quarta-feira, fevereiro 19, 2014

ADOLESCENTES ESPERTOS


Jasmine van den Bogaerde, hoje, mundialmente conhecida como Birdy, nasceu em 15 de maio de 1996. Aos 12 anos, ganhou um concurso de música. Antes de completar 15, lançou versão de “Skinny Love”, do grupo de folk moderninho Bon Iver. Chegou ao Top 20 na Grã-Bretanha. Completados os 15, soltou o manso petardo “Birdy”, um disco de covers (apenas uma música é de sua autoria). As interpretações de “Fire and rain”, de James Taylor, “Terrible Love”, do The National e “Shelter”, dos minimalistas sussurrantes The XX são as que mais me impressionam, mas há muitas músicas de primeira no álbum de estreia da menina. Birdy canta e se acompanha ao piano, sempre competentíssima.
No final de 2013, Birdy pôs na rua “Fire within”, disco de inéditas, e mostrou, pelo menos por enquanto, que é moça bonita, talentosa e promissora que não precisará apelar para se manter em evidência.

Ella Yelich-O’Connor, nas quebradas conhecida como Lorde, é de Auckland, na Nova Zelândia. Também nasceu ontem, em 7 de novembro de 1996. É filha de Sonja Yelich, premiada poeta neozelandesa (o que me diz muito pouco).
A música de Lorde tem uma levada diferente (muito diferente) da de Birdy. Às vezes, me lembra Lana Del Rey. Música eletrônica confortável, que não assusta ninguém. O que tem impressionado público e crítica, além da incontestável (força de expressão, sempre há quem conteste) capacidade artística, é o desapego da moça em relação ao sucesso. Até o momento em que estas linhas eram digitadas, a fofinha continuava vivendo no confortável subúrbio de Devonport, em Auckland, Nova Zelândia, a meio metro do fim do mundo.
“Pure Heroine”, seu primeiro disco (antes lançou um EP), vem causando furor. “Royals”, faixa do disco, ganhou prêmio de canção do ano, no Grammy 2014. Também com “Royals”, Lorde levou o Grammy de melhor apresentação pop solo. O linguão de Miley Cyrus deve estar doendo.
Lorde também foi descoberta, graças à Internet, aos 12 anos. É linda, madura, cheia de talento e pose. As músicas que canta, ela mesma compõe. A mãe-coruja declarou à revista Rolling Stone que a filha é “uma escritora melhor do que ela jamais será”.

Jake Edwin Kennedy, daqui pra frente, Jake Bugg, é de Nottingham, Inglaterra. É o veterano do grupo de três deste artigo. Aos 20 anos, lançou seu segundo disco, “Shangri-la” (não o ouvi, minha crença não me permite ouvir música virtual, só a que sai de sulcos de vinil ou produzidas pelo laser do cedepleier), mas o primeiro é brilhante, intitulado, simplesmente, “Jake Bugg”.
Além da diferença de gênero entre Bugg e as meninas superpoderosas lá do início, o garoto é fruto da classe média baixa inglesa, enquanto as moças têm boa situação financeira e pais artistas. O pai de Bugg é enfermeiro e a mãe vendedora. As preocupações do rapaz são outras. Assim que surgiu foi chamado de “Bob Dylan do East Midlands”. Bugg respondeu: “Bob Dylan é legal, você sabe, ele é ótimo, mas não é uma grande influência”. Em seu primeiro disco é, sim. Se ele chegar à metade da trilha percorrida por Dylan será ótimo negócio para a música do planeta.
Por que falei destes três garotos? Simples. Quando há interesse em desqualificar a música feita por adolescentes, atualmente, os exemplos são sempre os mesmos: Justin Bieber, Miley Cyrus, Selena Gomez etc. Todos com certo grau de talento, mas, infelizmente, divulgadores de música menor. Nada contra o ouvinte de canções de péssima qualidade (vivo na terra do funk pancadão e do pagofunk), segundo meus critérios e avaliação, mas é preciso atentar para jovens que fazem música em altíssimo nível.

Ouvidos abertos não fazem mal a ninguém e trazem grande prazer à vida.

