Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Faça-me uma graça

Navegando pela Internet, no dorso da raposa de fogo, parei em um blog de artes & cultura. Era mais um site do que um blog. Vários colaboradores, cheio de bossas e parangolés.
Dei uma geral e vi que eles publicam textos enviados pelos leitores.
O texto tem de ser assim e assado, não pode ter saído em sites e blogs, o tamanho é este e fim de papo, se vai falar de filmes estes precisam estar em exibição, resenhas de livros, só lançamentos, decidimos se publicamos ou não o texto e não damos satisfação.
Cacomigo pensei: “Tantas exigências, se forem cumpridas deve rolar um bom cascalho”.
Porra nenhuma. Se eles gostarem de seu texto, o pagamento é se sentir honrado porque foi publicado.
De graça só escrevo aqui. Até porque não corro o risco de ter textos recusados.

Domingo, Novembro 08, 2009

Histórias da capital sertaneja


Já em idade provecta resolvi fazer curso de Letras.
Nos anos em que estudei, fiz um amigo ou outro, tinha meu grupo de trabalho com três coleguinhas especiais e usava os intervalos para tirar uma pestana.
A média dos estudantes do curso deveria estar por volta de 25 anos. Curso noturno, muita gente gramava para pagar as mensalidades.
Lembrei-me desse bom tempo a propósito do episódio da jovem de minivestido agredida com impropérios pelos colegas acadêmicos. Bom, a história rolou na capital sertaneja, o que, de certa forma, explica o bafafá.
Em minha turma, uma aluna padrão mulher filé destroncava pescoços de incautos ao passar. Sua voz era convite à libidinagem. Suas roupas mostravam bunda, peitos e o que mais couber em uma mente libidinosa. Não percebi da parte do corpo discente da universidade suburbana hostilidade alguma em relação à menina.
Uma outra, lindinha, lindinha, sempre envergava sainha curtinha e camiseta sobre a pele. Os faroletes estavam sempre acesos. Juventude, sacumé.
Quando os mestres mandavam formar rodinha para grupos de discussão, a formosurinha sempre estava sentada à minha frente. A bonitinha era agitada, balançava as pernocas sem parar. Os olhos do velho roqueiro eram atraídos para as coxas balouçantes. Não, ele jamais pensou em sapecar um safanão na safadinha.
A moça do minivestido foi expulsa da faculdade. Se este velho roqueiro entendeu os motivos, por usar vestido curto e provocar nos caipiras seus mais baixos instintos.
Que coisa!!!

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

O ALFA ROMEO


Nem passou pela cabeça de Adilson que sua alegria se transformaria em aporrinhação.
Final da década de 80, o sortudo ganhou um Alfa Romeo em uma rifa. O Alfa, quando chegou ao Brasil, trazido pela Fiat, era destinado aos abonados. No entanto, tinha tantos problemas que logo foi deixado de lado pela montadora. Sem peças de reposição e voraz bebedor de gasolina, tornou-se um abacaxi para quem o tinha comprado.
Adilson não reclamava do carro. Fora sorteado entre mil participantes e gastara míseros 10 reais (fiz a atualização de orelha porque não sou de perder tempo com pesquisas minuciosas). Estava no lucro.
No Alfa, deu umas voltas com a família pelo aprazível bairro da Pavuna, fez umas duas viagens a Nova Iguaçu e resolveu passar o bólido pra frente.
Tentou vendê-lo, ninguém quis comprar. Resolveu fazer nova rifa. Mil números a 10 reais, mesmo que não vendesse tudo teria um belo ganho.
Foi com alguns carnês na mão que ele chegou ao trabalho e anunciou a rifa. Todos os colegas, menos eu, compraram para ajudar. Ninguém queria um Alfa Romeo, o carro que nem o dr. Cascatinha deu jeito.
Old, não. Comprou dois números e anunciou: “Meus orixás estão me dizendo que vou levar este Alfa”. Um arrepio de pavor percorreu a espinha de Adilson. Ele pensou: “Não, seria muito azar. Um, entre mil”. Se pudesse recusar-se a vender a rifa, o faria, mas pegaria mal.
Dez dias depois Adilson entrou na seção com um sorriso de sofrimento: “Old, você ganhou. Aqui estão as chaves do carro. Amanhã fazemos a transferência”.
Old, sorrisão aberto, bazofiou: “Não te disse, meus orixás são fortes”. Talvez fossem mesmo, só não entendiam nada de mecânica.
Os dias rolavam e em todos os eles ouvíamos Old espinafrar o carro e, por extensão, Adílson. “Bebe que nem um pinguço”; “Gastei uma fortuna com a transferência”; “As peças de reposição são caríssimas”; “Esse Adilson, com essa carinha de bobo, é um espertalhão”; “Se aparecesse quem me pagasse o que gastei com a transferência, vendia na hora”.
Old dava essa deixa e o Padre arrematava: “Eu compro”. Old desconversava, começávamos os trabalhos e, no dia seguinte, a ladainha recomeçava.
Um dia, Adilson retrucou: “Old, você levou o carro por 10 reais mais 50 da transferência. Venda o carro”. “Mas o malandrão aí levou mil no total da rifa”, chicoteou Old. “Isso não é problema seu. Maldita hora que vendi a rifa pra você”, disse e levantou-se da mesa o não mais pacífico Adílson.
Old levantou-se, também. Ia sair porrada. Do fundo da sala, ouvimos a voz do Padre: “Eu compro o carro por 60 reais”. Old, puto da vida: “Tá vendido”. O Padre levantou-se, não para brigar, e casou o dinheiro na mesa de Old. O velho homem de imprensa não pode refugar. Aceitou.
Parecia que a novela do Alfa chegara ao fim. Nada. Todos os dias, Old perguntava pelo carro. O Padre só dizia: “Está ótimo, sábado fomos à praia nele”. Old ficava inquieto: “Por que você não vem trabalhar nele?” O Padre explicava: “Na editora não tem estacionamento. Venho de lá pra cá de ônibus e pra casa vou na carona do chefe. É mais barato e ainda vou ouvindo a Tupi FM com o homem”.
Semanas pra frente e ainda ouvíamos falar do Alfa. O Padre só elogiava o carrão. “Confortável, ar condicionado siberiano, maciez nas pistas, dirigibilidade inigualável, um carrão, um carrão”, babava. Eu, companheiro de mesa do Padre no árduo trabalho de revisão de texto, alertava: “O Old tá ficando puto com seus elogios. Ele se arrependeu da venda do carro”. O Padre ignorava meus alertas.
De repente, o assunto saiu da pauta. Quando Bigode dava uma folga (coisa raríssima), falávamos de tudo, menos do Alfa. Um dia o Padre anunciou: “Vendi o Alfa. Troquei por uma Brasília”. Old arroxeou. Ele era proprietário de uma Brasília. Nunca a trocara porque não sabia dirigir outro carro. Verdade mesmo é que nem a Brasília ele dirigia. Peguei algumas caronas de 500m que quase me mataram de pavor.
“Por que você trocou o carro? Eu vendi o Alfa pra você ficar com ele”, interpelou Old.
“O Alfa quebrou e o conserto ficaria muito caro. Na oficina, o dono me propôs trocar a Brasília dele pelo Alfa. O cara é tarado por Alfa Romeo. Aceitei. É uma Brasília creme, 1980”, cartou o Padre.
“Porra, só dois anos mais velha do que a minha”, lamentou Old.
Aí o Padre tripudiou: “Você foi muito precipitado. Um homem experiente. Um Alfa Romeo por 60 reais. O melhor negócio que fiz na vida”.
Levantei-me e saí da sala. Do corredor vi Old disparar na direção do Padre.
Bigode tentou separar, mas a porrada comeu.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Igreja: legal, mas uma droga

