sexta-feira, novembro 01, 2013

WANDERLEY

Nas manhãs de domingo, desço a Serra e viajo em direção ao balneário. Viagem longa. Todo percurso faço ouvindo música.
Domingo passado, ouvia Pilot e me lembrei do Wanderley, o melhor amigo que tive na juventude.
Éramos amigos e, por isso mesmo, rivais. No botão e no xadrez, eu era melhor; no futebol, eu nem chegava perto. As partidas de botão só não terminavam em porrada porque nos respeitávamos.
Wanderley era magro e alto. Comia como um cão faminto. Quase todos os dias ele almoçava três vezes. A primeira vez em sua casa; a segunda, na minha; a terceira na casa do Beto. Minha mãe oferecia: “Waderley, quer almoçar”. Ele, falso tímido; “Dona Ceceia, eu já almocei, mas vou aceitar”. Na casa do Beto, a mesma resposta.
O Pilot foi uma vitória do Wanderley em um campo em que me julgava imbatível: o de novidadeiro das novíssimas tendências musicais. Adorava ouvir os amigos dizerem: “Jeff Beck, não sei quem é. Pergunte ao Tim, ele sabe tudo de rock”. Tim era eu. Tim Maia, claro.
Wanderley, um dia, chegou lá em casa e mandou:
- Tim, você conhece o Pilot?
Pensei: “O feladaputa me pegou. Sei lá quem é Pilot”.
O que disse foi diferente:
- Já ouvi falar.
Ele se levantou e pôs o disco pra tocar. Adorei, mas mantive um ar de indiferença.
- E aí, Tim, o que achou?
- Não é ruim.
O safado riu, sabia que tinha me acertado. Ainda coloquei umas novidades para ele ouvir, mas nada que chegasse aos pés do Pilot.
Ele levou o disco (como nos respeitávamos, não emprestávamos discos um para o outro) e a música do Pilot ficou no meu cérebro. Procurei o disco por toda a cidade e nada. Descobri que era um grupo canadense de relativo sucesso (não havia Google, pesquisar era difícil). Um mês de busca aguçou minha vontade de ouvir outra vez o Pilot. Wanderley não tocava mais o Pilot, esperava que eu pedisse.
E eu pedi, quase supliquei:
- Deley, onde você comprou essa porra de disco. Não encontro em lugar nenhum.
Ele deitou:
- Então, você gostou?
- Gostei – admiti derrotado.
- Comprei num balcão de saldos em Madureira, na galeria do Madureira 1.

Humildemente fui até lá, comprei o disco e fiz o babaca feliz.

segunda-feira, setembro 16, 2013

O pior lugar do mundo para ser gay


Vi no GNT um documentário que me impressionou. O nome: “O pior lugar do mundo para ser gay”. Foi idealizado por Scott Mills, que tem um programa de rádio na Radio 1, da BBC. Ele é gay e resolveu visitar a Uganda, na África, país onde ser gay é péssimo negócio.
Em Uganda, conversou com gays e com pessoas que detestam homossexuais, não por acaso, a maioria esmagadora da população.
Há um jornal, o Rolling Stone (parece sacanagem, mas não é), que relaciona gays e publica os endereços onde eles vivem. O editor do jornal conversou com Mills e defendeu sua posição de caçador de gays com um sorriso nos lábios e argumentação paleolítica: “Gays são pedófilos. O homossexualismo reduz em 25 anos a vida de seus praticantes. Os gays destroem a sociedade”. Jumentices ditas com muita delicadeza, o que assustou Mills.
O radialista estranhou a ojeriza a gays dos ugandenses. Pesquisou para buscar as causas. Descobriu que a aversão é relativamente recente. Ela chegou com missionários cristãos que a repassaram para os pastores da terra. Mills, então, foi conversar com um notável líder evangélico. A conversa ficou tensa quando ele confrontou o religioso com sua condição de gay.
Mills reuniu-se com um grupo de jovens e assombrou-se com o radicalismo antigay da garotada. Papeou também com uma mulher, lésbica, que vive escondida, longe de sua cidade. Ela precisou fugir depois que a denunciaram como gay.
Antes de viajar, Scott Mills encontrou-se, na Inglaterra, com um ugandense que fugiu de seu país depois de ter sido denunciado por ser gay. O autor da denúncia, um amigo, foi torturado até revelar nomes de gays que conhecia. A prática é comum em Uganda.

David Bahati é deputado. É dele o projeto de lei que pune com prisão perpétua o praticante de relação gay. Se for pego uma segunda vez, o gay será condenado à morte. Desde 2009, Bahati tenta empurrar seu projeto. A grita internacional foi grande, mas em 2012 a lei antigay andou. Em 2013, ela pode ser aprovada (mas isso não é o pior, duro é vermos um país considerando seriamente essa hipótese).
Bahati acedita que se seu projeto for aprovado, os próprios pais entregarão seus filhos à polícia.
Na entrevista, quando Mills diz a Bahati que é gay, o deputado, imediatamente, encerra a entrevista. O motorista que conduz Mills o alerta a sair dali o mais rapidamente possível. Bahati chama a polícia a fim de confiscar as fitas da entrevista que dera a Mills. A sorte e sua condição de cidadão britânico permitem a Mills sair do país.

Vale a pena ver esse documentário no GNT.

segunda-feira, setembro 09, 2013

ATACANTE


Atacante brilha na partida. Faz gol de placa, dá passe (ou faz assistência, como preferem os antenados) milimétrico para o segundo tento e marca implacavelmente, livrando seu time de situações difíceis. O time que defende perde o jogo, a crítica, no entanto, garante que ele, Atacante, teve atuação brilhante.
À beira do gramado, o repórter:
- Atacante, você jogou uma enormidade. Infelizmente, a vitória não aconteceu. Como você se sente?
- Então, é verdade. Eu trocaria o gol que fiz, a assistência, a boa atuação... tudo pela vitória de meu time. Saio daqui arrasado. Prefiro não jogar tão bem e ver meu time vencer.
Atacante não contava com o avanço tecnológico e seu uso a serviço da indiscrição. A emissora lançava naquele dia a ETM (Engenhoca Tradutora de Mentes). O dito dava lugar ao pensado. No rádio ouviu-se o pensamento de Atacante e não o que ele disse.
O repórter perguntou:
- Atacante, você jogou uma enormidade. Infelizmente, a vitória não aconteceu. Como você se sente?

