segunda-feira, junho 26, 2017

VERDADES & MENTIRAS


Há muito tempo, foi moda no FB a elaboração de lista com verdades & mentiras. Normalmente, sete verdades e uma mentira. Sempre sobre a vida do autor do texto. Não sei quantas verdades escreverei. Haverá, claro, uma mentira. Não garanto revelá-la.
1) Uma vez, menino ainda, descia a íngreme ladeira da Ferreira Pontes, no Andaraí, de velocípede. Em pé, atrás de mim, uma amiguinha. Com uma das mãos, segurava meu ombro para se manter equilibrada, com a outra empinava uma pipa. Não sei por que fazíamos isso. Bobeei e choquei-me com um hidrante.
A amiguinha voou por cima de mim e encarou o perverso hidrante com o queixo. Fiquei traumatizado, tomei umas chineladas de minha mãe, mas a amiguinha não perdi.
2) No ginásio, tinha uma professora chamada Clícia. Eu estava resfriado e, porcão, engolia o catarro que produzia. Tudo isso dentro da sala de aula, sentado bem pertinho da mestra para sorver a sabedoria que dela emanava.
Incomodada com meus maus modos, a educadora me deu um esporro de arrasar quarteirão. A turma se solidarizou comigo, indignada com a atitude dela, e cortou relações com ela. Na aula seguinte, a megera fazia perguntas e ninguém respondia. Ela percebeu a jogada e, maquiavélica, fez uma pergunta ao covarde: eu. Respondi, a turma se emputeceu comigo e o movimento de protesto acabou. Levei 40 anos para voltar a respeitar professores.
3) Na década de 80, toda hora havia greves. Trabalhava na Manchete. Minha jornada era de 7 às 13h, de segunda a sexta. Ótimo horário, salário de mercado, não precisava ocupar meus fins de semana e tinha o dia inteiro para trabalhar em outros lugares ou estudar.
Na Manchete, falta em dia de greve era demissão na certa. O Jaquito era implacável.
Um dia cheguei e tinha piquete na porta da empresa. Havia uma entrada “social” e outra de funcionários. A de funcionários levava ao relógio de ponto. Na Manchete, trabalhavam diversos tipos de profissionais. O expediente que se usava para furar a greve era dizer que ser jornalista em dia de greve de gráficos ou gráfico quando o piquete era de jornalistas.
Eu, evangélico da antiga, não gostava de mentir. Mentia, mas naquele dia, sei lá... “Sou jornalista e vou entrar.” “Estamos lutando por você, pelego feladaputa.” “Vou entrar.”
Levei cascudo, porrada nas costas, chute na bunda. Fui chamado de traidor, vendido e o cacete a quatro. Mas entrei. Senti-me um covarde, mas segui empregado.
4) Eu e Hernani, pré-adolescentes, tínhamos uma paixão comum: Zoé. Ela morava no 590 (ou 490) da Conde de Bonfim. Muitas vezes ficávamos sentados em um boteco bem em frente ao prédio, a observar porra nenhuma.
Um dia, ousados, entramos no prédio. Logo fomos cercados pela garotada local, os inimigos. O que estão fazendo aqui? Por que entraram? Aonde vão? As respostas não foram satisfatórias, levamos uns safanões e fomos imediatamente expulsos.
No dia seguinte, Osvaldo, namorado da cobiçada, me cercou e garantiu que me encheria de porrada na saída. Seria mesmo, sem apelação. A não ser quê...
Eu tinha um amigão. Amigo de rua. Conhecido da família. O maior lutador de rua que conheci. Da mesma turma de Osvaldo Jiu-Jitsu.
