quarta-feira, dezembro 28, 2011

TEXTOS QUE LI E GOSTEI - A confissão, de Dino Buzzati



A CONFISSÃO
A srª Laurapaola estava de cama, indisposta, coisa simples, de três ou quatro dias, dissera o médico.
Havia já algum tempo vinha sofrendo desses desagradáveis malestares, mas os familiares quase não lhe davam atenção, insistindo que era maníaca; até o médico dizia que não havia motivo algum para se preocupar.
À tarde, enquanto estava cochilando, a empregada veio anunciar o padre Quarzo, do convento vizinho dos franciscanos menores, onde Laurapaola ia sempre confessar-se. Por que teria vindo?
Bom dia, minha filha – disse padre Quarzo entrando -, estava passando por aqui para ver meus focômelos, pobrezinhos, e pensei em fazer-lhe uma visitinha. E me disseram que a senhora... Mas isso é coisa que se faça? Vamos', vamos, coragem, quero vê-Ia com saúde e disposta como sempre. Uma pessoa moderna e ativa como a senhora! Mas... a propósito... nunca mais vi aquela velhinha simpática que me abria a porta.
- Nem me fale, padre - respondeu Laurapaola. - Era velha demais, não entendia mais nada, não fazia mais nada, direito; tive de mandá-Ia embora.
- E há quanto tempo estava com a senhora?
- Sei lá, quando nasci já andava pela casa. E creio que já estava aqui há vários anos.
- A senhora a mandou embora?
- Fazer o quê? Fui obrigada, meu caro padre. Esta casa não é um asilo de velhos...
- Compreendo, compreendo - respondeu o padre Quarzo.
- Mas conte-me, minha filha, o que fizemos neste verão?
Laurapaola começou então a falar do verão, a viagem à Espanha, as corridas, o casamento da jovem cunhada em Arezzo, depois o cruzeiro de navio até Chipre e a Anatólia.
- Um grupo simpático, imagino...
- Ah, sim, meu caro padre. Éramos oito, nem lhe conto, que dias, que alegria, que sol, nunca me diverti tanto.
Então seu marido conseguiu finalmente descansar um pouco, não foi?
- Ah, não. Meu marido não suporta o mar. E, além disso, tinha tanto trabalho, nem sei mais, congressos na França, na Suécia.
- E as crianças?
- Oh, os meus queridinhosl Ficaram no colégio, na Suíça, um verdadeiro paraíso, se o senhor visse: para eles, é como se estivessem de férias o ano inteiro.
Falava, falava, a nova casa de campo em Porto Ercole, as aulas de yoga (“Sabe, padre, a gente se sente transformada, até mesmo espiritualmente”), a próxima partida para Saas Fee, o último leilão de quadros, falava, falava, falava, seu rosto refletia a animação.
O padre Quarzo ouvia. Sentado, mantinha-se ereto como uma estátua. Não sorria mais.
- Minha filha - disse finalmente - já falou bastante, não quero que se canse - levantou-se, muito alto. - Agora vou lhe dar a absolvição.
- Como?
- Não quer, minha filha?
- Oh, não, padre ... Aliás, obrigada ... Mas não estou entendendo...
- ln nomine Patris et Filii... - começou padre Quarzo, com o rosto severo. E ela também juntou as mãos.
Foi assim que Laurapaola soube que deveria morrer

(As noites difíceis, Dino Buzzati, conto Solidões)

sábado, dezembro 24, 2011

TROUXAS



Os vídeos mostrando o “desespero” do povo norte-coreano diante da morte do querido líder e comandante supremo Kim Jong-il causaram comoção em bispos, apóstolos e semideuses evangélicos.
Se os ungidos cressem que um dia morrerão, adorariam ir para a eternidade sabendo que suas ovelhas ficariam por aqui dando cabeçadas na parede, sofrendo por terem perdido seu norte, os santos homens que sempre viveram no centro da vontade de Deus.
Kim Jong-il é o ideal de todo líder religioso. Foi amado porque tinha o poder de trucidar quem não o amasse. Os “ungidos” dizem que não podem ser tocados. Quem ousar fazê-lo está fumado com Deus. Lançam mão, também, do terrível Gafanhoto (nada a ver com o velho Kung Fu), do Devorador e de outros personagens bíblicos terríveis que são postos a serviço deles, os  Sugadores.
Há vários trouxas no mundo. Na paupérrima Coreia do Norte, criam que Kim Jong-il era líder zeloso. A favor dos bobões de lá, a falta de informação. Em nossa rica pátria uma quantidade maior ainda de tolos acredita que os “ungidos” têm alguma ligação com Deus.
Ouçam este trouxa aqui: não têm.