Converti-me em 1975.
Diria melhor se afirmasse que a partir de 1975 passei a frequentar, regularmente, uma igreja.
Experiência sobrenatural na conversão? Bom, parei de fumar naquele dia e senti um desejo imperioso de atender o chamado que o pastor fazia para que fossem à frente os que aceitavam a Jesus como Salvador e Senhor. Não, não tinha a menor ideia do que era “aceitar a Jesus” nas bases que eram apresentadas.
Se naquele dia não houvesse ido à frente, como seria minha vida, hoje? Tenho convicção de que, necessariamente, não seria pior do que é. E aqui não reclamo da vida. Deus tem sido bastante generoso comigo.
Hoje, sigo comparecendo à igreja. Não tão regularmente. Sem engajamento. Consciente de que a igreja evangélica não oferece nada de novo à sociedade. É irrelevante.
Nos últimos 35 anos, passei por todas as fases por que passam aqueles que ingressam em um sistema religioso. Entendo que vivo ótimo momento de minha vida evangélica. Posso estar enganado, mas tentarei explicar.
Meus irmãos de fé, geralmente, relacionam seus momentos mais produtivos ao início da caminhada evangélica. Sob o estrito ponto de vista da igreja local, é verdade. É tempo de paixão e ignorância. E também de muita operosidade.
O evangélico com alguns anos de estrada e que já não tem a disposição de alguns anos antes, clama, culpado, ao Senhor: “Quero voltar ao primeiro amor”. Eu, não. (O texto em Apocalipse não tem o sentido imposto a ele, mas aqui não é o melhor espaço para discutir essas filigranas.)
Quando entramos em uma igreja (os que vêm de fora, porque há os que nela foram criados) o fazemos de olhos fechados e coração arreganhado. O mínimo que esperamos encontrar é um grupo diferente daquele que deixamos para trás. Isso não acontece.
Se tenho um grande arrependimento foi o de ter deixado para trás amigos que fiz. Ninguém nos diz para abandonarmos os amigos do passado. Ao contrário, somos incentivados a evangelizá-los. Na prática, isso é impossível. Há 35 anos as programações nas igrejas eram voltadas para dentro.
Lembro-me de aos domingos, no caminho da igreja, encontrar amigos e conhecidos indo para o futebol, a praia... Oito da manhã eu estava na igreja. Depois de EBD, culto e ensaio de coro, chegava em casa às 14h, almoçava, descansava e às 17h estava de volta para só retornar ao lar pelas 23h. Durante a semana, trabalhava e estudava. Sábados sempre havia atividade na igreja. Não era desagradável. Gostava muito da agitação. Poderia, no entanto, ter distribuído melhor meu tempo. Perdi contato com amigos e família por causa disso. É o primeiro amor.
A igreja não é composta de um grupo diferente. E aqui afirmo que igreja nenhuma é. Quem está dentro diz logo para os que chegam: “Não olhe para os irmãos. O modelo é Jesus. Ele jamais o decepcionará.” Se você desprender-se do gado perceberá que sua relação tem de ser mesmo com Deus. À sua volta os santos agirão como os perdidos. Na fase da paixão, nada será percebido. O apaixonado tudo releva. É um imbecil. A esta fase da vida cristã chamam, nas igrejas evangélicas, de a do primeiro amor. Ao se livrar dela, só desejarão a ela retornar os descerebrados.
Passado o primeiro amor, a vontade é de cair fora. Se ainda não formamos vínculos com os de dentro, tomamos o caminho da rua; se ficamos, nos transformamos em cínicos.
A igreja é nosso espaço de convivência. Os amigos do passado foram esquecidos. Seus amigos, agora, estão ali. A menina que você cobiça senta-se três bancos à frente do seu. O português foi esquecido, seu idioma é o evangeliquês. O sentimento de pertencer a um grupo é muito confortável. Dentro da igreja, se somos operosos, temos prestígio. Elegem-nos para ser coordenador geral do departamento de qualquer coisa. Poder é bom, mesmo um poderzinho de nada.
Há quem pare neste estágio e nele permaneça até a morte. As estranhezas são deixadas de lado, as incoerências percebidas são varridas para um canto do cérebro.
Pouco mais da metade de minha vida evangélica, vivi neste estágio e talvez ainda estivesse nele se o acaso não me levasse, no final da década de 80, a trabalhar em uma empresa da instituição evangélica a que minha igreja pertence.
Do final da década de 80 para cá, aprendi duramente como podem ser calhordas os líderes religiosos. Há calhordice maior do que a distorção do conceito do “ungido de Deus” explorado por pastores autoritários?
Habitualmente, ia a outras igrejas ouvir pastores diversos. Participava de palestras, frequentava congressos, respeitava os “servos de Deus”. Se alguém quiser arranjar confusão comigo, nos dias de hoje, basta me convidar para este tipo de atividade. Tomei aversão.
Conheci, profissionalmente, dezenas de homens que vivem à frente de igrejas e percebi neles algumas características alarmantes: vaidade extremada, egoísmo mórbido, cupidez desenfreada, ignorância jumentina e maldade, muita maldade.
É verdade que nesses anos conheci gente admirável, mas em muito menor número do que gostaria.
Quem priva de minha intimidade, sabe que estou longe de ser modelo de qualquer coisa, mas assim como não procuro para me ensinar matemática quem sabe menos da matéria do que eu, não posso perder tempo precioso de vida dando atenção a hipócritas que só falam e não vivem.
De qualquer forma, sigo em frente e permaneço na igreja, confiante em que Deus me mostrará o sentido de todas as experiências que vivi dentro da comunidade de fé. Não desejo voltar ao primeiro amor, o da fé cega, nem ao tempo do conformismo. Quero, sim, passar a um outro estágio: o de ser parte de uma igreja relevante, sendo eu relevante, também.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Amanda Righetti


