terça-feira, março 22, 2016

CRAQUE DO FUTURO


Borges precisava tratar de um assunto sério e sigiloso com o amigão de todas as horas, Inácio. Ambos envolvidos no rendoso negócio do futebol, eram bons amigos, mas dinheiro, sacumé.
O diretor do clube o chamou:
– Borges, está tudo certo com o Conselho. Não pode vazar.
– E o Conselho? Você confia em todo mundo?
– Não falei com todo mundo. Só com aqueles que tenho no bolso.
Borges, autorizado, conversou com seu atleta.
– Fica mais um ano por aqui. Em dezembro a gente vê sua saída prum time de responsa. As conversas com o Paris Saint-Germain estão alinhavadas.
O garoto confiava nele.
– Só pode vazar depois de tudo acertado. Não quero ficar com o pau na mão.
A conversa de Lula com Dilma estava no noticiário. Grampo, escuta telefônica... Legal, ilegal... Borges assistia ao Fantástico e suas câmeras escondidas.
– Inácio, vamos almoçar? Lembrar os velhos tempos. Sabe que a Soninha está chegando de Portugal? Daqui a meia hora mando um táxi pra te pegar.
No táxi, Inácio se preocupou com a viagem longa.
– Onde vamos? Pegou a ponte.
– Maricá. Tem um restaurante fuderoso, lá.
Inácio apreciou a paisagem. Outono com solzão de verão. Em Maricá seguiram para uma praia erma. No carro, não trataram do assunto que conversariam. O carro parou na beira da praia. Em volta, ninguém.
– Borges, tô assustado.
– Vai ficar mais. Tire toda a sua roupa. Se quiser, fique de cueca. Vamos pro mar.
– Você resolve. Conversamos no mar ou retornamos.
– Vamos lá.
A água estava agradável. Borges chegou a dar uns mergulhos antes de ir direto ao ponto.
– Desculpe-me pelo local. Confio em você, mas está tudo confuso. Esse papo não pode vazar. Se vazar, eu nego. Aí não quero ouvir gravações feitas na encolha. É meu meio de vida. O importante: o Jeferson Eduardo de Aragão Barbosa aceitou a proposta do Flamengo. A diretoria vai dar uma esperneada, fingir que resiste para não contrariar muito à torcida, mas concordará.
– Um registro: babaquice esse negócio de nu na praia. Não sou político, porra. O menino é uma joia, você sabe.
– Sem nhenhenhem. A culpa vai cair nas costas do presidente anterior que estabeleceu multa rescisória baixa. O atual dirá que estava vendo isso quando foi traído pelo clube co-irmão. Vai ameaçar entrar na Justiça e aquela bobeirada toda.
– Não acreditei que o Vasco venderia. As exigências são aquelas?
– O Flamengo vendendo, o "Vasco" leva por fora, o garoto, eu e você.
– E o nome?
– Ele faz questão do nome inteiro. Até as rádios estão atendendo o pedido dele.
– "Jeferson Eduardo de Aragão Barbosa recebeu a bola, deslocou-se pela lateral, passou para Nenê que, de primeira, devolveu. Jeferson Eduardo de Aragão Barbosa recebeu na frente, driblou o zagueiro e... Gol, goool de Jeferson Eduardo de Aragão Barbosa." Os caras sacaneiam.
– Ele não vai se não usarem o nome todo. Na camisa, inclusive.
– Eduardo de Aragão, que tal?
– Tem muito jogador com dois nomes: Thiago Silva, Thiago Motta, Renato Augusto, Eduardo Augusto. Ele é diferenciado. Palavras dele.
– Borges, muita gente acha que empresário de jogador ganha muito. Mas é dinheiro merecido. Aturar esses malas...

– Inácio, há profissões piores... e malas maiores. 