NOVOS TEMPOS

Ao ouvir mais uma vez o bom Femme fatale, de Britney Spears, lembrei-me de uma dupla que fez sucesso meteórico no final da década de 80 do século passado, o Milli Vanilli.
Eram dois negros pintosos, modelos, dançarinos razoáveis. Um produtor esperto tinha um bom grupo musical. O problema é que todos os integrantes eram feios. A grande ideia: o grupo toca e canta e os dois bonitões rebolam e fingem que cantam. Começaram na Europa, chegaram aos EUA e levaram um Grammy (depois tiveram de devolver).
A farsa foi logo descoberta. Muita gente sabia da falcatrua e os feiosos que cantavam acreditaram que poderiam fazer sucesso com as próprias caratonhas. Ninguém fez. Nem os bonitos que não cantavam nem os horrorosos que se achavam canários.
Britney Spears não é mais a delícia que foi. Cantar nunca cantou. Dançar? Mulher bonita se não for dessincronizada faz qualquer babaca babar (acho que se for também faz).
O tempo passou. Britney fez merda à vontade. Se vivesse no mundo em que vivemos estaria acabada. Mas não vive. A doida ainda gera muita grana. Suas tetas ainda produzem ótimo leite.
Ela é refém de programas de computador, que corrigem sua voz e imagem. Compare a Britney Spears das capas de CD com a de fotos feitas em shows (as duas fotos que estão aqui foram feitas na mesma época).
De Britney Spears o que a indústria fonográfica usa é a imagem da jovenzinha saborosa em uniforme escolar, a lembrança da menininha do Disney Club. Todo o resto quem faz são os feiões. Os feiões de hoje, no entanto, ganham tanto dinheiro que não se importam de não aparecer.
É dura a passagem do tempo e o que era ilícito deixa de ser. O Milli Vanilli começou a ser desmascarado quando, em um show, a fita cassete engasgou e se percebeu que durante as apresentações eles não cantavam. Britney Spears e muitos outros artistas usam playback descaradamente. Ninguém se importa.
Milly Vannily hoje se daria bem.







segunda-feira, dezembro 19, 2011

VIZINHO VIRTUAL




– Quem é esse cara?
– Ahn!!! Não entendi.
– Esse camarada... esse retratinho flutuando na tela de seu computador... Quem é?
– Jotão, isso aqui é um jogo. Ele é um vizinho de CityVille.
– Não vou com os cornos dele. Por que ele está sem camisa?
– Talvez por ser vaidoso, ter um corpão e querer se mostrar.
– Não dá pra tirar ele daí?
– De jeito nenhum. Ele me visita duas vezes por dia, joga sempre, contribui no meu perfil, se hospeda em meus hotéis.
– Porra, Verinha, tira esse cara daí.
– Alfredo, você exagera com seu ciúme. Não conheço o Arthur. Nunca interagimos. É um ótimo vizinho de jogo. Ele sempre entra em minha cidade e irriga as plantações. Só isso.
– Só isso?!? Você não percebe a mensagem que ele está enviando? Que inocência é essa?
– Nunca vi o cara. Jamais interagi com ele. Ele é casado, tem filhos, mora em Salvador, adora pagode e a mulher é juíza. Sei disso pelo Facebook.
– Pare com esse negócio de “interagir”. Parece que você está dizendo que nunca transou com ele. Dá pra tirar esse cara daí?
– Dá, mas não vou tirar. É um vizinho maravilhoso.
– Vera, eu...
– Você deveria se preocupar com os vizinhos de carne e osso. Muitos de seus amigos de copo vivem me secando.
– Verinha, por favor... Os de carne e osso eu controlo, mas esse cara, sem camisa, voando na tela de seu computador, te irrigando... Por favor... Eu começo a jogar CityVille, faço tudo o que ele faz... Interaja comigo.
– Então ta, mas vou sentir falta das irrigações do Arthur.

