quarta-feira, outubro 25, 2017
BULINGADORES
O
bullying é algo terrível. Sei porque sofri.
Como
bom petista, antes do PT, era feio, gordo e pobre. Além de tímido, covarde e
sem iniciativa. Uma vítima.
Não
chorem, mas no recreio, às vezes, eu preferia ficar dentro de sala com medo de
ser sacaneado. Se descesse com a merenda (pão com margarina) sempre era roubado
por um feladaputa (acho que meu desprezo pela humanidade vem daí ).
Entre
uma aula e outra, eu suava frio. Torcia para o professor chegar à sala, porque
enquanto ele não chegava levantava-se uma galinácea (Sandra, amo essa velha até
hoje) que se intitulava Mugamada. Eu era o Mug. Ela tripudiava desta vitiminha
aqui e a turma gargalhava. Vontade de estourar a cara dela com um tiro? Claro
que tinha, mas meu pai não suportava armas. Sorte dela.
Em
todas as escolas do mundo há um infeliz que é perseguido pelos coleguinhas e há
duas formas de vencer esse desafio: ou mandando o sacana pro além ou superando
e seguindo em frente. Eu segui em frente.
Depois
do ginásio, continuei gordo, pobre e feio, mas ninguém me sacaneava mais. Só de
longe. Obviamente, minha inteligência acima da média me ajudou, mas, principalmente, adotei nova
atitude diante da vida.
A
pior atitude que podemos adotar é a da vítima. Se você correr atrás de uma
ratazana ela vai fugir, até o momento em que ela não tiver mais pra onde ir. Aí
ela ataca. Se você sofre bullying, se sente acuado e não tem minha inteligência,
não precisa matar ninguém. Arme-se com um bom pedaço de pau e parta pra cima de
quem te sacaneia. Você nunca mais será bulingado. Todos temem os loucos.
quinta-feira, outubro 19, 2017
CRIANÇA RAIZ
Criança,
hoje, tem boa vida.
Meus
tios Zeca e Ari me contavam que uma vez, adolescentes, fumavam na rua, matando
aula. Um vizinho passou por eles, chamou-lhes a atenção e pespegou-lhes tapas
na cara. Na cara dos dois. Saiu dali, foi até o pai deles, meu avô, e relatou o
ocorrido. Meu avô parabenizou o vizinho, chamou os dois e tapa na cara foi só o
começo de uma surra que passaria para a história da família. Surra relembrada em
diversas reuniões familiares, por muitos anos depois de acontecida. Meus tios
relatavam a sova rindo, aparentemente sem mágoas. Meu tio Ari, o mais velho,
ainda debochava: “Eu obrigava o Zequinha a fazer gazeta. Ele ia obrigado. Se
não me acompanhasse, eu batia nele. Acabou apanhando do vizinho e do velho
Benício”.
Meu
tio Bira, o salvação, era figura divertidíssima, pelo menos para nós que
vivíamos longe dele. Lutou muito. Foi taxista, mecânico, dono de caminhão de
frete. Em uma época que poucos tinham casa própria, comprou três, ao longo da
vida. Casas que ficaram para os filhos. Divorciado, criou os quatro filhos com
a sogra. Cristã atuante, levou todos os netos a Jesus.
Tio
Bira era seguro, pão-duro, canguinha. Quando precisava comprar sapatos para os
quatro filhos, fazia-os pisarem em uma folha de papel, tirava o contorno dos
pés e ele mesmo ia à sapataria fechar negócio.
Meu
pai era mão-aberta, mas não tinha dinheiro. Na infância, eu escrevia cartas
para o Papai Noel e pedia. Pedia bem. Não recebia nada. Ficava aborrecido.
Internamente, xingava o velho Noel, mas logo me arrependia e atribuía a esse
tipo de atitude a razão de não receber o solicitado. Duro foi quando fiquei,
por uns três natais, recebendo a mesma bicicleta, repintada. Com os meus
botões, pensava: “Sou mau pra dedéu, o velho não vai mesmo com minha cara”.
A
boa criança daquela época era discretíssima. Andava sempre de cabeça baixa. Não
se intrometia em conversa de adultos. Para ser exato, não demonstrava interesse
no papo dos maiores. “O que está olhando, isso não é conversa pra você?” Toda
criança de meados do século passado ouviu isso. Entre os adultos, desqualificar
uma criança era chamá-la de reparadeira. Reparadeira era a criança curiosa, que
olhava e via. Era uma observadora. Chegava em um ambiente e perscrutava com os
olhos todos os cantos.
Criança,
hoje, tem boa vida. Para o bem e para o mal.
As
crianças de hoje são mais saudáveis, autônomas, sensíveis, destemidas. Também
são mais mimadas, birrentas, cheias de vontade.
Na
minha frente, no Supermercado, um menino de no máximo 5 anos pediu um chocolate
à mãe. A mãe falou baixinho no ouvido dele que estava sem dinheiro. O moleque
começou a xingá-la com alguns nomes que precisei anotar para buscar o
significado depois. Xingava aos berros, chutava a mulher que, constrangidíssima,
pegou o chocolate pro pimpolho. Se eu pudesse entregá-lo pro velho Benício...
O
tempo passa e a maneira de lidarmos com diversas situações muda. Não vejo
sentido em agredir crianças nem de excluí-las do ambiente adulto, mas limites
precisamos dar. Se isso não for feito, temo pela geração que está sendo
formada. Uma geração sem noção do que são seus direitos e deveres. Uma geração
ressentida por crer que o que lhe é devido não foi entregue. Não há dívidas.
Construímos nossa história e nem sempre o percurso é suave e o final feliz. A
criança precisa entender que sem esforço e vontade não se chega a lugar algum.
segunda-feira, junho 26, 2017
VERDADES & MENTIRAS
Há muito tempo, foi moda no FB a elaboração de
lista com verdades & mentiras. Normalmente, sete verdades e uma mentira.
