sexta-feira, novembro 06, 2009

O ALFA ROMEO


Nem passou pela cabeça de Adilson que sua alegria se transformaria em aporrinhação.
Final da década de 80, o sortudo ganhou um Alfa Romeo em uma rifa. O Alfa, quando chegou ao Brasil, trazido pela Fiat, era destinado aos abonados. No entanto, tinha tantos problemas que logo foi deixado de lado pela montadora. Sem peças de reposição e voraz bebedor de gasolina, tornou-se um abacaxi para quem o tinha comprado.
Adilson não reclamava do carro. Fora sorteado entre mil participantes e gastara míseros 10 reais (fiz a atualização de orelha porque não sou de perder tempo com pesquisas minuciosas). Estava no lucro.
No Alfa, deu umas voltas com a família pelo aprazível bairro da Pavuna, fez umas duas viagens a Nova Iguaçu e resolveu passar o bólido pra frente.
Tentou vendê-lo, ninguém quis comprar. Resolveu fazer nova rifa. Mil números a 10 reais, mesmo que não vendesse tudo teria um belo ganho.
Foi com alguns carnês na mão que ele chegou ao trabalho e anunciou a rifa. Todos os colegas, menos eu, compraram para ajudar. Ninguém queria um Alfa Romeo, o carro que nem o dr. Cascatinha deu jeito.
Old, não. Comprou dois números e anunciou: “Meus orixás estão me dizendo que vou levar este Alfa”. Um arrepio de pavor percorreu a espinha de Adilson. Ele pensou: “Não, seria muito azar. Um, entre mil”. Se pudesse recusar-se a vender a rifa, o faria, mas pegaria mal.
Dez dias depois Adilson entrou na seção com um sorriso de sofrimento: “Old, você ganhou. Aqui estão as chaves do carro. Amanhã fazemos a transferência”.
Old, sorrisão aberto, bazofiou: “Não te disse, meus orixás são fortes”. Talvez fossem mesmo, só não entendiam nada de mecânica.
Os dias rolavam e em todos os eles ouvíamos Old espinafrar o carro e, por extensão, Adílson. “Bebe que nem um pinguço”; “Gastei uma fortuna com a transferência”; “As peças de reposição são caríssimas”; “Esse Adilson, com essa carinha de bobo, é um espertalhão”; “Se aparecesse quem me pagasse o que gastei com a transferência, vendia na hora”.
Old dava essa deixa e o Padre arrematava: “Eu compro”. Old desconversava, começávamos os trabalhos e, no dia seguinte, a ladainha recomeçava.
Um dia, Adilson retrucou: “Old, você levou o carro por 10 reais mais 50 da transferência. Venda o carro”. “Mas o malandrão aí levou mil no total da rifa”, chicoteou Old. “Isso não é problema seu. Maldita hora que vendi a rifa pra você”, disse e levantou-se da mesa o não mais pacífico Adílson.
Old levantou-se, também. Ia sair porrada. Do fundo da sala, ouvimos a voz do Padre: “Eu compro o carro por 60 reais”. Old, puto da vida: “Tá vendido”. O Padre levantou-se, não para brigar, e casou o dinheiro na mesa de Old. O velho homem de imprensa não pode refugar. Aceitou.
Parecia que a novela do Alfa chegara ao fim. Nada. Todos os dias, Old perguntava pelo carro. O Padre só dizia: “Está ótimo, sábado fomos à praia nele”. Old ficava inquieto: “Por que você não vem trabalhar nele?” O Padre explicava: “Na editora não tem estacionamento. Venho de lá pra cá de ônibus e pra casa vou na carona do chefe. É mais barato e ainda vou ouvindo a Tupi FM com o homem”.
Semanas pra frente e ainda ouvíamos falar do Alfa. O Padre só elogiava o carrão. “Confortável, ar condicionado siberiano, maciez nas pistas, dirigibilidade inigualável, um carrão, um carrão”, babava. Eu, companheiro de mesa do Padre no árduo trabalho de revisão de texto, alertava: “O Old tá ficando puto com seus elogios. Ele se arrependeu da venda do carro”. O Padre ignorava meus alertas.
De repente, o assunto saiu da pauta. Quando Bigode dava uma folga (coisa raríssima), falávamos de tudo, menos do Alfa. Um dia o Padre anunciou: “Vendi o Alfa. Troquei por uma Brasília”. Old arroxeou. Ele era proprietário de uma Brasília. Nunca a trocara porque não sabia dirigir outro carro. Verdade mesmo é que nem a Brasília ele dirigia. Peguei algumas caronas de 500m que quase me mataram de pavor.
“Por que você trocou o carro? Eu vendi o Alfa pra você ficar com ele”, interpelou Old.
“O Alfa quebrou e o conserto ficaria muito caro. Na oficina, o dono me propôs trocar a Brasília dele pelo Alfa. O cara é tarado por Alfa Romeo. Aceitei. É uma Brasília creme, 1980”, cartou o Padre.
“Porra, só dois anos mais velha do que a minha”, lamentou Old.
Aí o Padre tripudiou: “Você foi muito precipitado. Um homem experiente. Um Alfa Romeo por 60 reais. O melhor negócio que fiz na vida”.
Levantei-me e saí da sala. Do corredor vi Old disparar na direção do Padre.
Bigode tentou separar, mas a porrada comeu.

Um comentário:

Marcelo disse...

hahahahahahaaaaa.... muito show!! muito boa lembrança - é, importado já foi coisa de imbecil metido a besta: ao primeiro defeito, o carro, sem peça de reposição, virava carroça, e olha que o citado era um carrão, salvo engano, tratava-se de motor 1.8, ar condicionado e direção hidráulica - na década de 70 isso era puro luxo.