domingo, dezembro 18, 2011

VIDA QUE SEGUE




Hoje, aqui na Serra, um homem foi assassinado. Levou três tiros e seu corpo ensanguentado ainda enfeita a rua. Morreu porque devia 17 reais a um companheiro de mesa de bar.
Há alguns anos um fratricídio ganhou as páginas das folhas noticiosas da Serra. Até na planície houve comoção. A história é mais comum do que se imagina.
Um casal, ele português, ela brasileira, fez fortuna à custa de trabalho duro. Começaram juntos no balcão de uma padaria que depois compraram. A primeira de quatro. Os filhos, dois deitões e uma deitona, cresceram à sombra do barranco.
Os velhos enriqueceram, visitaram a terrinha algumas vezes (os filhos preferiam a terra do Pato Donald) e, por fim, aposentaram-se. Os negócios já não iam tão bem como no passado e os velhos sabiam que tinham feito bobagem na criação dos filhos: eram incompetentes, indolentes, inúteis, perversos. Venderam tudo que possuíam.
Pouco tempo depois, a velha morreu. O pai, cansado de ser sangrado pelos pimpolhos quarentões, resolveu dividir o que amealhara em toda a vida de trabalho. Reuniu os abutres e distribuiu a carniça. Despediu-se sem abraços, voltou para Portugal, esperançoso de jamais voltar a ver a prole.
Três anos se passaram. À beira da merda, os filhotes recebem a alvissareira notícia da morte do velho. Econômico, o velho ainda deixou dinheiro em uma conta bancária. Divide daqui, divide dali, um dos irmãos se sentiu lesado e assassinou o outro.
Mata-se por muito ou pouco dinheiro. A quantidade é irrelevante. O zé mané que morreu aqui na Serra por causa de 17 reais foi dessa para a pior porque devia e se negava a pagar. O matador está preso e lá ficará até o próximo indulto do dia das mães.
O fratricida fez o que fez porque entendeu que o irmão o lesara em alguns merréis. Não trabalhou por nenhum centavo das merrecas da contenda, mas se achou logrado. Matou, e daí? Está solto. Na prisão ficou menos de dois anos, Dinheiro não tem mais. Repassou pata os advogados.
A irmã não vive mal. Casou-se com um bom rapaz. Ele lhe dá uns cacetes de vez em quando, mas há dinheiro para gastar. O casal tem dois filhos jovens. Para azar dela, são em tudo semelhantes a ela e aos irmãos. É vida que segue. 

segunda-feira, dezembro 05, 2011



Fátima Bernardes deixa hoje a bancada do Jornal Nacional. Oficialmente, participará de um novo projeto jornalístico criado por ela mesma. Sairá, por isso, do noticiário de maior prestígio da Globo.
Não creio nesta versão. Em minha opinião, Fátima Bernardes sai, com toda pompa, por causa da idade.
A primeira TV fechada que assinei foi a TVA. Tinha acesso por ela à TV pública portuguesa, a RTP. Impressionavam-me as apresentadoras de telejornais idosas. Estranhei, no início. Nas madrugadas assistia noticiários da África portuguesa e, de novo, curtia o saudável amadorismo dos telejornais. Depois mudei para a SKY e à disposição havia o SIC, canal que replica a Globo.
Aqui é diferente. Homens podem apresentar telejornais até ficarem gagás. Mulheres, não.

quinta-feira, novembro 03, 2011

ESSES TRADUTORES


Leio Gomorra, de Roberto Saviano. O livro foi escrito em italiano e a tradutora, burrinha, insiste em verter a expressão “centro commerciale” para “centro comercial”. Será que a tapadinha não sabe que o correto, em Português, é “shopping center”.

TITE VIVE

Artur Xexéo lembrou em sua coluna em O Globo que ninguém mais é "diferente". "Diferenciado" é o vocábulo usado pelos "letrados". O jogador é diferenciado, o enredo é diferenciado, a atriz é diferenciada.
Fernando Calazans foi na onda de Xexéo e lembrou que o verbo continuar também caminha para a extinção. Jornais preferem escrever "Fulano segue líder" em vez de continua.
Observo que líderes religiosos adoram "experienciar" em lugar do vetusto e respeitável "experimentar". Quem experimenta é o infiel, crente experiencia. 
Pior é que quem usa essas bobagens acha que está abafando.