segunda-feira, março 14, 2016

A QUALQUER PREÇO

A pobreza. A maioria é pobre do nascimento à morte. Uns se conformam, não têm forças para vencê-la. Outros a vencem por reunirem dois atributos: vontade e falta de caráter.
Douglas nasceu pobre. Filho de viúva, três irmãs mais velhas, distraía-se estudando. Sabia que não seria pobre a vida toda.
Bonitão, aprendeu a conhecer as mulheres observando as irmãs. A mãe, não. A mãe era da antiga. O pai morreu, morreram todos os homens. Já as irmãs, eram do balacobaco. Gostavam tanto de sacanagem que logo arrumaram filhos, perderam o viço e seguiram na merda.
Douglas casou-se com uma jovem classe média. O sogrão o ajudou. Colocou para trabalhar na empresa da família, uma construtora. Só exigiu que ele estudasse. Ele se jogou em uma faculdade particular, virou administrador e abriu o próprio negócio.
Um dia, tomando uma cerva com os amigos, teve uma iluminação. "Esta mulher com quem estou nada mais tem a me oferecer. Não temos filhos. Ambos somos jovens e belos. Podemos reconstruir nossas vidas. Preciso ter mais dinheiro do que tenho hoje".
Adalgisa nasceu rica. Filha de advogado abonado. Morou, no final da adolescência, em Portland, no Oregon, EUA. Ela adorava. Cidade de clima frio.
Aos 20 precisou voltar para o Brasil. O pai tinha planos para ela. Deixou um amor na outra América, mas, obediente, voltou.
Em um batizado, conheceu Douglas. Pena que era casado. Gostou dele. Foram apresentados, conversaram.
Douglas, dois meses depois, ligou pra ela. Encontraram-se. Ele lhe disse que o casamento dele acabou no momento que a conhecera. Já estava separado da mulher. Se ela desse uma chance a ele... Ela deu.
Quando Douglas chegou no batizado da filhinha da prima da mulher, estava irritado. Programa de família. Conversa vai, conversa vem e um linguarudo apontou Adalgisa. "Aquela moreninha linda lá no canto é filha do dr. Tubarão". Douglas olhou e quis confirmar: "Dr. Tubarão, o advogado? O dr. Anacleto Tubarão?" A língua garantiu. "Adalgisa Tubarão. Linda, riquíssima e quase santa. Religiosíssima." Douglas teve outra iluminação.
Douglas conquistava sogros com facilidade. "Quero netos", exigiu o dr. Tubarão. Douglas e Adalgisa deram dois para o velho. E Douglas pensou que a vida era boa com ele. Muito dinheiro, uma mulher belíssima e inocente, filhos... Sua empresa não ia lá das pernas, mas o sogro, mesmo descontada a pensão da ex-mulher, defecava dinheiro.
O velho, que nem era tão velho assim, 58 anos, teve um piripaque e morreu. A vida é cheia de surpresas, dizia o filósofo. Depois da porradaria entre os sócios, a viúva e filhos que apareceram, sobrou bastante dinheiro. Menos, no entanto, do que todos esperavam. Descobriu-se que o tubarão era mesmo matador. E matava sem camisinha.
Adalgisa ficou com o dúplex na Barra, dois carros, participação no escritório de advocacia, um sítio em Petrópolis e a casa em Portland. Com o desmonte de sua empresa, Douglas, ano após ano via seu patrimônio pessoal despencar. Teve ótima ideia para um negócio. Conversou com a mulher. "Venda o sítio, me empreste um dinheiro e logo multiplico esse capital". Adalgisa foi irredutível: "Não me desfaço de patrimônio. Papai deixou pra mim". A discussão esquentou, Douglas descontrolou-se, agrediu a mulher e ela deu parte dele na delegacia. Uns dias depois, Adalgisa pegou as crianças e partiu para Portland. "Vou dar um tempo", ela disse. E foi.
Douglas ainda estava pasmo com a reviravolta em sua vida. Tudo se encaminhava tão bem.
Um dia Adalgisa ligou e disse que estava voltando ao Brasil. Queria conversar. Madura, bonita, firme, anunciou: "Vou me divorciar. Assim que o divórcio sair me casarei com Terence, meu amor americano".
Douglas, estupefato: "Que amor americano?"
Adalgisa, serena: "Namorei Terence na adolescência. Meu pai atrapalhou. Retomamos de onde paramos."
"Mas, e as crianças? Temos dois filhos. Tenho direitos", indignou-se Douglas.
"Bom saber que você se preocupa com eles. Vou deixá-los para você. O apartamento, o sítio e os carros, também. Terence faz questão que comecemos do zero", explicou Adalgisa.
Douglas percebeu a iluminação. As crianças eram pré-adolescentes. Se viravam bem sozinhas. Venderia o dúplex, os carros, o sítio, tentaria arrancar mais algum dinheiro da mulher e se manteria mais longe de onde veio: a pobreza.
Aos quarenta e poucos, apesar dos filhos, conseguiria se erguer, nem que fosse se casando com uma mulher mais velha e com dinheiro. Até já tinha uma em vista. A imagem de pai abandonado com filhos o ajudaria.

Não voltaria a ser pobre. Não, por enquanto.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

