Não fiz muitas amizades durante a vida. As que fiz são sólidas.
Lembrei-me de um amigaço, já falecido, ouvindo um disco.
Beniel era uma figuraça. Tínhamos um traço comum: éramos hostis, pouco sociais. Quando começamos a trabalhar juntos em uma sala, pensei que logo sairíamos na porrada. Nunca nos desentendemos.
Na época, continuava a sofrer do mal que me afligia e me aflige até hoje: dureza crônica. Ganhava pouco e gastava muito.
Beniel era o oposto. Ganhava pouco e não gastava nada. Ele me dizia que precisava ter dinheiro no banco para se sentir seguro.
Eu, empreendedor, vi a oportunidade e propus a ele que criássemos o FEAM (Fundo Evangélico de Assistência Mútua). Ele entrava com o dinheiro e eu e outro amigo, Mário Couto, seríamos os clientes.
Todas as vezes que eu precisava de dinheiro nos encontrávamos no Méier, em uma agência do Santander. Ele entrava, pegava o dinheiro, passava pra mim, sorrateiramente, como se fôssemos meliantes em uma transação escusa e, então, entrávamos em um boteco e comíamos uns pastéis.
Numa dessas vezes, depois do lanche, ia pra casa quando vi uma banquinha, na frente de um jornaleiro, vendendo uns cds. Saí de lá com Dosage, do Collective Soul. Gostei muito do disco. Todas as vezes que o ouço lembro-me de Beniel.
Há uns dias puxei o disco no Spotify. De repente, estava chorando. Muito.
Velho chora à toa, mas desta vez pelo menos foram justificadas, as minhas lágrimas.
Nos últimos dias de Beniel, tinha perdido o contato com ele. Foi morar em Magé, meio isolado. Um câncer de próstata o matou.
Soube da morte dele pelo irmão. Liguei pra saber dele e tive a notícia.
Éramos totalmente diferentes um do outro, mas nos amávamos. (Espero que onde quer que ele esteja não leia isso. Não me perdoaria a pieguice.)
Era um cara especial, mas creio que poucos perceberam isso. É nosso destino.
Gordo Falante
Um homem profundamente superficial
quinta-feira, março 12, 2020
quarta-feira, março 11, 2020
CASCATA
"Click bait é uma tática usada na Internet para gerar tráfego online por meio de conteúdos enganosos ou sensacionalistas. Também chamado de 'caça-clique', esse termo se refere também à quebra de expectativa por parte do usuário que foi 'fisgado' por essa isca de cliques."
Youtubers adoram click bait. É o que atrai a maioria dos visualizadores da plataforma. Acredito que depois de vista a manchete cascateira, poucos assistem ao vídeo até o final para perceber se o título casa com o que é dito.
Outro truque barato usado no Youtube é o da falsa lacração. "Fulano deu uma invertida em Sicrano". Você vê o vídeo e percebe que a fala de seu herói está totalmente descontextualizada. Fala editada. O antes e o depois das palavras do seu idolatrado não são ouvidos. Mas você quer acreditar que seu guia deu mesmo uma invertida em seu oponente.
O texto precisa de contexto. O antes e o depois. O por que foi dito. Extrair uma porção do que foi dito não significa que o todo equivale à parte.
A informação que nos chega pela internet precisa ser checada com cuidado. De preferência em mais de uma fonte.
Um meme muito bom apresentava Walter White, professor de química, pai de dois filhos, doente com câncer terminal. O meme era pra ser compartilhado. Havia pedido de oração e de um amém. O meme circulou por várias redes sociais. Muitos se emocionaram com Walter White. Diante da foto do condenado, a piedade. Walter White, no entanto, era um personagem de ficção. A estrela de Breaking Bad.
Revistas impressas não costumam usar desses subterfúgios. Até porque, em uma revista impressa, esse expediente é mais complicado de ser utilizado. Impossível não é.
O click bait não foi inventado agora.
Na década de 1960 do século passado, uma manchete em um jornal mestre em títulos pilantras, a Gazeta de Notícias, fez com que a edição daquele dia do jornaleco esgotasse mas bancas: "Cachorro fez mal a moça". O cachorro, claro, era um hot dog.
A Última Hora, na década de 1970, inventou um personagem: o Mão Branca. Esquadrões da morte matavam e a UH faturava muito com a invenção do Mão Branca. Esse acompanhei de perto porque trabalhava no jornal.
O Mão Branca vendeu muito jornal. Vendeu tanto que depois foi relançado, mas aí o povo estava menos bobo e não funcionou.
Há quem ache que o povo é idiota. Não é. O povão só tem menos recursos para se informar. Mas isso está mudando.
Youtubers adoram click bait. É o que atrai a maioria dos visualizadores da plataforma. Acredito que depois de vista a manchete cascateira, poucos assistem ao vídeo até o final para perceber se o título casa com o que é dito.
Outro truque barato usado no Youtube é o da falsa lacração. "Fulano deu uma invertida em Sicrano". Você vê o vídeo e percebe que a fala de seu herói está totalmente descontextualizada. Fala editada. O antes e o depois das palavras do seu idolatrado não são ouvidos. Mas você quer acreditar que seu guia deu mesmo uma invertida em seu oponente.
O texto precisa de contexto. O antes e o depois. O por que foi dito. Extrair uma porção do que foi dito não significa que o todo equivale à parte.
A informação que nos chega pela internet precisa ser checada com cuidado. De preferência em mais de uma fonte.
Um meme muito bom apresentava Walter White, professor de química, pai de dois filhos, doente com câncer terminal. O meme era pra ser compartilhado. Havia pedido de oração e de um amém. O meme circulou por várias redes sociais. Muitos se emocionaram com Walter White. Diante da foto do condenado, a piedade. Walter White, no entanto, era um personagem de ficção. A estrela de Breaking Bad.
Revistas impressas não costumam usar desses subterfúgios. Até porque, em uma revista impressa, esse expediente é mais complicado de ser utilizado. Impossível não é.
O click bait não foi inventado agora.
Na década de 1960 do século passado, uma manchete em um jornal mestre em títulos pilantras, a Gazeta de Notícias, fez com que a edição daquele dia do jornaleco esgotasse mas bancas: "Cachorro fez mal a moça". O cachorro, claro, era um hot dog.
A Última Hora, na década de 1970, inventou um personagem: o Mão Branca. Esquadrões da morte matavam e a UH faturava muito com a invenção do Mão Branca. Esse acompanhei de perto porque trabalhava no jornal.
O Mão Branca vendeu muito jornal. Vendeu tanto que depois foi relançado, mas aí o povo estava menos bobo e não funcionou.
Há quem ache que o povo é idiota. Não é. O povão só tem menos recursos para se informar. Mas isso está mudando.
Racismo envergonhado
Já ouvi gente de quem eu gosto muito dizer que no Brasil não existe racismo. Existe.
Não estou falando aqui do racismo de campos de futebol, de discussão de rua, de demonstrações de ódio. Não é racismo de Supremacia Branca, de Black Power (sim, sei que não há racismo reverso ou há, sei lá). Estou tentando falar do racismo velado, racismo do olhar, racismo que está lá no lado sombrio de nosso coraçãozinho. Este tipo de racismo é difícil de ser observado, pq é escamoteado. Não temos coragem de admiti-lo.
No BBB 20 esse tipo de racismo pode ser visto. Babu Santana é ator, negro, gordo, feio... E é também o personagem mais interessante do jogo.