Recorri ao protetor. Ele, carinhosamente, alertou o pretenso espancador: “O Mug é meu amigo. A briga dele é minha”. Ninguém desafiava Paulo Roberto Silva. Escapei.
Não era bom ser frouxo, mas eu não gostava de apanhar.
5) Fui uma criança encagaçada. Tinha medo de tudo. Minha avó Dalila (ela era só minha) ficava vendo televisão comigo madrugada adentro. Eu e ela, sozinhos, madrugada adentro. A velhinha dava cabeçadas de sono. Meu tio chato de vez em quando acordava e enchia o saco: “Mamãe, vem dormir”. Ela saía do sono profundo pra dizer: “Arari, vai dormir, estou vendo o filme com meu favorito”.
No meio da madruga, me dava vontade de mijar e cadê coragem para ir ao banheiro sozinho? Tirava a vovozinha do meio do sono para me proteger no perigoso percurso. Dormia de mãos dadas com ela. Tudo me assustava.
Apanhava muito de uma vizinha na Rosa e Silva (para ser justo, de mais de uma). Tomava cascudos de um outro, a troco de nada. Os dois estão aqui no meu FB e não se lembram de nada. É natural.
Na rua, minha vovó não podia me proteger, mas dentro de casa era minha guardiã.
6) O melhor amigo que tive no ginásio, enlouqueceu. Os irmãos dele se envolveram na luta armada contra o regime militar. Sofreram muito, por convicção. Hoje, talvez estejam bem. Menos ele. Nem sei se está vivo.
Percebi que ele não estava bem quando, aprovado na Escola Técnica Celso Suckow, desistiu do curso e reuniu´se a nós na boate João Alfredo, em Vila Isabel.
Já num hospício, fomos visitá-lo, eu e Wanderley. Duros, comemos jaboticaba o dia inteiro. Deley era ótimo em subir em árvores.
Meu último contato com Ronaldo foi em Jacarepaguá. Ele estava internado em um manicômio da Cândido Benício e de lá fugiu. Foi lá pra casa, alteradíssimo. Todo mundo em casa se assustou. Eu, mais que todos. Dei um jeito de encaminhá-lo de volta ao hospício e nunca mais o procurei. Não ser bom amigo é decepcionante, mas me faz ver que não sou grande merda.
7) Uma vez por semana os enfermeiros do hospício mencionado aí em cima levavam os malucos para jogar no campo do Parâmides. Eles chegavam, interrompiam a pelada e o time deles jogava contra um formado pela rapaziada.
Os enfermeiros sempre pediam nossa colaboração (nossa é força de expressão, eu era costumeiramente barrado na pelada pelo excesso de ruindade). “Por favor, deixem os doidinhos jogar. Peladinha café com leite. É só 20 minutos de jogo. Terapia. Pelamor de Deus, não tirem a bola dos malucos.”
Em nosso gol (Na pelada dos malucos, eu jogava. Não desarmava ninguém nem fazia gols, era o jogador ideal para não irritar os aloprados.), atuava o Tiquinho. Também conhecido como Botiquinho. Bebia doses cavalares de cachaça. Nunca o vi sóbrio. Era um bêbado que levava a sério o futebol, mas deixava os doidos marcarem gols em sua meta. Quase sempre. Um dia, sei lá por que, encarnou Andrada. E antes da pelada começar, gritou: “Hoje, sou Andrada”. Percebi a merda e, mais inteligente do que a maioria, cedi minha vaga.
Os alucinados vinham com a bola, passagem aberta pelos atletas da linha, e porravam em direção à baliza guarnecida pelo lendário Tiquinho. E ele pegava todas. No começo, apreensivos, todos pedíamos para ele deixar a bola entrar. Alguém tentou substituí-lo. Ele se recusou a sair. Os doidinhos ficaram nervosos. Os enfermeiros resolveram encerrar a partida. No mesmo momento, um louco foi lançado em profundidade, driblou o Tiquinho e quando ia fazer o gol levou um pontapé do bêbado. Pênalti. E não é que o feladaputa defendeu.