O CARA E O OUTRO CARA


Comunidade tensa, irrequieta, sobressaltada. Madrugada de tiroteio.
Pai e mãe deram uma olhada do lado de fora. Sol a pino, a calma voltou. A mãe prepara o café. O filho chega da padaria. Vem com pão, manteiga e informações.
– Tem uns 10 mortos no campinho. Muitos policiais. Chegaram ainda agora.
A mãe quer saber o que houve.
– O pessoal do Sufoco invadiu. Conhecidos, vi o Diguinho e o Digão mortaços. Não deu pra ver mais, a polícia cobriu os corpos.
O pai interrompe. :
– Já saiu alguma orientação da liderança do Sufoco sobre como devemos proceder?
– Pai, o cara do sufoco é tricolor e religioso de montão. Pode roupa verde, vermelha e branca.
A mãe se preocupou:
– Filho, não temos roupa com as três cores.
– Não, mãe. Pode ser só verde, vermelha... Todo de branco, não. O cara detesta religiões afro.
– Isso é discriminação – reage a mãe, umbandista desde criancinha.
– Quem vai dizer isso pro cara, mãe?
O pai levanta da mesa do café:
– Tenho uma casa para pintar. Jeans deve estar liberado, né não? Cada vez que muda o comando há novas regras para obedecer. O que vou fazer com as camisas amarelas que o outro cara exigia que usássemos?
A mãe, saudosa:
– Eu gostava do outro cara. Era educado. Sempre me cumprimentava. "Bom dia, tia. Seu vestido é lindo". Falava sem malícia. Uma vez ele me contou que o amarelo lembrava-lhe a infância no campo. Criava canários da terra. "Me dá sensação de paz". Mas vamos ficar tranquilos, até o almoço chega o comunicado com as novas posturas da comunidade. É só a polícia sair.
À mesa, a família toma o café. A mãe se orgulha daquele ritual. Pela manhã e à noite, a família se reúne em volta da mesa. Há anos cumprem essa rotina. O filho é o primeiro a acordar, se apronta, vai buscar o pão, toma o café da manhã com os pais e sai para o trabalho. A mãe lamenta o filho ter abandonado os estudos. Concluiu o ensino médio e não quis saber de faculdade. Em compensação, fez vários cursos, arranha no Inglês e ganha um salário razoável como técnico em eletrônica numa empresa sólida do Centro.
O marido é pedreiro. Dos melhores. Responsável, confiável, não lhe falta serviço.
Ela é dona de casa. Mantém a casa de dois quartos um brinco. É obsessiva com limpeza. Jamais imaginou que moraria em uma favela, mas quando chegou o lugar era umas 100 vezes menor. O marido pedreiro dispôs de bom espaço para construir a casa. Tinha fundação para subir mais dois andares. Quando o filho casasse, se quisesse, e a mulher aprovasse, o pai faria um andar para ele.
O garoto estava namorando. Ela não conhecia a menina, ainda. Ela era, exatamente, do Sufoco. O outro cara era sistemático. Não queria a garotada daqui se misturando com a de lá. Mas, daqui a algum tempo, consolidado o domínio do Sufoco, o filho poderia trazer a namorada em casa. E visitá-la, também. Claro, isso dependeria das idiossincrasias do cara. Todo cara tem manias. Um cara proibiu celulares; outro, toda semana fazia o pessoal fechar as ruas no asfalto para protestar e queimar ônibus porque éramos cidadãos, dizia ele; o pior cara andava de turbante e possuía um harém, obrigando os pais de meninas bonitas a exilarem as filhas na casa de parentes. 
Os caras sempre têm muito dinheiro, os homens da lei, não. Os caras e os homens da lei agiam sempre da mesma forma, com ínfimas variações. Uns davam, outros recebiam e nós nos estrepávamos.
Não tinha muitas amigas. Conversava com duas, três vizinhas. Papo trivial. Saía para ir ao médico, visitar a mãe, pegar uma matinê nos cinemas do shopping do bairro. A família chegou a ter um carro. Desistiram de automóvel quando um vizinho foi obrigado a levar um ferido de guerra ao hospital. O ferido morreu dentro do veículo e, antes de conseguir explicar o que aconteceu, o vizinho apanhou muito dos homens da lei.
O pai quebrou o silêncio:
– O Sufoco venceu a batalha. Vamos tocar a vida como sempre fazemos. É só mais um cara. Um pouco mais perverso que o outro cara, talvez. Tomara que ele acerte logo com os homens da lei.
A mãe, abatida:
– Se ele não acertar, aí o inferno cairá sobre nós.


terça-feira, setembro 22, 2015

O POVO


- Geraldo e Beatriz foram a Paris?
- Fala baixo. Segredo de estado. Ir a Paris com essa crise... Parece ostentação. Bibi quis. Gegê foi, contrariado. Se alguém souber no Partido.
- Estão indo com o dinheiro deles. Trabalharam. Bibi é romântica.
- No Partido pregam que o dinheiro não deve ser usado para satisfazer aspirações egoístas.
- Você se filiou?
- Não, mas assisti a umas palestras. O Gegê deve vir candidato a deputado estadual. Ele é batalhador, estudioso, tem uma puta consciência social. Não perde um debate.
- Cara, não sei se é porque fui amarradão na Bibi, mas sempre achei o Gegê um babaca. Ele é do contra.
- Está sempre na contramão, não segue a manada.
- E se a manada estiver indo na direção certa?
- A manada é manipulada. A imprensa...
- O material de propaganda do Partido não manipula?
- ...
- Ele vai sumir dez dias com a mulher, ninguém vai perguntar por ele?
- Foi pra Araruama. Está se preparando para os embates de novembro. Nem celular levou.
- Que embates?
- Não sou do Partido, mas creio que serão realizadas várias manifestações. A pauta ainda será definida.
- Mas não entendo porque têm de esconder uma viagem romântica. O dinheiro é deles.
- Não é. É dos guerreiros. A imagem de Gegê não pode ser maculada. Quando ele chegar ao poder e usar o dinheiro do Partido, sempre para o bem do povo, ninguém poderá dizer que ele está agindo incoerentemente.
- Você admira genuinamente o Gegê.

- Admiro e respeito. Tanto que já aceitei o convite para ser assessor dele depois de eleito. Faço tudo por Gegê e pelo povo desvalido.