Em uma oportunidade, ele afirmou: "O olhar dessa mulher para mim é o de patroa. Eu odeio esse olhar." Ele falava de uma participante do jogo.
Outra, toda hora repete: "Tenho medo do Babu". Não é pelo mau humor (presidente Jajá, é assim que se escreve mau humor) nem pela rispidez dele. Participantes do BBB não primam pela boa educação, nós sabemos. Até a Leblonzinho deixou o ar blasé de lado (mas ela é alva, elegante, estilosa, aí pode).
O garoto lourinho foi mais incisivo (Aqui cabe breve explicação sobre o mecanismo do jogo. Os participantes são divididos em cozinha vip e xepa. Babu, por causa do jogo, sempre esteve na xepa.). Sua parceira no jogo disse que se pudesse levaria o Babu para a vip. O garoto mandou: "Acho que o lugar dele é lá na xepa" (não disse exatamente isso, mas foi o que quis dizer).
O racismo que aparece nesses momentos vem sempre misturado com condescendência. E na TV vemos isso com clareza. Aqui fora não temos como observar esses aspectos da vida. Pela TV podemos ver tudo com atenção e sem risco.
Aqui do meu lado está sentada minha querida sogra. Na TV, o rosto de Babu é enquadrado. Ela olha e diz, candidamente: "Que homem esquisito!"
Até a santa derrapa.
Não estou falando aqui do racismo de campos de futebol, de discussão de rua, de demonstrações de ódio. Não é racismo de Supremacia Branca, de Black Power (sim, sei que não há racismo reverso ou há, sei lá). Estou tentando falar do racismo velado, racismo do olhar, racismo que está lá no lado sombrio de nosso coraçãozinho. Este tipo de racismo é difícil de ser observado, pq é escamoteado. Não temos coragem de admiti-lo.
No BBB 20 esse tipo de racismo pode ser visto. Babu Santana é ator, negro, gordo, feio... E é também o personagem mais interessante do jogo.
Em uma oportunidade, ele afirmou: "O olhar dessa mulher para mim é o de patroa. Eu odeio esse olhar." Ele falava de uma participante do jogo.
Outra, toda hora repete: "Tenho medo do Babu". Não é pelo mau humor (presidente Jajá, é assim que se escreve mau humor) nem pela rispidez dele. Participantes do BBB não primam pela boa educação, nós sabemos. Até a Leblonzinho deixou o ar blasé de lado (mas ela é alva, elegante, estilosa, aí pode).
O garoto lourinho foi mais incisivo (Aqui cabe breve explicação sobre o mecanismo do jogo. Os participantes são divididos em cozinha vip e xepa. Babu, por causa do jogo, sempre esteve na xepa.). Sua parceira no jogo disse que se pudesse levaria o Babu para a vip. O garoto mandou: "Acho que o lugar dele é lá na xepa" (não disse exatamente isso, mas foi o que quis dizer).
O racismo que aparece nesses momentos vem sempre misturado com condescendência. E na TV vemos isso com clareza. Aqui fora não temos como observar esses aspectos da vida. Pela TV podemos ver tudo com atenção e sem risco.
Aqui do meu lado está sentada minha querida sogra. Na TV, o rosto de Babu é enquadrado. Ela olha e diz, candidamente: "Que homem esquisito!"
Até a santa derrapa.
quarta-feira, fevereiro 19, 2020
MUNDO LÍQUIDO
Motoboys não têm muito tempo pra
conversar. “Tio, tô sempre no corre.” Sou um velho conversador. Conservador,
também.
Um amigo é dono de várias pizzarias.
A primeira nasceu há alguns anos aqui no Engenho da Rainha. À noite, eu voltava
do trabalho e, na frente da Lavoro, quatro, cinco motoboys estacionavam
aguardando as pizzas ficarem prontas para serem levadas aos clientes.
A BBC News publicou extensa
reportagem sobre as dificuldades que aplicativos têm causado a restaurantes
menores. Meu ponto de vista, aqui neste texto, será o do cliente e, também, um
pouco o do motoboy.
Há apenas cinco anos, se você
quisesse almoçar, regularmente, em casa, precisaria sair recolhendo prospectos
de propaganda, cartões e buscar informações de restaurantes que entregavam
quentinhas em sua casa. Era trabalhoso. Quase sempre você era mal atendido. Os
motoboys levavam sua quentinha junto com outras dez. Se a sua fosse a última a
ser entregue, imagine como ela chegava.
Os motoboys eram mal pagos. Dependiam
da consciência dos donos de comércio. O serviço era quase sempre deplorável.
A curva foram os apps. Para melhor ou
pior, o futuro dirá. Por enquanto, clientes e motoboys têm gostado bastante.
O motoboy paulista Tavares 160,
youtuber com 500 mil seguidores, já foi entrevistado até pelo Datena. Trabalha
com o Ifood e o UberEats. Fatura, diariamente, cento e poucos reais. Já
conseguiu em um ótimo dia chegar a 260 reais, só com o UberEats.
Você pode pensar, se for um jovem
empapuçado, que é pouco dinheiro. Não é. Pelo menos para 90% da garotada.
Sou usuário pesado de apps. Compro
remédios, comida e lanches dessa forma. Faço mercado por app. E, na maioria das
vezes, sou muito bem servido.
O comerciante pode usar os motoboys
dos apps ou contratar seu pessoal próprio. Se assim fizer, paga uma taxa menor
só app. Difícil está encontrar motoboys que troquem uma remuneração variável
que passa de 100 reais por uma fixa de, no máximo, 50 pratas.
Como esclareci, o lado do comerciante
eu não sei, mas para nós clientes tudo vai bem. Almoço todos os dias em um
delivery chamado Boca Nervosa (é sério). Cheguei a eles pelo Ifood. Um dia,
junto com a quentinha, veio propaganda do restaurante. Passei a pedir comida
pelo zap. Não demorou muito e rolou o primeiro vacilo: a comida não veio. O
motoqueiro não tinha aparecido. Outro dia, esperei mais de duas horas. Como
disse, sou chegado a um papo. Elogio e malho a comida servida com naturalidade.
A mocinha do zap das quentinhas Boca Nervosa me disse que há uma semana o
restaurante procura profissional para fazer entregas. Quando se trata de
comida, sou pouco fiel. Engatei um romance com o ótimo Boisucesso e sou servido
pela rapaziada dos apps. Até o momento, sem furo.
Restaurantes têm dificuldades de
enfrentar o poderio dos apps; entregadores querem ser mais bem remunerados; e
nós, clientes, desejamos ter nossas necessidades atendidas.
Nunca fui a Foz do Iguaçu. Um amigo
vai sempre. Ele atravessava a fronteira de táxi e pagava cerca de 50 reais do
hotel ao shopping no lado paraguaio. Há um ano, ele me disse, o Uber começou a
funcionar bem por lá. Na primeira corrida, pagou 10 reais. Alguma dúvida que
ele jamais embarcará, de novo, num táxi em Foz?
O mundo muda rapidamente nas pequenas
coisas e nas grandes, também.
Leandro é motoboy em Fortaleza.
Acompanho-o pelo Youtuber, também. Em um de seus vídeos, ele mostrava
preocupação porque o Ifood ia mudar a periodicidade da remuneração: em vez de
quinzenal, passaria a ser semanal. O garoto se preocupava em programar sua
remuneração para pagar combustível, moradia, despesas eventuais e poupança. Em
2020, está cada vez mais difícil o trabalho formal, com carteira assinada.