Pode ser vista toda semana no canal Warner, em The Mentalist.
A série é boa. Ela é ótima.

DISCRIMINAÇÃO


- O objetivo desta reunião é discutir ações que deem visibilidade à perseguição que sofremos. Os gordos formam o grupo mais discriminado entre todos os outros. Não são os gays nem os negros os mais implacavelmente enxovalhados: somos nós, os gordos.
- Bola, é sempre bom lembrar que temos representantes em todos estes grupos mencionados: há gordos de todas cores e raças, além de avantajados homossexuais.
- Por isso, Rolha, queridos e queridas, temos de pensar em ações que nos levem à mídia.
- Uma marcha não seria uma boa idéia? Tem marcha gay, marcha para Cristo, marcha contra intolerância religiosa, marcha pela paz... Por que não uma Marcha Fofa?
- Marcha Fofa? Aliá, você está de sacanagem?
- Não, Bola. Marcha Fofa é pura ironia. Trabalharemos com um eufemismo que os magros usam para nos qualificar.
- Aliá, há dois problemas sérios em sua proposta: Marcha Fofa é tão irônico que o povo que assiste TV não vai entender. Vão confundir com algo muito setorizado: Marcha Fofa = Marcha de Gays Gordos. O outro ponto, julgo mais importante: onde já se viu gordo participar de marcha.
- O Rolha tem razão. Em uma marcha não teremos espaço para apresentar todas as nossas queixas. Precisamos mostrar ao mundo que desde a pré-adolescência somos discriminados. Na escola somos alvos de chacota. Somos preteridos nos jogos de sedução. E, adultos, nem nos coletivos temos mais espaço para sentar.
- As poltronas de avião...
- Aliá, vamos dar ênfase aos assentos dos ônibus, para que não digam que o movimento é elitista.
- Sugiro, então, a invasão de uma loja do MacDonalds.
- Rolha, aí você já está querendo bagunçar. Não somos MST. O Governo não nos dá cobertura. Vai acabar todo mundo em cana... Pode falar, caro Mastodonte.
- Eu, por uma infelicidade, já estive preso. As cadeias não têm estrutura para receber o gordo.
- Mastodonte, valeu sua observação, mas não nos interessa, neste momento, tratar do sistema prisional.
- Vocês criticaram, mas proposta objetiva, até agora, só a minha: a Marcha Fofa.
- A companheira Aliá não deixa de ter razão. Alguém tem alguma proposta?
- Bola, estamos aqui há uma hora. Não seria bom pararmos prum lanchinho?
- A proposta do companheiro Vastidão é pertinente.
- Companheiros, sugiro, então, breve recesso até amanhã. Vamos pra Farra do Boi. Garçom, pode começar a servir o rodízio.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