Sempre sobre a vida do autor do texto. Não sei quantas verdades escreverei.
Haverá, claro, uma mentira. Não garanto revelá-la.
1) Uma vez, menino ainda, descia a íngreme
ladeira da Ferreira Pontes, no Andaraí, de velocípede. Em pé, atrás de mim, uma
amiguinha. Com uma das mãos, segurava meu ombro para se manter equilibrada, com
a outra empinava uma pipa. Não sei por que fazíamos isso. Bobeei e choquei-me
com um hidrante.
A amiguinha voou por cima de mim e encarou o
perverso hidrante com o queixo. Fiquei traumatizado, tomei umas chineladas de
minha mãe, mas a amiguinha não perdi.
2) No ginásio, tinha uma professora chamada
Clícia. Eu estava resfriado e, porcão, engolia o catarro que produzia. Tudo
isso dentro da sala de aula, sentado bem pertinho da mestra para sorver a
sabedoria que dela emanava.
Incomodada com meus maus modos, a educadora me
deu um esporro de arrasar quarteirão. A turma se solidarizou comigo, indignada
com a atitude dela, e cortou relações com ela. Na aula seguinte, a megera fazia
perguntas e ninguém respondia. Ela percebeu a jogada e, maquiavélica, fez uma
pergunta ao covarde: eu. Respondi, a turma se emputeceu comigo e o movimento de
protesto acabou. Levei 40 anos para voltar a respeitar professores.
3) Na década de 80, toda hora havia greves.
Trabalhava na Manchete. Minha jornada era de 7 às 13h, de segunda a sexta. Ótimo
horário, salário de mercado, não precisava ocupar meus fins de semana e tinha o
dia inteiro para trabalhar em outros lugares ou estudar.
Na Manchete, falta em dia de greve era demissão
na certa. O Jaquito era implacável.
Um dia cheguei e tinha piquete na porta da
empresa. Havia uma entrada “social” e outra de funcionários. A de funcionários
levava ao relógio de ponto. Na Manchete, trabalhavam diversos tipos de
profissionais. O expediente que se usava para furar a greve era dizer que ser
jornalista em dia de greve de gráficos ou gráfico quando o piquete era de
jornalistas.
Eu, evangélico da antiga, não gostava de mentir.
Mentia, mas naquele dia, sei lá... “Sou jornalista e vou entrar.” “Estamos
lutando por você, pelego feladaputa.” “Vou entrar.”
Levei cascudo, porrada nas costas, chute na
bunda. Fui chamado de traidor, vendido e o cacete a quatro. Mas entrei.
Senti-me um covarde, mas segui empregado.
4) Eu e Hernani, pré-adolescentes, tínhamos uma
paixão comum: Zoé. Ela morava no 590 (ou 490) da Conde de Bonfim. Muitas vezes
ficávamos sentados em um boteco bem em frente ao prédio, a observar porra
nenhuma.
Um dia, ousados, entramos no prédio. Logo fomos
cercados pela garotada local, os inimigos. O que estão fazendo aqui? Por que
entraram? Aonde vão? As respostas não foram satisfatórias, levamos uns safanões
e fomos imediatamente expulsos.
No dia seguinte, Osvaldo, namorado da cobiçada,
me cercou e garantiu que me encheria de porrada na saída. Seria mesmo, sem
apelação. A não ser quê...
Eu tinha um amigão. Amigo de rua. Conhecido da
família. O maior lutador de rua que conheci. Da mesma turma de Osvaldo
Jiu-Jitsu.
Recorri ao protetor. Ele, carinhosamente,
alertou o pretenso espancador: “O Mug é meu amigo. A briga dele é minha”.
Ninguém desafiava Paulo Roberto Silva. Escapei.
Não era bom ser frouxo, mas eu não gostava de
apanhar.
5) Fui uma criança encagaçada. Tinha medo de
tudo. Minha avó Dalila (ela era só minha) ficava vendo televisão comigo
madrugada adentro. Eu e ela, sozinhos, madrugada adentro. A velhinha dava
cabeçadas de sono. Meu tio chato de vez em quando acordava e enchia o saco:
“Mamãe, vem dormir”. Ela saía do sono profundo pra dizer: “Arari, vai dormir,
estou vendo o filme com meu favorito”.
No meio da madruga, me dava vontade de mijar e
cadê coragem para ir ao banheiro sozinho? Tirava a vovozinha do meio do sono
para me proteger no perigoso percurso. Dormia de mãos dadas com ela. Tudo me
assustava.
Apanhava muito de uma vizinha na Rosa e Silva
(para ser justo, de mais de uma). Tomava cascudos de um outro, a troco de nada.
Os dois estão aqui no meu FB e não se lembram de nada. É natural.
Na rua, minha vovó não podia me proteger, mas
dentro de casa era minha guardiã.
6) O melhor amigo que tive no ginásio,
enlouqueceu. Os irmãos dele se envolveram na luta armada contra o regime
militar. Sofreram muito, por convicção. Hoje, talvez estejam bem. Menos ele.
Nem sei se está vivo.
Percebi que ele não estava bem quando, aprovado
na Escola Técnica Celso Suckow, desistiu do curso e reuniu´se a nós na boate
João Alfredo, em Vila Isabel.
Já num hospício, fomos visitá-lo, eu e
Wanderley. Duros, comemos jaboticaba o dia inteiro. Deley era ótimo em subir em
árvores.
Meu último contato com Ronaldo foi em
Jacarepaguá. Ele estava internado em um manicômio da Cândido Benício e de lá
fugiu. Foi lá pra casa, alteradíssimo. Todo mundo em casa se assustou. Eu, mais
que todos. Dei um jeito de encaminhá-lo de volta ao hospício e nunca mais o
procurei. Não ser bom amigo é decepcionante, mas me faz ver que não sou grande
merda.