Circulando pelas ruas de Fortaleza, ele diz: “Não sou empreendedor, eu me viro.
Estou aqui por opção, mas com o estudo que tenho não ganharia o que ganho em
uma firma”.
Em nosso mundo polarizado, uma coisa
sempre precisa excluir outra. É o que chamo idiotia dos tempos atuais. O jovem
pode ir atrás de dinheiro para asfaltar o caminho de seus sonhos e,
simultaneamente, lutar por melhores condições de trabalho. Não dá é pra
choramingar paralisado.
Em um município do Rio, havia um
riacho. A população pedia à Prefeitura que fizesse uma ponte sobre ele. Ponte
feita, quem morava de um lado do riacho deixaria de caminhar 2km para chegar ao
centro comercial da cidade. A Prefeitura enrolava. “Não temos 500 mil para
construir a ponte.” A população se uniu e fez a ponte por 5 mil reais. Foi
noticiado por toda a imprensa. O mundo se transforma e temos de pensar sobre o
que fazer diante de situações que anteriormente não nos cabia resolver.
Quando comecei a trabalhar em 1974,
no Jornal do Brasil, éramos 150 revisores de texto distribuídos por três
turnos. Dez anos depois, não havia mais revisores no JB.
Hoje, muitos estudam para serem
profissionais de carreiras que não existirão quando estes alunos estiverem
formados.
A fluidez do mundo de hoje pode ser
apavorante, mas ela está aí. Não adianta chorar no meio-fio. Aliás, ainda
existe meio-fio?
sexta-feira, março 22, 2019
Se joga, Charlie
Um aspecto de “Se joga, Charlie”, série criada por Idris Elba, chamou minha atenção: não se discute (nem é mencionado) racismo. (Nestes tempos de baixa compreensão, desgraçadamente, preciso explicar que não discutir racismo não quer dizer que racismo não existe.)
Vamos em frente.
“Se joga, Charlie” enseja muitas oportunidades de se falar sobre racismo e homossexualismo, mas a opção da produção é apresentar negros e homossexuais vivendo. Papeando, e não discutindo pautas. Os personagens multirraciais convivem harmonicamente.
O homossexualismo é tratado rapidamente e relaciona-se, no caso, à cultura nigeriana. A única fala sobre homofobia é irônica, e ótima.
Talvez uma explicação seja a de que a produção é europeia e esses temas, por lá, já estejam sendo deixados para trás. Lembro-me que na década de 80 escrevi uma resenha sobre “Poluição e a morte do homem”, do filósofo e teólogo Francis Schaeffer. Era um tema estranho entre evangélicos. Levou muito tempo para o assunto ganhar importância. Fernando Gabeira, tratado pela esquerda como um deslumbrado quando voltou do exílio, declarou recentemente que quase venceu uma eleição majoritária por ter tratado, na ocasião, de segurança pública. Assunto que atingia a todos.
Em “Se joga, Charlie”, o que é tratado com muita naturalidade é o uso alucinado de drogas. Queimam, cheiram, bebem... Muito. Não há lição de moral no filme. Advertência só à criança de 11 anos. Um descuidado “Drogas, não, Gabs.”
Eu estranho. Vivo, e sempre vivi, em outro mundo. A droga que usei a vida toda foi comida. Estava aqui na época do movimento hippie, tive muitos amigos usuários de drogas. Saíamos do Jornal do Brasil, na década de 70, de madrugada, caminhando, cinco, seis colegas, cada um com um cigarro de maconha na mão. Menos eu. Dos 20 anos para cá parei com o cigarro, álcool. A comida perniciosa, não.
Não entendo a defesa das drogas (a série não faz isso, simplesmente naturaliza seu uso), mas, na idade em que estou, o que desentendo não me esforço mais pra entender.
Desculpem-me os paladinos da justiça, mas não tenho colhões para assistir a programas que precisam ter uma lição moral, social e ética a cada 15 minutos.
“Se joga, Charlie” é entretenimento ligeiro, agradável de se assistir. Poderia ter sido mais bem desenvolvido. Tem elenco ótimo. Piper Perabo é sempre muito boa de se olhar. Espero que haja uma segunda temporada. Se não houver, a primeira fechou satisfatoriamente, sem ganchos.
Vamos em frente.
“Se joga, Charlie” enseja muitas oportunidades de se falar sobre racismo e homossexualismo, mas a opção da produção é apresentar negros e homossexuais vivendo. Papeando, e não discutindo pautas. Os personagens multirraciais convivem harmonicamente.
O homossexualismo é tratado rapidamente e relaciona-se, no caso, à cultura nigeriana. A única fala sobre homofobia é irônica, e ótima.
Talvez uma explicação seja a de que a produção é europeia e esses temas, por lá, já estejam sendo deixados para trás. Lembro-me que na década de 80 escrevi uma resenha sobre “Poluição e a morte do homem”, do filósofo e teólogo Francis Schaeffer. Era um tema estranho entre evangélicos. Levou muito tempo para o assunto ganhar importância. Fernando Gabeira, tratado pela esquerda como um deslumbrado quando voltou do exílio, declarou recentemente que quase venceu uma eleição majoritária por ter tratado, na ocasião, de segurança pública. Assunto que atingia a todos.
Em “Se joga, Charlie”, o que é tratado com muita naturalidade é o uso alucinado de drogas. Queimam, cheiram, bebem... Muito. Não há lição de moral no filme. Advertência só à criança de 11 anos. Um descuidado “Drogas, não, Gabs.”
Eu estranho. Vivo, e sempre vivi, em outro mundo. A droga que usei a vida toda foi comida. Estava aqui na época do movimento hippie, tive muitos amigos usuários de drogas. Saíamos do Jornal do Brasil, na década de 70, de madrugada, caminhando, cinco, seis colegas, cada um com um cigarro de maconha na mão. Menos eu. Dos 20 anos para cá parei com o cigarro, álcool. A comida perniciosa, não.
Não entendo a defesa das drogas (a série não faz isso, simplesmente naturaliza seu uso), mas, na idade em que estou, o que desentendo não me esforço mais pra entender.
Desculpem-me os paladinos da justiça, mas não tenho colhões para assistir a programas que precisam ter uma lição moral, social e ética a cada 15 minutos.
“Se joga, Charlie” é entretenimento ligeiro, agradável de se assistir. Poderia ter sido mais bem desenvolvido. Tem elenco ótimo. Piper Perabo é sempre muito boa de se olhar. Espero que haja uma segunda temporada. Se não houver, a primeira fechou satisfatoriamente, sem ganchos.
Pepetela
"Se o passado não tivesse asas", em minha opinião, é um Pepetela mais ou menos. Mas é um Pepetela.
Não há outro autor de quem eu tenha lido mais livros do que Pepetela. Este ano, "Se o passado..." é o segundo dele que leio.
Gosto de achar que tenho uma visão de mundo parecida com a dele. Alguma esperança, muito ceticismo. E, principalmente, olhar crítico.
Pepetela foi um homem de esquerda (hoje não sei se ainda é), mas não dá refresco a quem conduz Angola. Nunca deu.
Quem se interessar pela obra dele, comece por "Gloriosa família" ou Mayombe".
O próximo que lerei dele é o segundo da série Jaime Bunda. O primeiro tenho a edição impressa, o segundo lerei pelo Kindle.
Vale a pena conhecer Pepetela. É um escritor que se emaranhou pela história de seu país.