- Então, é verdade. Joguei muito. Caraio, brilhei, parecia Cristiano Ronaldo. Espero que esse jogo passe lá fora. Sonho jogar na Europa, na Ucrânia, na Casa do Cacete, qualquer lugar bem longe daqui. Tô cagando pro time. Pode perder todas, se eu continuar batendo esse bolão, mês que vem tô fora”.

domingo, agosto 25, 2013

GUITARRISTAS IMAGINÁRIOS



Na França, havia o campeonato de arremesso de anões (proibido por ofender a dignidade dos pequenos que, no entanto, lutaram – e perderam – na justiça pelo direito de voar); Ron Matt, de 46 anos, venceu, em 2012, o campeonato internacional de cuspe à distância, em Michigan, nos EUA (ganhou com lançamento de 21m); a cidade de Brno, na República Tcheca, promoveu corrida de carrinhos de bebê (com os bebês dentro dos bólidos). O ser humano tem imaginação, logo, há de tudo.
A Finlândia, país rico, com o melhor sistema educacional da Europa, exagera em excentricidades. Lá, desde 1992, é sediado o campeonato mundial de carregamento de esposas (o homem carrega a esposa por 250m vencendo obstáculos). Em 2000, surgiu, também por lá, o primeiro campeonato de arremesso de celulares (o novo recorde mundial foi alcançado ano passado, um Nokia – produto local – atirado a 101m). Nenhum campeonato bizarro realizado na Finlândia, contudo, tem mais sucesso do que o de Air Guitar.
Na cidade finlandesa de Oulu, desde 1996, o certame que decide quem é o melhor tocador de guitarra imaginária faz sucesso. Começou modestamente, hoje é a maior atração turística da cidade. O campeonato é coberto mundialmente. Publicações como o Time e o The New York Times abrem suas páginas para os guitarristas imaginários.
“O campeonato surgiu, obviamente, como uma piada; afinal, a ideia de tocar uma guitarra imaginária é, por natureza absurda e sem sentido, mas Oulu é nosso Vale do Silício, o local onde todos sabem o valor das chamadas loucuras criativas, onde se aprende que idéias aparentemente absurdas podem se transformar em grandes iniciativas. E foi o que aconteceu. O evento cresceu enormemente, ganhando a atenção internacional desde que a Time fez sua primeira cobertura, em 2001. Hoje, Oulu é conhecida como a capital mundial da air guitar, um grande marketing para a cidade, que ganha com a propaganda e com os cerca de dez mil turistas atraídos para o evento anualmente”, declara Hanna Jakku, diretora e uma das criadoras do evento.
A versão 2013 do campeonato foi vencida pelo norte-americano Eric Melin. (UCS)

(Fonte: Heróis da guitarra invisível, O Globo, p. 1, Segundo Caderno, 23/8/2013)


quinta-feira, agosto 22, 2013

UM ESQUISITO MUITO ESPERTO



David Rees era humorista político. E dos bons. Desde os atentados de 11 de setembro Rees criticava George Bush. Seus quadrinhos “Get your war on”, no entanto, chegaram ao fim com a vitória de Barack Obama nas eleições de 2008.
Rees falou a O Globo: “Não tinha mais o personagem Bush para brincar, e eu queria fazer algo menos intelectual e mais manual”.
Sempre apaixonado pelo lápis, seu principal instrumento de trabalho como desenhista, sua profissão futura parecia estar encaminhada. Trabalhou antes como recenseador. Preenchia os formulários munido de lápis e apontador.
“Foi como voltar no tempo. A sensação era a mesma que sentia quando ia à escola. Assim que acabei o recenseamento decidi abrir meu próprio próprio negócio: apontar lápis”, diz Rees.

Rees preparou-se e especializou-se em várias técnicas para apontar lápis. (Nós, os mais idosos, imaginávamos que havia apenas uma técnica: enfiar o lápis no buraco do apontador e girá-lo. Os não tão novos ignoram o que é lápis e apontador; usam lapiseira. Os novíssimos não sabem mais usar esses instrumentos rudimentares.)
Hoje, David Rees tem ateliê no Vale do Hudson, em Nova York, e vai muito bem.
“Entre meus clientes há artistas, professores e mães que querem que os filhos cheguem ao primeiro dia de aula com lápis perfeitos. Mas há quem veja meus lápis como esculturas e prefira exibi-los na prateleira.”
David cobra entre 35 e 40 dólares para apontar lápis, que são entregues em tubinhos de plástico e com certificado de garantia. Entre os clientes de Rees, a escritora Elizabeth Gilbert (Comer, rezar e amar) e o cineasta Spike Jonze (Quero ser John Malkovich).
David Rees me inspirou. Já penso em abandonar o jornalismo e me transformar em vinyl cleaner.

(Fonte: O excêntrico Sr. Lápis, O Globo, Caderno Ela, p. 3, 25/5/2013)


quarta-feira, julho 17, 2013

XAVASCADA


Gosto muito de Luiz Alfredo García-Roza. O autor de romances policiais. O filósofo, eu nem conheço. Discussões filosóficas estão além de meu cérebro de cinco neurônios.
A ambientação dos romances de Roza é Copacabana. Espinosa, o detetive com nome de filósofo, não costuma atirar em ninguém, curte literatura e resolve os casos, muitas vezes, com ajuda do acaso. Dos cinco livros que li de Roza, Espinosa estava em quatro.

“O silêncio da chuva” foi o primeiro romance publicado de Roza. Ganhou o Jabuti e o prêmio Nestlé de 1997, mas nada disso me impressionou. Não me tornei fã de Roza por causa dos prêmios que recebeu. O que me tornou um leitor assíduo de seus livros foi a solução que ele encontrou para punir o vilão-sequestrador no final de "O silêncio...". Com uma surra de xavasca, a vítima (indefesa?) aniquila seu algoz. Sensacional. Recomendo.