sexta-feira, setembro 18, 2015

MAGNATAS


- Jerôôôônimo. Amigão, tem uns dez anos que não te vejo. Me dá um abraço, safado.
- Miguelzinho, você continua esporrento. Estamos dentro de um laboratório de exames clínicos. O negão já está te olhando feio.
- Jero, como você está. A família. Está ainda em Campos? Tá trabalhando com aqueles ricaços? Seus filhos...
- Miguelzinho, calma. Você está aceleradíssimo.
- Fiquei emocionado de te encontrar. Daqui a pouco me chamam. Quero saber tudo.
- Vão demorar a nos chamar. Aqui é demorado. Estou no Rio, de volta, há um ano. Os filhos estão casados. A mulher me deixou. Saí do emprego. Quer dizer, fui mandado embora. Só consegui emprego há dois meses. As coisas estão desembaçando.
- O que deu errado no seu casamento? Você e Dinorá formavam um casal bacana. Se gostavam, todos viam. E como você perdeu seu emprego? Vinte e poucos anos trabalhando com os magnatas.
- 22. Sete aqui e 15 em Campos. Fui acusado de roubo. Ontem vi uma novela em que a empregada era acusada, injustamente, de ter roubado um anel. A reação dela foi de incredulidade. A minha, também.
- Disseram que você roubou o quê?
- Dinheiro, joias... Como era empregado de confiança, circulava por toda a casa. Várias vezes a madame, já dentro do carro, me mandava buscar alguma coisa esquecida dentro do quarto dela. O patrão também me fazia de mensageiro. Buscava encomendas e deixava dentro do escritório dele. Ele me deu uma chave da sala que ocupava na firma. Fiquei, várias madrugadas, esperando ele sair de um puteiro de luxo.
A Dinorá não segurou. Dos garotos consegui esconder, apesar de eles terem ficado desconfiados. A mulher, companheira de jornada, acreditou que eu havia roubado mesmo.
- Dê um desconto pra ela. De repente, as evidências contra você eram fortes. O que disse em sua defesa, se é que você não roubou?
- O que Dinorá queria era saber o que eu fiz com o dinheiro. “As joias, para que piranha você deu?”, ela me perguntou. Estava certa da minha culpa. Só não podia perdoar o fato de eu não ter dividido com ela.
- Você...
- Não, não roubei. Sei meu lugar ou pensava que sabia. Patrão é patrão, mas ... Por que roubaria joias? Somente eu e mais dois empregados circulávamos pela casa. A cozinheira, se fosse vista longe do fogão, quase entraria na porrada. A arrumadeira é uma senhora de quase 60 anos que os pais da madame trouxeram, criança, do interior de Minas. Ela se perde em Campos, acredita?
- Então, quem você acha que foi?
- Os príncipes. Três filhos aloprados do casal. Duas meninas e um rapazote. São viciados.
- Por que você não se defendeu?
- Eles sabem as merdas que criaram. Inúteis. Os meus, pelo menos trabalham, estudaram, têm família. Uma vez elogiei minha filha pra madame e ela me deu uma sacaneada: “Só você, Jerônimo, feliz porque sua filha vai casar com um bancário. Sonhe mais alto.” A puta com duas filhas cracudas.
- Você está trabalhando em quê?
- Motorista de um conhecido dos magnatas. Ele me procurou: “Jerônimo, você é ótimo profissional. Confio em você para conduzir minha esposa e os dois molequinhos. Quanto a você ter roubado os magnatas ou não, pouco me interessa. Em minha casa não dou moleza à criadagem. De maneira alguma você passa da cozinha. Prefiro até que faça as refeições na área externa, nos fundos.
- Pô, Jero, que humilhação!
- Nada. Meu lugar está bem definido. Sou educado com os patrões, mas não preciso ter nenhum carinho, consideração, por eles. Quando fui despedido, o que me matou foi que muitas vezes achei que havia uma parceria entre mim e o magnata. Não havia. Empregado e patrão vivem em mundos diferentes. Lição simples e eu levei mais de vinte anos para aprender.
Estão te chamando. Boa sorte no exame.


quinta-feira, setembro 17, 2015

MULHERES PODEROSAS

Paula Hawkins

Sophia Hannah

Gillian Flynn

Gillian Flynn, Paula Hawkins e Sophia Hannah são escritoras bem-sucedidas. Flynn e Hannah, mais do que Hawkins (estão há mais tempo na estrada), mas é do livro desta última que gosto mais, ressaltando, no entanto, que todas as obras mencionadas neste texto li e apreciei muito. Começo pela iniciante, muito promissora, Paula Hawkins.
Uma mulher, todos os dias, viaja de trem para o trabalho. De sua poltrona no trem, observa um casal que vive na rua em que ela viveu. Os breves momentos que o trem para no sinal são suficientes para ela criar uma mitologia do casal. Um dia, algo acontece. O que acontece é o material do ótimo “A garota no trem”, da estreante Paula Hawkins. O primeiro romance da autora, depois de 15 anos no jornalismo, foi best-seller do New York Times e vai virar filme com Emily Blunt e Rebecca Ferguson. Hawkins admira as escritoras Donna Tart e Gillian Flynn. São mesmo admiráveis.
Gillian Flynn teve dois de seus livros lançados no Brasil: “Objetos cortantes” e “Garota exemplar”. “Garota” já se transformou em filme e pode ser visto sem esforço nos canais Telecine. O filme, não sei; o livro é intrigante e angustiante.
No dia do aniversário de 5 anos de casamento de Nick e Ammy Dunne, ela desaparece. Ammy é uma boneca. Seus pais criaram um personagem, Ammy Exemplar, baseado na filha, que estrelou vários livros. Ammy era uma “celebridade”. Nick é o principal suspeito do desaparecimento e, quem sabe?, morte de Ammy. Mas nada é o que aparenta em “Garota Exemplar”. Como deve ser em um bom romance policial.
As protagonistas dos romances apresentados neste texto são, no mínimo, problemáticas. Uma é alcoólatra; outra, obsessiva; a terceira, psicótica; a quarta, egocêntrica.
As três autoras usam o recurso seguro da narração em primeira pessoa. Ao fazerem assim, nada do que você lê é, necessariamente, verdade. Gillian Flynn, em “Garota exemplar”, ainda vai mais longe e usa o recurso com engenhosidade. Aliás, as três autoras são carpinteiras eficientes.
A terceira autora, mencionada, mas não apresentada, é Sophie Hannah. Poeta, autora de livros infantis e, obviamente, escritora de romances policiais, teve a honra de ser convidada para reviver, em livro, Hercule Poirot, o detetive que, na Grã-Bretanha, rivaliza com Sherlock Holmes em popularidade.
“A vítima perfeita” nos apresenta outra mulher com sequelas. Sobrevivente de um estupro, Naomi Jenkins se encontra todas as semanas com Robert Haword, um homem casado, em um hotel barato. Quando ele falta ao compromisso, ela percebe que algo grave aconteceu. Os desdobramentos são narrados com engenhosidade.