JOGADOR DE FUTEBOL

Jogador de futebol gosta de dinheiro. Até aí nada demais. Eu também.
Jogador de futebol joga no clube que lhe dá mais dinheiro. Mesmo já atuando em um time que lhe pague um salário estratosférico.
Um exemplo entre muitos: Kaká, que amava o Milan, Milão, a Itália, foi para o Real Madrid ser galático. O dinheiro que ganhava na Itália era o suficiente para três existências nababescas do atleta. Não o condeno. Dinheiro nunca é demais, pensam alguns.
Jogador de futebol, à medida que se torna mais ávido por dinheiro, de uns tempos para cá inventou a babaquice de não comemorar quando faz gol contra o "time do coração".
Ontem, vimos Fred, artilheiro pó de arroz, em respeito à torcida do Cruzeiro, quase chorar a cada gol que fazia.
Há jogadores que, aos 23 anos de idade, já passaram por meia dúzia de clubes. Aos 30, 20 clubes depois, se pensarem como o bobalhão do parágrafo aí de cima, cada gol será momento de compungida tristeza.
Quando um jogador mais habilidoso dá um drible desconcertante, come a porrada dentro de campo: “O cara tá a fim de me esculachar”. Petkovic, num final de partida, deu um passe de trivela e causou indignação no botinudo adversário: “O time dele está ganhando, não precisava fazer presepada”. Agora, no momento orgásmico da partida de futebol, o pirocudo tira de dentro.
Caraio, onde vamos parar?

DELÍRIOS


– Eu e Woody Allen temos algo em comum. Cremos que o ser humano não é tudo o que imagina e que a vida é constituída de acasos.
– Você e Allen conversam muito?
– Conversamos. Ele pediu meu MSN. A gente papeia virtualmente.
– Em que idioma vocês se comunicam? Inglês, português?
– Não sei inglês e ele não domina o português.
– Então...
– Ele me achou atraente. Viu umas fotos minhas no MySpace. Fotos com a banda. Daquele show em Londres.
– Maria, que banda? Londres? Você nunca foi lá.
– Mas parece que ele vem filmar no Rio. Está animado, me disse.
– É especulação, ainda.
– Não, não. Vou te adiantar uma coisa. Prometa que vai ficar na sua, se não a imprensa começa a me aporrinhar.
– Pode dizer, faço boca de siri.
– O filme já está bem adiantado. Vai ser rodado em 2012. O roteiro só está dependendo de uma resposta minha.
– É?
– Se aceitar o convite dele, o filme caminhará em uma direção. Se não...
– Papel principal. Quero dizer, protagonista?
– Não, ele está apalavrado com a Penélope Cruz.
– Maria, estou preocupado com você. Esses seus delírios...
– Maneco, deixe de ser ciumento. Só tem lugar pra você em meu coração. Preciso aproveitar as oportunidades. Não terei 20 anos pra sempre.
– Maria, há 30 você não tem 20 anos. É uma cinquentona pra lá de bonita, mas...
– Pode não parecer, mas Woody pode ser muito insistente. Ele quer porque quer que eu faça esse filme. Exige que eu pare com a banda. Não quero deixar os garotos na mão.
– Sem sua voz essa banda morre, né?
– Ó a bobeira, Maneco. Sou guitarrista e compositora. Não canto.
– Vou pedir uma pizza, tá legal? As crianças estão dormindo?
– Gostei de saber que ele tem o ser humano em baixa conta. Amo cachorros e gatos. Ele tem um furão.
– Calabresa? Vou olhar as crianças.
– Ethan Coen também tem um furão.
– As meninas não estão no quarto.
– Mamãe esteve aqui. Ela ainda não se conformou de eu ter vindo morar com você. Não aceita que nos amamos, que eu não podia continuar naquela aldeia. As chances estão aqui.
– Ela deve ter levado as meninas. Ligo pra ela, peço a pizza e volto pra ouvir suas histórias. Há vinte anos não faço outra coisa. Pior que não imagino vida melhor do que esta, com você.

Sábado, Outubro 31, 2009

Pão com manteiga

Há coisas que não entendo.

Ao redor de mim, todos entendem. Ninguém protesta. Burro, então, sou eu.

A padaria, perto de minha cabana na Serra, abre às 6h30.

As portas se abrem, mas o pão ainda não está pronto, o café ficará dali a uns minutinhos e a caixa papeia longe de sua base de trabalho.

Este gordo, envelhecido e cheio de dores, tem pouquíssima paciência, por isso chego na padaria às 7h.

Antes, compro o jornal.

O único exemplar de O Globo que chega na Serra, guardado para mim pela gentil jornaleira.

A padaria é em frente.

Bom dia, dois pães frios com manteiga e um café puro.

Invariavelmente, o balconista me fará confirmar se o café é frio, mesmo, e se o pão vai na chapa.

Café puro. Pão frio. Se for na chapa, não quero.

Ele, ou ela, me olhará (na estupidez, pelo menos, não há diferença entre sexos) e encherá o copo de café e o depositará no balcão. Eu porei o açúcar e aguardarei o pão.

Três vezes em cinco (já me dei o trabalho de contar) não tem pão ali perto dele. Ele irá ao outro extremo da padaria pegá-lo.

Duas vezes em cinco (sim, contei, também), quando falta pão para o café servido no balcão não tem também para venda. O pão ainda estará no forno.

O balconista me deixará com o café no copo e se embrenhará nas entranhas da padaria. Quando retornar, meu café estará geladinho, ao gosto daquele estranho povo do Norte da América.

Perguntei esta semana ao rapaz que gerencia a padaria: Por que antes de servir o café não é preparado o pão?

Ele me olhou (acho que percebi admiração naquele olhar) e disse: O senhor está dando uma ótima ideia. Vou passar essa orientação pro meu pessoal.

Dispensei o café e fui para casa.