segunda-feira, julho 08, 2013

AMOR & ACASO


Há histórias de vida que parecem roteiro de filmes.
Glenn Greenwald é norte-americano. Em 2000 veio passar as férias na América do Sul. Pretendia ficar cinco dias no Brasil e cinco na Argentina. Ficou os 10 por aqui. Até hoje nunca foi à Argentina. Depois dessa primeira vinda, passou a visitar o Brasil anualmente.
Era advogado nos EUA e os atentados de 11 de setembro, como ele diz, “trouxeram graves consequências para a vida comum americana, atingindo de forma cruel os direitos individuais, entre eles, a liberdade”. De saco cheio das bushadas, alugou um apartamento no Rio onde pretendia ficar uns dois meses. No segundo dia de licença conheceu David Michael dos Santos Miranda. “Nos apaixonamos imediatamente. Isto nunca tinha acontecido em minha vida”. O amor, sacumé.
Os dois resolveram ficar juntos. O governo americano, no entanto, não dava cidadania em caso de relação homossexual. Para ficar com David, Greenwald veio para o Brasil.
Sem saber o que fazer para ganhar a vida no Brasil, Greenwald resolveu iniciar um blog para protestar contra os abusos aos direitos humanos perpetrados pelo governo Bush. O blog cresceu, ele escreveu alguns livros, ganhou credibilidade, virou colunista do inglês The Guardian e foi contatado por Edward Snowden, o homem que resolveu mostrar o que todo mundo já sabia: os EUA espionam todo o mundo das formas mais escabrosas.
Greenwald publicou os artigos que arrancaram a máscara de Obama e seus acólitos e se transformou em celebridade mundial. Tudo por causa do amor e do acaso.
Não dá um lindo drama romântico?
Brevemente, você verá nas telas de um cinema pertinho de sua casa.
(Li em O Globo)

domingo, junho 23, 2013

BOLAS AO VENTO


Quando menino, corria peladinho pelas quebradas da Serra, nariz escorrendo catarro... Mergulhava nas águas barrentas do Rio Everest, nadava até a ilhota de entulhos e punha-me a pensar na vida. Imaginava a Serra governada por pessoas eleitas por toda a comunidade. Essas pessoas, obviamente, se organizariam em grupos com ideias afins. Estas ideias seriam expostas à comunidade que escolheria os portadores das melhores a fim de que estes as implantassem por um período de, vamulá, quatro anos.
Depois de eleito, o grupo trabalharia sem ser atrapalhado pelos adversários. Estes adversários, se pudessem, deveriam, inclusive, ajudar os oponentes. Sacumé, pro bem do povo, como todos gostam de dizer. Só se voltaria a falar em eleições bem pertinho da próxima.
Como criança é simples, tosca e imaginosa, em meus delírios (acho que era efeito de minhas bolas ao vento) via os grupos adversários se reunindo periodicamente para pensar no que deveria funcionar muito bem, independentemente de quem ocupasse o Barraco Branco: saúde, educação, segurança e transporte. Investimentos e providências para manter funcionando bem essas quatro áreas não seriam interrompidos.
Fui uma criança primitiva, cheia de pensamentos selvagens e tolos. Não sabia ainda da boa disposição de todos nós, seres humanos, de empurrar para o outro a responsabilidade pelos malfeitos. Vovó e eu caçávamos ratazanas no lixão e ela sempre me dizia: “Esqueleto, filho feio não tem pai”. Estava certa. Essa frase de vovó e uma outra, do Bochecha (“Farinha pouca, meu pirão primeiro”), me fizeram perder a inocência.
Daí pra frente passei a andar vestido. Nunca mais bolas ao vento.

sábado, junho 22, 2013

MEMÓRIA LIBIDINOSA

Nada mais poderoso do que a memória libidinosa.
Livros e bons filmes, passados alguns meses, esqueço.
Mas a sacanagem e a libidinagem apreendidas na remota adolescência são inesquecíveis.
Baixei pelo Dreamule o clássico de Salvatore Samperi, Peccato veniale. Vi o filme há 40 anos, num poeira onde hoje está o Sambola, na Av. Suburbana. Ver é força de expressão. Devorei-o. Naqueles bons tempos podia-se entrar no cinema às duas da tarde e sair à meia-noite, depois de ver várias sessões do mesmo filme. Assisti a Pecado venial em várias sessões e em diversos dias. Tudo por causa de Laura Antonelli.
Minha mãe era leitora de fotonovelas que, em sua maioria, vinham da Itália. História com Laura Antonelli eu não perdia. Lia a Grande Hotel, da Editora Vecchi, antes de minha santa mãezinha, babando pela Antonelli.
Quando a vi em tela grande, pedi aos poderes celestes que não permitissem que jamais a encontrasse em pessoa. Tenho certeza que sucumbiria diante dela.
O Dreamule baixou quatro versões de Pecado venial. Assisti-as. Logo na primeira cena mais quente percebi um pequeno corte. Alessandro Momo, o garoto sacana que papará a cunhada no final, lava o cabelo de Laura. A cena original mostra parte dos seios da deusa. Nesta versão, a cena está cortada.
Na segunda versão, a artística cena, dentro do cinema, em que o menino safado força a mão nas coxas da cunhada é mutilada. Não aparece a cunhadinha dando livre acesso às mãos do molequinho.
A terceira versão, com legendas em sei lá qual idioma, estava completíssima. Vi, 40 anos depois, o pivete traçar Laura Antonelli em alto estilo. Não tive esse prazer há 40 anos porque o filme teve a cena final cortada pela Ditadura Militar, da qual alguns babacas sentem saudade.
Minha memória pode não ser boa para muita coisa, mas descobri que sacanagem ela armazena muito bem.


P.S.: Quando falo que o filme continha cenas de sacanagem é força de expressão. A novela das 18h, hoje, tem muito mais libidinagem do que os filmes “pesados” de outrora.

quinta-feira, junho 20, 2013

MARUJO



No Metrô, os peitos na cara do garoto. Hormônios em erupção, o moleque tentava desviar os olhos. Impossível. Os volumosos seios o encaravam, atrevidos. Por causa da situação, pensei no Marujo. Ri dele e do garoto. Eu e Marujo trabalhávamos juntos na década de 80 do século passado. Ele era a encrenca, ligadaço, quase sempre doido. Uma história contada por ele divertia a turma.
“Gordo, estava no frescão. A mina sentou do meu lado. Tinha outros lugares, gordo. Uma gracinha. Pensei, vou chegar nela. Pra não levar toco, ataquei por baixo. Dei um toque no pé dela com o meu. Ela ficou na dela. Pisei, então, com um pouco mais de força. Ela disfarçou e olhou pro outro lado. Cara, a barraca armou imediatamente. Pisei, de novo, no pezinho dela e forcei um pouco. O olhar dela cruzou com o meu. Resolvi partir pra cima, mas saquei que ela estava com uma Bíblia no colo. Recuei. Minha mãe é da Assembleia, gordo. Tenho o maior respeito. Mas, aí, qualé?, essa mina tá me dando mole. É uma fiteira. Puritaninha vagaba. Santinha devassa. Calquei meu pé no dela. Ela movimentou o corpo todo. Gordo, gordo... ela tava excitadona. Aí, mermão, subitamente, me veio a luz. Se ela mexeu o corpo todo, cumé que o pé dela, embaixo do meu, estava paradão? Olhei pra baixo e vi meu pé se roçando na base da poltrona. Gordo, já ia enfiar minha mão nas coxas da mina”.