ISOPORZINHO


Em passado remoto, íamos à praia e levávamos fartos farnéis sem constrangimento algum. Tenho fotos da requintadíssima Madame Ribeiro atracada a volumosa coxa de galinha no Recreio dos Bandeirantes.
Aí, a turma da modinha interveio. Essa cambada existe desde o princípio dos tempos e eu, desgraçadamente, já me alinhei com ela. Os da modinha adoram cagar regras e determinaram que levar alimentos para a praia era coisa de farofeiro.
Pronto, nós, babacas preocupados com a opinião alheia, paramos de levar lanchinhos ao lazer à beira-mar.
Os da modinha mais moderados admitiam que se levasse um pacotinho de biscoito. Bananas, jamais.
À praia, íamos e ficávamos o dia inteiro. Encarávamos coletivos superlotados, éramos despejados na praia às 8h e, na volta, às 17h, formávamos filas quilométricas para ganhar posição dentro do ônibus.
A modinha, setor subúrbio, preconizava: não era de bom tom ir ao mar com nada além de dinheiro e documentos. Calote no ônibus era bem visto. Encoxar uma menina, também (ser encoxada, dependia). Bolsa, de maneira alguma. Podia estar sendo usada para esconder comida.
O praiano suburbano ia à praia sem dinheiro e lá passava fome. Não dava para comprar sanduíches e refrigerantes. Quem podia fazer isso, principalmente rapazes, era cobiçadíssimo pelas it-girls da época (as cocotas). Os ditames dos da modinha eram rigorosos e os desobedientes viravam párias sociais (não mudou muito).
Corte temporal. Verão de 2014. Praias: misto quente a R$ 25,00; coco a R$ 7,00; saladinha verde a R$ 50,00; omelete de camarão a R$ 100,00; água a... depende da temperatura e cara do trouxa. O pessoal da modinha se assustou e decretou: praia, a partir de agora, só com isoporzinho.
Como a turma não gosta de perder a pose, uma porta-voz do movimento, eleitora do PSOL, querida do Freixo e integrante do Anonimous, esclareceu: “Não é só pelos preços absurdos que defendemos o isoporzinho, que nada tem a ver com o movimento farofeiro do passado, mas o não consumo de alimentos a preços escorchantes reduzirá a emissão de carbono na atmosfera, diminuirá o desflorestamento na Amazônia e, sem dúvida, terá impacto positivo na questão do aquecimento global. Antes de terminar, quero frisar que odeio a Rede Globo”.

Domingo, eu e os Ribeiro vamos ao mar. Madame prometeu levar picanha com batata corada.

sexta-feira, janeiro 03, 2014

FIM


Às 3 da manhã do sábado, terminei de ler NA PRAIA, de Ian McEwan. Boa leitura, mas arrastada. Levei muito mais tempo do que deveria para vencer as cento e poucas páginas do bom texto de McEwan. Estou longe de ser um leitor rápido, mas uma semana foi demais.
Antes de dormir, levei para o trono FIM, de Fernanda Torres. Ia só dar uma olhadinha, enquanto abria espaço no cérebro para as atividades intelectuais das horas que viriam.
O livro de Fernanda Torres saiu e foi elogiadíssimo por todo mundo. Jô Soares a entrevistou e instalou-a em um pedestal. Falei com a esposa: “É bom ter amigos, ser filho de gente importante, pertencer às rodas certas”. Gosto de Fernanda Torres como atriz. Ela parece ser figura de muito bom trato e está sempre antenada. De qualquer forma, resolvi que não compraria o livro dela. Não naquele momento. Ação entre amigos não vai me forçar a ir à livraria, pensei, despeitado.
Rosangela comprou. Há umas semanas peguei o livro para escanear a capa. Ia publicar a sinopse dele em uma revista. Escaneei-o e deixei-o em cima da mesa. Na madrugada de sábado, era o livro que estava à mão para me acompanhar no momento de meditação.
Comecei a lê-lo pelas 4h e só parei às 18h, com breves intervalos para papar. O livro é mesmo tudo o que dizem e mais um pouco. Fernanda Torres tem a manha.
A narrativa acompanha os momentos finais de cinco amigos. Amigos de muitos anos que se afastaram por causa de semelhanças e diferenças. Dito assim não parece grande coisa, mas aí vem a manha. A danada sabe contar uma história, constrói personagens verossímeis, o que não é simples. É engenhosa, faz o vai e volta que o Cadu não faz. Exibe erudição, simplicidade, maturidade... É livro de riso nervoso. Melancólico, muitas vezes. Um livraço, em minha opinião.


UMA CURIOSIDADE: Perto do meio do livro aparece no texto um número de telefone. Eram 7h quando o vi. Curioso, liguei. Uma mulher atendeu. Ia falar qualquer coisa, mas me dei conta do horário e travei. Fingi que tinha ligado pro número errado. A dona desse telefone deve andar enlouquecida com os curiosos que estão ligando pra ela.