Não teve jeito, a porrada comeu e os malucos nunca mais vieram ao Parâmides.
8) Tenho um amigo muito criativo. Ele é coronel PM, já reformado. Comandou o quartel da área da Praça Saens Pena. Anos 80 do século passado, muitos furtos aconteciam na Praça. Os gatunos deitavam e rolavam. Um dia, o amigo reuniu seu estafe e disse: “Vamos pôr um espantalho no meio da Praça. Temos um Opala em boas condições de lataria, mas mecanicamente se arrasta. A gente deixa o carro na Praça com dois homens. Não dá pra sair com ele atrás de ninguém, mas acredito que assustaremos os pilantras.”
Dito e feito. Os índices de furto caíram muito. O sucesso foi tanto que chamou a atenção da imprensa. Bastaram duas ou três perguntas do repórter para que ele, profissional, percebesse que o Opalão era somente um espantalho. Reportagem na TV e entregada em O Globo levaram ao fim a Operação Opala Espantalho. E os gatunos voltaram a se espalhar.
9) Em minha meninice, Roberto “ganhou” a garota mais bonita da rua: a Cacau. Nós morávamos na Rosa e Silva, entre a Ferreira Pontes e Botucatu. Cacau morava entre a Botucatu e a Caçapava.
Todos os dias jogávamos uma pelada na rua (eu era gandula), perto da Botucatu.
Um dia Cacau apareceu para fazer um aceno carinhoso pro Roberto. Ele não gostou. “Não pegou bem, ela aparecer na pelada. Todo mundo olhando pra ela.” Como se normalmente não olhássemos.
Chiquinho instigou: “Tem de dar um toque nela.” Roberto deu. Ela o mandou passear. Chegou a chorar por perder o pitéu.
Menos de um mês depois o titular absoluto no escrete da Cacau era o Chiquinho. Ele nunca ligou de ela ir vê-lo jogar na pelada.
10) Todos se surpreenderam quando José Luis, o Arroz Brejeiro, trucidou em uma briga o Ronaldão. Semana sim, semana também, o asqueroso escalava alguém que ele entendia fraco e avisava: “Depois da aula, me espera lá fora”. A maioria das brigas nem acontecia. Na hora da porrada, ele, condescendente, dizia: “Dessa vez vou livrar sua cara, mas na próxima...” O Zé não esperou que ele falasse e só parou de bater quando ele disse bem alto: “Arrego”.
A surpresa de todos com o resultado da briga foi por causa da natureza pacífica do Zé. Ele era sacaneado por todos na escola e sua única reação era pôr sobre o branco leitoso de sua pele um vermelhão de camarão. Ele ficava puto por ser chamado de Brejeiro, mas jamais reagiu.
Euzinho não me surpreendi. Éramos bons amigos. Frequentava a casa dele na Souza Aguiar, no Méier. O Zé tinha um irmão mais velho, louco de pedra. Presenciei algumas brigas entre os dois. Eram épicas.
A porradaria começava dentro da casa, passava por uma longa escada e quase sempre terminava no quintal. Socos, pauladas, chutes, uma vez rolou faca... Eu ficava lá de cima, olhando. A luta sempre terminava com o Zé engravatado, sufocando em vermelho babado, tendo de gritar Arrego, arrego, arrego, com a voz esmagada. Estropiado, sempre depois das lutas, ele dava uma meia-dúzia de socos na parede. Depois do dia da faca não apareci mais lá, mas saí convicto de que brigar com Zé Luís não seria bom negócio.
Com a carreira do Ronaldão, ele acabou.