Abri o jornal e vi na manchete que alunos e professores de uma universidade hostilizaram uma aluna porque ela foi à aula de vestido curto. Ia me espantar, mas percebi que a história acontecera em São Paulo, a capital sertaneja do Brasil.

Nada que se dá em São Paulo deve se estranhar.

Sábado, Outubro 24, 2009

Paixão adolescente

Tenho comprado, regularmente, os CDs dos Beatles que saíram remasterizados e em embalagens caprichadas. A coleção é preciosa. Preciosíssima para quem, como eu, viveu a Beatlemania.
Sempre fui pobre. Pobre de bom gosto, mas pobre. Sortudo, tive pai que apreciava livros e música. Saía algo novo, eu ligava para o trabalho dele e, se houvesse dinheiro, no dia seguinte a bolacha estava rodando na Telefunken.
O primeiro disco dos Beatles que ouvi, ganhei de meu pai: Help! Não a edição inglesa, remasterizada agora, mas a que saiu aqui, a norte-americana.
A percepção que tenho dos Beatles é a da paixão pura. Adolescente não se preocupa com opinião de críticos. Não fui diferente. Influência só da rodinha.
Hoje em dia, por mais que tente ignorar a turminha que é paga pra veicular opiniões pessoais, não poucas vezes me vejo impelido a comprar CDs como um zumbi, manipulado por um bosta dono de bom texto.
Sentia prazer ouvindo Beatles. Participava de fã-clube. Falávamos sobre as novas músicas, dissecávamos os LPs. Aos 14 é ótimo ser ingênuo, apaixonado, inflamado. Aliás, não ser é um desperdício.
O pouco dinheiro está me obrigando a comprar os CDs um a um. Ótimo.
Há alguns meses, com os bolsos cheios, recém-saído da Penitenciária Covil de Serpentes, encontrei na Modern Sound quase todos os discos do Steely Dan. Como os dos Beatles, tinha-os em vinil. Sem toca-discos, há muitos anos não os ouvia. Aproveitei, então, a oportunidade e comprei todos de uma vez. Não os curti como esperava.
Os Beatles foram um fenômeno mundial e, sim, em determinado momento a bravata de John Lennon fez todo o sentido: eram mais populares do que Jesus Cristo.
Ser contemporâneo de um fenômeno não faz de ninguém o melhor crítico. Muita coisa sobre os Beatles soube muito depois. Viver a época de um fenômeno, no entanto, nos proporciona satisfação inigualável. Estávamos lá quando começou, fomos envolvidos por um sentimento de nossa geração. Amor de adolescente, sacumé.
Os Beatles nunca vieram ao Brasil. Quem apareceu por aqui foram os American Beatles. No Brasil, havia o Brazilian Beatles. Imagine, hoje, um American U2. E vindo a Lulalândia para consolar os fãs, tocando em lugar dos originais. Não dá para imaginar. É clichê, mas aqueles eram outros tempos.
Em tempos de ócio, ouvir os Beatles, de novo, tem me feito muito bem. Tenho a coletânea 1, com os singles do quarteto. Comprei Love, que foi usado num espetáculo do Cirque du Soleil. Consegui encontrar, no começo da década, Sgt. Peppers e Abbey Road, mas minhas paixões eram o Álbum Branco e Revolver. Comprei-os, finalmente.
Meu pai viveu, certa época, uma fase muito difícil. Não tinha ânimo para nada. Lia o dia inteiro e ouvia óperas. Todos nós o criticávamos. Na época, não se falava em depressão como doença. Ainda hoje, há tapados que a consideram um problema espiritual.
Ele é que estava certo. Sobreviveu por isso. O legado que me deixou foi o amor pela música e pelos livros... e aquele disco dos Beatles, início de minha vasta coleção de 4 mil vinis e, hoje, 5 mil CDs. Muita coisa prum pobre que mora num quarto e sala com esposa, cachorra e mais uns 3 mil livros.
Pobre, sim. Burro, jamais.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

A ARTE DE DEFECAR

Albert Einstein, para evitar gastar tempo com futilidades, tinha em seu armário vários ternos iguais. Não se angustiava como alguns de nós na hora de sair de casa.
Entendo o notável físico quando levo minha cadela para defecar.
Em primeiro lugar, ela define a direção que devo tomar. Ela, na ponta da guia, é quem me conduz. Saímos do prédio e ela para na primeira bifurcação. Um caminho leva para a rua, o outro para o interior do condomínio. Essa primeira decisão costuma ser rápida, antecedida de uma boa cheirada em vestígios de urina canina aqui e ali.
Se ela decidir ir para a rua, ótimo. Lá fora as alternativas são poucas. Direita ou esquerda.
Se resolver explorar o condomínio, me entrego aos poderes do alto. São vários caminhos, muitas direções, uma infinidade de cheiros que, maravilha, não consigo sentir.
Preparo-me para uns 20 minutos de idas e vindas, pulos de dentes arreganhados na direção de desavisados, pedidos de desculpas, um ou outro vá se foder...
Depois de me extenuar, ela escolhe, por exemplo, o quadrante sul da quadra. No quadrante, ela começa a percorrer grandes círculos que vão diminuindo até chegar ao que chamo de região X. Nesta região, posto-me no centro e ela dá muitas, muitas, muitas voltas ao meu redor até parar. Aí, sim, é o ponto X. O corpo dela se dobra para cima. A obra começará a ser feita.
Este é um momento de profunda comunhão entre mim e os poderes que regem o Universo. Clamo aos céus para que ninguém apareça, nenhum carro surja. Se isso acontece, ela se desconcentra e para. Se parar, vamos começar a buscar outro ponto X, que pode ser lá na puta que pariu.
Se considerarmos a consistência, um cão caga, como nós, humanos, de duas formas: mole ou duro. Cocô duro é mole. Cocô mole é duro. De recolher.
Cocô de cachorro, no entanto, não é só consistência. Há a forma. O tipo mais simples de recolher é o que classifico como cagalhão. Um bloco só, mole ou duro, que se recolhe de uma vez.
Enjoado é o pingadinho, que o cão vai largando por vários metros e você, com 150kg na carcaça, tem de ir catando, cantando mantras pacificadores.
Depois de defecar, minha amada cadela fica paradinha, aguardando que eu a limpe.
Limpo-a (se não fizer isso, acho que sou mordido) e, em introspecção, preparo-me para a mijadinha, que será dada, depois da repetição do ritual de escolha, no outro extremo do condomínio.
Ter um cão me fez dar o maior valor ao vaso sanitário. Ainda bem que nós humanos temos um lugar certo onde depositar nossos excrementos. Se assim não fosse, quanta energia despenderíamos num simples lançamento de barro. Os mais simples cagariam na frente de seus próprios lares, mas, e os provocadores? Estes passariam telegrama na porta dos desafetos e, certamente, não recolheriam a missiva.
Então, você que me lê, não deixe de apresentar preito de gratidão ao gênio que bolou o vaso sanitário. Essa figura que não conhecemos é muito mais genial do que o gênio dos ternos iguais.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

