domingo, junho 21, 2009

O santo crédulo

Não costumamos dar pelota a intuições.
Aquela figura que apresentam a você e alguma coisa buzina, lá dentro do cérebro: “Se liga, isso não vale porra nenhuma”. Lá na frente confirmar-se-á o vaticínio cerebral. Mas, às vezes, não. Não é ciência exata. O fedapê da primeira impressão pode, por que não?, se sair um gente boa. Acontece.
Em empresa que trabalhei, haveria mudança de comando. O antigo comandante, figura bonachona, era homem sincero, afetuoso, delirante. A empresa, no entanto, precisava de gestor mais moderno, antenado com as novas tendências de mercado. O escolhido para substituir o veterano gestor parecia atender a todos esses requisitos. Como não ser moderno um homem que só andava de notebook embaixo do braço? Como não ser um grande gestor alguém que capitaneara grandes empresas? Como não ser espiritual alguém que deixara essas empresas para atender o chamado de Deus? E como era simpático esse novo gestor.
Aí, dentro da cabeça, escondida sei lá onde, a maldita vozinha: “Esse cara não vale porra nenhuma”.
O amigo Eduardo me disse que estava apaixonado. Gordo, ela é muito bonita, médica, 25 anos, mora sozinha em Ipanema. Os pais vivem em Penedo. Prosseguiu dizendo que estavam saindo há três meses e que ele tinha ficado quieto, sem contar pros amigos, por superstição.
Eduardo era muito supersticioso, feio, estava perto dos 40, não tinha profissão definida. Cheguei a imaginar que ele estava contando uma lorota, mas conheci Marisa uns dias depois. Era tudo o que ele falava, além de agradabilíssima.
E a vozinha, implacável: “Essa mulher, sei não”.
Eu até ia dar um toque no amigo Eduardo, mas olhei pra Marisa e pensei que nunca mais na vida ele toparia com uma igual. A felicidade em que ele estava... Foda-se minha intuição.
Todos conhecemos o velho ditado: “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”. Só que os santos modernos são muito crédulos. Creem com muita facilidade.
Gente que aceita determinado cargo e apregoa que por ele está renunciando a uma vida dezenas de vezes mais confortável existe. Mas são muito pouquinhos. E entre esses pouquinhos há os doidinhos.
Meu amigo Eduardo já há dois anos está com sua bela (e põe bela nisso).
O gestor risonho segue em sua estrada de marketing pessoal e mentira, iludindo os que querem ser iludidos.
E a vozinha me manda nova mensagem: “Gordo, cuide de sua vida”.
Cuidarei.

3 comentários:

DêPitaco disse...

rsrsrsrsrsss....muito bom, meu colunista, muito bom. rsrsrsrss

Rita Torres Demarco disse...

Impagável, muito bom.

KreK disse...

tb não acredito neste gestor de empresas que larga o polpudo salário por esmola.Enfatizou muito esta mudança. Ele tem orgulho da sua humildade. Uma tremenda lenga-lenga para inacuto e crédulo aceitar.