Fim de papo.

sexta-feira, junho 16, 2017

SOMBRA


Cansamos de avisar a Lindinha, com risco de nossas vidas, que o Treta era rabo de foguete. Para mim ela dizia, fiada no parentesco: “Tio, você vê perigo em tudo”.
A molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Treta se era verdade o que dizíamos, deixamos rolar.
Nem com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de ser comum a covardia diante de um matador.
Bom, o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do matador. Aos domingos, quando dava, Treta almoçava na casa de meu irmão. Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher, “Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer. Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu na lábia do Treta, sei não...
Meu irmão ligou pra mim perguntando se eu podia acolher Lindinha. Ela não queria saber mais do Treta e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem gente daí que sabe que estou aqui. Ralem todos. Vão pra casa dos primos, em Natal”.
Em Natal, Lindinha voltou a estudar. O Treta tocou o terror lá em casa, mas consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Parentes? Não, não temos”.
Antes de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O mano ficou mais um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para onde ia.
Treta foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu em um indulto de Páscoa apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha família passar, agora era crente, irmão Jeremias, e só tinha amor no coração. O desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a família que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares, daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que o cara tinha virado crente, mesmo.

Duas semanas pra frente, abri o jornal e dei de cara com uma foto de Treta, morto. A mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.

BRRPPP


- Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!
– Cara, ‘cê tá louco? Não faça isso.
– O quê? Tô fazendo o quê?
– Você está esfregando seus lábios no ventre nu de sua filha e produzindo esses sons em que percebo alguma lascívia.
– Zeca, é um bebê. Minha filhinha. Ela adora.
– Cara, ‘cê pode ser acusado de estupro. Se algum paranoico vir uma coisa dessas tu tá fu. Abuso sexual, sacumé. Pena dura. Pedofilia.
– Deixe de ser exagerado.
- Quando você a pega no colo, suas mãos se apoiam na bunda dela, reparou?
- Com vou levantá-la para assoprar a barriguinha dela?
– Louco! Louco! Louco! Não toque nas partes íntimas de sua filha? Cara, você vai ser enquadrado como tarado.
– Eu dou banho nela. Troco as fraldas. Limpo a bundinha.
– Cara, procure ouvir o que você disse: “Limpo a bundinha”. Quer dizer, passa essas mãos cúpidas, acostumadas às mais depravadas libidinagens, nas inocentes nádegas da criança. Você vai puxar 15 anos.
– Eu e minha mulher trabalhamos. Dividimos as tarefas do lar. Ela só aceitou casar se fizéssemos assim. Eu concordei.
– Isso pode pesar contra você. Dirão que tudo foi premeditado. Saiu-se com essa de divisão de tarefas para assediar, sem despertar desconfiança, a inocente.
– Caraio, o que faço?
– Sua sorte é que estou te alertando. Não toque mais nessa criança. Nada de colinho. Boca na barriguinha. Cheirar os pezinhos, podofilia, nem pensar. Deixe essa criança aí, do jeito que está. Espere sua mulher chegar e acabe com esse negócio de divisão de tarefas.
– Vai dar divórcio.

– Melhor, pelo menos você fica em liberdade.

domingo, junho 11, 2017

O MURO

Minha sogra amadinha é espoleta.
Durante a semana ela me fornece almoço. O serrano não entra em cozinha. É contra nossos hábitos culturais.
Pego o farnel por entre grades. A parte de cima do muro é gradeada. Se tivesse de ir até a casa dela andaria o triplo do caminho. Uns 50m a mais. O serrano é preguiçoso, não gosta de andar. Outro hábito cultural;
Dia desses, o farnel estava tão farto que não passou pelas grades. Ela se virou para mim e disse:
- Pamonha, segure a bolsa.
Segurei.
Ela pegou as grades com as duas mão, levantou a perna até o alto do muro e subiu, como um chimpanzé.
Levei um susto, mas não só eu. Uma afro descendente que passava, empoderadíssima, cabelaço lindo, gritou pungentemente:
- Meu Deus!!!
A sogrinha, vociferou, passando a bolsa por cima da grade:
- Banana, pegue a bolsa.
A deusa de ébano, paralisada, estupefata, me perguntou:
- Ela não vai pular o muro, vai?
Ri, ri, ri, acho que de nervosismo, e respondi.
- Eu espero que não.
A sogra, lá de cima, rosnou.
- Mocinha, circule. Pamonha, pegue a bolsa.

Obedecemos, afinal não é qualquer um que aos oitenta ainda sobe em muros.