terça-feira, junho 18, 2013

BABAS


Um baba-ovo voltava todos os dias para casa na carona do chefe. Infalivelmente, perto do final do expediente, ele dizia (com sinceridade, porque legítimos babas creem no que dizem): “Está chegando a melhor hora de meu dia, quando entro no carro do chefe e ele sintoniza a Rádio Tupi FM. Só música linda e em boa companhia”.
Outra baba-ovo, todas as vezes que o chefe passava perto dela, dizia: “Chefe, que perfume é esse? Maravilhoso. No senhor, então, é demais. Combina perfeitamente com o senhor”. Ela só nunca disse que o cheiro natural do chefe era magnífico, talvez por receio de ele chamá-la para dançar e ela não ter coragem de negar.
Um terceiro baba-ovo aguardava o chefe no portão da empresa. Ao avistá-lo, ia em sua direção, pegava a pesada pasta que o feitor carregava e a depositava carinhosamente sobre a mesa dele. Celeremente, perguntava à razão de sua existência se havia se alimentado. O líder sempre dizia: “Que nada! Saí correndo da repartição”. O baba suspirava, revirava os olhinhos e voava para a cantina a fim de comprar a papinha de seu senhor. Nunca soubemos se os dois dividiam uma cama depois do expediente.

segunda-feira, junho 17, 2013

CHEFES


Um chefe era revolucionário. Nas manifestações contra a ditadura militar, segundo ele mesmo, atirava coquetéis molotoffees (era assim que ele falava, pensando nas balas Toffee). Do molotov, claro, o cascateiro nunca chegou perto. Nós, a patuleia, ouvíamos seus relatos dos tempos em que era um rebelde e fingíamos respeito, admiração e surpresa pela bravura de nosso comandante. Não nos recrimine, eram expressões legítimas de saudável puxassaquismo.
Outro chefe acordava de manhã e ordenava a seu intestino: “Cague!” E o intestino cagava. Enquanto obrava, a mulher e os três filhos entravam na sala do trono a fim de tratarem da agenda do dia. A música de fundo para a reunião familiar vinha da Rádio Tupi FM. Musak, claro. Tudo isso o chefe contava para nós, plateia cativa. Quando ele saía da sala, rolávamos no chão de tanto rir.
O terceiro chefe se entendia estrategista. Um maximizador do tempo. Trabalhávamos em dupla. Solitariamente, ninguém produzia. O chefe, então, ordenava: “Mesa 2: mijar”. E mijávamos. Mesmo sem vontade. Ele virava-se para outra dupla e determinava: “Mesa 3: relaxar. Passeio completo no corredor”. Imediatamente, dois barbados, lado a lado, levantavam-se e passeavam pelo longo corredor da falida Bloch Editores. Ainda bem que ele nunca pensou em nos fazer caminhar de mãos dadas.

quinta-feira, junho 13, 2013

BOM TEMPO



Religião é parada estranha, no entanto, sempre fui religioso.
Na pré-adolescência, influenciado pela umbanda, religião de meus pais, acendia velas por qualquer motivo. Se queria alguma coisa, antes de me esforçar para conseguir o que desejava, prometia a uma entidade qualquer um determinado número de pacotes de velas.
Antes de entrar na escola, todos os dias, iluminava a Igreja Perpétuo Socorro com as velinhas. O filminho na Praça S. Pena era precedido por uma passadinha na Igreja Santo Afonso. No dia em que quase incendiei a casa onde morava, resolvi parar com aquela babaquice, mas logo vieram outras.
Antes de umbandista, fui católico. Ia à missa na Igreja de São Cosme e Damião. Era uma tortura. Tem de ter saco de filó pra aturar missa. Sessão de umbanda, não. É uma delícia. Pelo menos para mim, era.
Em dias especiais meus pais me levavam ao Centro. O casarão branco de d. Belinha se destacava na Teodoro da Silva. Subíamos uma escadaria para chegar lá. Embaixo, o campo do América (hoje, o espaço é ocupado pelo Shopping Iguatemi). Nós, crianças, ficávamos em um salão na parte de cima da casa. Éramos convocados quando iniciava a gira de crianças.
As sessões eram animadas porque havia movimento intenso e as crianças incorporadas em adultos nos divertiam demais. Pense em alguém seriíssimo comportando-se como criança birrenta. Era isso que rolava.
Minha tia Janete era a criança mais bonita e alegre (Zarara, se não me falha a memória). D. Leonor, uma vovozinha simpática, a mais chata. Ela enchia a boca de doces, cuspia-os de volta na mão e os passava na boca dos incautos. A diversão era ficar longe dela e sacanear os desprevenidos.
Ver minha mãe se comportar como criança era estranho e hilariante. Quando ela recebia Tia Rosa, era uma velha; montada por Sete Caveiras, sinistra.
Num canto do terreiro, no castigo, quase sempre ficavam médiuns que estavam se desenvolvendo e faziam alguma lambança antes de aparecer na sessão (faltas, bebidas etc.). No Centro da d. Belinha, ficavam no cantinho, ajoelhados, e não podiam se levantar. Quando desobedeciam, o espírito incorporava e os jogava no chão. Impressionante. A relação dos indisciplinados era cheia de figurinhas repetidas: meus tios Zeca e Arari, Alcides e Moacir.
Lembro-me de ter visto o Alcides, um negão de 1m90 e mais de 100kg, sendo atirado de um lado pro outro, dentro do terreiro, por forças invisíveis. Naquele dia deve ter feito merda grande.
Aos vinte anos ingressei em uma igreja evangélica. Foi uma boa decisão, mas perdi muita coisa da vida, desnecessariamente. Afastei-me de amigos, família. Não responsabilizo ninguém. Culpa de minha ignorância. Isso, lamentavelmente, só sei agora.

terça-feira, junho 11, 2013

MACISTES

Meu irmão foi fazer um cateterismo. Junto com ele foi o seu Paixão: 84 anos. No consultório, a recepcionista distribuiu os crachás: acompanhante, Chumbinho; paciente, seu Paixão. O velho lobo do mar esperneou: “Peraí, menina, sou acompanhante. Eu trouxe o garoto”.
A televisão de casa pifou. A religião que sigo me impede qualquer envolvimento com técnicos de qualquer coisa, por isso... Minha abastada mana cedeu-me generosamente o aparelho de sua biblioteca. O quebrado de casa, um Philips de tubo, 29 polegadas, mais pesado do que bigorna de desenho animado, precisava ser descartado. A santa sogra encontrou alguém para ficar com a TV.
Seu Joaquim, 75 anos, esquálido, se apresentou para pegar o bloco de concreto. “O senhor trouxe algém para ajudá-lo?” “Cadê a TV?” “O senhor não vai agüentar. As escadas...”
O velho maciste abraçou a TV, desceu as escadas, jogou-a no ombro e lá foi como se carregasse algodão.


