e gatos. Ele tem um furão.
– Calabresa? Vou olhar as crianças.
– Ethan Coen também tem um furão.
– As meninas não estão no quarto.
– Mamãe esteve aqui. Ela ainda não se conformou de eu ter vindo morar com você. Não aceita que nos amamos, que eu não podia continuar naquela aldeia. As chances estão aqui.
– Ela deve ter levado as meninas. Ligo pra ela, peço a pizza e volto pra ouvir suas histórias. Há vinte anos não faço outra coisa. Pior que não imagino vida melhor do que esta, com você.