MINHA SOGRA



Eu amo minha sogra, se não amasse...
Dia 30 fui convocado para ir ao supermercado com ela. Meio-dia, um sol do cacete, a pé. Pensei em recusar o convite, mas tenho juízo. Como dizer não a quem me alimenta? Fui.
D. Emília tem 75 anos e é elétrica. Faz tudo em altíssima velocidade. Impaciente, mal-humorada, altruísta, agressiva, gente boa, controladora. Um doce. Polidimensional. Fala muuuuito. Fala sem parar. Onipresente. Um dínamo. Por precaução, avisei:
- Não vou acompanhar seu ritmo. Sou lento.
Ela me disse que desaceleraria e eu não acreditei.
- Vá pelo corredor dos biscoitos. Pegue uns que a Rosangela gosta... Goiabinha, goiabinha, você não sabe do que sua mulher gosta?... Utahy, Utahy, o corredor dos biscoitos não é esse... O outro, o outro... Vou pegar o leite.
Vai, querida sogra, vai. Eu, serrano discreto, percebi que a essa altura era o centro das atenções do mercado. Mais tarde me transformaria em celebridade. D. Emília falava comigo a 5, 10, 20 metros de distância. Agora, estava a 20.
- Utahy, vá pra fila do queijo... Utahy, você não está me ouvindo?... Utahy, no queijo, no queijo...
Eu, fingindo que não era comigo. Os sorrisos à minha volta sabiam que era.
Comprei o queijo e procurei o azougue tagarela.
- Utahy, tá olhando pra ontem?... Ó eu aqui na fila da carne... Vem cá, rápido. Fique aqui. Vou pegar os frios e o peru... Compre 1kg de contrafilé... Preste atenção no malandro que vai cortar a carne... Utahy, foi essa carne que o vagabundo cortou?... Não levo... Moço, isso é carne que o senhor corte... Se aproveitando que ele não gosta de confusão... Esse molambo, não vou levar... Utahy, já pegou o pão?
Lágrimas de sangue brotam de meus olhos. Os seguidores, em volta, gargalham.
- Utahy, vai pra fila... Entre na menor... Não dê bobeira... Vou ver o material de limpeza... Vai, Utahy, que moleza... Foi essa fila que você escolheu? É a maior de todas... Me dá esse carrinho, vou procurar uma menor... Aproveite e pegue papel toalha... Eu esqueci.
E lá foi, bip bip. Quase passou por cima de dois com o carrinho. Foi xingada e se lixou. Segui na direção dela. Achou mesmo uma fila menor. Abriu os 30 segundos de sorriso do dia para tripudiar.
- Vocês não procuram, entram na primeira fila.
- D. Emília, essa fila em que a senhora está é para compras com 15 volumes, no máximo. Seu carrinho tem mais de 100. Não vão deixar passar.
- Eu passo. Meu Jesus vai na frente, abre meus caminhos. Quem ousará deter uma serva do Altíssimo? Ele está comigo.
Quem estava atrás dela na fila fez cara de que ia confrontar a serva. Eu, na dúvida, e por ter natureza avessa a confusão, resolvi ficar de longe. Sentei-me em umas cadeiras destinadas a idosos, fui cumprimentado pelos seguidores e esperei. Prestava atenção na movimentação da segurança. Um seguidor me alertou:
- A encrenqueira está te chamando. Ela já está no caixa.
- Utahy, cadê o papel-toalha?... Vai lá pegar... A fila espera, vai lá... Você é muito mole... Aproveita e pegue a bisnaguinha de gergelim...
Saímos do mercado sob aplausos. Os seguidores urravam.

Eu amo minha sogra, se não amasse...

sexta-feira, novembro 01, 2013

WANDERLEY

Nas manhãs de domingo, desço a Serra e viajo em direção ao balneário. Viagem longa. Todo percurso faço ouvindo música.
Domingo passado, ouvia Pilot e me lembrei do Wanderley, o melhor amigo que tive na juventude.
Éramos amigos e, por isso mesmo, rivais. No botão e no xadrez, eu era melhor; no futebol, eu nem chegava perto. As partidas de botão só não terminavam em porrada porque nos respeitávamos.
Wanderley era magro e alto. Comia como um cão faminto. Quase todos os dias ele almoçava três vezes. A primeira vez em sua casa; a segunda, na minha; a terceira na casa do Beto. Minha mãe oferecia: “Waderley, quer almoçar”. Ele, falso tímido; “Dona Ceceia, eu já almocei, mas vou aceitar”. Na casa do Beto, a mesma resposta.
O Pilot foi uma vitória do Wanderley em um campo em que me julgava imbatível: o de novidadeiro das novíssimas tendências musicais. Adorava ouvir os amigos dizerem: “Jeff Beck, não sei quem é. Pergunte ao Tim, ele sabe tudo de rock”. Tim era eu. Tim Maia, claro.
Wanderley, um dia, chegou lá em casa e mandou:
- Tim, você conhece o Pilot?
Pensei: “O feladaputa me pegou. Sei lá quem é Pilot”.
O que disse foi diferente:
- Já ouvi falar.
Ele se levantou e pôs o disco pra tocar. Adorei, mas mantive um ar de indiferença.
- E aí, Tim, o que achou?
- Não é ruim.
O safado riu, sabia que tinha me acertado. Ainda coloquei umas novidades para ele ouvir, mas nada que chegasse aos pés do Pilot.
Ele levou o disco (como nos respeitávamos, não emprestávamos discos um para o outro) e a música do Pilot ficou no meu cérebro. Procurei o disco por toda a cidade e nada. Descobri que era um grupo canadense de relativo sucesso (não havia Google, pesquisar era difícil). Um mês de busca aguçou minha vontade de ouvir outra vez o Pilot. Wanderley não tocava mais o Pilot, esperava que eu pedisse.
E eu pedi, quase supliquei:
- Deley, onde você comprou essa porra de disco. Não encontro em lugar nenhum.
Ele deitou:
- Então, você gostou?
- Gostei – admiti derrotado.
- Comprei num balcão de saldos em Madureira, na galeria do Madureira 1.