Não há outro autor de quem eu tenha lido mais livros do que Pepetela. Este ano, "Se o passado..." é o segundo dele que leio.
Gosto de achar que tenho uma visão de mundo parecida com a dele. Alguma esperança, muito ceticismo. E, principalmente, olhar crítico.
Pepetela foi um homem de esquerda (hoje não sei se ainda é), mas não dá refresco a quem conduz Angola. Nunca deu.
Quem se interessar pela obra dele, comece por "Gloriosa família" ou Mayombe".
O próximo que lerei dele é o segundo da série Jaime Bunda. O primeiro tenho a edição impressa, o segundo lerei pelo Kindle.
Vale a pena conhecer Pepetela. É um escritor que se emaranhou pela história de seu país.
segunda-feira, setembro 03, 2018
HOLOGRAMAS
Na
década de 70 do século passado nenhum grupo vendeu mais discos, globalmente, do
que o ABBA. Os suecos ganharam o mundo a partir de 1974. Em 1982, encerraram a
carreira. Desentendimentos internos foram a causa da separação do grupo.
Em
2008, Mamma mia chegou aos cinemas.
Adaptação de uma peça teatral. O filme, um musical, fez grande sucesso e ganhou
uma continuação, agora, em 2018. A trilha sonora é toda composta de antigos
sucessos do ABBA.
2018
chegou e como dinheiro não faz mal a ninguém, o ABBA voltou. 35 anos depois de
se aposentarem, retornaram. Há promessa de duas músicas inéditas e uma turnê
virtual em 2019. A empresária do grupo explica que toda a turnê será
apresentada por hologramas: “Devemos nos lembrar deles como eram nos anos 70 e
escutar como eles cantam hoje em dia.”
Benny
Anderson, um dos integrantes do ABBA, falou sobre o assunto: “É perfeito!
Podemos estar no palco enquanto estarei em casa, passeando com os cães. Se isso
realmente funcionar, haverá muitos artistas querendo fazer o mesmo, até muitos
artistas jovens e que estão atualmente em turnê”.
O
primeiro grupo holográfico da música, no entanto, não será o ABBA. A primazia
cabe ao Milli Vanilli.
No
final dos anos 80, dois negões europeus fashion estouraram nas paradas.
Chegaram aos EUA, ganharam um Grammy como revelações e logo depois foram desmascarados.
Os dois Milli Vannili eram bonitões, requebravam bem e se vestiam de acordo com
a moda da época. Por trás dos Milli formosos, que fingiam cantar, havia, claro,
os Milli que cantavam de verdade. Estes tinham um grave defeito: eram feios.
A
verdade veio à tona, os feios tomaram a direção do grupo e jamais emplacaram um
sucesso. Os hologramas venceram.
O
ABBA quer esconder sua velhice.
Os
Milli disfarçaram a feiura dos verdadeiros artistas.
Assustador
é achar natural hologramas se apresentarem no lugar de pessoas reais.
Em
1998, Damon Albarn e Jamie Hewlett criaram o Gorillaz. Albarn tem sólida
carreira à frente do Blur. Hewlett é prestigiado criador de quadrinhos. Pelo
Gorillaz já passaram diversos músicos e cantores.
O
grupo tem história virtual rica e intensa. No último disco, um dos componentes
virtuais foi substituído. Cometeu um crime e foi preso.
O
Gorillaz não são hologramas. São parte de um projeto artístico muito criativo.
Os que dão vida ao grupo, os artistas do mundo real, estão por aí fazendo
música e arte em outros lugares.
O
ABBA se repete e suga o som que produziram no passado. Não querem ter o
trabalho nem de subir ao palco para cantarem.
O
Milli Vanilli foi uma fraude. Eram hologramas de si mesmos.
O
Gorillaz é um projeto sincero, criado por artistas de verdade.
ABBA
e Mlli Vanilli escamoteiam a verdade. O ABBA de hoje, o Milli de sempre. O
Gorillaz “inventa” a verdade.
Torço
para a turnê do ABBA ser um fracasso. Mas isso pode ser reacionarismo deste
velho.
sábado, maio 19, 2018
CARA DURA
Uma revelação bombástica para alguns dos meus 200 parceiros feicebuquianos: evangélicos não encaram o mundo de forma igual. Somos diferentes entre nós e muitas vezes sinto o desejo de mandar se foder quem põe no mesmo saco todos os evangélicos. Só um exemplo: sou evangélico, mas garanto que não é bem visto entre meus irmãos de fé mandar alguém se foder. Eu mando, habitualmente.
Assisti ao papo furado na GloboNews sobre o casamento da fofíssima Meghan Markle com o príncipe vermelho. O sermão do episcopal afrodescendente norte-americano, convidado por Meghan, foi muito elogiado pelo grupo que comentava os diversos aspectos da cerimônia, principalmente pela menção a Martin Luther King. Um dos comentaristas fez um reparo, exatamente o reverendo episcopal convidado para falar sobre liturgia. Ele disse que, a não ser pela menção a King, todo o sermão era reprodução de um que ele ouvira há semanas. Um plágio, portanto. Risos sem graça da turma e outro assunto entrou em pauta.
Há anos perdi todo o respeito por um pastor. Depois de ouvi-lo pregar um sermão sob o tema “Cansados de fazer o bem” e ficar muito impressionado, me decepcionei ao encontrar o sermão, na íntegra, em livro de Martyn Lloyd-Jones, morto em 1981. Lloyd-Jones foi teólogo protestante, calvinista, de origem galesa e por quase 30 anos foi ministro da Capela de Westminster, em Londres.
Pregar o sermão alheio sem mencionar o outro era vergonhoso. Havia até os pastores que não achavam muito correto repetir os próprios sermões em ocasiões diferentes.
O pastor Hélcio Lessa, já aposentado na época, pregou na IB Itacuruçá baseado no texto de Romanos 12.2: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito.” Entre suas ouvintes, uma muito atenta: minha querida esposa, Rosangela.
Dois anos depois, o pr. Lessa estava na pequena PIB do Recreio (hoje, enorme). Pregou o mesmo sermão de dois anos antes. Na volta para casa, voltamos na mesma carona, com o pr. Wander. Rosangela, sem maldade, virou-se para o pr. Lessa e elogiou o sermão: “Muito bom o sermão, pastor, mas eu gostei mais de quando o senhor o pregou em Itacuruçá”. Imediatamente, Rosangela percebeu a mancada, mas aí...
O pr. Helcio Lessa tinha humor ácido e devolveu: “Moça, o mundo é mesmo pequeno. Como eu iria imaginar que a mesma pessoa que me viu pregar numa catedral estaria, hoje, dois anos depois, nessa igrejinha de fim de mundo?” Todos rimos, menos o Wander, que sentiu a agulhada.
De qualquer forma, ele ficou constrangido por ter cometido autoplágio. Hoje, um pregador lança mão do sermão de outro e o usa em cerimônia de alcance mundial. Se for verdade, no meu mundo isso é um escândalo.
sábado, dezembro 02, 2017
CRISE, QUE CRISE?
Ontem, entrei na Riachuelo (ou RCHLO) para fazer um cartão da loja.
Fui conduzido por uma simpática moçoila ao analista de crédito.
- Por favor, sente-se.
Sentei-me.
- Identidade, CPF, comprovante de residência, título de eleitor, dois números de telefone de amigos, exame de sangue, foto abraçado com o Lula...
Tinha tudo.