quinta-feira, abril 27, 2017

MUNDO TENEBROSO



Assistir aos telejornais, por esses dias, tem sido mais desagradável do que o habitual. Há umas duas semanas, crianças foram mortas por bombas químicas. Um horror. O autor da monstruosidade ninguém sabe ao certo. A conta foi entregue a Bashar al Assad, o carniceiro sírio. A consequência foi o bombardeio norte-americano a uma base aérea síria. A Rússia fez ameaças, aliada que é da ditadura de Assad. Donald Trump, elogiado pela ação, promete, agora, dar uma lição no bufão norte-coreano. Aonde chegaremos ao final desta escalada de beligerância? Não tenho a menor ideia.
No Brasil, os de estômago forte não saíram da frente da TV vendo e ouvindo os depoimentos dos delatores da Odebrecht. Delatores sorridentes e bem-humorados, beirando ao escárnio, nos mostraram a subterrânea qualidade de nossos líderes. E os menos ingênuos sabem que muito mais lama ainda virá.
Um delator chegou a dizer que, em certo momento, havia prazer dos emissários da Odebrecht em comprar corruptos. Mesmo sem necessidade, compravam. É bom que nos lembremos: o dinheiro usado para comprar os marginais não era da Odebrecht, era nosso.
Mudo muito de ideia, graças a Deus, mas tenho pensado seriamente em não votar em mais ninguém. Meu último voto foi de Pezão. Hoje, fico deprimido quando o vejo na TV.
A maior emoção eleitoral que senti foi na vitória de Lula, em 2002. A chegada do PT ao poder me deu algumas esperanças, mas confesso que o ambiente republicano da passagem de cargo de Fernando Henrique Cardoso para Lula também me animou. Talvez por isso minha decepção com o PT tenha sido tão grande.
Militantes petistas afirmam que sempre houve corrupção no Brasil. Quem não está à esquerda, contra-argumenta dizendo que nunca se roubou tanto quanto nos governos petistas. Meu ponto, como ex-petista, é: o PT não podia ser instrumento de assalto ao país. Não me interessa se o PT roubou mais ou menos. O PT não podia roubar.
Nós, cariocas, para completar, ainda vemos o Estado do Rio destruído. A cidade vai pelo mesmo caminho. Temos números de assassinatos que faz sombra à Síria. Quem circula pela cidade com segurança? Morrem policiais, cidadãos, crianças. Um celular custa a vida de inocentes. Matar se tornou ato banal. E não mais nos grotões da cidade, nas comunidades. Nos dias que escrevo este editorial, explodiram um banco na Av. 28 de Setembro, principal via de Vila Isabel; mataram um jovem motoqueiro em Laranjeiras; dois policiais e uma menina, em dias diferentes, foram mortos em Madureira e muitas outras desgraças, que não me ocorrem neste momento, aconteceram.
Não tenho ideia de para onde vão o mundo, o país, o estado, a cidade, mas o clima é desalentador. Há desânimo no ar. As forças para superar o momento difícil, precisaremos buscar em Deus. E é a Ele que precisaremos recorrer e, obviamente, não esquecer de fazer a nossa parte.