Humildemente fui até lá, comprei o disco e fiz o babaca feliz.

segunda-feira, setembro 16, 2013

O pior lugar do mundo para ser gay


Vi no GNT um documentário que me impressionou. O nome: “O pior lugar do mundo para ser gay”. Foi idealizado por Scott Mills, que tem um programa de rádio na Radio 1, da BBC. Ele é gay e resolveu visitar a Uganda, na África, país onde ser gay é péssimo negócio.
Em Uganda, conversou com gays e com pessoas que detestam homossexuais, não por acaso, a maioria esmagadora da população.
Há um jornal, o Rolling Stone (parece sacanagem, mas não é), que relaciona gays e publica os endereços onde eles vivem. O editor do jornal conversou com Mills e defendeu sua posição de caçador de gays com um sorriso nos lábios e argumentação paleolítica: “Gays são pedófilos. O homossexualismo reduz em 25 anos a vida de seus praticantes. Os gays destroem a sociedade”. Jumentices ditas com muita delicadeza, o que assustou Mills.
O radialista estranhou a ojeriza a gays dos ugandenses. Pesquisou para buscar as causas. Descobriu que a aversão é relativamente recente. Ela chegou com missionários cristãos que a repassaram para os pastores da terra. Mills, então, foi conversar com um notável líder evangélico. A conversa ficou tensa quando ele confrontou o religioso com sua condição de gay.
Mills reuniu-se com um grupo de jovens e assombrou-se com o radicalismo antigay da garotada. Papeou também com uma mulher, lésbica, que vive escondida, longe de sua cidade. Ela precisou fugir depois que a denunciaram como gay.
Antes de viajar, Scott Mills encontrou-se, na Inglaterra, com um ugandense que fugiu de seu país depois de ter sido denunciado por ser gay. O autor da denúncia, um amigo, foi torturado até revelar nomes de gays que conhecia. A prática é comum em Uganda.

David Bahati é deputado. É dele o projeto de lei que pune com prisão perpétua o praticante de relação gay. Se for pego uma segunda vez, o gay será condenado à morte. Desde 2009, Bahati tenta empurrar seu projeto. A grita internacional foi grande, mas em 2012 a lei antigay andou. Em 2013, ela pode ser aprovada (mas isso não é o pior, duro é vermos um país considerando seriamente essa hipótese).
Bahati acedita que se seu projeto for aprovado, os próprios pais entregarão seus filhos à polícia.
Na entrevista, quando Mills diz a Bahati que é gay, o deputado, imediatamente, encerra a entrevista. O motorista que conduz Mills o alerta a sair dali o mais rapidamente possível. Bahati chama a polícia a fim de confiscar as fitas da entrevista que dera a Mills. A sorte e sua condição de cidadão britânico permitem a Mills sair do país.

Vale a pena ver esse documentário no GNT.

segunda-feira, setembro 09, 2013

ATACANTE


Atacante brilha na partida. Faz gol de placa, dá passe (ou faz assistência, como preferem os antenados) milimétrico para o segundo tento e marca implacavelmente, livrando seu time de situações difíceis. O time que defende perde o jogo, a crítica, no entanto, garante que ele, Atacante, teve atuação brilhante.
À beira do gramado, o repórter:
- Atacante, você jogou uma enormidade. Infelizmente, a vitória não aconteceu. Como você se sente?
- Então, é verdade. Eu trocaria o gol que fiz, a assistência, a boa atuação... tudo pela vitória de meu time. Saio daqui arrasado. Prefiro não jogar tão bem e ver meu time vencer.
Atacante não contava com o avanço tecnológico e seu uso a serviço da indiscrição. A emissora lançava naquele dia a ETM (Engenhoca Tradutora de Mentes). O dito dava lugar ao pensado. No rádio ouviu-se o pensamento de Atacante e não o que ele disse.
O repórter perguntou:
- Atacante, você jogou uma enormidade. Infelizmente, a vitória não aconteceu. Como você se sente?