- Sr. Utahy, tudo ok. Vou, agora, tirar uma foto do senhor. É um procedimento de segurança.
Disse isso e puxou uma camerazinha acoplada ao computador.
- O senhor poderia tirar o boné?
Tirei, claro.
- Sr. Utahy, não estou conseguindo fazer a foto. Eles mudaram o sistema. Este é muito mais sofisticado. Há muitas lojas querendo copiar nosso sistema. O senhor poderia tirar os óculos?
Tirei, claro.
- Ainda não estou conseguindo fazer a foto. Sistema avançado tem essas coisas. É muito detalhista. Sr. Utahy, reparei que o senhor tem as pálpebras caídas. Se importa de abrir mais os olhos?
Abri, claro.
- Não, não precisa arregalar tanto. O sistema estranha. Ele é muito sensível. Olho normal. Normal.
Normalizei.
- Ainda não foi. Deve ser a barba. Passe a mão na barba. Ponha-a o mais pra baixo, possível.
Obedeci.
- Sr. Utahy, o senhor se importa de vir até a máquina da colega. A minha pode estar com problema.
Fui.
- É, não foi. Venha até essa outra aqui. Esse sistema é muito sofisticado. É demais.
Fui, de novo.
- Sr. Utahy, levante um pouco a cabeça. Infelizmente, não adiantou.
- Tudo bem. Deixa pra lá. Fico triste de não poder ter o cartão RCHLO, mas, o que fazer?
- Bem, se o senhor quiser dar uma rejuvenescida e raspar a barba, apareça.
Ontem, eu estava de excelente humor, mas ocorreu-me mandar o garoto se foder.
quarta-feira, outubro 25, 2017
BULINGADORES
O
bullying é algo terrível. Sei porque sofri.
Como
bom petista, antes do PT, era feio, gordo e pobre. Além de tímido, covarde e
sem iniciativa. Uma vítima.
Não
chorem, mas no recreio, às vezes, eu preferia ficar dentro de sala com medo de
ser sacaneado. Se descesse com a merenda (pão com margarina) sempre era roubado
por um feladaputa (acho que meu desprezo pela humanidade vem daí ).
Entre
uma aula e outra, eu suava frio. Torcia para o professor chegar à sala, porque
enquanto ele não chegava levantava-se uma galinácea (Sandra, amo essa velha até
hoje) que se intitulava Mugamada. Eu era o Mug. Ela tripudiava desta vitiminha
aqui e a turma gargalhava. Vontade de estourar a cara dela com um tiro? Claro
que tinha, mas meu pai não suportava armas. Sorte dela.
Em
todas as escolas do mundo há um infeliz que é perseguido pelos coleguinhas e há
duas formas de vencer esse desafio: ou mandando o sacana pro além ou superando
e seguindo em frente. Eu segui em frente.
Depois
do ginásio, continuei gordo, pobre e feio, mas ninguém me sacaneava mais. Só de
longe. Obviamente, minha inteligência acima da média me ajudou, mas, principalmente, adotei nova
atitude diante da vida.
A
pior atitude que podemos adotar é a da vítima. Se você correr atrás de uma
ratazana ela vai fugir, até o momento em que ela não tiver mais pra onde ir. Aí
ela ataca. Se você sofre bullying, se sente acuado e não tem minha inteligência,
não precisa matar ninguém. Arme-se com um bom pedaço de pau e parta pra cima de
quem te sacaneia. Você nunca mais será bulingado. Todos temem os loucos.
quinta-feira, outubro 19, 2017
CRIANÇA RAIZ
Criança,
hoje, tem boa vida.
Meus
tios Zeca e Ari me contavam que uma vez, adolescentes, fumavam na rua, matando
aula. Um vizinho passou por eles, chamou-lhes a atenção e pespegou-lhes tapas
na cara. Na cara dos dois. Saiu dali, foi até o pai deles, meu avô, e relatou o
ocorrido. Meu avô parabenizou o vizinho, chamou os dois e tapa na cara foi só o
começo de uma surra que passaria para a história da família. Surra relembrada em
diversas reuniões familiares, por muitos anos depois de acontecida. Meus tios
relatavam a sova rindo, aparentemente sem mágoas. Meu tio Ari, o mais velho,
ainda debochava: “Eu obrigava o Zequinha a fazer gazeta. Ele ia obrigado. Se
não me acompanhasse, eu batia nele. Acabou apanhando do vizinho e do velho
Benício”.
Meu
tio Bira, o salvação, era figura divertidíssima, pelo menos para nós que
vivíamos longe dele. Lutou muito. Foi taxista, mecânico, dono de caminhão de
frete. Em uma época que poucos tinham casa própria, comprou três, ao longo da
vida. Casas que ficaram para os filhos. Divorciado, criou os quatro filhos com
a sogra. Cristã atuante, levou todos os netos a Jesus.
Tio
Bira era seguro, pão-duro, canguinha. Quando precisava comprar sapatos para os
quatro filhos, fazia-os pisarem em uma folha de papel, tirava o contorno dos
pés e ele mesmo ia à sapataria fechar negócio.
Meu
pai era mão-aberta, mas não tinha dinheiro. Na infância, eu escrevia cartas
para o Papai Noel e pedia. Pedia bem. Não recebia nada. Ficava aborrecido.
Internamente, xingava o velho Noel, mas logo me arrependia e atribuía a esse
tipo de atitude a razão de não receber o solicitado. Duro foi quando fiquei,
por uns três natais, recebendo a mesma bicicleta, repintada. Com os meus
botões, pensava: “Sou mau pra dedéu, o velho não vai mesmo com minha cara”.
A
boa criança daquela época era discretíssima. Andava sempre de cabeça baixa. Não
se intrometia em conversa de adultos. Para ser exato, não demonstrava interesse
no papo dos maiores. “O que está olhando, isso não é conversa pra você?” Toda
criança de meados do século passado ouviu isso. Entre os adultos, desqualificar
uma criança era chamá-la de reparadeira. Reparadeira era a criança curiosa, que
olhava e via. Era uma observadora. Chegava em um ambiente e perscrutava com os
olhos todos os cantos.
Criança,
hoje, tem boa vida. Para o bem e para o mal.
As
crianças de hoje são mais saudáveis, autônomas, sensíveis, destemidas. Também
são mais mimadas, birrentas, cheias de vontade.
Na
minha frente, no Supermercado, um menino de no máximo 5 anos pediu um chocolate
à mãe. A mãe falou baixinho no ouvido dele que estava sem dinheiro. O moleque
começou a xingá-la com alguns nomes que precisei anotar para buscar o
significado depois. Xingava aos berros, chutava a mulher que, constrangidíssima,
pegou o chocolate pro pimpolho. Se eu pudesse entregá-lo pro velho Benício...
O
tempo passa e a maneira de lidarmos com diversas situações muda. Não vejo
sentido em agredir crianças nem de excluí-las do ambiente adulto, mas limites
precisamos dar. Se isso não for feito, temo pela geração que está sendo
formada. Uma geração sem noção do que são seus direitos e deveres. Uma geração
ressentida por crer que o que lhe é devido não foi entregue. Não há dívidas.
Construímos nossa história e nem sempre o percurso é suave e o final feliz. A
criança precisa entender que sem esforço e vontade não se chega a lugar algum.
segunda-feira, junho 26, 2017
VERDADES & MENTIRAS
Há muito tempo, foi moda no FB a elaboração de
lista com verdades & mentiras. Normalmente, sete verdades e uma mentira.