A estupidez humana

Religiosos fanáticos não esgotam o repertório de imbecilidades que reservam para seu público.
E tem gente boa querendo teocracia. Aí, como quer Saramago, só se Deus tomasse café com Ratzinger.

Picasso

- Cara, você acredita que a Dudinha me deixou?
- Ó! Aquilo é a mó puta. Você sabia disso.
- Não fala assim. Ela tem a alma livre. Você é machão. Eu e ela ficamos três anos juntos.
- Ela te corneou os três anos. Não comi por causa de nossa amizade, sacumé.
- Tô mal, cara. Se ela quisesse voltar...
- Ela não vai voltar. Não, agora. O Picasso tá pegando.
- O Picasso? Mas ele é tudo o que ela sempre condenou em um homem. Truculento, controlador, não respeita a parceira.
- A Dudinha sempre foi chegada a um safanão. Cheguei a te alertar.
- Isso é idiotice. Dudinha é independente. Gosta de carinho, liberdade. Eu sempre dei espaço a ela, nunca a sufoquei.
- Por isso ela foi embora ou, talvez, porque você não seja o Picasso.

NUM FÓ

A revista TRIP vai encartar R$2,00 em alguns exemplares de sua próxima edição.
É um teste. Querem saber como anda a honestidade do brasileiro.
O dinheiro que retornar será encaminhado a instituições de caridade.
Compro a TRIP, regularmente.
Se encontrar os dois reais, não devolvo. Não irei aos Correios.
Além de pagar caro pela revista, ainda querem me dar trabalho.
Num fó.

Hypocryzya

O velho roqueiro anda emputecido.
Já anda de saco cheio de ver especialistas em empregabilidade (que porra será essa?) e jornalistas diplomados dizerem pra garotada tomar cuidado com o que posta em páginas de sítios de relacionamento.
Algumas empresas estão fuçando esses perfis para selecionarem futuros empregados, afirmam as figuras. O velho roqueiro grita, irado: “Fodam-se as empresas”.
Por questões que envolvem segurança, o gado é filmado até cagando. Todos toleram, porque se derrubam helicópteros o que não farão com humildes pedestres. O medo justifica (?) a invasão de privacidade.
O velho roqueiro, no entanto, acha intolerável esse descaramento de empresas fuçarem a vida alheia e usarem isso para a seleção de novos empregados e chocante o fato de nenhum desses especialistas apontar esta atitude como imoral.
A menina, bonita ou feia, que quiser postar uma foto de si mesma pelada, agarrada com o namorado ou a namorada, pode e deve fazê-lo. Ela não será melhor ou pior funcionária por causa disso.
O velho roqueiro é conservador, fã do ACDC, chora com os solos de David Gilmour, mas perde a cabeça com a hipocrisia.
O velho roqueiro não é chegado a filosofar nem apresentar diagnósticos, mas anda dizendo que nos ambientes corporativos todos comem todos, no sapatinho. Às claras, para a plateia, condenam o comportamento libidinoso.
Sabe das coisas, o ancião.

Domingo, Outubro 11, 2009

O voo dos urubus


A primeira vez que vi urubus de perto, criança ainda, foi em Macaé.
Aqui no Rio via-os no céu.
Há alguns metros de distância o bicho é horroroso.
O bom flamenguista tem simpatia pelo carniceiro. As torcidas rivais sacaneavam os rubro-negros chamando-os de urubu em alusão ao grande contingente de afrodescendentes que compunham a maior torcida do Brasil. Hoje, essas torcidas seriam enquadradas na lei, por racismo.
No final da década de 60, um maluco soltou um urubu no campo. Jogavam Flamengo e Botafogo. Hoje, o Flamengo ganha o Botafogo a toda hora. Naquela época, perdia sempre. Fim de jogo, Flamengo 2 a 1. Henfil popularizou o urubu no Jornal dos Sports e o “lixeiro dos ares” virou mascote da massa flamenguista.
Sempre levo no bolso, em minhas caminhadas aqui na serra, a máquina fotográfica. Pode aparecer um gamo, um tucano e gosto de estar pronto para captar esses mágicos instantes que a Serra de Inhaúma proporciona.
Semana passada, esbarrei com um bando de urubus fazendo a refeição matinal. Contei 23. Enfiei a mão no bolso e percebi que havia esquecido a máquina. Segui na caminhada. Uns 100m à frente, outro grupo de urubus. Parei e fiquei olhando.
É um bicho feio. Brigam muito entre eles por um naco de comida. São agressivos. Andam desengonçadamente. Basta, no entanto, que levantem voo para se tornarem aves graciosíssimas. Observei-os, durante algum tempo, fazendo voos rasantes do alce morto (bala perdida, sacumé) até a zebrinha desencarnada. É lindo. Nada voa como um urubu.
É isso que me dá esperança de o Flamengo chegar ao G4 e ao título.
Os urubus levantaram voo.