- Então, é verdade. Joguei muito. Caraio, brilhei, parecia Cristiano Ronaldo. Espero que esse jogo passe lá fora. Sonho jogar na Europa, na Ucrânia, na Casa do Cacete, qualquer lugar bem longe daqui. Tô cagando pro time. Pode perder todas, se eu continuar batendo esse bolão, mês que vem tô fora”.

domingo, agosto 25, 2013

GUITARRISTAS IMAGINÁRIOS



Na França, havia o campeonato de arremesso de anões (proibido por ofender a dignidade dos pequenos que, no entanto, lutaram – e perderam – na justiça pelo direito de voar); Ron Matt, de 46 anos, venceu, em 2012, o campeonato internacional de cuspe à distância, em Michigan, nos EUA (ganhou com lançamento de 21m); a cidade de Brno, na República Tcheca, promoveu corrida de carrinhos de bebê (com os bebês dentro dos bólidos). O ser humano tem imaginação, logo, há de tudo.
A Finlândia, país rico, com o melhor sistema educacional da Europa, exagera em excentricidades. Lá, desde 1992, é sediado o campeonato mundial de carregamento de esposas (o homem carrega a esposa por 250m vencendo obstáculos). Em 2000, surgiu, também por lá, o primeiro campeonato de arremesso de celulares (o novo recorde mundial foi alcançado ano passado, um Nokia – produto local – atirado a 101m). Nenhum campeonato bizarro realizado na Finlândia, contudo, tem mais sucesso do que o de Air Guitar.
Na cidade finlandesa de Oulu, desde 1996, o certame que decide quem é o melhor tocador de guitarra imaginária faz sucesso. Começou modestamente, hoje é a maior atração turística da cidade. O campeonato é coberto mundialmente. Publicações como o Time e o The New York Times abrem suas páginas para os guitarristas imaginários.
“O campeonato surgiu, obviamente, como uma piada; afinal, a ideia de tocar uma guitarra imaginária é, por natureza absurda e sem sentido, mas Oulu é nosso Vale do Silício, o local onde todos sabem o valor das chamadas loucuras criativas, onde se aprende que idéias aparentemente absurdas podem se transformar em grandes iniciativas. E foi o que aconteceu. O evento cresceu enormemente, ganhando a atenção internacional desde que a Time fez sua primeira cobertura, em 2001. Hoje, Oulu é conhecida como a capital mundial da air guitar, um grande marketing para a cidade, que ganha com a propaganda e com os cerca de dez mil turistas atraídos para o evento anualmente”, declara Hanna Jakku, diretora e uma das criadoras do evento.
A versão 2013 do campeonato foi vencida pelo norte-americano Eric Melin. (UCS)

(Fonte: Heróis da guitarra invisível, O Globo, p. 1, Segundo Caderno, 23/8/2013)


quinta-feira, agosto 22, 2013

UM ESQUISITO MUITO ESPERTO



David Rees era humorista político. E dos bons. Desde os atentados de 11 de setembro Rees criticava George Bush. Seus quadrinhos “Get your war on”, no entanto, chegaram ao fim com a vitória de Barack Obama nas eleições de 2008.
Rees falou a O Globo: “Não tinha mais o personagem Bush para brincar, e eu queria fazer algo menos intelectual e mais manual”.
Sempre apaixonado pelo lápis, seu principal instrumento de trabalho como desenhista, sua profissão futura parecia estar encaminhada. Trabalhou antes como recenseador. Preenchia os formulários munido de lápis e apontador.
“Foi como voltar no tempo. A sensação era a mesma que sentia quando ia à escola. Assim que acabei o recenseamento decidi abrir meu próprio próprio negócio: apontar lápis”, diz Rees.

Rees preparou-se e especializou-se em várias técnicas para apontar lápis. (Nós, os mais idosos, imaginávamos que havia apenas uma técnica: enfiar o lápis no buraco do apontador e girá-lo. Os não tão novos ignoram o que é lápis e apontador; usam lapiseira. Os novíssimos não sabem mais usar esses instrumentos rudimentares.)
Hoje, David Rees tem ateliê no Vale do Hudson, em Nova York, e vai muito bem.
“Entre meus clientes há artistas, professores e mães que querem que os filhos cheguem ao primeiro dia de aula com lápis perfeitos. Mas há quem veja meus lápis como esculturas e prefira exibi-los na prateleira.”
David cobra entre 35 e 40 dólares para apontar lápis, que são entregues em tubinhos de plástico e com certificado de garantia. Entre os clientes de Rees, a escritora Elizabeth Gilbert (Comer, rezar e amar) e o cineasta Spike Jonze (Quero ser John Malkovich).
David Rees me inspirou. Já penso em abandonar o jornalismo e me transformar em vinyl cleaner.

(Fonte: O excêntrico Sr. Lápis, O Globo, Caderno Ela, p. 3, 25/5/2013)


quarta-feira, julho 17, 2013

XAVASCADA


Gosto muito de Luiz Alfredo García-Roza. O autor de romances policiais. O filósofo, eu nem conheço. Discussões filosóficas estão além de meu cérebro de cinco neurônios.
A ambientação dos romances de Roza é Copacabana. Espinosa, o detetive com nome de filósofo, não costuma atirar em ninguém, curte literatura e resolve os casos, muitas vezes, com ajuda do acaso. Dos cinco livros que li de Roza, Espinosa estava em quatro.

