sábado, novembro 21, 2009

De bobeira

Em um Rio de Janeiro de muitos crimes, um que nem se sabe se foi ou não me impressionou. Para prosseguir, admitamos que houve um assassinato e, consequentemente, um assassino.
O assassino é jovem. Naquela noite não estava mais entediado do que usualmente.
Não tem namorada, está sem dinheiro, não acompanha novelas.
Ia para casa, fazia o caminho de todo dia, por cima do viaduto.
Encostou-se na grade, acendeu um cigarro e olhou o movimento da Av. Brasil, embaixo de onde estava. Àquela hora não se comparava com o dos horários de pico, mas cada ônibus que passava o fazia sentir uma vibração que o irritava.
Reparou nos blocos de concreto espalhados pela calçada. Forte, se quisesse levantava-os com facilidade. Bom, talvez não conseguisse. A falta de dinheiro o afastara da musculação. Abaixou-se, ergueu o maior bloco que vira ali por perto. Precisou esforçar-se. Apoiou-o na grade do viaduto e respirou fundo.
A distância avistou o ônibus se aproximando. De manhã um feladaputa de um motorista o deixara na pista, braço estendido. No ponto, riram de sua indignação. Bateu boca com um dos caras que riram. Escolheu o menor, mas o tampinha o encarou. Acabou afinando, o anão poderia estar armado. Motorista desgraçado.
Jogou o pedregulho em cima do ônibus que passava. Não por causa do motorista que o deixou a pé. Lançou o bloco de concreto porque estava ali de bobeira. Só por isso.
O choque da pedra com a lataria do ônibus fez um estrondaço.
Viu o ônibus se afastando, diminuindo a velocidade e parando. Pelo meio da pista atravessou o viaduto. Lá de baixo não seria visto. Em casa a mãe o esperava com um farto jantar.
No dia seguinte, este homem soube que a pedra que lançou matou uma mulher que dormia dentro do ônibus. Eu gostaria de acreditar que ao tomar ciência da morte da inocente o homem sentiu corroer-lhe as entranhas doloroso remorso e, desesperado com seu ignominioso crime, verteu lágrimas de sangue.
Mas, por que me enganar? O homem, se soube o que fez, provavelmente, deu de ombros e pensou: azar o dela.
No bar, tomando um chopinho com os chegados, contou a história.
Uns não creram: “Você adora contar lorotas”.
Outros, por conhecê-lo melhor, acreditaram e o invejaram: “Um dia farei algo grandioso assim”.

Um comentário:

Hanna disse...

Depois vá lá no Sobretudo ver uma puxada de saco no Gordo Falante. Sabe como é, né? Natal chegando... rsrs.
Beijos.