Sábado, Outubro 10, 2009

Transporte coletivo

Ando muito de ônibus.
Não gosto, mas não tenho escolha.
Quando entra uma grana, circulo de amarelinho, mas a coisa anda feia.
Estava, dia desses, no Norte Shopping. Na mão, uma sacola da Saraiva com livro e cd. Fiquei na dúvida: Kombi ou ônibus? Dúvida de pobre.
Embarquei no coletivo.
Motorista de ônibus dirige aos trancos. Ou ele aceleeeeera ou freeeeeeeia. Acho que a idéia é nos derrubar, passageiros descuidados. Eu, pesado, sou cauteloso. Agarro-me aos ferros e me arrasto até a roleta, ansioso pra largar a bunda numa cadeira e sofrer os solavancos, sentado.
Naquele dia fui imprevidente. De fora, achei que o ônibus tinha lugar. Não tinha. Um gênio desses que não sobe em coletivo nem sob a mira de um AK-43 resolveu que as cadeiras dos cata-cornos têm de ter bracinho. Resultado, gordo cidadão, como eu, se não encontrar cadeiras totalmente desocupadas, fica em pé. Não sei, acho constrangedor alojar meia bunda na perna de um desconhecido.
De pé, matutei: “Quatro da tarde, um percurso de 20 minutos, não é tão ruim”.
Três pontos depois o ônibus estava superlotado. Primeiro, uma meia-dúzia de mulheres com filhos, muitos filhos, de, no máximo, 5, 6 anos. Depois, um grupo de senhoras que saiu não sei de onde e se espalhou reivindicando todos os pontos possíveis de apoio. E, para finalizar, a praga das pragas: estudantes. Por que essas pestes gritam tanto?
Lá na frente, o piloto se esmerava. Sacudia a galera à vontade. O ônibus, micrão como chamam alguns debochados, não tinha cobrador. Quando a porta traseira era aberta pro desembarque das feras, o motorista contava com a boa vontade da turba para lhe informar quando poderia dar a partida. A cada um que ele derrubava nos degraus de saída, e depois de devidamente xingado, já que nós da zona norte não somos finos como o povo da zona sul, explicava: “Me desculpem, esse ônibus não tem espelho no salão, é ruim de ver aí atrás”.
Eu, com minha vasta experiência de usuário de coletivos, tinha uma certeza: vai dar merda. A esperança era que a merda se desse quando eu já tivesse descido.
Os estudantes desceram. Algumas mães, também. O ônibus já não estava tão cheio. Duas senhoras, destemidamente, se levantaram para ficarem pertinho da porta. Entre um ponto e outro, foram jogadas para trás e, minutos depois, lançadas para frente, quando o ônibus freou.
Desceu um rapaz que, educadíssimo, agradeceu. O atento motorista entendeu o agradecimento como uma autorização para ele partir. Fechou a porta e partiu com vontade. As duas senhoras, no meio dos degraus, bateram nos dois lados da escada de descida e foram ao chão. Eu, que também ia descer, segurei-me, se não cairia em cima das mirradas vovós e talvez estivesse, hoje, preso por homicídio.
Sou educado, quase um tijucano, mas não resisti e, um pouco contrariado, interpelei o motorista: “Ô seu feladaputa, três pessoas iam descer. Preste atenção no seu serviço”.
“É que não tem espelho no salão”, repetiu ele.
“Isso é problema do seu patrão, companheiro”.
As senhoras estavam lá, amontoadas no fundo da escada, sem conseguirem se levantar, escoradas na porta.
Aí, o motorista teve outra grande ideia, abriu a porta do ônibus.
Claro, as duas se estatelaram no asfalto.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

A melhor guitarra dos Stones

Jagger, Richards, Watts, Taylor e Wyman

Perguntaram a Mick Taylor, ex-guitarrista dos Rolling Stones, ali pelo começo da década de 70, se ele se arrependia de ter deixado o grupo.
Ele disse que não. “Se tivesse ficado nos Stones, as drogas teriam me matado”.
Mick Taylor ocupou o lugar de Brian Jones, que morreu afogado em uma piscina em circunstâncias estranhas. Taylor recebeu o convite para ingressar na banda e fez doce. Era um guitarrista mais qualificado do que o necessário para os Stones. (Tanto é verdade que depois dele entrou o medíocre Ron Wood que está no grupo até hoje.) Mas a projeção internacional dos Stones, acredito eu, acabou por convencê-lo de que era bom negócio “fazer um sacrifício”.
Com Mick Taylor, os Rolling Stones gravaram dois de seus melhores discos: “Exile on main street” e “Sticky fingers”. E é só ouvir com um mínimo de atenção para perceber a guitarra soberba que o cara tocava.