“O silêncio da chuva” foi o primeiro romance publicado de Roza. Ganhou o Jabuti e o prêmio Nestlé de 1997, mas nada disso me impressionou. Não me tornei fã de Roza por causa dos prêmios que recebeu. O que me tornou um leitor assíduo de seus livros foi a solução que ele encontrou para punir o vilão-sequestrador no final de "O silêncio...". Com uma surra de xavasca, a vítima (indefesa?) aniquila seu algoz. Sensacional. Recomendo.

segunda-feira, julho 08, 2013

AMOR & ACASO


Há histórias de vida que parecem roteiro de filmes.
Glenn Greenwald é norte-americano. Em 2000 veio passar as férias na América do Sul. Pretendia ficar cinco dias no Brasil e cinco na Argentina. Ficou os 10 por aqui. Até hoje nunca foi à Argentina. Depois dessa primeira vinda, passou a visitar o Brasil anualmente.
Era advogado nos EUA e os atentados de 11 de setembro, como ele diz, “trouxeram graves consequências para a vida comum americana, atingindo de forma cruel os direitos individuais, entre eles, a liberdade”. De saco cheio das bushadas, alugou um apartamento no Rio onde pretendia ficar uns dois meses. No segundo dia de licença conheceu David Michael dos Santos Miranda. “Nos apaixonamos imediatamente. Isto nunca tinha acontecido em minha vida”. O amor, sacumé.
Os dois resolveram ficar juntos. O governo americano, no entanto, não dava cidadania em caso de relação homossexual. Para ficar com David, Greenwald veio para o Brasil.
Sem saber o que fazer para ganhar a vida no Brasil, Greenwald resolveu iniciar um blog para protestar contra os abusos aos direitos humanos perpetrados pelo governo Bush. O blog cresceu, ele escreveu alguns livros, ganhou credibilidade, virou colunista do inglês The Guardian e foi contatado por Edward Snowden, o homem que resolveu mostrar o que todo mundo já sabia: os EUA espionam todo o mundo das formas mais escabrosas.
Greenwald publicou os artigos que arrancaram a máscara de Obama e seus acólitos e se transformou em celebridade mundial. Tudo por causa do amor e do acaso.
Não dá um lindo drama romântico?
Brevemente, você verá nas telas de um cinema pertinho de sua casa.
(Li em O Globo)

domingo, junho 23, 2013

BOLAS AO VENTO


Quando menino, corria peladinho pelas quebradas da Serra, nariz escorrendo catarro... Mergulhava nas águas barrentas do Rio Everest, nadava até a ilhota de entulhos e punha-me a pensar na vida. Imaginava a Serra governada por pessoas eleitas por toda a comunidade. Essas pessoas, obviamente, se organizariam em grupos com ideias afins. Estas ideias seriam expostas à comunidade que escolheria os portadores das melhores a fim de que estes as implantassem por um período de, vamulá, quatro anos.
Depois de eleito, o grupo trabalharia sem ser atrapalhado pelos adversários. Estes adversários, se pudessem, deveriam, inclusive, ajudar os oponentes. Sacumé, pro bem do povo, como todos gostam de dizer. Só se voltaria a falar em eleições bem pertinho da próxima.
Como criança é simples, tosca e imaginosa, em meus delírios (acho que era efeito de minhas bolas ao vento) via os grupos adversários se reunindo periodicamente para pensar no que deveria funcionar muito bem, independentemente de quem ocupasse o Barraco Branco: saúde, educação, segurança e transporte. Investimentos e providências para manter funcionando bem essas quatro áreas não seriam interrompidos.
Fui uma criança primitiva, cheia de pensamentos selvagens e tolos. Não sabia ainda da boa disposição de todos nós, seres humanos, de empurrar para o outro a responsabilidade pelos malfeitos. Vovó e eu caçávamos ratazanas no lixão e ela sempre me dizia: “Esqueleto, filho feio não tem pai”. Estava certa. Essa frase de vovó e uma outra, do Bochecha (“Farinha pouca, meu pirão primeiro”), me fizeram perder a inocência.
Daí pra frente passei a andar vestido. Nunca mais bolas ao vento.