EU, SINDICALIZADO

Em 1974, comecei a trabalhar no Jornal do Brasil. Tinha 20 anos. Associei-me ao Sindicato de Jornalistas do Município do Rio de Janeiro. O que me moveu foi a carteira com carimbo Imprensa. Dava pra tirar uma onda. De qualquer forma, o velho cobrador do Sindicato circulava as redações do Rio para recolher as mensalidades e eu pagava, religiosa e voluntariamente.
Havia (deve haver, ainda) um Sindicato do Estado do Rio. Na Manchete, trabalhei com uma figura que era profissional deplorável. Faltava pra cacete, o serviço dele precisava ser revisto. Um revisor que precisava ser revisado. Ele se valia da imunidade que tinha por ser da diretoria do sindicato do Estado para ser um profissional de merda. O do Município era o sindicato relevante, o que se empenhava por seus associados. Então, há sindicatos e sindicatos.
Enquanto trabalhei em empresas jornalísticas, fui filiado ao Sindicato dos Jornalistas, depois que precisei buscar trabalho em outras empresas era ligado (não filiado) aos sindicatos dos empregados da firma em que estava. Algumas das “conquistas” da classe, mantive em todas as empresas, como as seis horas diárias de trabalho.
O imposto sindical compulsório (sempre me emputeci com esta merda) era descontado para a empresa em que estava trabalhando. Para ser encaminhado ao SJPMRJ, eu precisava ir ao Centro, pegar uma declaração e entregar no DP da empresa. Dava um trabalhão. Mas fazia isso porque já estava desvinculado do Sindicato e achava correto agir assim. Era um babaca, na época.
Quando entrei no Jornal do Brasil, havia linotipistas. Durante os oito anos que trabalhei por lá, foram extintos. Éramos 120 revisores. Em 1980, viajei numa barca lotada de demitidos. Desembarquei na Manchete e, 20 anos depois ela falia. Já tinha saído de lá em 1990. Os revisores de texto minguavam. Subitamente, passei a ser, com 40 anos, um revisor garoto. Na profissão, só gente mais velha.
Profissões se extinguem, é inevitável. Temos de nos liguei adaptar. Muitas vezes foi penoso para mim, mas a solução não era o Estado me dar colo. Estado atrapalha.
Meu registro de jornalista devo ao grande José Sarney. Entrei no JB e meu registro era de jornalista provisionado. O grande Sarney decretou que o provisionado viraria profissional. Nunca entrei em uma Faculdade de Comunicação. A maioria dos bons jornalistas, também não.
Estou dizendo isso porque hoje de manhã entrei no sítio do Sindicato para ver as condições para voltar a me filiar. Com o fim do imposto sindical (já foi tarde), quem deve sustentar a associação somos nós, os profissionais. Vi as condições, as exigências e liguei pra lá. Sou aposentado, não sabia se podia retornar ao sindicato nessa condição. Também não tenho diploma, mas, pensei, é um retorno, fui sindicalizado antes da exigência de diploma, não achei que houvesse problema. A senhora que me atendeu não deu tempo nem de eu falar sobre a aposentadoria. Quando disse que não tinha diploma, ela me interrompeu e informou que o diploma era inegociável.
Está certa a moça, mas acho que ela não percebeu que algo mudou e os recursos terão de ser buscados em outras fontes. Minha febre cidadã passou. Não pagarei R$ 160,00 para entrar nem R$ 35 mensais para jamais usar os serviços do sindicato.

Foi só uma brisa que passou.

sábado, abril 22, 2017

PROVAS


- Roberval, que história é essa de briga com o Tasmânia?
- Não foi briga. Ele me massacrou. O cara, além de mentiroso, é um cavalo.
- O que houve? Estou vendo que ele te escangalhou todo. O papo que está rolando é que você começou a briga.
- É verdade. Ele veio me dizer, no boteco, que minha mulher estava me corneando.
- Por quê? A troco de quê? O que ele tem com isso? Se está, é problema dela.
- Qualé, porra? Meu, também. Eu e Tasmânia somos amigos de infância. Irmãos. Fizemos tudo juntos. Menos meinha. Ele me disse que pensou muito antes de me contar. O nome do feladaputa que está comendo a Neusa ele não entregou. A traição ele teve de contar. Falou: “Você é meu chapa, Roberval, meu mano.”
- Como ele soube da traição? Apresentou provas? Prova é fundamental.
- Ele viu a Neusa e o amante entrando no motel. O Escapadinha. O carro do safado estava com as janelas abertas.
- Claro, né. Qualquer um gostaria de exibir a Neusa. Uma mulher espetacular.
- Candinho, você está entusiasmado.
- Desculpe-me, sua mulher é bonitona.
- O Tasmânia ficou no bar em frente ao Escapadinha e viu quando, duas horas depois, eles saíram.
- Você acha que o Tasmânia mentiu? Ele tem algum interesse em detonar a relação de vocês?
- O Tasmânia não mentiria, mas ele pode ter se enganado. Cadê as provas da traição? Só porque ela foi pro motel com um homem, ficou lá dentro com ele por duas horas, não quer dizer que eles tenham transado, né não?
- É, é...
- Não há provas. Fiquei puto com o Tasmânia e parti pra cima dele. O resultado é o que você está vendo.
- E a Neusa, você falou com ela?
- Falei. Ela relutou, escondeu o jogo... Disse que sexo casual não é traição. Não que ela tenha feito. Era absurdo eu acreditar num dedo-duro. Como pode você duvidar da amizade do Candinho?
- Peraí, por que ela falou em mim. Tô fora. A gente é brother.
- Tranquilidade, Candinho. Ela me disse: “Acredite no que você quiser. Mas, lembre-se: Não há provas contra mim.”
- E você?
- É como ela falou: não há provas. Só acredito na traição de Neusa se vê-la em pleno coito com outro. Nem em filmagem acredito. Pode haver manipulação na imagem.
- Você vai fazer o quê?
- Evitarei passar nas proximidades do Escapadinha.