sexta-feira, maio 24, 2013

FILHO DE ODIN

Se Thor não fosse filho de Eike Batista, a história do atropelamento do ciclista estaria esquecida. Quem ousará me contestar?
Um bombeiro amigo da família enlutada, segundo importante voz da mídia golpista, O GLOBO, percebeu uma oportunidade de negócio ao ver o exagerado movimento por causa de um atropelamento. Apresentou-se como intermediário da família e levou R$ 100 mil por ser sagaz negociador. Um bom dindim, pelo menos para mim que sou homem humilde e de poucas posses.
Milionários acham que podem resolver tudo com dinheiro. Estão cobertos de razão. Os advogados de Eike puseram uma milha sobre a mesa para ser repartida com os envolvidos. Tia, companheira, advogado e bombeiro amigo racharam a bufunfa. Corações apaziguados, justiça feita, bolsos cheios, é vida que segue.
O combinado era que todos ficassem de boca fechada. Quem falasse comeria toda a porcaria do mundo e, pior, pagaria multa de R$ 500 mil. Alguém falou, claro.
Os representantes da elite dizem que eles não foram.
O advogado dos desfavorecidos afirma que quem vazou para a imprensa foi o outro lado, interessado em satanizar a família do morto, e prometeu que processará Eike. Quer a multa e mais um qualquer para juntar aos 250 contos de réis que já levou, sempre segundo informação de O GLOBO (18/5/2013).
Longe de mim condenar a posição da família. Gostaria de acreditar que agiria de maneira diferente se passasse por situação semelhante, mas... Para Eike R$ 1 milhão é troco. O pimpolho Thor será liberado cedo ou tarde. Não haverá “justiça”. Então, é inteligente e típico de sobreviventes e espertos aproveitar a situação. Com dinheiro no bolso perdoa-se mais facilmente.
Agora, o que não consigo é perdoar Luma de Oliveira. Por que a deusa não pariu duas meninas que eternizassem sua linhagem?

quinta-feira, maio 23, 2013

DADAU

Gosto de dar nó em mentes de três neurônios.
Na padaria, pães franceses e carecas. Fila grande, o povo serrano só vai de francesinho. Mais barat, sacumé. Eu, comedor de sardinha e arrotador de garoupa, peço três carecas (pães, claro).A moça me olhou, expressão apatetada, cara de dadau, surpresa com o inusitado pedido. Desviou o olhar, procurou a ajuda da colega e perguntou: “Quanto é o quilo do careca?”
A outra pateta, que também não tinha ideia do preço do pão, chutou: “Basta pôr o pão na balança que ela diz”.
A dadauzinha acreditou. Largou os pães na balança e ficou esperando. Desalentada com a falta de atenção da balança, tornou a olhar para a colega e depois para mim.
Eu, conhecido pela minha tolerância com estúpidos genuínos, não aguentei: “Se a balança lhe disser o preço dos pães, sem você digitar nada nesse tecladinho, se prepare pra correr atrás de mim porque vou roubar essa preciosa”.

sábado, maio 18, 2013

FESTA



- Rolou um festão, ontem, na casa da Glória. Você foi convidado?
- Que festa, maluco? O filho dela foi atropelado. O enterro é hoje à tarde. Deve ter sido o movimento da parentada que você viu.
- Esquisito. Estava todo mundo rindo. Aquele cara que está com ela soltou morteiros na varanda. E era tardão.
- O garoto estava na calçada. O mauricinho veio em alta velocidade e pegou o rapaz. Morreu na hora. E parece que o playboy estava bêbado.
- Entendi nada. Só se a Glória não estava em casa. Sei lá, providenciando alguma parada.
- O pai do cara, aquele ricão, Erasmo Valadares de Assunção, o Eva, veio aí, conversou com a família.
- O atropelador é filho do Eva?
- É.
- Saquei. Se fosse meu o filho atropelado, também comemorava.