7) Uma vez por semana os enfermeiros do hospício
mencionado aí em cima levavam os malucos para jogar no campo do Parâmides. Eles
chegavam, interrompiam a pelada e o time deles jogava contra um formado pela
rapaziada.
Os enfermeiros sempre pediam nossa colaboração
(nossa é força de expressão, eu era costumeiramente barrado na pelada pelo
excesso de ruindade). “Por favor, deixem os doidinhos jogar. Peladinha café com
leite. É só 20 minutos de jogo. Terapia. Pelamor de Deus, não tirem a bola dos
malucos.”
Em nosso gol (Na pelada dos malucos, eu jogava.
Não desarmava ninguém nem fazia gols, era o jogador ideal para não irritar os
aloprados.), atuava o Tiquinho. Também conhecido como Botiquinho. Bebia doses
cavalares de cachaça. Nunca o vi sóbrio. Era um bêbado que levava a sério o
futebol, mas deixava os doidos marcarem gols em sua meta. Quase sempre. Um dia,
sei lá por que, encarnou Andrada. E antes da pelada começar, gritou: “Hoje, sou
Andrada”. Percebi a merda e, mais inteligente do que a maioria, cedi minha
vaga.
Os alucinados vinham com a bola, passagem aberta
pelos atletas da linha, e porravam em direção à baliza guarnecida pelo lendário
Tiquinho. E ele pegava todas. No começo, apreensivos, todos pedíamos para ele
deixar a bola entrar. Alguém tentou substituí-lo. Ele se recusou a sair. Os
doidinhos ficaram nervosos. Os enfermeiros resolveram encerrar a partida. No
mesmo momento, um louco foi lançado em profundidade, driblou o Tiquinho e
quando ia fazer o gol levou um pontapé do bêbado. Pênalti. E não é que o
feladaputa defendeu.
Não teve jeito, a porrada comeu e os malucos
nunca mais vieram ao Parâmides.
8) Tenho um amigo muito criativo. Ele é coronel
PM, já reformado. Comandou o quartel da área da Praça Saens Pena. Anos 80 do
século passado, muitos furtos aconteciam na Praça. Os gatunos deitavam e
rolavam. Um dia, o amigo reuniu seu estafe e disse: “Vamos pôr um espantalho no
meio da Praça. Temos um Opala em boas condições de lataria, mas mecanicamente
se arrasta. A gente deixa o carro na Praça com dois homens. Não dá pra sair com
ele atrás de ninguém, mas acredito que assustaremos os pilantras.”
Dito e feito. Os índices de furto caíram muito.
O sucesso foi tanto que chamou a atenção da imprensa. Bastaram duas ou três perguntas
do repórter para que ele, profissional, percebesse que o Opalão era somente um
espantalho. Reportagem na TV e entregada em O Globo levaram ao fim a Operação Opala
Espantalho. E os gatunos voltaram a se espalhar.
9) Em minha meninice, Roberto “ganhou” a garota
mais bonita da rua: a Cacau. Nós morávamos na Rosa e Silva, entre a Ferreira
Pontes e Botucatu. Cacau morava entre a Botucatu e a Caçapava.
Todos os dias jogávamos uma pelada na rua (eu
era gandula), perto da Botucatu.
Um dia Cacau apareceu para fazer um aceno
carinhoso pro Roberto. Ele não gostou. “Não pegou bem, ela aparecer na pelada.
Todo mundo olhando pra ela.” Como se normalmente não olhássemos.
Chiquinho instigou: “Tem de dar um toque nela.”
Roberto deu. Ela o mandou passear. Chegou a chorar por perder o pitéu.
Menos de um mês depois o titular absoluto no
escrete da Cacau era o Chiquinho. Ele nunca ligou de ela ir vê-lo jogar na
pelada.
10) Todos se surpreenderam quando José Luis, o
Arroz Brejeiro, trucidou em uma briga o Ronaldão. Semana sim, semana também, o
asqueroso escalava alguém que ele entendia fraco e avisava: “Depois da aula, me
espera lá fora”. A maioria das brigas nem acontecia. Na hora da porrada, ele,
condescendente, dizia: “Dessa vez vou livrar sua cara, mas na próxima...” O Zé
não esperou que ele falasse e só parou de bater quando ele disse bem alto:
“Arrego”.
A surpresa de todos com o resultado da briga foi
por causa da natureza pacífica do Zé. Ele era sacaneado por todos na escola e
sua única reação era pôr sobre o branco leitoso de sua pele um vermelhão de
camarão. Ele ficava puto por ser chamado de Brejeiro, mas jamais reagiu.
Euzinho não me surpreendi. Éramos bons amigos.
Frequentava a casa dele na Souza Aguiar, no Méier. O Zé tinha um irmão mais
velho, louco de pedra. Presenciei algumas brigas entre os dois. Eram épicas.
A porradaria começava dentro da casa, passava
por uma longa escada e quase sempre terminava no quintal. Socos, pauladas,
chutes, uma vez rolou faca... Eu ficava lá de cima, olhando. A luta sempre
terminava com o Zé engravatado, sufocando em vermelho babado, tendo de gritar
Arrego, arrego, arrego, com a voz esmagada. Estropiado, sempre depois das
lutas, ele dava uma meia-dúzia de socos na parede. Depois do dia da faca não
apareci mais lá, mas saí convicto de que brigar com Zé Luís não seria bom
negócio.
Com a carreira do Ronaldão, ele acabou.
Fim de papo.
sexta-feira, junho 16, 2017
SOMBRA
Cansamos
de avisar a Lindinha, com risco de nossas vidas, que o Treta era rabo de
foguete. Para mim ela dizia, fiada no parentesco: “Tio, você vê perigo em
tudo”.