Sempre sobre a vida do autor do texto. Não sei quantas verdades escreverei.
Haverá, claro, uma mentira. Não garanto revelá-la.
1) Uma vez, menino ainda, descia a íngreme
ladeira da Ferreira Pontes, no Andaraí, de velocípede. Em pé, atrás de mim, uma
amiguinha. Com uma das mãos, segurava meu ombro para se manter equilibrada, com
a outra empinava uma pipa. Não sei por que fazíamos isso. Bobeei e choquei-me
com um hidrante.
A amiguinha voou por cima de mim e encarou o
perverso hidrante com o queixo. Fiquei traumatizado, tomei umas chineladas de
minha mãe, mas a amiguinha não perdi.
2) No ginásio, tinha uma professora chamada
Clícia. Eu estava resfriado e, porcão, engolia o catarro que produzia. Tudo
isso dentro da sala de aula, sentado bem pertinho da mestra para sorver a
sabedoria que dela emanava.
Incomodada com meus maus modos, a educadora me
deu um esporro de arrasar quarteirão. A turma se solidarizou comigo, indignada
com a atitude dela, e cortou relações com ela. Na aula seguinte, a megera fazia
perguntas e ninguém respondia. Ela percebeu a jogada e, maquiavélica, fez uma
pergunta ao covarde: eu. Respondi, a turma se emputeceu comigo e o movimento de
protesto acabou. Levei 40 anos para voltar a respeitar professores.
3) Na década de 80, toda hora havia greves.
Trabalhava na Manchete. Minha jornada era de 7 às 13h, de segunda a sexta. Ótimo
horário, salário de mercado, não precisava ocupar meus fins de semana e tinha o
dia inteiro para trabalhar em outros lugares ou estudar.
Na Manchete, falta em dia de greve era demissão
na certa. O Jaquito era implacável.
Um dia cheguei e tinha piquete na porta da
empresa. Havia uma entrada “social” e outra de funcionários. A de funcionários
levava ao relógio de ponto. Na Manchete, trabalhavam diversos tipos de
profissionais. O expediente que se usava para furar a greve era dizer que ser
jornalista em dia de greve de gráficos ou gráfico quando o piquete era de
jornalistas.
Eu, evangélico da antiga, não gostava de mentir.
Mentia, mas naquele dia, sei lá... “Sou jornalista e vou entrar.” “Estamos
lutando por você, pelego feladaputa.” “Vou entrar.”
Levei cascudo, porrada nas costas, chute na
bunda. Fui chamado de traidor, vendido e o cacete a quatro. Mas entrei.
Senti-me um covarde, mas segui empregado.
4) Eu e Hernani, pré-adolescentes, tínhamos uma
paixão comum: Zoé. Ela morava no 590 (ou 490) da Conde de Bonfim. Muitas vezes
ficávamos sentados em um boteco bem em frente ao prédio, a observar porra
nenhuma.
Um dia, ousados, entramos no prédio. Logo fomos
cercados pela garotada local, os inimigos. O que estão fazendo aqui? Por que
entraram? Aonde vão? As respostas não foram satisfatórias, levamos uns safanões
e fomos imediatamente expulsos.
No dia seguinte, Osvaldo, namorado da cobiçada,
me cercou e garantiu que me encheria de porrada na saída. Seria mesmo, sem
apelação. A não ser quê...
Eu tinha um amigão. Amigo de rua. Conhecido da
família. O maior lutador de rua que conheci. Da mesma turma de Osvaldo
Jiu-Jitsu.
Recorri ao protetor. Ele, carinhosamente,
alertou o pretenso espancador: “O Mug é meu amigo. A briga dele é minha”.
Ninguém desafiava Paulo Roberto Silva. Escapei.
Não era bom ser frouxo, mas eu não gostava de
apanhar.
5) Fui uma criança encagaçada. Tinha medo de
tudo. Minha avó Dalila (ela era só minha) ficava vendo televisão comigo
madrugada adentro. Eu e ela, sozinhos, madrugada adentro. A velhinha dava
cabeçadas de sono. Meu tio chato de vez em quando acordava e enchia o saco:
“Mamãe, vem dormir”. Ela saía do sono profundo pra dizer: “Arari, vai dormir,
estou vendo o filme com meu favorito”.
No meio da madruga, me dava vontade de mijar e
cadê coragem para ir ao banheiro sozinho? Tirava a vovozinha do meio do sono
para me proteger no perigoso percurso. Dormia de mãos dadas com ela. Tudo me
assustava.
Apanhava muito de uma vizinha na Rosa e Silva
(para ser justo, de mais de uma). Tomava cascudos de um outro, a troco de nada.
Os dois estão aqui no meu FB e não se lembram de nada. É natural.
Na rua, minha vovó não podia me proteger, mas
dentro de casa era minha guardiã.
6) O melhor amigo que tive no ginásio,
enlouqueceu. Os irmãos dele se envolveram na luta armada contra o regime
militar. Sofreram muito, por convicção. Hoje, talvez estejam bem. Menos ele.
Nem sei se está vivo.
Percebi que ele não estava bem quando, aprovado
na Escola Técnica Celso Suckow, desistiu do curso e reuniu´se a nós na boate
João Alfredo, em Vila Isabel.
Já num hospício, fomos visitá-lo, eu e
Wanderley. Duros, comemos jaboticaba o dia inteiro. Deley era ótimo em subir em
árvores.
Meu último contato com Ronaldo foi em
Jacarepaguá. Ele estava internado em um manicômio da Cândido Benício e de lá
fugiu. Foi lá pra casa, alteradíssimo. Todo mundo em casa se assustou. Eu, mais
que todos. Dei um jeito de encaminhá-lo de volta ao hospício e nunca mais o
procurei. Não ser bom amigo é decepcionante, mas me faz ver que não sou grande
merda.
7) Uma vez por semana os enfermeiros do hospício
mencionado aí em cima levavam os malucos para jogar no campo do Parâmides. Eles
chegavam, interrompiam a pelada e o time deles jogava contra um formado pela
rapaziada.
Os enfermeiros sempre pediam nossa colaboração
(nossa é força de expressão, eu era costumeiramente barrado na pelada pelo
excesso de ruindade). “Por favor, deixem os doidinhos jogar. Peladinha café com
leite. É só 20 minutos de jogo. Terapia. Pelamor de Deus, não tirem a bola dos
malucos.”
Em nosso gol (Na pelada dos malucos, eu jogava.
Não desarmava ninguém nem fazia gols, era o jogador ideal para não irritar os
aloprados.), atuava o Tiquinho. Também conhecido como Botiquinho. Bebia doses
cavalares de cachaça. Nunca o vi sóbrio. Era um bêbado que levava a sério o
futebol, mas deixava os doidos marcarem gols em sua meta. Quase sempre. Um dia,
sei lá por que, encarnou Andrada. E antes da pelada começar, gritou: “Hoje, sou
Andrada”. Percebi a merda e, mais inteligente do que a maioria, cedi minha
vaga.
Os alucinados vinham com a bola, passagem aberta
pelos atletas da linha, e porravam em direção à baliza guarnecida pelo lendário
Tiquinho. E ele pegava todas. No começo, apreensivos, todos pedíamos para ele
deixar a bola entrar. Alguém tentou substituí-lo. Ele se recusou a sair. Os
doidinhos ficaram nervosos. Os enfermeiros resolveram encerrar a partida. No
mesmo momento, um louco foi lançado em profundidade, driblou o Tiquinho e
quando ia fazer o gol levou um pontapé do bêbado. Pênalti. E não é que o
feladaputa defendeu.
