Uma tarde, no politizado Conjunto
Proletário 1º de Maio, apareceu, coleira no pescoço, um cachorro preto. Não
tinha mais de um ano. Bonitão, simpático, risonho, sempre bem-humorado, logo
conquistou os corações de todos nós. Uma dentre as 70 portarias do grande
conglomerado de apartamentos deu casa, comida e roupa lavada para o personagem
que fazia morada nos corações dos empedernidos oprimidos do 1º de Maio.

Não se sabe por que, alguém
resolveu nomear o cão. Um figura das antigas, com certeza. O cão virou Pelé.
Jurema, esperneou. Ela esperneava
gritando. Quando esbravejava, então, sai de baixo.
– Esse cão não pode ser chamado
de Pelé. É racismo!
Celsinho era contemporizador.
– Nada a ver. É porque ele é todo
preto.
Jurema quase partiu pra cima, mas
a discussão ganhou tal força que algo inédito na história do 1º de Maio
aconteceu: os quatro subconjuntos que sempre resolveram suas pendências,
individualmente, entenderam que aquela questão merecia uma reunião geral. Os quatro
síndicos se juntaram e marcaram o encontro dos moradores interessados em
discutir a questão. Só um tema seria tratado: o nome de nosso xodó.
Mais de 200 pessoas compareceram
e logo começaram a pipocar as sugestões. Sugeri Xodó. Acharam pouco másculo. Celsinho
mandou Feijão. Jurema, desta vez, foi pra cima. "Você é um racista. Um
afrodescendente racista." Celsinho se defendeu: "Tem feijão de um
monte de cor: branco, preto, mulatinho, vermelho... Você é doente."
O moderador pediu a palavra.
"Vamos evitar nomes que possam ser associados a raça, política, futebol...
Este cão não merece ser responsável por dissensões entre nós. Ele é um animal
pacífico, sempre sorridente."
Jurema, linguaruda, não se
conteve. "É o bom crioulo. Submisso, serviçal, sempre querendo agradar.
Não levanta a voz, jamais. Nunca o vi protestar contra o assédio da criançada.
Ele não me representa." Vaias, aplausos, gritos.
O moderador, paciente, pediu
silêncio e que mais nomes fossem sugeridos. Aos borbotões, eles surgiram: Rex,
Filó, Napalm, Alfredo ("Alfredo é o cacete, gritou o Alfredo")...
"Tony", disse fraquinho dona Marieta. A turma fez silêncio e saiu o
nome: Tony, de Tony Ramos.
O moderador proclamou: "O
nome de nosso querido é Tony. Assim vamos chamá-lo".
De manhã, Tony saía para o seu
bordejo diário. E entre carícias, coçadinhas e beijocas ouvia em alta voz seu
nome repetido: Tony, Tony, Tony. Mas quando quem fazia carinho ou com ele
brincava se abaixava e chegava perto de suas orelhas, sussurrava: "E aí,
Pelé, como vai a vida".
Tony era o nome fantasia, o do
coração era Pelé.