As três autoras são, na opinião deste leitor sem pretensão a fazer crítica literária, ótimas. Quatro livros que entretêm o leitor de romances policiais e mostram muito da natureza humana. Somos gente estranha, mesmo que não gostemos de admitir.

sábado, agosto 29, 2015

A INDECÊNCIA


- Jurema, querida, como vai?
- Ótima. Vamos tomar uma cerveja. Este calor tá de matar.
- A Cátia casou?
- Marina, numa boa, não quero falar nisso. A Cátia me contrariou demais com esse casamento.
- Por quê? Eu conheço o menino. É trabalhador, estudioso, ótimo filho.
- Advogado. Está com quase 30 anos e ainda não chegou a lugar algum. E nem vai chegar. Não tem ambição. Minha filha mais bonita, 22 anos. Eu estava com dois carinhas engatilhados pra ela.
- Você deu a maior força pra Carla e não deu em nada.
- Como não. A Carla está com 29 anos. Do casamento, levou dois apartamentos, dois filhos e uma pensão de R$ 20 mil. Mora na Barra, tem carro do ano, o que você queria? A Carla é a mais velha, eu não tinha experiência. E, sinceramente, minha filha nem é tão bonita...
- Jurema, beleza não é tudo.
- O ex-marido era um idiota. Por acaso, um excelente jogador de futebol. A Carla começou a namorar com ele aos 18 anos. Garoto daqui. Feinho, burrinho, mas bom de bola.
- Você não interferiu no romance deles.
- Claro que sim. Vi o potencial dele. Estimulei-o. Ele quis desistir. Queria ser DJ. Carla quis terminar. Se encantou com um bonitinho da escola. Eu disse, deixe de ser burra, esse cara vai longe. Talentoso, sem família para sugá-lo. Nós o sugaríamos.
- Ele está meio sumido.
- Começou no Vasco, foi pro Benfica, Sevilha. Quando voltou pro Vasco ele e a menina já estavam em crise. Disse pra ela, sai fora. Você já está com a vida feita. Agora, está no futebol grego. Baladeiro, cheirador. Começou com isso em Portugal.
- A Camila ainda está casada?
- Essa é a mais esperta. Conheceu o marido por intermédio do Thiago Emmanuel, o marido da Carla. Deu uma direção na vida dele. O Diogo Ricardo jogava no Madureira. Um volante durão. Também fui eu que incentivei. Em vez de namorar esses bundões, fica com ele. Veja onde ele vai. Segura um ano. Ela me ouviu. Namorou, fez jogo duro. Ele era louco por ela. Ainda é. Passou pelo Flamengo, ficou um tempo no Grêmio. Lá, eles veneram volantes. Está até hoje no Galatasaray. É ídolo. Camila gerencia a carreira dele. São felizes. Ele é apaixonado por ela. Ela adora dinheiro. É a filha que mais se parece comigo.
- E a menorzinha, a Catarina? Já fez 15?
- Vai fazer 13. A vida dela eu quero planejar melhor. Carla e Camila se deram bem, eu interferi, orientei, ajudei, mas acabou ficando por conta do acaso. O resultado será o futuro fracasso do casamento da Cátia.
- Mas ela ama o marido.
- E ele a ama. Basta um amar e o outro cuidar da caixa registradora. Amor não faz casamento feliz, no máximo, mantém duas pessoas juntas por falta de opção. Dinheiro, sim, une. E é afrodisíaco. Casal com dinheiro está sempre com tesão, mesmo que não seja um pelo outro.
- O acaso aparece. Não há como evitar.
- Concordo, mas podemos minimizá-lo. Quero minha caçula em uma vida feliz. Vida feliz para mim é vida confortável. Boa casa, bons carros, dinheiro à disposição e filhos para garantirem uma boa pensão se o casamento desmoronar.
- Ela só tem 13 anos, Jurema.
- Está em plena tsunami hormonal. Vou me abrir com você. Somos amigas. Tenho frequentado escolinhas de futebol. Olho a garotada jogando. Estou monitorando três meninos. Bons de bola, sem famílias ávidas... Futurosos. Catarina vai fazer umas correções físicas em Miami. Camila está investindo nela. Contratou Ernesto Gonzalez, o cara que fabrica as misses na Venezuela. Ele garante que umas poucas intervenções a transformarão em uma deusa aos 16 anos.
- Jurema, isso é indecente, me desculpe.
- Indecente é viver na merda como você. Essas três cervejas, esses sanduíches que comemos, quem vai pagar?
- ...
- É isso aí. Indecente é nunca ter dinheiro para pagar as despesas no boteco da esquina.