OS ROLAS CANSADAS



O pau comeu no 204 (não no sentido sexual). Foi briga, mesmo. Ou como preferimos por aqui: porradaria. Esta introdução é para afastar os pudicos, frescos, delicados, sensíveis, mimimis...
Sigamos. Em voz potente (porém, maviosa, sexy, acachorrada) para que ninguém perdesse detalhes do resumo da história, a apetitosa do 204 esbravejou com o marido.
- Não quero saber dela passando suas camisas.
Ela era a não menos saborosa vizinha do 302. As duas, 204 e 302, eram súcubos que minavam as forças dos machos da comunidade, assunto das mesas dos bares das redondezas, sonho impossível dos rolas cansadas.
No início do que seria um quebra-quebra espetacular, a acusada dormia. O maridão àquela hora já estava amarfanhado dentro de um ônibus, indo para o batente. O carrão do casal descansava no estacionamento. Carros modernos... não andam sem combustível.
O marido acusado não fez o que todo marido sábio faz quando acusado pela mulher enfurecida: quedar-se em silêncio. Retrucou e o fez também em voz tonitruante. Talvez para mostrar macheza, atributo ainda valorizado nas camadas mais ignaras da população.
A homarada ficou feliz. Uns quatro já acompanhavam o bate-boca. Como apareceram tão rapidamente é mistério. Explico a felicidade. Todos gostamos de ouvir os dois lados de um entrevero oral. Na pré-história, havia o telefone fixo. Ouvir a conversa alheia implicava riscos. O orelhudo tinha de dar uma disfarçada, parar como se nada quisesse nas proximidades de quem estava falando e sempre corria o risco de o falador perceber e olhar torto para o curioso. Um constrangimento. O celular chegou e todo mundo começou a ouvir a conversa alheia. Mas só um lado do papo. Era necessário construir mentalmente o diálogo dos linguarudos. Uma frustração. Estamos na era do Nextel, telefones com viva-voz. Participamos de toda a conversa. “Querida, diz pra mim, essa noite eu tava demais, né não?” “Achei não, Haroldo, você é sempre muito rapidinho. Me deixou chupando dedo, de novo.” Era disso que gostávamos. Curtir a vergonha alheia.
Voltemos ao maridão acusado.
- Você pensa que manda em mim? Pedi pra você passar minhas camisas. Se você não faz tem quem faça.
A vovozinha do 301, 86 anos, sacudida, internética, orgulhosa de ter email, mas defensora ferrenha das prendas domésticas sentiu necessidade de dizer baixinho, mas não tão baixinho que a 204 não ouvisse.
- Essas jovens de hoje são mesmo desleixadas, não cuidam de seus maridos. Depois se queixam quando são largadas. Beleza não dura para sempre.
O quitute do 204 estava dentro de seu apartamento. O marido do lado de fora. Nós a ouvíamos, não podíamos vê-la. A porta estava aberta. A fabulosa ouviu a vovozinha. Do jeito que estava, saiu. Calcinha, camiseta e uma língua... Tudo muito impressionante. O Meireles mandou um Lexotan pra dentro. Só como garantia. Emprestei um Atenolol para o Raimundo. Importante desacelerar o coração. Víamos Druuna em carne e osso.
- Velha linguaruda. Cuide de sua vida. Você tratou tão bem de seu marido que está viúva.
Mulheres muito atraentes não costumam ser inteligentes. Não precisam. Homens perto deste tipo de mulher se tornam mais imbecis do que normalmente são. D. Didi não entendeu a insinuação, seu marido morreu com 94 anos, atropelado, como aquela jumenta a acusava de não cuidar bem do precioso. Antes que respondesse foi retirada da área de conflito. Ninguém queria distrações.
Até porque, neste mesmo instante, entra em cena a deslumbrante do 302. De baby-doll (depois, no boteco, um jovem quarentão diria que não existe mais baby-doll), elegantérrima, perguntou:
- Que porra é essa? Acordei com este esporro.
Um esclarecimento. Os dois casais eram amigos. Tinham o mesmo gosto refinado: adoravam pagode. Quase todos os fins de semana saíam juntos. Em algumas noites jogavam cartas, bebiam muito e ouviam música em alto volume. Meireles garantia que faziam suíngue. Quando pensávamos nisso, babávamos.
- Acontece, sua periguete, que não gostei de você ter passado as camisas do meu marido. Do meu homem cuido eu.
Estávamos magnetizados. Ouvíamos o alarido, mas não desgrudávamos os olhos das duas mulheres. Uma em frente da outra. Raios saindo dos olhos. O balanço dos peitos, rostos crispados, bundas retesadas, cabelões em movimento sensual. Raimundo não aguentou e desmaiou. Ninguém prestou socorro. A qualquer momento o inevitável aconteceria. As duas iriam se embolar, rolar pelo chão. Que dia!
- Estou muito bem servida de homem. O seu não me interessa. Só fiz um favor.
A 204 resolveu pôr pra fora suspeitas antigas.
- Pensa que eu não saco você nos pagodes. Só quer dançar com ele. Seu marido fica lá, babacão, bebendo cerveja e batucando na mesa.
- Ele não dança mas comparece. Você não disse que o seu está frio com você? Se ele não dá no couro...
O marido ia chiar, a mulher foi mais rápida. O tapa na cara cortou lábios e frase da 302. Antes de qualquer reação, nós, os rolas cansadas (menos o Raimundo que depois lamentaria ter tomado o Atenolol), pulamos nas duas para desapartar a briga. Apalpamos, apertamos, alisamos, fomos mordidos e extasiados conseguimos separá-las.
Uma semana depois estão todos bem. Menos nós, os rolas cansadas. Na mesa do bar o mais triste é o Raimundo. Cada vez que nos ouve contar o momento de glória que vivemos, choraminga: “Por que tomei aquela merda? Sabe, às vezes me dá uma vontade doida de pedir a uma delas pra me encher de porrada”. 