Não teve jeito, a porrada comeu e os malucos
nunca mais vieram ao Parâmides.
8) Tenho um amigo muito criativo. Ele é coronel
PM, já reformado. Comandou o quartel da área da Praça Saens Pena. Anos 80 do
século passado, muitos furtos aconteciam na Praça. Os gatunos deitavam e
rolavam. Um dia, o amigo reuniu seu estafe e disse: “Vamos pôr um espantalho no
meio da Praça. Temos um Opala em boas condições de lataria, mas mecanicamente
se arrasta. A gente deixa o carro na Praça com dois homens. Não dá pra sair com
ele atrás de ninguém, mas acredito que assustaremos os pilantras.”
Dito e feito. Os índices de furto caíram muito.
O sucesso foi tanto que chamou a atenção da imprensa. Bastaram duas ou três perguntas
do repórter para que ele, profissional, percebesse que o Opalão era somente um
espantalho. Reportagem na TV e entregada em O Globo levaram ao fim a Operação Opala
Espantalho. E os gatunos voltaram a se espalhar.
9) Em minha meninice, Roberto “ganhou” a garota
mais bonita da rua: a Cacau. Nós morávamos na Rosa e Silva, entre a Ferreira
Pontes e Botucatu. Cacau morava entre a Botucatu e a Caçapava.
Todos os dias jogávamos uma pelada na rua (eu
era gandula), perto da Botucatu.
Um dia Cacau apareceu para fazer um aceno
carinhoso pro Roberto. Ele não gostou. “Não pegou bem, ela aparecer na pelada.
Todo mundo olhando pra ela.” Como se normalmente não olhássemos.
Chiquinho instigou: “Tem de dar um toque nela.”
Roberto deu. Ela o mandou passear. Chegou a chorar por perder o pitéu.
Menos de um mês depois o titular absoluto no
escrete da Cacau era o Chiquinho. Ele nunca ligou de ela ir vê-lo jogar na
pelada.
10) Todos se surpreenderam quando José Luis, o
Arroz Brejeiro, trucidou em uma briga o Ronaldão. Semana sim, semana também, o
asqueroso escalava alguém que ele entendia fraco e avisava: “Depois da aula, me
espera lá fora”. A maioria das brigas nem acontecia. Na hora da porrada, ele,
condescendente, dizia: “Dessa vez vou livrar sua cara, mas na próxima...” O Zé
não esperou que ele falasse e só parou de bater quando ele disse bem alto:
“Arrego”.
A surpresa de todos com o resultado da briga foi
por causa da natureza pacífica do Zé. Ele era sacaneado por todos na escola e
sua única reação era pôr sobre o branco leitoso de sua pele um vermelhão de
camarão. Ele ficava puto por ser chamado de Brejeiro, mas jamais reagiu.
Euzinho não me surpreendi. Éramos bons amigos.
Frequentava a casa dele na Souza Aguiar, no Méier. O Zé tinha um irmão mais
velho, louco de pedra. Presenciei algumas brigas entre os dois. Eram épicas.
A porradaria começava dentro da casa, passava
por uma longa escada e quase sempre terminava no quintal. Socos, pauladas,
chutes, uma vez rolou faca... Eu ficava lá de cima, olhando. A luta sempre
terminava com o Zé engravatado, sufocando em vermelho babado, tendo de gritar
Arrego, arrego, arrego, com a voz esmagada. Estropiado, sempre depois das
lutas, ele dava uma meia-dúzia de socos na parede. Depois do dia da faca não
apareci mais lá, mas saí convicto de que brigar com Zé Luís não seria bom
negócio.
Com a carreira do Ronaldão, ele acabou.
Fim de papo.
sexta-feira, junho 16, 2017
SOMBRA
Cansamos
de avisar a Lindinha, com risco de nossas vidas, que o Treta era rabo de
foguete. Para mim ela dizia, fiada no parentesco: “Tio, você vê perigo em
tudo”.
A
molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara
mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Treta se era verdade o que
dizíamos, deixamos rolar.
Nem
com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de ser comum a covardia
diante de um matador.
Bom,
o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do
matador. Aos domingos, quando dava, Treta almoçava na casa de meu irmão.
Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher,
“Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor
bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer.
Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu
na lábia do Treta, sei não...
Meu
irmão ligou pra mim perguntando se eu podia acolher Lindinha. Ela não queria
saber mais do Treta e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem
gente daí que sabe que estou aqui. Ralem todos. Vão pra casa dos primos, em
Natal”.
Em
Natal, Lindinha voltou a estudar. O Treta tocou o terror lá em casa, mas
consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Parentes? Não, não
temos”.
Antes
de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui
a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O
mano ficou mais um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para
onde ia.
Treta
foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu em um indulto de Páscoa
apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha
família passar, agora era crente, irmão Jeremias, e só tinha amor no coração. O
desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a
família que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares,
daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que
o cara tinha virado crente, mesmo.
Duas
semanas pra frente, abri o jornal e dei de cara com uma foto de Treta, morto. A
mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse
desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e
sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.
BRRPPP
- Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!
– Cara, ‘cê tá louco? Não faça isso.
– O quê? Tô fazendo o quê?
– Você está esfregando seus lábios no ventre nu
de sua filha e produzindo esses sons em que percebo alguma lascívia.
– Zeca, é um bebê. Minha filhinha. Ela adora.
– Cara, ‘cê pode ser acusado de estupro. Se
algum paranoico vir uma coisa dessas tu tá fu. Abuso sexual, sacumé. Pena dura.
Pedofilia.
– Deixe de ser exagerado.
- Quando você a pega no colo, suas mãos se
apoiam na bunda dela, reparou?
- Com vou levantá-la para assoprar a barriguinha
dela?
– Louco! Louco! Louco! Não toque nas partes
íntimas de sua filha? Cara, você vai ser enquadrado como tarado.
– Eu dou banho nela. Troco as fraldas. Limpo a
bundinha.
– Cara, procure ouvir o que você disse: “Limpo a
bundinha”. Quer dizer, passa essas mãos cúpidas, acostumadas às mais depravadas
libidinagens, nas inocentes nádegas da criança. Você vai puxar 15 anos.
– Eu e minha mulher trabalhamos. Dividimos as
tarefas do lar. Ela só aceitou casar se fizéssemos assim. Eu concordei.
– Isso pode pesar contra você. Dirão que tudo
foi premeditado. Saiu-se com essa de divisão de tarefas para assediar, sem despertar
desconfiança, a inocente.
– Caraio, o que faço?
– Sua sorte é que estou te alertando. Não toque
mais nessa criança. Nada de colinho. Boca na barriguinha. Cheirar os pezinhos,
podofilia, nem pensar. Deixe essa criança aí, do jeito que está. Espere sua
mulher chegar e acabe com esse negócio de divisão de tarefas.
– Vai dar divórcio.
– Melhor, pelo menos você fica em liberdade.
domingo, junho 11, 2017
O MURO
Minha sogra amadinha é espoleta.
Durante a semana ela me fornece almoço. O
serrano não entra em cozinha. É contra nossos hábitos culturais.

Dia desses, o farnel estava tão farto que não
passou pelas grades. Ela se virou para mim e disse:
- Pamonha, segure a bolsa.
Segurei.
Ela pegou as grades com as duas mão, levantou a
perna até o alto do muro e subiu, como um chimpanzé.