sexta-feira, junho 19, 2015

PAREDÃO


 Dez minutos antes estava na farmácia comprando remédio para prisão de ventre. Do meu lado, uma moça bonita. Não sabia que dali a instantes estaríamos deitados lado a lado, nos olhando com emoção intensa.
Sou homem casado, seriíssimo e não poria no papel algo que me comprometesse, por isso explico.
Tenho passado um tempo na Praça Seca, enquanto intermináveis obras em meu apartamento são feitas. Domingo, 30 de maio, 18h, precisei sair da Rua Florianópolis e ir à Rua Barão, uma paralela, para comprar remédio e pão. O remédio, comprei.
A moça bonita caminhava na minha frente. A fim de evitar as concupiscências da carne, eu olhava para o outro lado da rua. Como um egípcio, andava de perfil. De repente, o céu desabou. Chuva que nada. Tiros, tiros, tiros.
Eu que por causa do peso, da idade, da hérnia de disco, das varizes (chega!) há anos não me sento no chão, atirei-me ao solo com insuspeitada velocidade. Do meu ladinho, entre mim e a parede, a moça bonita se alojou.
- Moço, fica aqui, por favor!
Fiquei, em nenhum momento iludido a imaginar saliências. Sei que 140kg distribuídos em 1m80 formam boa parede de proteção. A moça era pragmática. Ela precisava de um paredão.
Mais tarde, saberia, em casa, que se tratava de uma operação do BOPE. Eles chegaram, foram recebidos a bala e reagiram à altura. Por milagre, ninguém morreu, mas, obviamente, ali no chão, eu não sabia que sobreviveria.
- Moça, você tem ideia do que está acontecendo?
- Meu nome é Magnólia. Desculpe-me, não gosto que me chamem de moça. O senhor não sabe que a Barão é dominada por uma facção criminosa. A segunda paralela, a Dr. Bernardino, por outra e a terceira, a Capitão Machado, outra.
- Não, não sabia.
- As facções brigam entre si, a polícia vem e o tiro come solto. Acontece toda hora.
E os tiros continuavam. Muitos. Calibres diversos. Fuzil, metralhadora, bazuca, granada, sabre de luz. Só podia pensar que tinha gastado dinheiro à toa comprando remédio para prisão de ventre. Levantei a cabeça e não vi ninguém na rua.
- Você já passou por isso? O que a gente faz?
- Tio, nós estamos entre a Japurá e a Marangá. Acho que o mais seguro é voltarmos para a Japurá, quando derem um refresco. O senhor me desculpe, mas quando for a hora, vou correr. Não vai dar pra ficar esperando.
Uma ingrata. Pensei em dizer que não gosto de ser chamado de tio. Deixei pra lá. Ela estava ali malocadinha atrás de mim e nem pensava em ajudar o velho a levantar. Ela sussurrou, em meu ouvido:
- É agora, vamos.
E foi mesmo, em alta velocidade.
Eu não, me levantei com todo cuidado, calmamente. Pior que tiro é travar minha coluna, por causa da hérnia. Caminhei, dobrei a rua à esquerda e voltei a ouvir o tiroteio. Senti-me em uma cidade iraquiana sendo atacada pelos selvagens do Estado Islâmico.

Está difícil viver no Rio de Janeiro.

quinta-feira, maio 22, 2014

CHICO BUARQUE



Numa zapeada vi cena que passava no Globo News. Chico Buarque, todo sem jeito, corria com a bola em seu campinho de pelada. Os “marcadores” o olhavam passar sem combatê-lo. Só a bola o marcava.
Lembrei-me, imediatamente, de um jogo no Paramis (Parâmides?), campo de rachas na Praça Seca. A bola rolava o dia inteiro e, de vez em quando, alguns enfermeiros traziam uns internos de um manicômio das proximidades para bater uma bolinha. Sempre pediam para que passássemos a bola para eles e os deixássemos fazer gols.
Era um acordo sempre respeitado. Os doidos pegavam a bola e corriam para o gol como chicos buarques, sem serem incomodados.
Um dia, no gol, o lendário Tiquinho estava mais doido do que o normal. “Aqui ninguém vai fazer gol”. O primeiro aloprado a tentar o gol viu Botiquinho espalmar a pelota pra córner. Confusão, gritaria, segura daqui, segura dali e Tio Funéreo, o árbitro, encontrou solução. Marcou pênalti pela defesa arrojada demais do arqueiro. “Tiquinho, deixe o lunático fazer o gol, por favor, se não vai dar merda”.
O maluco tremia de ansiedade. Chutou o primeiro pênalti para fora. Funéreo mandou repetir. “O goleiro se mexeu”. O segundo, no ângulo, o turbinado Tiquinho pegou. A porrada comeu.
Chico Buarque precisa encontrar um Tiquinho.