terça-feira, outubro 11, 2011

Anúncios sexistas

Conheço jovens mulheres que curtem a opressão machista. Uma delas me disse, depois de me contar que o namorado a fez voltar para casa e trocar de roupa: "Gosto dele. Tem pegada". Uau!!!



segunda-feira, outubro 10, 2011

CAT POWER/Chan Marshall

TEXTOS QUE LI E GOSTEI - Nada a ver, de J.R. Guzzo

O Brasil do nada a ver não é só representado pela classe política. Religiosos - líderes, não a patuleia - adoram fazer lambanças, arrumar boquinhas para filhos, mulheres e capangas para mais facilmente alcançar seus torpes objetivos. A desculpa é a mesma: "Nada a ver".

NADA A VER
J.R. Guzzo

Houve um tempo em que existiam coisas certas e coisas erradas. As coisas certas eram o contrário das coisas erradas, as coisas erradas o contrário das coisas certas, e ninguém precisava recorrer à Corte Internacional de Haia ou consultar comissões de ética para saber a diferença entre umas e outras. Na vida pública brasileira, ao longo dos últimos anos, surgiu uma terceira categoria: as coisas que não têm nada a ver. À primeira vista elas parecem tão erradas quanto o pecado original, mas, depois que recebem o carimbo de “nada a ver”, passam a desfrutar de absolvição automática e integral. Transformam-se imediatamente em atos corretos, ou pelo menos neutros; o que não se admite, em nenhuma hipótese, é que possam estar errados. Esse tipo de pirueta faz um sucesso cada vez maior no mundo oficial, sempre que alguém tem de explicar uma situação enjoada. O resultado é que o Brasil, hoje em dia, é o país do nada a ver.
Funciona assim, por exemplo: um peixe graúdo da administração pública, desses que estão em um dos 25 mil empregos para os quais as supremas autoridades da República podem·nomear quem bem entenderem, tem um parente próximo (mulher, irmão, filho etc.) que é dono de alguma empresa; essa empresa, por sua vez, ganha do governo contratos para lhe vender produtos, prestar serviços ou construir obras, às vezes diretamente na área dirigida pelo alto burocrata em questão. Na época das coisas certas e erradas, algo assim era considerado quase uma piada, em matéria de erro; só os espíritos mais audaciosos, ou desesperados, tentavam algo parecido. Não mais. Hoje, quando se dá um flagrante desses, a posição oficial do governo é dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Sim, o dr. Fulano ocupa a posição tal; sim, a empresa dos seus familiares recebe dinheiro do governo, para fornecer isso ou aquilo e – e daí? Sua mulher, irmão, filho etc. têm todo o direito de assinar contratos com a administração. Trata-se de empresários como quaisquer outros.
Participam de licitações públicas. Proibi-los de fazer negócios com o governo seria discriminação. O fato de ganharem o contrato não tem nada a ver com o fato de que há um marido, irmão, pai etc. no governo. Caso encerrado.
Ninguém mais está disposto a perder muito tempo, atualmente, montando esquemas complicados para esconder seus “malfeitos”, como diria a presidente Dilma Rousseff. Basta prestar um pouco de atenção às “organizações não governamentais” que os políticos utilizam para tocar seus negócios. Nada mais simples. Um parlamentar faz aprovar pelos colegas uma emenda mandando esse ou aquele órgão do governo entregar alguns milhões de reais a uma ONG, que em troca do dinheiro recebido se encarregaria de prestar serviços ao poder público; uma das fórmulas preferidas, no momento, é dar “treinamento”. Treinamento para quê, ou para quem? Tanto faz: qualquer invenção serve, pois ninguém vai treinar ninguém para nada. A única providência que realmente interessa é entregar a verba à ONG escolhida. Ela vai repassá-la a uma empresa-laranja, à qual caberia fazer o treinamento previsto na emenda; nenhuma tarefa é executada e o dinheiro some no espaço, sem deixar vestígio. Quando o fato é descoberto, o parlamentar responsável pela trapaça diz que uma coisa - a sua emenda - não tem nada a ver com a outra - o sumiço da verba. Tudo o que ele fez foi providenciar os recursos. Não lhe cabe fiscalizar sua aplicação - se no meio do caminho meteram a mão no dinheiro, o que ele tem a ver com isso?
A filosofia do nada a ver tem mil e uma utilidades. Serve para permitir, por exemplo, que um grande escritório de advocacia pague diárias num hotel de luxo na ilha de Capri - isso mesmo, Capri - a um ministro do Supremo Tribunal Federal. O STF não poderia julgar causas patrocinadas pelo tal escritório? Poderia, é claro. Mas as duas coisas não têm nada a ver entre si; segundo o ministro em questão, trata-se de um “assunto pessoal”. O nada a ver também serve para que grandes eminências da política nacional viajem em jatinhos de empreiteiras, banqueiros e outros magnatas - ou que recebam deles até 500 mil reais para lhes fazer uma palestra. Que problema poderia haver nisso?
A consciência do homem público brasileiro, hoje em dia, é algo que se satisfaz com pouco. E como o camelo: basta lhe dar aquele tanto de água e o bicho atravessa um deserto inteiro, sem reclamar de nada. No Brasil de 2011 é preciso cada vez menos para explicar que o erro não está errado. É só dizer: “Nada a ver”.