ENCONTRO


- Vamos sentar naquela mesa no canto.
- Surpreso com o convite?
- Estou. Há uns 20 anos não te vejo.
- Encontrei o Sarmento, pedi seu e-mail e te convidei pra esse almoço. Não sabia se você viria.
- Por que não? Fiquei curioso.
- Nossa história... Não terminou bem.
- Vanda, por muito tempo eu tive raiva de você. Hoje, não. Depois que você saiu de minha vida eu a recoloquei nos trilhos.
- Então, eu te atrapalhava?
- Não é isso. Quando começamos o namoro, tínhamos 15 anos. Aos 15 anos eu queria ser comerciante, dono de padaria. Mamãe achava um horror e você, também. Fiz faculdade submisso à vontade de vocês.
- Na época que começamos a namorar você era padeiro.
- Auxiliar. Mas, tudo bem. Namoramos, noivamos, marcamos casamento. Concluí meus estudos, penei para conseguir escola, ganhava uma miséria. Dois meses para o casamento e você terminou tudo.
- Me apaixonei. Enlouqueci. Nunca havia namorado outro cara sem ser você. Aos 23 anos a gente é impulso.
- Você sabe que por uns três anos acompanhei sua vida de longe? Pensava que talvez seu relacionamento não desse certo. Se acontecesse eu estaria por perto, pronto para uma nova tentativa.
- E não deu mesmo.
- Não sabia. Mamãe morreu exatos quatro anos depois que você me deixou. Ia bem como professor. Não ganhava mal. Detestava dar aula, mas era bom. De qualquer forma, estava sozinho. Não havia necessidade de continuar fazendo o que fazia. O dinheiro que guardei mais a venda da casa de mamãe foi o suficiente para comprar uma padaria. Aquela da pracinha, onde comíamos pão doce quando saíamos da escola. Foi meu último ato associado a você.
- Realizou seu sonho. É dono de padaria.
- Três padarias, um mercado pequeno e dois bares. As padarias são minhas. Nos outros negócios tenho sócios.
- Fico feliz em saber que você se realizou profissionalmente. E a vida amorosa?
- Um ano depois de estar à frente da padaria, me casei. Por uns cinco anos não namorei ninguém firmemente. Aliás, quase não me interessava por namoro, romance. Isabel foi entrando na minha vida devagar. Eu a via todos os dias. Era cliente da padaria. Antes de casarmos, eu já havia comprado a segunda padaria. Ela voltou da lua-de-mel e assumiu a gerência.
- Comércio escraviza muito. Eu não teria disposição nem paciência para encarar uma empreitada dessas.
- Foi dureza, no início, mas tivemos retorno rápido e Isabel, filha de portugueses, a vida inteira esteve atrás do balcão. Ela é filha do seu Figueirinha, do boteco, lembra?
- A galeguinha, claro. Era uma menina linda.
- Continua muito bonita. Se cuida. Faz academia todos os dias. 43 anos, três filhos, 56kg, 1m65. Elegantíssima. A padaria é um luxo porque a gerentona é finíssima. Mas, e você?
- Me casei três vezes em 25 anos. Agora, estou sozinha. Sem filhos, por opção. Nunca soube o que quis. Você sabe muito bem disso.
- Esse sempre foi seu encanto, sua principal arma de sedução.
- Fiquei com o Jonas cinco anos. Acabou o tesão, fim de relação. Cheguei a sustentar o cara. Sempre fui profissional aplicada e estudiosa. Fiz carreira, mas não fiquei rica. Minha desgraça sempre foi não saber viver sozinha e sempre querer experimentar tudo. Se disser a você as merdas que fiz.
- Não é importante que eu saiba. Sou filósofo de boteco. Ou de padaria. As pessoas são o que são. Umas correm atrás de novidades, mudanças constantes. Outras preferem caminhar por terrenos seguros. Não condeno os que pensam diferente de mim. Só não tolero quando me dizem que o modo como vivo é tedioso, errado.
- Eu queria ser assim. Gostaria de me satisfazer com o que a vida me oferece, mas... Meu segundo marido era um doce. Quando me separei, pensei em te procurar. Eu menti. Sabia que você estava casado. Achei que seria sacanagem me meter na sua vida. Meu segundo marido era você. Tranquilo, determinado, seguro do que queria, apaixonadíssimo. Tão apaixonado que abriu mão do sonho de ter um filho porque eu não queria. Durante o casamento, tive uns casos, aventuras rápidas. Ele nunca soube, acho. No meu aniversário de 33 anos, conversamos e ele me pediu que engravidasse. Neguei. Mais dois anos e ele saiu de casa. Casou-se, tem duas meninas. Ainda é apaixonado por mim, ele me disse, mas adora as filhas e tem o maior carinho pela mulher.
- Filhos podem ser uma desgraça. No meu caso, são fontes de muita alegria. Tenho três. Duas meninas e um menino. Ele está com 18 e elas, 17 e 16 anos. São centrados e com personalidades distintas. É fascinante. O garoto trabalha na padaria, estuda administração. A menina mais nova está na fase de entrar para faculdade; a do meio vive em Lisboa com os avós. Figueirinha vendeu o boteco, pegou a mulher e voltou para a terrinha. A menina estuda Medicina. Ela passa um mês por ano aqui conosco e nós vamos a Portugal todo mês de janeiro. Não sei o que será do futuro deles, mas damos ótimas condições de vida e cuidamos com muito amor. Por enquanto...
- Estou sozinha. Fiquei casada alguns anos com um espanhol. Professor, como eu. O cara era um saco. Me forcei a ficar com ele. Acabei não aguentando.
- Vanda, vamulá, qual o motivo de você ter marcado este encontro?
- Ufa! Vou ser bem objetiva. Só não me leve a mal, por favor. Vou te fazer duas perguntas. A primeira: “Você ainda sente alguma coisa por mim?” Deixe-me emendar a segunda: “Você é feliz com o rumo que sua vida tomou?”
- Sim, sinto. Sou, acredito que sou muito feliz com a vida que tenho. Vanda, você foi meu primeiro amor. Dos 15 aos 28 anos eu não imaginava vida sem você. Sofri pra cacete. Sinceramente, você acha que quero passar por isso novamente?
- Às vezes, não somos nós que decidimos. O amor nos toma.
- A mim, não. Isabel sabe que estou com você. Disse a ela que viria. Ela sabe que seria importante para mim. Garanti que me encontraria com você, conversaríamos e não nos veríamos mais.
- Então, sem chance?
- Vamos seguir nosso destino. Você, inquieta, ansiosa, sempre insatisfeita e ávida por novas experiências trocará ainda de parceiros muitas vezes. Em busca do relacionamento perfeito. Não desdenho de sua opção de vida, só que somos opostos. Eu seguirei com Isabel. Meus filhos, mesmo que eventualmente me separasse de Isabel, seguiriam comigo. Temos relação estreita. Isabel é esposa, amante, amiga, parceira, sócia... Não abriria mão dela por nada.
- Como ficamos juntos oito anos?
- Éramos jovens.
- Tem um motel aqui do lado. Que tal uma saideira?
- Nossa saideira foi há 25 anos. Quando saí quis voltar; agora que sei que saí, não volto mais. Vou embora, Vanda, mas quero te pedir algo. Me dá um beijo? Beijão. De língua. Se você me beijar, enquanto viver me lembrarei deste momento.
- Beijo. Claro que beijo. Te devo isso.

terça-feira, abril 30, 2013

SAGAS INCOMPLETAS


Na década de 60, Frank Herbert lançou Duna, portentoso romance de ficção científica. Aqui no Brasil, saiu em 1984. Minha chefinha, Joseti Marques, me encarregou de fazer a leitura do livro em terceira revisão. Revisaria Duna de graça.
Seguiram-se a Duna, no Brasil, três outros romances (lá fora, cinco). De vez em quando, folheio estes livros que vivem aqui em casa há 40 anos (se fosse e-book, sei não). Antes de dar a saga por concluída, Herbert morreu, em 1986.
A Guerra dos Tronos, série de sete livros previstos, corre sério risco de não ter fim, exatamente pelo mesmo motivo de Duna (a diferença: Duna foi um romance muito melhor do que suas continuações, o que não é o caso de A Guerra dos Tronos que segue firme em alto nível).
George R.R. Martin está com 65 anos e leva cerca de cinco para escrever cada volume. Por enquanto, está estacionado no nº 5. A HBO que fez um resumão dos volumes e os transformou em série de muito sucesso, já pensa em mudar o critério que adotou (1 volume = 1 temporada) para ganhar mais tempo (1 volume = duas temporadas).
Cabe a nós, admiradores da obra de Martin, torcer para que estejamos vivos (nós e ele) quando o cara pôr o ponto final em sua saga.