A
molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara
mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Treta se era verdade o que
dizíamos, deixamos rolar.
Nem
com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de ser comum a covardia
diante de um matador.
Bom,
o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do
matador. Aos domingos, quando dava, Treta almoçava na casa de meu irmão.
Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher,
“Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor
bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer.
Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu
na lábia do Treta, sei não...
Meu
irmão ligou pra mim perguntando se eu podia acolher Lindinha. Ela não queria
saber mais do Treta e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem
gente daí que sabe que estou aqui. Ralem todos. Vão pra casa dos primos, em
Natal”.
Em
Natal, Lindinha voltou a estudar. O Treta tocou o terror lá em casa, mas
consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Parentes? Não, não
temos”.
Antes
de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui
a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O
mano ficou mais um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para
onde ia.
Treta
foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu em um indulto de Páscoa
apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha
família passar, agora era crente, irmão Jeremias, e só tinha amor no coração. O
desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a
família que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares,
daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que
o cara tinha virado crente, mesmo.
Duas
semanas pra frente, abri o jornal e dei de cara com uma foto de Treta, morto. A
mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse
desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e
sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.
BRRPPP
- Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!
– Cara, ‘cê tá louco? Não faça isso.
– O quê? Tô fazendo o quê?
– Você está esfregando seus lábios no ventre nu
de sua filha e produzindo esses sons em que percebo alguma lascívia.
– Zeca, é um bebê. Minha filhinha. Ela adora.
– Cara, ‘cê pode ser acusado de estupro. Se
algum paranoico vir uma coisa dessas tu tá fu. Abuso sexual, sacumé. Pena dura.
Pedofilia.
– Deixe de ser exagerado.
- Quando você a pega no colo, suas mãos se
apoiam na bunda dela, reparou?
- Com vou levantá-la para assoprar a barriguinha
dela?
– Louco! Louco! Louco! Não toque nas partes
íntimas de sua filha? Cara, você vai ser enquadrado como tarado.
– Eu dou banho nela. Troco as fraldas. Limpo a
bundinha.
– Cara, procure ouvir o que você disse: “Limpo a
bundinha”. Quer dizer, passa essas mãos cúpidas, acostumadas às mais depravadas
libidinagens, nas inocentes nádegas da criança. Você vai puxar 15 anos.
– Eu e minha mulher trabalhamos. Dividimos as
tarefas do lar. Ela só aceitou casar se fizéssemos assim. Eu concordei.
– Isso pode pesar contra você. Dirão que tudo
foi premeditado. Saiu-se com essa de divisão de tarefas para assediar, sem despertar
desconfiança, a inocente.
– Caraio, o que faço?
– Sua sorte é que estou te alertando. Não toque
mais nessa criança. Nada de colinho. Boca na barriguinha. Cheirar os pezinhos,
podofilia, nem pensar. Deixe essa criança aí, do jeito que está. Espere sua
mulher chegar e acabe com esse negócio de divisão de tarefas.
– Vai dar divórcio.
– Melhor, pelo menos você fica em liberdade.
domingo, junho 11, 2017
O MURO
Minha sogra amadinha é espoleta.
Durante a semana ela me fornece almoço. O
serrano não entra em cozinha. É contra nossos hábitos culturais.
Pego o farnel por entre grades. A parte de cima
do muro é gradeada. Se tivesse de ir até a casa dela andaria o triplo do
caminho. Uns 50m a mais. O serrano é preguiçoso, não gosta de andar. Outro
hábito cultural;
Dia desses, o farnel estava tão farto que não
passou pelas grades. Ela se virou para mim e disse:
- Pamonha, segure a bolsa.
Segurei.
Ela pegou as grades com as duas mão, levantou a
perna até o alto do muro e subiu, como um chimpanzé.
Levei um susto, mas não só eu. Uma afro descendente
que passava, empoderadíssima, cabelaço lindo, gritou pungentemente:
- Meu Deus!!!
A sogrinha, vociferou, passando a bolsa por cima
da grade:
- Banana, pegue a bolsa.
A deusa de ébano, paralisada, estupefata, me
perguntou:
- Ela não vai pular o muro, vai?
Ri, ri, ri, acho que de nervosismo, e respondi.
- Eu espero que não.
A sogra, lá de cima, rosnou.
- Mocinha, circule. Pamonha, pegue a bolsa.
Obedecemos, afinal não é qualquer um que aos
oitenta ainda sobe em muros.
quinta-feira, abril 27, 2017
MUNDO TENEBROSO
Assistir
aos telejornais, por esses dias, tem sido mais desagradável do que o habitual.
Há umas duas semanas, crianças foram mortas por bombas químicas. Um horror. O
autor da monstruosidade ninguém sabe ao certo. A conta foi entregue a Bashar al
Assad, o carniceiro sírio. A consequência foi o bombardeio norte-americano a
uma base aérea síria. A Rússia fez ameaças, aliada que é da ditadura de Assad.
Donald Trump, elogiado pela ação, promete, agora, dar uma lição no bufão
norte-coreano. Aonde chegaremos ao final desta escalada de beligerância? Não
tenho a menor ideia.
No
Brasil, os de estômago forte não saíram da frente da TV vendo e ouvindo os
depoimentos dos delatores da Odebrecht. Delatores sorridentes e bem-humorados,
beirando ao escárnio, nos mostraram a subterrânea qualidade de nossos líderes.
E os menos ingênuos sabem que muito mais lama ainda virá.
Um
delator chegou a dizer que, em certo momento, havia prazer dos emissários da
Odebrecht em comprar corruptos. Mesmo sem necessidade, compravam. É bom que nos
lembremos: o dinheiro usado para comprar os marginais não era da Odebrecht, era
nosso.
Mudo
muito de ideia, graças a Deus, mas tenho pensado seriamente em não votar em
mais ninguém. Meu último voto foi de Pezão. Hoje, fico deprimido quando o vejo
na TV.