sábado, junho 22, 2013

MEMÓRIA LIBIDINOSA

Nada mais poderoso do que a memória libidinosa.
Livros e bons filmes, passados alguns meses, esqueço.
Mas a sacanagem e a libidinagem apreendidas na remota adolescência são inesquecíveis.
Baixei pelo Dreamule o clássico de Salvatore Samperi, Peccato veniale. Vi o filme há 40 anos, num poeira onde hoje está o Sambola, na Av. Suburbana. Ver é força de expressão. Devorei-o. Naqueles bons tempos podia-se entrar no cinema às duas da tarde e sair à meia-noite, depois de ver várias sessões do mesmo filme. Assisti a Pecado venial em várias sessões e em diversos dias. Tudo por causa de Laura Antonelli.
Minha mãe era leitora de fotonovelas que, em sua maioria, vinham da Itália. História com Laura Antonelli eu não perdia. Lia a Grande Hotel, da Editora Vecchi, antes de minha santa mãezinha, babando pela Antonelli.
Quando a vi em tela grande, pedi aos poderes celestes que não permitissem que jamais a encontrasse em pessoa. Tenho certeza que sucumbiria diante dela.
O Dreamule baixou quatro versões de Pecado venial. Assisti-as. Logo na primeira cena mais quente percebi um pequeno corte. Alessandro Momo, o garoto sacana que papará a cunhada no final, lava o cabelo de Laura. A cena original mostra parte dos seios da deusa. Nesta versão, a cena está cortada.
Na segunda versão, a artística cena, dentro do cinema, em que o menino safado força a mão nas coxas da cunhada é mutilada. Não aparece a cunhadinha dando livre acesso às mãos do molequinho.
A terceira versão, com legendas em sei lá qual idioma, estava completíssima. Vi, 40 anos depois, o pivete traçar Laura Antonelli em alto estilo. Não tive esse prazer há 40 anos porque o filme teve a cena final cortada pela Ditadura Militar, da qual alguns babacas sentem saudade.
Minha memória pode não ser boa para muita coisa, mas descobri que sacanagem ela armazena muito bem.


P.S.: Quando falo que o filme continha cenas de sacanagem é força de expressão. A novela das 18h, hoje, tem muito mais libidinagem do que os filmes “pesados” de outrora.

quinta-feira, junho 20, 2013

MARUJO



No Metrô, os peitos na cara do garoto. Hormônios em erupção, o moleque tentava desviar os olhos. Impossível. Os volumosos seios o encaravam, atrevidos. Por causa da situação, pensei no Marujo. Ri dele e do garoto. Eu e Marujo trabalhávamos juntos na década de 80 do século passado. Ele era a encrenca, ligadaço, quase sempre doido. Uma história contada por ele divertia a turma.
“Gordo, estava no frescão. A mina sentou do meu lado. Tinha outros lugares, gordo. Uma gracinha. Pensei, vou chegar nela. Pra não levar toco, ataquei por baixo. Dei um toque no pé dela com o meu. Ela ficou na dela. Pisei, então, com um pouco mais de força. Ela disfarçou e olhou pro outro lado. Cara, a barraca armou imediatamente. Pisei, de novo, no pezinho dela e forcei um pouco. O olhar dela cruzou com o meu. Resolvi partir pra cima, mas saquei que ela estava com uma Bíblia no colo. Recuei. Minha mãe é da Assembleia, gordo. Tenho o maior respeito. Mas, aí, qualé?, essa mina tá me dando mole. É uma fiteira. Puritaninha vagaba. Santinha devassa. Calquei meu pé no dela. Ela movimentou o corpo todo. Gordo, gordo... ela tava excitadona. Aí, mermão, subitamente, me veio a luz. Se ela mexeu o corpo todo, cumé que o pé dela, embaixo do meu, estava paradão? Olhei pra baixo e vi meu pé se roçando na base da poltrona. Gordo, já ia enfiar minha mão nas coxas da mina”.

terça-feira, junho 18, 2013

BABAS


Um baba-ovo voltava todos os dias para casa na carona do chefe. Infalivelmente, perto do final do expediente, ele dizia (com sinceridade, porque legítimos babas creem no que dizem): “Está chegando a melhor hora de meu dia, quando entro no carro do chefe e ele sintoniza a Rádio Tupi FM. Só música linda e em boa companhia”.
Outra baba-ovo, todas as vezes que o chefe passava perto dela, dizia: “Chefe, que perfume é esse? Maravilhoso. No senhor, então, é demais. Combina perfeitamente com o senhor”. Ela só nunca disse que o cheiro natural do chefe era magnífico, talvez por receio de ele chamá-la para dançar e ela não ter coragem de negar.
Um terceiro baba-ovo aguardava o chefe no portão da empresa. Ao avistá-lo, ia em sua direção, pegava a pesada pasta que o feitor carregava e a depositava carinhosamente sobre a mesa dele. Celeremente, perguntava à razão de sua existência se havia se alimentado. O líder sempre dizia: “Que nada! Saí correndo da repartição”. O baba suspirava, revirava os olhinhos e voava para a cantina a fim de comprar a papinha de seu senhor. Nunca soubemos se os dois dividiam uma cama depois do expediente.