domingo, fevereiro 12, 2017

ENCONTRO


 - Amados, antes de dar início à reunião gostaria de ressaltar que todas as facções que lutam pela redistribuição de renda entre a população marginal estão aqui presentes. Acho que merecemos uma salva de palmas.
Juntos, os sete líderes dos grupos criminosos que dominavam a cidade se entreolharam. Olhares de ódio, mas aquele era o momento de tratar de temas maiores.
- Bagre, quero parabenizá-lo pelo sucesso ao alinhavar com tanta sabedoria e humildade este encontro que pode se tornar histórico. Não creio que haverá paz entre nós, mas é importante termos estratégias uniformes contra o inimigo comum: as instituições que representam a lei.
- Obrigado, Mequetrefe. Bom, alguém tem algo a... Diga, Rolha.
- Amigos, Bagre, soube de fonte seguríssima que as madames voltarão para as portas dos quartéis da PM na segunda-feira. Os caras lá de cima não respeitaram o combinado. A paralisação não terá prazo para acabar. Creio que é um bom momento para engendrarmos ações conjuntas. Podemos arrepiar a cidade e mostrar nossa força.
- Por obséquio, Bagre, posso dar uma sugestão?
- Claro, Pocahontas. Estamos afinados com a atualidade. A voz de uma mulher é fundamental.
- Com todo respeito à proposição do Sr. Rolha, creio ser este o momento de pensarmos fora do casulo. Por que, em vez de atacar a cidade durante a greve não a protegemos?
Bagre era apaixonado por Pocahontas. Foram criados juntos. A luta armada os separou. Observou a reação dos parceiros. Viu surpresa, estupefação, curiosidade. Pocahontas prosseguiu.
- Sabemos que a PM é pouco popular. Há vozes importantes que propõem, inclusive, o seu fim. Ao atacarmos a cidade revelaremos a este povo manipulável que ele precisa da polícia. Nós, involuntariamente, melhoraremos a imagem desgastada desta corporação.
Camarão não resistiu.
- Algumas coisas só saem da cabeça de mulheres. Como vamos proteger a cidade? Vamos nos uniformizar como vigilantes?
Pocahontas desprezava Camarão.
- Meu caro misógino. Protegeremos a cidade ao não atacá-la. Por intermédio de nossa rede, alertaremos a todos que qualquer crime cometido no período será julgado pelo Tribunal do Movimento.
Camarão não se convence.
- Querido, sei que você é travado, mas faça um esforço e pense. Quando perceberem que a ausência da PM não causou transtorno algum à cidade, ganharão força os que almejam o seu fim ou lutam pela desmilitarização da força. Vou lhe passar dados estatísticos levantados por nosso Centro de Inteligência. 53% de nossas despesas é com custeio da estrutura; 47% é para cafezinho e cervejinha de policiais, juízes e políticos. O resultado é que precisamos elevar o preço dos produtos. Nossos clientes passam a comprar drogas mais baratas, mais viciantes, mais mortais. E é bom lembrarmos que pouco a pouco o discurso de legalização das drogas ganha força. Há empresários ávidos por esse filão. O caos não nos favorece. A atmosfera de violência e morte leva ao desejo de mudança. Entendam de uma vez por todas: não queremos que nada mude. Continuaremos ganhando dinheiro com a desgraça alheia, reduziremos a despesa da propina e, consequentemente, diminuiremos o preço e aumentaremos a qualidade de nossos produtos. Não queremos nossos consumidores mortos muito rapidamente.

Bagre olhou os companheiros e percebeu que eles estavam convencidos. Seu olhar cruzou com o de Pocahontas e nos verdes olhos da morena viu promessa de que, pelo menos com ele, outro encontro haveria.