quarta-feira, maio 21, 2014

OS ROLAS CANSADAS DE VOLTA


 Na Praça dos Rolas Cansadas, seccional Botafogo, discutia-se sobre o que jogar naquele fim de dia.
- Vamos de sueca, pro seu Tavares jogar – pediu Comandante, cheio de autoridade.
- Não tem gente pra jogar. O Arlindo está indo embora – avisou Geraldinho, o setentão, caçula da turma.
Seu Tavares aproveitou pra anunciar:
- Também vou embora. Estou aqui desde as 2 horas. A patroa já ligou. Hoje é dia de mercado.
Comandante não resistiu a uma sacanagem.
- Então, vá logo. Daqui a pouco a vovó vem te buscar. Deixe seu baralho, esqueci o meu na firma.
Seu Tavares emprestaria a mulher, companheira de uma vida, o Texas de plástico, não.
- Ou você pega o seu na firma ou compra um. O meu não empresto. O Adilson tem baralho.
Comandante suplicou. Adilson se comoveu.
- Quem vai ficar com o baralho? Decidam logo, se não perco a carona.
- Geraldinho.
- O Geraldinho chega às 5. Vou precisar do baralho às 3 – suspirou aliviado. Adilson não tinha um Texas, mas mesmo seu humilde Copag resistia em deixar longe dos olhos.
- Porra, tudo roda presa. Molequinho, vá na loja e compre um baralho pra mim. Fique com o troco. Enquanto isso, vamos jogar dominó para esquentar – rosnou Comandante.
Olhou em volta e percebeu que faltava um pra fechar a mesa. Um magrinho, desconhecido, lia jornal em um banco próximo.
- Novato, você joga dominó?
Novato era Dionísio. Estava passando pela praça, tentou entrar numa roda de buraco e foi barrado. A de damas era inexpugnável. Morava nas redondezas, sozinho. Não tinha amigos. Os que granjeara estavam mortos. A mulher também morrera. Filhos e netos apareciam poucas vezes. Sentia falta de companhia.
Largou o jornal, imediatamente, e aceitou o convite do Comandante. Jogou dominó com os netos algumas vezes. Não haveria dificuldade. Juntar duas bolinhas com duas bolinhas. Qualquer um poderia fazer isso.
Os atletas se posicionaram. Comandante se sentiu na obrigação de jogar com o novato.
Logo na primeira partida sentiu a merda que fizera. Perder não era agradável para ele.
- Novato, está desatento. Olhe meu jogo. Não descarregue sem se ligar.
Na segunda, a coisa piorou:
- Porra, cara, você me fechou.
Na terceira...
- Vai tomar no cu, novato, você só faz merda. Luis, entre no lugar deste babaca. Vaza, vaza... Cadê aquele molequinho com o baralho?
Geraldinho falou.
- Nunca tinha visto aquele molequinho. Acho que ele sumiu com seu dinheiro.
Luis falou, também.
- Comandante, tô fora do jogo. Sem saco.
Comandante trovejou.
- Molequinho feladaputa. Novato, volte pro jogo. Vai fazer dupla com Geraldinho.

Dionísio já estava com seu jornal embaixo do braço. Era melhor a humilhação acompanhado daquela turma à solidão de seu apartamento. Jogou com Geraldinho e ganhou várias rodadas do Comandante... Não era difícil juntar dois com dois. E, no final, valeu a pena ver Comandante, num ataque de fúria, jogar as pedras do dominó na cara do parceiro.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

ADOLESCENTES ESPERTOS


Jasmine van den Bogaerde, hoje, mundialmente conhecida como Birdy, nasceu em 15 de maio de 1996. Aos 12 anos, ganhou um concurso de música. Antes de completar 15, lançou versão de “Skinny Love”, do grupo de folk moderninho Bon Iver. Chegou ao Top 20 na Grã-Bretanha. Completados os 15, soltou o manso petardo “Birdy”, um disco de covers (apenas uma música é de sua autoria). As interpretações de “Fire and rain”, de James Taylor, “Terrible Love”, do The National e “Shelter”, dos minimalistas sussurrantes The XX são as que mais me impressionam, mas há muitas músicas de primeira no álbum de estreia da menina. Birdy canta e se acompanha ao piano, sempre competentíssima.
No final de 2013, Birdy pôs na rua “Fire within”, disco de inéditas, e mostrou, pelo menos por enquanto, que é moça bonita, talentosa e promissora que não precisará apelar para se manter em evidência.

Ella Yelich-O’Connor, nas quebradas conhecida como Lorde, é de Auckland, na Nova Zelândia. Também nasceu ontem, em 7 de novembro de 1996. É filha de Sonja Yelich, premiada poeta neozelandesa (o que me diz muito pouco).
A música de Lorde tem uma levada diferente (muito diferente) da de Birdy. Às vezes, me lembra Lana Del Rey. Música eletrônica confortável, que não assusta ninguém. O que tem impressionado público e crítica, além da incontestável (força de expressão, sempre há quem conteste) capacidade artística, é o desapego da moça em relação ao sucesso. Até o momento em que estas linhas eram digitadas, a fofinha continuava vivendo no confortável subúrbio de Devonport, em Auckland, Nova Zelândia, a meio metro do fim do mundo.
“Pure Heroine”, seu primeiro disco (antes lançou um EP), vem causando furor. “Royals”, faixa do disco, ganhou prêmio de canção do ano, no Grammy 2014. Também com “Royals”, Lorde levou o Grammy de melhor apresentação pop solo. O linguão de Miley Cyrus deve estar doendo.
Lorde também foi descoberta, graças à Internet, aos 12 anos. É linda, madura, cheia de talento e pose. As músicas que canta, ela mesma compõe. A mãe-coruja declarou à revista Rolling Stone que a filha é “uma escritora melhor do que ela jamais será”.

Jake Edwin Kennedy, daqui pra frente, Jake Bugg, é de Nottingham, Inglaterra. É o veterano do grupo de três deste artigo. Aos 20 anos, lançou seu segundo disco, “Shangri-la” (não o ouvi, minha crença não me permite ouvir música virtual, só a que sai de sulcos de vinil ou produzidas pelo laser do cedepleier), mas o primeiro é brilhante, intitulado, simplesmente, “Jake Bugg”.
Além da diferença de gênero entre Bugg e as meninas superpoderosas lá do início, o garoto é fruto da classe média baixa inglesa, enquanto as moças têm boa situação financeira e pais artistas. O pai de Bugg é enfermeiro e a mãe vendedora. As preocupações do rapaz são outras. Assim que surgiu foi chamado de “Bob Dylan do East Midlands”. Bugg respondeu: “Bob Dylan é legal, você sabe, ele é ótimo, mas não é uma grande influência”. Em seu primeiro disco é, sim. Se ele chegar à metade da trilha percorrida por Dylan será ótimo negócio para a música do planeta.
Por que falei destes três garotos? Simples. Quando há interesse em desqualificar a música feita por adolescentes, atualmente, os exemplos são sempre os mesmos: Justin Bieber, Miley Cyrus, Selena Gomez etc. Todos com certo grau de talento, mas, infelizmente, divulgadores de música menor. Nada contra o ouvinte de canções de péssima qualidade (vivo na terra do funk pancadão e do pagofunk), segundo meus critérios e avaliação, mas é preciso atentar para jovens que fazem música em altíssimo nível.