A
maior emoção eleitoral que senti foi na vitória de Lula, em 2002. A chegada do
PT ao poder me deu algumas esperanças, mas confesso que o ambiente republicano
da passagem de cargo de Fernando Henrique Cardoso para Lula também me animou.
Talvez por isso minha decepção com o PT tenha sido tão grande.
Militantes
petistas afirmam que sempre houve corrupção no Brasil. Quem não está à
esquerda, contra-argumenta dizendo que nunca se roubou tanto quanto nos
governos petistas. Meu ponto, como ex-petista, é: o PT não podia ser
instrumento de assalto ao país. Não me interessa se o PT roubou mais ou menos.
O PT não podia roubar.
Nós,
cariocas, para completar, ainda vemos o Estado do Rio destruído. A cidade vai
pelo mesmo caminho. Temos números de assassinatos que faz sombra à Síria. Quem
circula pela cidade com segurança? Morrem policiais, cidadãos, crianças. Um
celular custa a vida de inocentes. Matar se tornou ato banal. E não mais nos
grotões da cidade, nas comunidades. Nos dias que escrevo este editorial,
explodiram um banco na Av. 28 de Setembro, principal via de Vila Isabel;
mataram um jovem motoqueiro em Laranjeiras; dois policiais e uma menina, em
dias diferentes, foram mortos em Madureira e muitas outras desgraças, que não
me ocorrem neste momento, aconteceram.
Não
tenho ideia de para onde vão o mundo, o país, o estado, a cidade, mas o clima é
desalentador. Há desânimo no ar. As forças para superar o momento difícil,
precisaremos buscar em Deus. E é a Ele que precisaremos recorrer e, obviamente,
não esquecer de fazer a nossa parte.
EU, SINDICALIZADO
Em
1974, comecei a trabalhar no Jornal do Brasil. Tinha 20 anos. Associei-me ao
Sindicato de Jornalistas do Município do Rio de Janeiro. O que me moveu foi a carteira
com carimbo Imprensa. Dava pra tirar uma onda. De qualquer forma, o velho
cobrador do Sindicato circulava as redações do Rio para recolher as mensalidades
e eu pagava, religiosa e voluntariamente.
Havia
(deve haver, ainda) um Sindicato do Estado do Rio. Na Manchete, trabalhei com
uma figura que era profissional deplorável. Faltava pra cacete, o serviço dele
precisava ser revisto. Um revisor que precisava ser revisado. Ele se valia da
imunidade que tinha por ser da diretoria do sindicato do Estado para ser um
profissional de merda. O do Município era o sindicato relevante, o que se
empenhava por seus associados. Então, há sindicatos e sindicatos.
Enquanto
trabalhei em empresas jornalísticas, fui filiado ao Sindicato dos Jornalistas,
depois que precisei buscar trabalho em outras empresas era ligado (não filiado)
aos sindicatos dos empregados da firma em que estava. Algumas das “conquistas”
da classe, mantive em todas as empresas, como as seis horas diárias de
trabalho.
O
imposto sindical compulsório (sempre me emputeci com esta merda) era descontado
para a empresa em que estava trabalhando. Para ser encaminhado ao SJPMRJ, eu
precisava ir ao Centro, pegar uma declaração e entregar no DP da empresa. Dava
um trabalhão. Mas fazia isso porque já estava desvinculado do Sindicato e
achava correto agir assim. Era um babaca, na época.
Quando
entrei no Jornal do Brasil, havia linotipistas. Durante os oito anos que trabalhei
por lá, foram extintos. Éramos 120 revisores. Em 1980, viajei numa barca lotada
de demitidos. Desembarquei na Manchete e, 20 anos depois ela falia. Já tinha
saído de lá em 1990. Os revisores de texto minguavam. Subitamente, passei a
ser, com 40 anos, um revisor garoto. Na profissão, só gente mais velha.
Profissões
se extinguem, é inevitável. Temos de nos liguei adaptar. Muitas vezes foi
penoso para mim, mas a solução não era o Estado me dar colo. Estado atrapalha.
Meu
registro de jornalista devo ao grande José Sarney. Entrei no JB e meu registro
era de jornalista provisionado. O grande Sarney decretou que o provisionado
viraria profissional. Nunca entrei em uma Faculdade de Comunicação. A maioria
dos bons jornalistas, também não.
Estou
dizendo isso porque hoje de manhã entrei no sítio do Sindicato para ver as
condições para voltar a me filiar. Com o fim do imposto sindical (já foi tarde),
quem deve sustentar a associação somos nós, os profissionais. Vi as condições,
as exigências e liguei pra lá. Sou aposentado, não sabia se podia retornar ao
sindicato nessa condição. Também não tenho diploma, mas, pensei, é um retorno,
fui sindicalizado antes da exigência de diploma, não achei que houvesse
problema. A senhora que me atendeu não deu tempo nem de eu falar sobre a
aposentadoria. Quando disse que não tinha diploma, ela me interrompeu e
informou que o diploma era inegociável.
Está
certa a moça, mas acho que ela não percebeu que algo mudou e os recursos terão
de ser buscados em outras fontes. Minha febre cidadã passou. Não pagarei R$
160,00 para entrar nem R$ 35 mensais para jamais usar os serviços do sindicato.
Foi
só uma brisa que passou.
sábado, abril 22, 2017
PROVAS
-
Roberval, que história é essa de briga com o Tasmânia?
-
Não foi briga. Ele me massacrou. O cara, além de mentiroso, é um cavalo.
- O
que houve? Estou vendo que ele te escangalhou todo. O papo que está rolando é
que você começou a briga.
- É
verdade. Ele veio me dizer, no boteco, que minha mulher estava me corneando.
-
Por quê? A troco de quê? O que ele tem com isso?