(Texto publicado na revista VEJA, 28/9/2011)

   

terça-feira, setembro 20, 2011

AS CORREÇÕES - Jonathan Franzen


Ao fazer comentário sobre livros gosto de ressaltar que o faço como leitor amador. A Internet é terra de ninguém. Há os que escrevem textos de qualidade duvidosa e sapecam embaixo do título nomes de escritores famosos (Arnaldo Jabor e Luís Fernando Veríssimo aparecem como autores de várias boçalidades na rede.) e existem os que ousam fazer críticas literárias sem ter qualificação para isso. (Nem só resenhas são malfeitas. Li um resumo de Hot Kid, de Elmore Leonard, com vários erros de informação sobre a história.) Dito isso, não se enganem: não sou qualificado para fazer crítica literária, mas pitaco posso dar. E é na base do gostei não gostei. De As Correções, escrito por Jonathan Franzen, gostei, e muito.
O bom e caprichoso escritor escreve, revisa o escrito e faz as necessárias correções. No livro de Franzen todos querem corrigir o rumo de suas vidas. Como alguns de nós.
Alfred e Enid são pais de Gary, Chip e Denise. Os pais são conservadores, se toleram. (Lembrei-me dos velhos de Subúrbio, de Fernando Bonassi. Bonassi pega mais pesado em seu livraço, mas, sei lá por que, associei os idosos dos dois livros. Talvez pelo rancor que os casais se dedicavam.) O filho mais velho é bem-sucedido financeiramente, mas a vida pessoal é tumultuada. Ama o dinheiro e vive em função dele. Chip, o do meio, é filho problemático, roteirista fracassado e professor que perdeu o emprego por se envolver com uma aluna. Denise, a mais nova, é famosa chef de cozinha que vê a carreira ser detonada por causa de uma paixão.
Lido o brevíssimo resumo pode-se imaginar um livro simples. Não é. Franzen constrói seu romance de maneira engenhosa, mas sem invencionices.
Os personagens são apresentados um a um; seus perfis psicológicos destrinchados; os problemas que vivem, mostrados; e o anseio de fazer as necessárias correções de rota explicitadas.
Jonathan Franzen, em 583 páginas, narra a saga de uma família bastante comum na classe média norte-americana. O americano, habitualmente, ao tornar-se adulto, afasta-se dos pais. (É uma situação tão comum por lá que o humorista Ray Romano fez muito sucesso com sua série Everybody loves Raymond. O mote era, justamente, um filho casado que tem os pais como vizinhos. A graça estava na estranheza da situação.) O que resta dessa relação, no fim de tudo, é um sentimento misto de amor e aversão. Bem primeiro mundo.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Russian Red - Fuerteventura