Aqui se faz, aqui se paga

- Aqui se faz, aqui se paga. O que plantamos, colhemos. É nisso que acredito.
- Menelau, você tem 80 anos. Casou com uma mulher a quem não amava, porque era de família rica. Deu o golpe do baú e depois de alguns anos assumiu a empresa da família enganando os babacas dos seus cunhados. As melhores mulheres você comeu. Rico, boa pinta, papo escorregadio, não é de se estranhar que tenha sido assim. Foi um péssimo pai pros seus três filhos. Surpreendentemente, todos o veneram. Nunca lhe causaram problemas. Sua mulher, com toda galhada que carrega, jamais lhe foi infiel. Quando, Menelau, você vai começar a pagar o que fez? O que você plantou, um dia vai colher?
- Duque, você e sua moral burguesa. Nada faltou, a vida toda, nem à minha mulher nem a meus filhos.
- O dinheiro era dela. Você roubou seus cunhados, seu sogro, se apropriou do que era deles. É péssimo patrão. Paga mal, explora seus empregados. Arrogante, desprezível, perverso. Segundo suas crenças, quando você vai começar a pagar todo o mal que fez?
- Duque, você está extrapolando. Dirija e cale-se.
- Há 40 anos sou seu motorista. Todas as vezes que o rádio fala em algum meliantezinho de merda morto pela polícia, você, seu escroto, repete a mesma frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. Porra nenhuma, você nunca pagou nada. Quantas vezes o ouvi se vangloriar de ter destruído alguém, se gabar de ter comido uma garotinha oferecendo um qualquer prum pai mais filho da puta do que você...
- Pare esse carro, você está demitido.
- Menelau, eu queria ter coragem pra enfiar esse carro num paredão, mas quase que certamente você sairia incólume. Gente como você faz o que quer. Planta merda e colhe ouro. Dirija essa merda. Fico por aqui. Não aguento mais ouvi-lo dizer: “Aqui se faz, aqui se paga”. Estou a ponto de lhe dar um tiro nos cornos.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

COISA DESLUMBRANTE DE SE VER - Scarlett Johansson




Segunda-feira, Setembro 28, 2009

GENTE MORTA

Vejo gente morta.
Londres me chama, mas fica proutra hora.
Dureza, sacumé.
Como um joelho, tomo um café e sigo pra caminhada diária.
Ouço tiros todas as noites. Hoje, pareciam estar mais perto. Não me impressiono. Nem eu nem os vizinhos.
Por isso acordo cedo, caminho e vejo mortos. Salto sobre eles. Indiferente.
Plugado, ouço Clash.
Filtro os barulhos da rua.
Atenção, só para o trânsito. Não quero ser barreira para outros caminhantes.
A polícia está atrás de mim.
Nada contra este gordo que se arrasta.
A lei discutia a identidade do último cadáver por que passei.
Desço a Automóvel Clube e até onde a vista encataratada enxerga nem sinal de mortos estendidos pelo chão.
Dou duas voltas, banho e cama.
Os atiradores dormem de manhã.
O barulho não me incomoda. Já incomodou.
De vez em quando, no entanto, o silêncio é bom.
Durmo pesado, sem sonhos.

MACUMBÉLICO

Evangélicos têm pavor de espíritas.
Não sei se ainda sou evangélico, mas jamais alimentei esse sentimento.
Vim de lá, sou macumbélico.
Seres humanos valem alguma coisa, ou não valem nada, independentemente de religião, cor, sexo, nível social, faixa etária...
Circulei pela igreja católica, espiritismo e, na maior parte da vida adulta, tenho sido evangélico. Frequento uma igreja batista, não muito regularmente, com prazer.
Na infância, em ocasiões especiais, meus pais me levavam ao Centro Espírita.
Dona Belinha, uma gorda simpática, era a mãe-de-santo. A casa em que ela morava tinha dois andares. Ficava em uma escadaria ao lado do antigo campo do América. Hoje, o Shopping Iguatemi. Da Teodoro da Silva víamos a casa branca, no alto. Parecia um castelo.
As crianças não participavam de toda a sessão espírita. Enquanto aguardávamos ser chamados, assistíamos televisão. Ou fingíamos assistir. A TV ficava em um nicho da parede, bem lá em cima, numa extremidade da sala. A sala era enorme. Ficávamos sentados na outra extremidade. O som, baixíssimo, não permitia que ouvíssemos nada. E, para ver, só de binóculos. Todo religioso é louco.
Descíamos para o terreiro na gira de crianças. Era engraçado vermos os adultos que nos davam esporro comportando-se como crianças traquinas e birrentas.
Minha tia Janete recebia uma criança bonita como ela e divertidíssima. Minha mãe fazia suas travessuras, também incorporada. Mas onde se juntam muitas crianças tem sempre uma que enche a paciência de todo mundo. Pentelhíssima era d. Leonor, uma respeitabilíssima sessentona que, montada, emprestava seu corpo para a criança mais desagradável daqui e dalém. A criança de d. Leonor estava sempre mastigando doces que o terreiro oferecia de montão.
Mastigava, amassava nas mãos e passava na boca dos desavisados. Boca cheia de doce e cuspe, a vontade era encher a velhinha de porrada. Mas criança do além, sei lá, ficávamos encagaçados de encarar.
As crianças dalém subiam não sei pra onde e nós, as daqui, também, para a TV quase muda. Terminada a sessão, desmoronando de sono, éramos arrastados pelos adultos para casa. Morávamos a três quarteirões do Centro, mas aquela caminhada de volta na madrugada parecia uma marcha sem fim. Tenho saudades.