INCOMPETÊNCIA


Evito assistir a filmes em versão dublada. Séries de TV, no entanto, corro das legendadas. Percebi isso, parece mentira, domingo passado.
O seriado Games of Thrones passa em versão original no HBO e dublada no HBO2, no mesmo horário. Sempre opto pelo HBO2.
A explicação é simples: a legendagem nos canais por assinatura é pavorosa. Já li, várias vezes, comentários de Patrícia Kogut, que assina uma boa coluna de televisão em O Globo, criticando o desleixo das operadoras com as legendas de suas séries. Se nem a ela, articulista do Império, ouvem...
Sintonize sua TV na Warner, no Sony, no AXN e, certamente, você verá filmes com legendas faltando, dessincronizadas ou ausentes. Canais como a Fox (que tem boa legendagem) oferecem alternativa de áudio e, mesmo assim, prefiro assistir às séries dubladas.
Um filme em som original é infinitamente melhor do que sua versão dublada, mas acabamos nos acostumando com e preferindo o pior. É um assunto corriqueiro, mas ilustra bem o espírito de nossa época: o do triunfo da mediocridade.

segunda-feira, abril 29, 2013

EGO



O pai, amargurado, chama o filho para uma conversa:
– Filho, fiz o que seu avô, meu pai, me disse que seria o certo. Fui honesto, solidário, jamais prejudiquei alguém. Não de caso pensado. Você viu aonde cheguei. Se é isso que quer para sua vida... Se não, siga em sentido oposto ao que escolhi.
O filho olhou em volta e viu o que já tinha visto: o pai era um perdedor. A vida virtuosa o levara à amargura, à autocomiseração, à pobreza e à frustração. Amigos do pai, orgulhosos de falcatruas perpetradas, viviam folgadamente.
O filho, junto com amigos, entendeu que assaltar um restaurante era boa forma de começar a carreira de crimes. Um roubo simples, escondidos atrás de bonés e óculos escuros. Seria o começo. Um erro e a morte veio. A mulher armada. Tiro certeiro.
O pai se surpreendeu. Não esperava que o filho o ouvisse. Há muito tempo ninguém o ouvia. Os amigos falavam. Impacientes, não o ouviam, ansiosos para que ele se calasse e prestasse atenção nas merdas que diziam.
A morte do filho o entristeceu. O orgulho, no entanto, sobrepujou a tristeza. Por que não acreditou que teria a atenção do filho? Não teria sido tão lacônico. Explicaria, pormenorizadamente, que tipo de desonesto deveria ser. Os grandes ladrões, as aves de rapina da humanidade eram dissimulados.
O ladrão que nunca vai para a cadeia aparenta honestidade. É religioso e o deus que adora é o EU. Desvia dinheiro de doentes terminais, flagelados das chuvas, vítimas da seca, merenda escolar, sem sentir nenhuma culpa.
Teria perguntado ao filho até onde ele estaria disposto a ir. Se percebesse hesitação no garoto o incentivaria a se preparar um pouco para participar de licitações fraudulentas, disseminar a intriga no ambiente de trabalho e ficar atento a todas as oportunidades de participar de esquemas desonestos.
Ah, por que não conversou mais com o filho? Quanta coisa poderia ter-lhe ensinado. Sabia toda a teoria. Vira tantos corruptos prosperarem.
O filho estava morto, a esposa o deixara há muito tempo. Estava só. Aos 50 anos, o que poderia fazer? A boa saúde lhe indicava que ainda viveria, quem sabe?, uns 30 anos. Perdera o filho e, antes de fazer o que deveria ser feito, pediria perdão ao pai morto.
No fundo do quintal da casa havia um quartinho sem uso. Construiria nele um altar para seu novo deus: EU. Seria tão fiel a ele quanto fora a outros deuses em seus primeiros 50 anos de vida. Os próximos 30 seriam mais prósperos.

domingo, abril 28, 2013

LOURAÇA NO SAMBA



Cá pra nós, quem vive sem amigos? Mas amigos nos deixam em roubadas indescritíveis. Como são amigos, a gente perdoa.
Tradição do Samba me convidou para uma de suas apresentações musicais. Era cantor dos bons. A música que ele cantava... Meu Deus!!!
Não ia dar pra encarar sozinho. Convoquei o Velho Roqueiro como acompanhante.
– Porra, Gordo, roqueiro em roda de samba. Ainda mais com o Tradição. A gente não se topa. Você ‘tá na bronca comigo por algum motivo?
– Velho, já fiz sacrifícios maiores por você. Chamei o Homem de Preto, mas a mulher dele embarreirou. É você mesmo.
Fomos. Tradição estranhou a presença do Velho, mas não deixou de ficar satisfeito.
– Hoje, você ouvirá boa música. Obras engendradas com sentimento.
– Ó!
O Velho, para não agredir, monossilabava.
O cenário da apresentação era o salão da casa do Tradição. Cadeiras em círculo em que descansariam as bundas dos vinte e poucos espectadores e, no centro, espaço para os artistas.
Sentamos. Do lado do Velho alojou-se uma louraça. Bonitona. Uns cinquenta anos. Uma lolita diante dele.
No centro, logo a nossa frente, o pandeirista se preparava. Retirou seu instrumento de um estojo de couro trabalhado e o acariciou com ternura. Parecia que apalpava as coxas de Juliana Paes. Os dedos tamborilavam a pele do pandeiro. Fez umas presepadas, pegou um copo de cerveja e lançou um sorriso torto para seu colega de cavaquinho. O único sorriso que vi. O grupo de samba do Tradição era seriíssimo.
Violões, cavaquinho, bandolim, pandeiro, tamborim, cuíca. Faltava o cantor.
Tradição chegou e dirigiu-se ao centro da roda.
No meu ouvido, o Velho murmurou:
– O sambeiro gosta de entrada triunfal.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! – o do pandeiro não admitia conversa.
Percebi que a turma se levava a sério. Previ aporrinhações.
– Gordo, vamunessa, vou dar um pau nesse babaca.
Tradição começou a cantar: “Bate outra vez, a esperança do meu coração...”
– Gordo, é sério, você vai ficar sozinho.
Do lado do Velho, a louraça sussurrou no ouvido do ancião.
– Não vá não. Mais pro final, melhora.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
O Velho quando se emputece fecha o tempo. Normalmente, entra na porrada. Cuidar das escoriações acaba sobrando pra mim.
– Tá legal, Velho, vambora, depois me explico com o Tradição.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
– Gordo, vamos ficar, surgiu uma situação.
Desta vez a música parou. Tradição nos deu um esporro. Falta de respeito com a música de raiz.
Desculpei-me com a plateia, o conjunto, peguei o Velho pelo braço e levei-o para fora.
– Que situação?
– Vou ver se pego a loura.
– Velho, nas duas últimas trepadas você quase morreu.
– Exagerei no azulzinho.
– Você vai morrer.
– Seria uma morte gloriosa.
Voltei para a sala, desculpei-me, novamente, e prometi silêncio.
O Velho, na orelha da loura:
– Vamos sair daqui? Tomar um chopinho e quem sabe o que mais.
Loura sacana. Piscou pro Velho e arrematou:
– Não sou assassina. Na cama, eu mataria você.
O Velho levantou-se, interrompeu o suingue de Tradição e saiu. Fui atrás dele.
- E a situação?
- Esqueça. Vou dar uma passada na Isaura. Se morrer, hoje, não me será penoso.