Lourdes Hernandez é espanhola, de Madri. Ela é também o Russian Red. Descobri-a no Scream & Yell. Adorei. Corro, agora, atrás do CD.

segunda-feira, setembro 12, 2011

MAMÃEZINHA QUERIDA

- Vadico, garoto, há quanto tempo. Tudo bem?
- Porra nenhuma. Vim da casa de mamãe. Tá naquele vai não vai. Sempre doente. Uma aporrinhação.
- Sua velha é fortona. De vez em quando a encontro pelo bairro. Setenta e poucos, né não?
- Fortona nada. Todo dia tenho de dar uma passada aqui. A Isabel fica injuriada, reclama porque eu chego tarde, não dou atenção às crianças. Se tivesse dinheiro sobrando internava  mamãe.
- Por que ela não mora com você?
- Tá louco. A Isabel nunca cruzou com ela. Mamãe estraga as crianças. Meu casamento já tá bambeando, se levo a velha pra lá, fodeu.
- Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor, disse o poeta popular.
- Júnior, você sabe que sou louco pela Isabel. São 16 anos de diferença. 36 a 20 era tranquilo, mas 48 a 32 acho que está pesando. E ela continua tão linda como sempre.
- Então, toca a vida, irmão.
- A casa da mamãe vale uma grana. Arranjo fácil uns 150 mil nela. Ela saindo num dia, vendo no outro.
- Não sei o que dizer, até porque moro com minha mãe.
- Solteirão. É outra parada. Pensei mesmo em um asilo. Tem uns baratinhos, bem razoáveis. Mas e se mamãe fica por aí uns 20 anos. Quebra minha banca. A aposentadoria dela é merreca.
- Separe uns trocados da venda da casa.
- A Isabel é uma mulher cara. Entrando esse dinheiro ela vai querer ir pra Disney. Todos os coleguinhas das crianças já foram. Ela nunca foi a um país de Primeiro Mundo. Só saímos do Brasil para Buenos Aires. Ela detestou.
- Outro dia eu estava tomando umas cervas com o Saldanha, ali no Manel. Sua mãe passou e a gente se lembrou da garotice. Íamos pra sua casa, ficávamos por lá a tarde toda. Sua mãe se desdobrava para nos atender. O Saldanha era paradão nela. “A coroa mais gostosa do bairro, Júnior”, ele sempre me dizia quando você não estava por perto.
- Feladaputa.
- Saldanha sempre foi escrotão. Ele recordou os sandubas de carne assada, a laranjada gelada. Sua mãe é especial. Era a mãe que todos queriam.
- É verdade.
- Você era o cara mais limpinho da turma.
- E era sacaneado por isso.
- Ela sempre foi uma boa mãe. Muito mais cuidadosa do que a minha, por exemplo. Criou você sozinha. Seu pai era um cachaceiro do caralho.
- O velho tinha problemas.
- Todos nós temos. Lembro quando seu pai morreu. Cercado de carinho. Isabel chorava como se o pai fosse dela. Um filho da puta que morreu dentro de uma nuvem de amor.
- Júnior, qualé?
- Nada não. Só estou pensando que, de repente, não foi tão ruim eu não ter filhos.

segunda-feira, julho 25, 2011

LIVROS QUE LI E GOSTEI - Um caderno e tanto, de Agota Kristof

Há quase 30 anos revisei Um caderno e tanto, da húngara Agota Kristof. O livro me impressionou bastante, mas por aqui não teve a repercussão merecida. Há umas semanas reencontrei-o escondido entre outros bons livros. Tirei dele a poeira e reli-o. Extasiado, procurei no Google mais sobre as obras da autora e descobri que Um caderno... é apenas o primeiro volume de uma trilogia. Fui à Estante Virtual e encomendei os outros dois volumes.
A história dos dois gêmeos deixados pela mãe para serem cuidados pela avó desnaturada é impressionante. Os gêmeos cuidam de sobreviver com armas que criam. Narrativa seca, dura, minimalista.
Segue um capítulo de amostra. Gostaria de alertar que a única orientação acatada por mim de meu mentor, o reverendo Peff, foi a de jamais emprestar livros. Os conhecidos não gastem meu tempo com esse tipo de súplica.