Levei um susto, mas não só eu. Uma afro descendente
que passava, empoderadíssima, cabelaço lindo, gritou pungentemente:
- Meu Deus!!!
A sogrinha, vociferou, passando a bolsa por cima
da grade:
- Banana, pegue a bolsa.
A deusa de ébano, paralisada, estupefata, me
perguntou:
- Ela não vai pular o muro, vai?
Ri, ri, ri, acho que de nervosismo, e respondi.
- Eu espero que não.
A sogra, lá de cima, rosnou.
- Mocinha, circule. Pamonha, pegue a bolsa.
Obedecemos, afinal não é qualquer um que aos
oitenta ainda sobe em muros.
quinta-feira, abril 27, 2017
MUNDO TENEBROSO
Assistir
aos telejornais, por esses dias, tem sido mais desagradável do que o habitual.
Há umas duas semanas, crianças foram mortas por bombas químicas. Um horror. O
autor da monstruosidade ninguém sabe ao certo. A conta foi entregue a Bashar al
Assad, o carniceiro sírio. A consequência foi o bombardeio norte-americano a
uma base aérea síria. A Rússia fez ameaças, aliada que é da ditadura de Assad.
Donald Trump, elogiado pela ação, promete, agora, dar uma lição no bufão
norte-coreano. Aonde chegaremos ao final desta escalada de beligerância? Não
tenho a menor ideia.
No
Brasil, os de estômago forte não saíram da frente da TV vendo e ouvindo os
depoimentos dos delatores da Odebrecht. Delatores sorridentes e bem-humorados,
beirando ao escárnio, nos mostraram a subterrânea qualidade de nossos líderes.
E os menos ingênuos sabem que muito mais lama ainda virá.
Um
delator chegou a dizer que, em certo momento, havia prazer dos emissários da
Odebrecht em comprar corruptos. Mesmo sem necessidade, compravam. É bom que nos
lembremos: o dinheiro usado para comprar os marginais não era da Odebrecht, era
nosso.
Mudo
muito de ideia, graças a Deus, mas tenho pensado seriamente em não votar em
mais ninguém. Meu último voto foi de Pezão. Hoje, fico deprimido quando o vejo
na TV.
A
maior emoção eleitoral que senti foi na vitória de Lula, em 2002. A chegada do
PT ao poder me deu algumas esperanças, mas confesso que o ambiente republicano
da passagem de cargo de Fernando Henrique Cardoso para Lula também me animou.
Talvez por isso minha decepção com o PT tenha sido tão grande.
Militantes
petistas afirmam que sempre houve corrupção no Brasil. Quem não está à
esquerda, contra-argumenta dizendo que nunca se roubou tanto quanto nos
governos petistas. Meu ponto, como ex-petista, é: o PT não podia ser
instrumento de assalto ao país. Não me interessa se o PT roubou mais ou menos.
O PT não podia roubar.
Nós,
cariocas, para completar, ainda vemos o Estado do Rio destruído. A cidade vai
pelo mesmo caminho. Temos números de assassinatos que faz sombra à Síria. Quem
circula pela cidade com segurança? Morrem policiais, cidadãos, crianças. Um
celular custa a vida de inocentes. Matar se tornou ato banal. E não mais nos
grotões da cidade, nas comunidades. Nos dias que escrevo este editorial,
explodiram um banco na Av. 28 de Setembro, principal via de Vila Isabel;
mataram um jovem motoqueiro em Laranjeiras; dois policiais e uma menina, em
dias diferentes, foram mortos em Madureira e muitas outras desgraças, que não
me ocorrem neste momento, aconteceram.
Não
tenho ideia de para onde vão o mundo, o país, o estado, a cidade, mas o clima é
desalentador. Há desânimo no ar. As forças para superar o momento difícil,
precisaremos buscar em Deus. E é a Ele que precisaremos recorrer e, obviamente,
não esquecer de fazer a nossa parte.
EU, SINDICALIZADO
Em
1974, comecei a trabalhar no Jornal do Brasil. Tinha 20 anos. Associei-me ao
Sindicato de Jornalistas do Município do Rio de Janeiro. O que me moveu foi a carteira
com carimbo Imprensa. Dava pra tirar uma onda. De qualquer forma, o velho
cobrador do Sindicato circulava as redações do Rio para recolher as mensalidades
e eu pagava, religiosa e voluntariamente.
Havia
(deve haver, ainda) um Sindicato do Estado do Rio. Na Manchete, trabalhei com
uma figura que era profissional deplorável. Faltava pra cacete, o serviço dele
precisava ser revisto. Um revisor que precisava ser revisado. Ele se valia da
imunidade que tinha por ser da diretoria do sindicato do Estado para ser um
profissional de merda. O do Município era o sindicato relevante, o que se
empenhava por seus associados. Então, há sindicatos e sindicatos.
Enquanto
trabalhei em empresas jornalísticas, fui filiado ao Sindicato dos Jornalistas,
depois que precisei buscar trabalho em outras empresas era ligado (não filiado)
aos sindicatos dos empregados da firma em que estava. Algumas das “conquistas”
da classe, mantive em todas as empresas, como as seis horas diárias de
trabalho.
O
imposto sindical compulsório (sempre me emputeci com esta merda) era descontado
para a empresa em que estava trabalhando. Para ser encaminhado ao SJPMRJ, eu
precisava ir ao Centro, pegar uma declaração e entregar no DP da empresa. Dava
um trabalhão. Mas fazia isso porque já estava desvinculado do Sindicato e
achava correto agir assim. Era um babaca, na época.
Quando
entrei no Jornal do Brasil, havia linotipistas. Durante os oito anos que trabalhei
por lá, foram extintos. Éramos 120 revisores. Em 1980, viajei numa barca lotada
de demitidos. Desembarquei na Manchete e, 20 anos depois ela falia. Já tinha
saído de lá em 1990. Os revisores de texto minguavam. Subitamente, passei a
ser, com 40 anos, um revisor garoto. Na profissão, só gente mais velha.
Profissões
se extinguem, é inevitável. Temos de nos liguei adaptar. Muitas vezes foi
penoso para mim, mas a solução não era o Estado me dar colo. Estado atrapalha.
Meu
registro de jornalista devo ao grande José Sarney. Entrei no JB e meu registro
era de jornalista provisionado. O grande Sarney decretou que o provisionado
viraria profissional. Nunca entrei em uma Faculdade de Comunicação. A maioria
dos bons jornalistas, também não.
Estou
dizendo isso porque hoje de manhã entrei no sítio do Sindicato para ver as
condições para voltar a me filiar. Com o fim do imposto sindical (já foi tarde),
quem deve sustentar a associação somos nós, os profissionais. Vi as condições,
as exigências e liguei pra lá. Sou aposentado, não sabia se podia retornar ao
sindicato nessa condição. Também não tenho diploma, mas, pensei, é um retorno,
fui sindicalizado antes da exigência de diploma, não achei que houvesse
problema. A senhora que me atendeu não deu tempo nem de eu falar sobre a
aposentadoria. Quando disse que não tinha diploma, ela me interrompeu e
informou que o diploma era inegociável.
Está
certa a moça, mas acho que ela não percebeu que algo mudou e os recursos terão
de ser buscados em outras fontes. Minha febre cidadã passou. Não pagarei R$
160,00 para entrar nem R$ 35 mensais para jamais usar os serviços do sindicato.
Foi
só uma brisa que passou.
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