sexta-feira, abril 26, 2013

RATÃO


– Cardoso, você parece que come merda. Por que você sentou no lugar do Ratão?
– Sabia lá que era lugar do Ratão. Cheguei da casa da mãe, vi o movimento na quadra, lembrei do jogo do Dia dos Pais e resolvi dar uma olhada. Estava cheião, vi o lugar vazio no meio da arquibancada, fui pra lá e sentei.
– Cara, não chama a arena de quadra. O Ratão já mandou matar por causa disso.
– Arena pra mim é aquela porra de romano, grego, turco, sei lá.
– Você sentou do lado da Madá, mulher do Ratão. O lugar do lado dela é dele. Você não sabe disso?
– Sabia não. Se soubesse, cê acha que ia sentar lá. Mas fiquei longe dela. Tinha o maior espação. Não encoxei a dama, de jeito nenhum.
– Se encoxasse tava morto.
– Sei não, ela me deu umas olhadas. E, ó, ela não falou que não podia sentar do lado dela. Ninguém falou.
– Todo mundo sabe que não pode. O Ratão, quando mandou construir a arena na comunidade, avisou que aqueles dois lugares jamais poderiam ser ocupados.
– Foi a primeira vez que fui na quadra.
– Arena, caraio. Eles não querem saber disso. Se manda, ouvi um zunzunzum que vão te dar uma lição.
– Porrada?
– Matar, pra dar exemplo. A Madá ficou muito chateada.
– Do outro lado dela tinha uma mina sentada.
– O lado direito dela pode ser ocupado. O esquerdo é do Ratão.
– Vou morrer por causa disso? E se eu falar com o Ratão?
– O Ratão tá preso há três anos. Pegou um gancho de 20. Você é desligado, mesmo.
– Vou ficar na casa da minha mãe.
– O Ratão vai sair no Natal pra visitar a família. Não vai voltar, claro. Levo um papo com ele.
– Valeu.
– Agora, cai fora. Não vai nem em casa. O pessoal tá querendo mostrar trabalho. No indulto de Natal saem mais uns quatro da elite. Quem tá aqui fora precisa deixar claro pro Ratão que tem valor. Ah, se eu quebrar essa pra você, daqui pra frente procure conhecer melhor as leis da comunidade. As lá de fora ninguém respeita. Já as daqui...

POR ONDE ANDA O GUARDA-CABAÇOS?


Lá pelo final da década de 60, havia um personagem que gozava (aliás, pouco gozava) da antipatia dos jovens heterossexuais: o guarda-cabaço. O guarda sempre estava ao lado da jovenzinha mais cobiçada, não a deixava por nada, acompanhava-a por todos os cantos, principalmente na escola.
Há 50 anos este era outro mundo. Um mundo em que cabaços tinham alto valor. Mundo machista, sim, mas, em muitos aspectos, um lugar mais seguro para se viver. O mundo em que perambulava, patético, o guarda-cabaço.
O guarda-cabaço, na maioria das vezes, não era gay (não era fácil ser gay na década de 60). Era, sim, sempre, muito solícito. A dona do cabaço que guardava tinha dele toda a atenção. Copiava a matéria para a portadora do hímen a necessitar de proteção, explicava os pontos das aulas não entendidos por sua protegida e levava sempre na pasta um belisquete apreciado pela queridinha.
O que ganhavam os guarda-cabaços? A companhia das tirânicas deusinhas, certamente. Pouquíssimos papavam a protegida, que quase sempre era inaugurada por um boçal boa pinta e sem noção. Mas mesmo pros boçais bonitões a vida não era fácil. Ali pelos 15, 16 anos quase toda jovenzinha mantinha sua tampinha no lugar. Não é como hoje.
Mais tarde passei a gostar tanto da companhia feminina que poderia, facilmente, ser confundido com um guarda-cabaço. Tive algumas amigas com quem nunca me envolvi sexualmente, andava com elas para cima e para baixo, mas sem me preocupar com suas vidas afetivas. Mulheres são mais ricas, intelectualmente, do que homens. No tempo de colégio, no entanto, não era guarda nem pegador. Observava, apenas.
Estudava no Brigadeiro Schorcht, na Taquara, e via sempre a chegada de um notável guarda-cabaço e sua protegida. O amigo de xadrez era apaixonado pela menina, mas o vigilante zagueiro lhe dava poucas oportunidades de aproximação. Do grêmio onde jogávamos, via o guarda chegando com a donzela. As amiguinhas se aproximavam e ele ficava por ali, borboleta a voltear a flor. Ela saía e ele acompanhava. Na cantina, ela sentava-se à mesa enquanto o pateta buscava o lanchinho da princesinha. Se um pegador se aproximava, o empata-foda se apressava e antes de o devorador desferir qualquer engodo lá estava ele, beija-flor a bicar florezinhas, para atrapalhar. Dentro da sala de aula, sentava-se na carteira logo atrás do objeto de sua veneração. Dali vigiava os movimentos dos papões. Os guardas têm, todos, comportamento semelhante. O guarda do Brigadeiro foi derrotado. Meu amigo, persistente, pintosão e rico perdeu a paciência, atacou a menininha e deixou o guarda desempregado.
Guardadores de cabaço não existem mais. São personagens de outro mundo, outro tempo. Hoje não há mais cabaços para guardar. As que ainda os preservam sentem-se envergonhadas por isso.
Eu achava que sentia aversão pelos guarda-cabaços. Não era assim. Talvez tivesse inveja daquelas figuras que faziam tudo pelo objeto de adoração. Ganhavam da lindinha, como prêmio, um sorriso, um gesto carinhoso e de todos os outros o desprezo. Viviam sem se preocupar com a maioria, escravos apenas de seus sentimentos. Invejava-os porque sempre dei muita importância à opinião alheia, como fazem muito bem os medíocres.