EXERCÍCIO DE ENDURECIMENTO DO ESPÍRITO
A Avó nos diz:
- Filhos de uma cadela! As pessoas nos dizem:
- Filhos da Bruxa! Filhos da puta! Outros dizem:
- Imbecis! Vagabundos! Perebentos! Porcos! Jumentos!
Canalhas! Carniça! Cagões! Piratas! Raça de assassinos!
Quando escutamos essas palavras, nosso rosto fica vermelho, nossos ouvidos ficam zumbindo, nossos olhos piscam, nossos joelhos tremem.
Nós não queremos mais nem tremer nem ficar vermelhos, nós queremos nos habituar aos insultos, às palavras que ofendem.
Ficamos sentados à mesa da cozinha, um em frente ao outro e, nos olhando bem nos olhos, disparamos palavras cada vez mais atrozes.
Um diz:
- Bosta! Olho do cu! O outro:
- Puto! Fodido!
E assim continuamos até que as palavras não penetrem mais no nosso cérebro, nem sequer nos nossos ouvidos.
Fazemos este exercício mais ou menos uma meia hora por dia, depois vamos passear pelas ruas.
Nós sempre conseguimos que as pessoas nos insultem e, por fim, constatamos que isso nos deixa completamente indiferentes.
Mas há também as palavras antigas. Nossa Mãe nos dizia:
- Meus queridos! Meus amores! Meus anjinhos! Meus nenenzinhos adorados!
Quando nos lembramos destas palavras, nossos olhos se enchem de lágrimas.
Estas palavras precisamos esquecer, porque agora ninguém nos diz essas coisas e porque a lembrança que elas nos trazem é um peso muito grande para carregar.
Por isso, recomeçamos o nosso exercício de uma outra maneira.
Nós dizemos:
- Meus queridos! Meus amores! Eu amo vocês... Eu nunca os deixarei... Só amarei vocês... Sempre... Vocês são toda a minha vida...
As palavras, à força de serem repetidas, perdem pouco a pouco sua significação e a dor que elas carregam se atenua.

sexta-feira, julho 22, 2011

PEQUENA & GRANDE


No recanto da serra onde moro há duas padarias: uma grande, uma pequena. A grande vende pão a peso; a pequena, a quantidade. A unidade custa R$ 0,25, na pequena; na grande, R$ 0,34. Filas enormes se formam na porta da padaria pequena. As pessoas dizem que é porque o pão da pequena é mais gostoso. Mentira. Somos pobres, preço é importante, mas gostamos de justificar nossa escolha imaginando que o fazemos por causa da melhor qualidade do pão da pequena. O pão da grande também não é lá essas coisas, mas ela é tão maior do que a pequena que nem se abala com o brilhareco da menor.
Pão de qualidade não se encontra em nenhuma das duas padarias, mas, como já dito, não é isso que a choldra (obrigado, Elinho) busca. O pão é feito ao gosto da freguesia: cascudo, oco, farelento, grandão. Com pão os serranos são pouco exigentes, o mesmo não acontece quando se trata de música. A caminho da padaria, 6 da tarde, ouço escorrendo das janelas pérolas de nosso cancioneiro: “Canudo se deu bem. Mó moral, mó moral. Comprou um Ford. Ford. Ford. Ford”. Ford/fode, sacaram a rica relação? Na janela, envolvida pela música, ri a senhorinha. Afasto-me e meu ouvido funqueiro capta: “O Carvalho tá lá dentro. O Carvalho tá lá fora. Dentro. Fora. Dentro. Fora”. Percebe-se a genialidade do mesmo compositor.
A fila da padaria pequena está enorme, resolvo ir à grande. Um grupo dança em volta de uma mesa. Uma bunda ENORME desce até o chão. Não sei como a dona do rabão consegue levantá-lo, mas levanta-o com garbo. Lembrei-me do besouro. Li em algum lugar que com aquele corpão e aquelas asinhas o besouro não deveria voar. O inseto é um milagre. A bunduda também é um fenômeno. Ela só poderia ficar sentada.
Pães na mão, fui para casa. Sentei-me, liguei o som e antes de pôr os fones e ouvir uns roquezinhos, escutei, vindo do vizinho, um trecho do clássico retrofunque, na voz da veterana Tati Quebra-Barraco: “Entrei numa loja, estava em liquidação. / Queima de estoque, fogão na promoção. / Escolhi da marca Dako porque dako é bom!” Obra-prima.