Se está, é problema dela.
- Qualé, porra? Meu, também. Eu e Tasmânia
somos amigos de infância. Irmãos. Fizemos tudo juntos. Menos meinha. Ele me
disse que pensou muito antes de me contar. O nome do feladaputa que está
comendo a Neusa ele não entregou. A traição ele teve de contar. Falou: “Você é
meu chapa, Roberval, meu mano.”
-
Como ele soube da traição? Apresentou provas? Prova é fundamental.
-
Ele viu a Neusa e o amante entrando no motel. O Escapadinha. O carro do safado
estava com as janelas abertas.
-
Claro, né. Qualquer um gostaria de exibir a Neusa. Uma mulher espetacular.
-
Candinho, você está entusiasmado.
-
Desculpe-me, sua mulher é bonitona.
- O
Tasmânia ficou no bar em frente ao Escapadinha e viu quando, duas horas depois,
eles saíram.
-
Você acha que o Tasmânia mentiu? Ele tem algum interesse em detonar a relação
de vocês?
- O
Tasmânia não mentiria, mas ele pode ter se enganado. Cadê as provas da traição?
Só porque ela foi pro motel com um homem, ficou lá dentro com ele por duas
horas, não quer dizer que eles tenham transado, né não?
-
É, é...
-
Não há provas. Fiquei puto com o Tasmânia e parti pra cima dele. O resultado é
o que você está vendo.
- E
a Neusa, você falou com ela?
-
Falei. Ela relutou, escondeu o jogo... Disse que sexo casual não é traição. Não
que ela tenha feito. Era absurdo eu acreditar num dedo-duro. Como pode você
duvidar da amizade do Candinho?
-
Peraí, por que ela falou em mim. Tô fora. A gente é brother.
-
Tranquilidade, Candinho. Ela me disse: “Acredite no que você quiser. Mas,
lembre-se: Não há provas contra mim.”
- E
você?
- É
como ela falou: não há provas. Só acredito na traição de Neusa se vê-la em
pleno coito com outro. Nem em filmagem acredito. Pode haver manipulação na
imagem.
-
Você vai fazer o quê?
-
Evitarei passar nas proximidades do Escapadinha.
domingo, fevereiro 12, 2017
ENCONTRO
- Amados, antes de dar início à reunião
gostaria de ressaltar que todas as facções que lutam pela redistribuição de
renda entre a população marginal estão aqui presentes. Acho que merecemos uma
salva de palmas.
Juntos, os sete líderes dos grupos criminosos
que dominavam a cidade se entreolharam. Olhares de ódio, mas aquele era o
momento de tratar de temas maiores.
- Bagre, quero parabenizá-lo pelo sucesso ao
alinhavar com tanta sabedoria e humildade este encontro que pode se tornar
histórico. Não creio que haverá paz entre nós, mas é importante termos
estratégias uniformes contra o inimigo comum: as instituições que representam a
lei.
- Obrigado, Mequetrefe. Bom, alguém tem algo a...
Diga, Rolha.
- Amigos, Bagre, soube de fonte seguríssima
que as madames voltarão para as portas dos quartéis da PM na segunda-feira. Os
caras lá de cima não respeitaram o combinado. A paralisação não terá prazo para
acabar. Creio que é um bom momento para engendrarmos ações conjuntas. Podemos
arrepiar a cidade e mostrar nossa força.
- Por obséquio, Bagre, posso dar uma sugestão?
- Claro, Pocahontas. Estamos afinados com a
atualidade. A voz de uma mulher é fundamental.
- Com todo respeito à proposição
do Sr. Rolha, creio ser este o momento de pensarmos fora do casulo. Por que, em
vez de atacar a cidade durante a greve não a protegemos?
Bagre era apaixonado por
Pocahontas. Foram criados juntos. A luta armada os separou. Observou a reação
dos parceiros. Viu surpresa, estupefação, curiosidade. Pocahontas prosseguiu.
- Sabemos que a PM é
pouco popular. Há vozes importantes que propõem, inclusive, o seu fim. Ao
atacarmos a cidade revelaremos a este povo manipulável que ele precisa da
polícia. Nós, involuntariamente, melhoraremos a imagem desgastada desta
corporação.
Camarão não resistiu.
- Algumas coisas só saem
da cabeça de mulheres. Como vamos proteger a cidade? Vamos nos uniformizar como
vigilantes?
Pocahontas desprezava
Camarão.
- Meu caro misógino.
Protegeremos a cidade ao não atacá-la. Por intermédio de nossa rede,
alertaremos a todos que qualquer crime cometido no período será julgado pelo
Tribunal do Movimento.
Camarão não se convence.
- Querido, sei que você
é travado, mas faça um esforço e pense. Quando perceberem que a ausência da PM
não causou transtorno algum à cidade, ganharão força os que almejam o seu fim
ou lutam pela desmilitarização da força. Vou lhe passar dados estatísticos
levantados por nosso Centro de Inteligência. 53% de nossas despesas é com
custeio da estrutura; 47% é para cafezinho e cervejinha de policiais, juízes e
políticos. O resultado é que precisamos elevar o preço dos produtos. Nossos
clientes passam a comprar drogas mais baratas, mais viciantes, mais mortais. E
é bom lembrarmos que pouco a pouco o discurso de legalização das drogas ganha
força. Há empresários ávidos por esse filão. O caos não nos favorece. A
atmosfera de violência e morte leva ao desejo de mudança. Entendam de uma vez
por todas: não queremos que nada mude. Continuaremos ganhando dinheiro com a
desgraça alheia, reduziremos a despesa da propina e, consequentemente, diminuiremos
o preço e aumentaremos a qualidade de nossos produtos. Não queremos nossos
consumidores mortos muito rapidamente.