segunda-feira, junho 17, 2013

CHEFES


Um chefe era revolucionário. Nas manifestações contra a ditadura militar, segundo ele mesmo, atirava coquetéis molotoffees (era assim que ele falava, pensando nas balas Toffee). Do molotov, claro, o cascateiro nunca chegou perto. Nós, a patuleia, ouvíamos seus relatos dos tempos em que era um rebelde e fingíamos respeito, admiração e surpresa pela bravura de nosso comandante. Não nos recrimine, eram expressões legítimas de saudável puxassaquismo.
Outro chefe acordava de manhã e ordenava a seu intestino: “Cague!” E o intestino cagava. Enquanto obrava, a mulher e os três filhos entravam na sala do trono a fim de tratarem da agenda do dia. A música de fundo para a reunião familiar vinha da Rádio Tupi FM. Musak, claro. Tudo isso o chefe contava para nós, plateia cativa. Quando ele saía da sala, rolávamos no chão de tanto rir.
O terceiro chefe se entendia estrategista. Um maximizador do tempo. Trabalhávamos em dupla. Solitariamente, ninguém produzia. O chefe, então, ordenava: “Mesa 2: mijar”. E mijávamos. Mesmo sem vontade. Ele virava-se para outra dupla e determinava: “Mesa 3: relaxar. Passeio completo no corredor”. Imediatamente, dois barbados, lado a lado, levantavam-se e passeavam pelo longo corredor da falida Bloch Editores. Ainda bem que ele nunca pensou em nos fazer caminhar de mãos dadas.

quinta-feira, junho 13, 2013

BOM TEMPO



Religião é parada estranha, no entanto, sempre fui religioso.
Na pré-adolescência, influenciado pela umbanda, religião de meus pais, acendia velas por qualquer motivo. Se queria alguma coisa, antes de me esforçar para conseguir o que desejava, prometia a uma entidade qualquer um determinado número de pacotes de velas.
Antes de entrar na escola, todos os dias, iluminava a Igreja Perpétuo Socorro com as velinhas. O filminho na Praça S. Pena era precedido por uma passadinha na Igreja Santo Afonso. No dia em que quase incendiei a casa onde morava, resolvi parar com aquela babaquice, mas logo vieram outras.
Antes de umbandista, fui católico. Ia à missa na Igreja de São Cosme e Damião. Era uma tortura. Tem de ter saco de filó pra aturar missa. Sessão de umbanda, não. É uma delícia. Pelo menos para mim, era.
Em dias especiais meus pais me levavam ao Centro. O casarão branco de d. Belinha se destacava na Teodoro da Silva. Subíamos uma escadaria para chegar lá. Embaixo, o campo do América (hoje, o espaço é ocupado pelo Shopping Iguatemi). Nós, crianças, ficávamos em um salão na parte de cima da casa. Éramos convocados quando iniciava a gira de crianças.
As sessões eram animadas porque havia movimento intenso e as crianças incorporadas em adultos nos divertiam demais. Pense em alguém seriíssimo comportando-se como criança birrenta. Era isso que rolava.
Minha tia Janete era a criança mais bonita e alegre (Zarara, se não me falha a memória). D. Leonor, uma vovozinha simpática, a mais chata. Ela enchia a boca de doces, cuspia-os de volta na mão e os passava na boca dos incautos. A diversão era ficar longe dela e sacanear os desprevenidos.
Ver minha mãe se comportar como criança era estranho e hilariante. Quando ela recebia Tia Rosa, era uma velha; montada por Sete Caveiras, sinistra.
Num canto do terreiro, no castigo, quase sempre ficavam médiuns que estavam se desenvolvendo e faziam alguma lambança antes de aparecer na sessão (faltas, bebidas etc.). No Centro da d. Belinha, ficavam no cantinho, ajoelhados, e não podiam se levantar. Quando desobedeciam, o espírito incorporava e os jogava no chão. Impressionante. A relação dos indisciplinados era cheia de figurinhas repetidas: meus tios Zeca e Arari, Alcides e Moacir.
Lembro-me de ter visto o Alcides, um negão de 1m90 e mais de 100kg, sendo atirado de um lado pro outro, dentro do terreiro, por forças invisíveis. Naquele dia deve ter feito merda grande.
Aos vinte anos ingressei em uma igreja evangélica. Foi uma boa decisão, mas perdi muita coisa da vida, desnecessariamente. Afastei-me de amigos, família. Não responsabilizo ninguém. Culpa de minha ignorância. Isso, lamentavelmente, só sei agora.

terça-feira, junho 11, 2013

MACISTES

Meu irmão foi fazer um cateterismo. Junto com ele foi o seu Paixão: 84 anos. No consultório, a recepcionista distribuiu os crachás: acompanhante, Chumbinho; paciente, seu Paixão. O velho lobo do mar esperneou: “Peraí, menina, sou acompanhante. Eu trouxe o garoto”.
A televisão de casa pifou. A religião que sigo me impede qualquer envolvimento com técnicos de qualquer coisa, por isso... Minha abastada mana cedeu-me generosamente o aparelho de sua biblioteca. O quebrado de casa, um Philips de tubo, 29 polegadas, mais pesado do que bigorna de desenho animado, precisava ser descartado. A santa sogra encontrou alguém para ficar com a TV.
Seu Joaquim, 75 anos, esquálido, se apresentou para pegar o bloco de concreto. “O senhor trouxe algém para ajudá-lo?” “Cadê a TV?” “O senhor não vai agüentar. As escadas...”
O velho maciste abraçou a TV, desceu as escadas, jogou-a no ombro e lá foi como se carregasse algodão.