Ouvidos abertos não fazem mal a ninguém e trazem grande prazer à vida.

ISOPORZINHO


Em passado remoto, íamos à praia e levávamos fartos farnéis sem constrangimento algum. Tenho fotos da requintadíssima Madame Ribeiro atracada a volumosa coxa de galinha no Recreio dos Bandeirantes.
Aí, a turma da modinha interveio. Essa cambada existe desde o princípio dos tempos e eu, desgraçadamente, já me alinhei com ela. Os da modinha adoram cagar regras e determinaram que levar alimentos para a praia era coisa de farofeiro.
Pronto, nós, babacas preocupados com a opinião alheia, paramos de levar lanchinhos ao lazer à beira-mar.
Os da modinha mais moderados admitiam que se levasse um pacotinho de biscoito. Bananas, jamais.
À praia, íamos e ficávamos o dia inteiro. Encarávamos coletivos superlotados, éramos despejados na praia às 8h e, na volta, às 17h, formávamos filas quilométricas para ganhar posição dentro do ônibus.
A modinha, setor subúrbio, preconizava: não era de bom tom ir ao mar com nada além de dinheiro e documentos. Calote no ônibus era bem visto. Encoxar uma menina, também (ser encoxada, dependia). Bolsa, de maneira alguma. Podia estar sendo usada para esconder comida.
O praiano suburbano ia à praia sem dinheiro e lá passava fome. Não dava para comprar sanduíches e refrigerantes. Quem podia fazer isso, principalmente rapazes, era cobiçadíssimo pelas it-girls da época (as cocotas). Os ditames dos da modinha eram rigorosos e os desobedientes viravam párias sociais (não mudou muito).
Corte temporal. Verão de 2014. Praias: misto quente a R$ 25,00; coco a R$ 7,00; saladinha verde a R$ 50,00; omelete de camarão a R$ 100,00; água a... depende da temperatura e cara do trouxa. O pessoal da modinha se assustou e decretou: praia, a partir de agora, só com isoporzinho.
Como a turma não gosta de perder a pose, uma porta-voz do movimento, eleitora do PSOL, querida do Freixo e integrante do Anonimous, esclareceu: “Não é só pelos preços absurdos que defendemos o isoporzinho, que nada tem a ver com o movimento farofeiro do passado, mas o não consumo de alimentos a preços escorchantes reduzirá a emissão de carbono na atmosfera, diminuirá o desflorestamento na Amazônia e, sem dúvida, terá impacto positivo na questão do aquecimento global. Antes de terminar, quero frisar que odeio a Rede Globo”.

Domingo, eu e os Ribeiro vamos ao mar. Madame prometeu levar picanha com batata corada.

sexta-feira, janeiro 03, 2014

FIM


Às 3 da manhã do sábado, terminei de ler NA PRAIA, de Ian McEwan. Boa leitura, mas arrastada. Levei muito mais tempo do que deveria para vencer as cento e poucas páginas do bom texto de McEwan. Estou longe de ser um leitor rápido, mas uma semana foi demais.
Antes de dormir, levei para o trono FIM, de Fernanda Torres. Ia só dar uma olhadinha, enquanto abria espaço no cérebro para as atividades intelectuais das horas que viriam.
O livro de Fernanda Torres saiu e foi elogiadíssimo por todo mundo. Jô Soares a entrevistou e instalou-a em um pedestal. Falei com a esposa: “É bom ter amigos, ser filho de gente importante, pertencer às rodas certas”. Gosto de Fernanda Torres como atriz. Ela parece ser figura de muito bom trato e está sempre antenada. De qualquer forma, resolvi que não compraria o livro dela. Não naquele momento. Ação entre amigos não vai me forçar a ir à livraria, pensei, despeitado.
Rosangela comprou. Há umas semanas peguei o livro para escanear a capa. Ia publicar a sinopse dele em uma revista. Escaneei-o e deixei-o em cima da mesa. Na madrugada de sábado, era o livro que estava à mão para me acompanhar no momento de meditação.
Comecei a lê-lo pelas 4h e só parei às 18h, com breves intervalos para papar. O livro é mesmo tudo o que dizem e mais um pouco. Fernanda Torres tem a manha.
A narrativa acompanha os momentos finais de cinco amigos. Amigos de muitos anos que se afastaram por causa de semelhanças e diferenças. Dito assim não parece grande coisa, mas aí vem a manha. A danada sabe contar uma história, constrói personagens verossímeis, o que não é simples. É engenhosa, faz o vai e volta que o Cadu não faz. Exibe erudição, simplicidade, maturidade... É livro de riso nervoso. Melancólico, muitas vezes. Um livraço, em minha opinião.


UMA CURIOSIDADE: Perto do meio do livro aparece no texto um número de telefone. Eram 7h quando o vi. Curioso, liguei. Uma mulher atendeu. Ia falar qualquer coisa, mas me dei conta do horário e travei. Fingi que tinha ligado pro número errado. A dona desse telefone deve andar enlouquecida com os curiosos que estão ligando pra ela.