Bagre olhou os
companheiros e percebeu que eles estavam convencidos. Seu olhar cruzou com o de
Pocahontas e nos verdes olhos da morena viu promessa de que, pelo menos com
ele, outro encontro haveria.
sábado, dezembro 24, 2016
BELA MORENA
No
Metrô, bela morena conversava com a coleguinha. Eu, velhote gordo, 140kg, 1m80,
a um palmo de distância, aparentemente invisível, ouvia.
-
Fiquei muito constrangida. Saí do banho, nua, peguei a calcinha e o sutiã que
tinha deixado na sala e, quando olhei pela janela, o velho estava lá, me
devorando da janela do apartamento dele. A mulher apareceu por trás do cara, me sacou e o puxou pra dentro.
A
baixinha:
-
Neide, a janela do seu apê dá direto na do cara. Você estava era querendo mostrar seus
peitos.
-
Esse casal é novo lá. Pensei que os dois fossem cegos. A mulher usa um tampão
no olho. Lembra que o pessoal da igreja foi naquele prédio orar por uns cegos?
Pensei que fossem eles. Estou passada.
- A
mulher pirata já te enquadrou?
-
Não encontro com ela, graças a Deus. A janela deles desde esse dia ficou
fechada. Acho que ela proibiu o velho de olhar a paisagem.
-
Numa dessas, você morre.
- O
pior, minha irmã contou essa história pro Valdir. Ele ficou puto. Comigo e com
o velho.
-
Sua irmã é traíra. O Valdir é meio doido.
-
Às vezes, penso em terminar. Noutro dia ele me seguiu aqui no Metrô. Não vi,
claro. Recebi uma mensagem e... Peraí, vou te mostrar.
Mostrou
pra amiga e pra mim, o gordo invisível.
- Ivete, dá
uma olhada aqui. “Quem era o bonitão para quem você estava olhando? Estou te
vendo.”
-
Tenso.
-
Olhei pra todo lado e não vi o Valdir. Mandei uma mensagem pra ele. “Deixa de
ser bobo. Não tem ninguém bonito neste vagão.” Ele respondeu na bucha: “Então,
você procurou”. Quando nos encontramos, mais tarde, cheguei a terminar, mas
ele chorou...
-
Amiga, esses é que são perigosos.
Chegamos
à estação Nova América. Mais duas estações e teria de tirar o manto da invisibilidade
e descer. Nada disso, só sairia do Metrô depois de ouvir o fim da história.
-
Você sabe que ele não suporta que eu ande de óculos escuros. “Não sei pra onde
você está olhando.” Ele põe o rosto pertinho do meu e fica olhando meus olhos
através da lente para ver se estou olhando só para ele.
-
Neide...
-
Ele é trabalhador, bonitão, carinhoso... Só é ciumento.
- E
aquele amigo seu que ele encheu de porrada.
-
Não foi assim. Fui um pouco responsável. Conheço o Bobó desde criança. A gente estava
voltando da praia. Um grupo do conjunto. O Bobó puxou minha saída de praia e eu
fiquei só de biquíni. O Valdir estava me esperando, ele não sabia que eu iria à
praia e eu que ele estaria me aguardando. Partiu pra cima do Bobó... Só que o Bobó é o macho superalfa do
conjunto. Todos o respeitam. Acho que o Valdir pensou que as 10 aulas de caratê que fez iriam ajudá-lo. Tive de levá-lo para o hospital todo esbordoado. Só não morreu porque eu me
embolei com o Bobó.
O
Metrô, implacável, “Senhores passageiros, Estação Engenho da Rainha,
desembarque pela esquerda”. Resolvi descer. Sou um gordo bem apanhado e, quem sabe?, o Valdir não estava por ali, observando. Comigo as dez aulas seriam mais do que suficientes.
Antes de descer, no entanto, olhei bem para o belo
rosto à minha frente, de uma jovem escultural de vinte e poucos anos. Tenho certeza, desgraçadamente, que verei este rosto,
mais à frente, estampando manchetes das páginas policiais.
quinta-feira, dezembro 01, 2016
QUE VENHAM OS ESCANDINAVOS
A
última vez que andei de táxi, disse para o motorista:
- Não
se preocupe com o UBER, não vai dar certo no Rio de Janeiro. Daria se
trouxessem motoristas da Escandinávia para trabalhar aqui. Com nossa
matéria-prima...” Ele percebeu meu sarcasmo (o que me emocionou).
Usei
o UBER quatro vezes. A primeira viagem foi ótima. Motorista atencioso, preço
baixo, carro confortável. Ganhei balinha, água gelada, ar condicionado Sibéria
e rádio desligado. O paraíso. No final, ele me passou um cartão e orientou:
- Na
próxima vez, o senhor não precisa usar o aplicativo. Ligue para mim,
diretamente.
Na
segunda vez, estava em frente ao Hortifruti da Tijuca, na “obscura” Rua Conde
de Bonfim. Liguei e o piloto me pediu para esperar 5 minutos. 15 minutos
depois, liguei pra ele.
-
Sr. Utahy, estou em frente ao Hortifruti.
- Amigo,
eu estou em frente ao Hortifruti.
-
Meu carro é um Renault Sandero, prata... Espera, Sr. Utahy, estou no Hortifruti
errado.
-
Estou vendo em meu espertofone.
-
Em 5 minutos chego aí.
Chegou
em 20, depois de se perder outras vezes. Eu que não distingo marcas de carro,
cheguei a bater na janela de um Renault qualquer coisa, quase levando ao
enfarte uma senhora que parecia gêmea da ex-prefeita de São Paulo, Luiza
Erundina. De novo, motorista atencioso, preço baixo, carro confortável, água
gelada, balinha, ar refrigerado Groenlândia e rádio sem funque. E o cartão seguido
da recomendação:
- Ligue
diretamente para mim.
O
terceiro, eu estava no Recreio. Deu problema no GPS dele. Na hora de pagar, dei
os 70 reais que ele me pediu, paguei o pedágio por fora e fiquei com a mão
estendida para receber o cartão e a recomendação para ligar pra ele.
A
quarta e última viagem foi mais traumática. Estava duro, dindim contado. Optei
pelo UBER por causa da prévia do valor da corrida que o aplicativo faz. Daria 18
reais. Estava com 30. Ia dar até pra comer um pastel com o troco.
O
carro que viria me buscar, um Logan, eu dispensaria na rua. Não deu tempo de
recusar. Chegava em um minuto.
- Dias
da Cruz. Bem no começo. O senhor pode ir pela...
-
Não se preocupe, senhor. O GPS nos conduz.
Lembrei-me
uma reportagem que li sobre as rigorosas avaliações que os motoristas de UBER
fazem sobre nós, clientes. Um dos motivos de termos nossas notas reduzidas é
exatamente o mau hábito de querer ensinar o melhor caminho. Uberistas são
orgulhosos e zelosos de sua modernidade tecnológica. E lá fomos nós pela Linha
Amarela, em direção ao final da Dias da Cruz. Senti falta da balinha, da água
gelada, do ar condicionado Alaska e, no rádio, sertanejo universitário.
-
Senhor, estou vendo aqui no Waze que teremos uma pequena retenção na Dias da
Cruz.
-
Meu querido, não preciso de Waze para informar engarrafamento na Dias da Cruz.
Ela está sempre assim. Aliás, a Av. Meriti, a São Clemente e a Voluntários,
também. Se eu tivesse um GPS desse jogava no lixo.
Chegamos,
senhor:
-
Quanto é?
-
43 reais, senhor.
- O
quê?
-
Tem uma pendência de uma corrida anterior.
- Pendência?
Só pago essa corrida.
-
Senhor, aqui está informando que o senhor tem uma pendência com o UBER.
-
Não tenho. Não pago pendência. Pago esta corrida.
Paguei,
desci e comecei a receber recados do UBER me cobrando 24 pratas da corrida do
Recreio. O uberista me avaliou com nota três. Magoei.
Concluí,
então, meu relato ao taxista:
- Aqui,
tudo se desmoraliza, piloto.
Ele
se virou para mim e disse:
- Sou
auxiliar aqui no táxi. O dono me esfola. Fico até o fim do ano. Não tá dando,
chapa. Vou pro UBER, mas também não vou trabalhar direitinho. Vou ter meus
clientes por fora. Não estou aqui pra ser explorado por aplicativo.
Como
disse, a salvação seriam os escandinavos. Como eles não virão, o UBER só não
acabará porque será mantido vivo por nossos políticos demagogos e pelas
milícias amarelas.
segunda-feira, outubro 10, 2016
OS CORREIAS
O
senador foi ao Rio de Janeiro, sua base eleitoral.
Da
casa de um correligionário, ligou para os cinco filhos.
-
Será na casa do Feitosa.
Uma
hora depois estavam todos juntos na casa do deputado amigo.
-
Meus filhos, chamei-os aqui para tratar de um assunto delicado. Vou deixar a
mãe de vocês.
-
Pai...
-
CALUDA! Ensinei-os a guardarem silêncio, enquanto falo. Meu motivo é
justíssimo. A mãe de vocês não pode mais procriar e isso atrapalha nosso
projeto político.
-
Papai, peço permissão para falar.
-
Fale, Emídio. Seja sucinto.
- Papai,
eu sou deputado federal. Elídio e Egídio, deputados estaduais. Ezídio e Evídio,
vereadores. Não está bom?
- Emídio, às vezes, você me enoja.
Nunca consegui superar a decepção de você ter me dado uma neta. Onde está sua
ambição? Daqui a 20 anos os filhos de vocês estarão assumindo mandatos
legislativos. Você, se mudar de atitude, já terá exercido um ou dois mandatos
executivos. Seus irmãos serão membros ativos do Congresso Nacional e meus netos
serão vereadores. Dois em São Paulo; dois, aqui. A menina, veremos no que vai
dar.
- Papai, peço permissão para falar.
- Fale, Evídio. Antes, quero
parabenizá-lo pela estupenda votação. O vereador mais votado da cidade.
- Obrigado, papai. A situação de
mamãe...
- CALUDA! Sua mãe seguirá para Campos dos
Goitacazes. Comprei pra ela uma boa casa com três dormitórios e dependências
para a serviçal. Vai para junto da família. Quando comuniquei minhas
disposições, percebi nos olhos da mãe de vocês uma alegria que há muito não
via.
- Papai, peço permissão para falar
- Diga, deputado Egídio.
- Sua nova esposa...
- Caso-me em seis meses. A moça já está
escolhida. Boa saúde. Boa genética. A mãe dela teve cinco filhos. Beleza
mediana, burralda, mas, espero, boa parideira.
- Pai...
- Deixe-me concluir. Nos próximos sete
anos, produzirei mais cinco filhos. Daqui a 15 estarei na Presidência da
República. Cada um de vocês me dará três netos. Minha descendência será
constituída de senadores, deputados, vereadores, governadores, prefeitos...
Seremos 25 nos meandros do Poder. Talvez até a neta chegue a algum lugar, quem
sabe? O Partido Correísta Nacional (PCN) será respeitado.
- Papai, peço permissão para falar.
- Sim, Ezídio.
- Se o senhor pudesse ter mais de uma
mulher, mais candidatos seriam produzidos.
- Você acha que eu não pensei nisso?
Mas a bandeira de nosso Partido é a integridade da família. Os eleitores levam
a família a sério e para chegarmos ao poder precisamos deles. Por que vocês
acham que estou bolando uma narrativa em que sua mãe me abandonou e fugiu com o
amante? O candidato tem de ser bom. Mais que bom: ótimo.
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