sábado, janeiro 15, 2011

PAPO RETO

A morte de Papo Reto me abalou.
Afogou-se nas enchentes. Logo ele, um peixe.
Papo Reto era um perdedor. Ou como manda a norma culta: um loser.
Eu não conheci melhor estofador, mas tinha o grave defeito de não enrolar cliente.
– O sofá é esse. Quanto o senhor cobra e em quanto tempo entrega?
– Compre um novo. Não vale a pena mexer nisso. Na loja a senhora compra novo, do mesmo nível, por preço mais baixo do que o do meu serviço. Mas ponha mais um dinheirinho, estique as prestações e compre coisa melhor, se não, ano que vem, a senhora vai procurar outro estofador.
Sempre ouvia impropérios depois dos diagnósticos. Não enganou ninguém, morreu na merda.
A mulher o deixou depois de três anos de casamento.
– Adorava Papo Reto, mas a sinceridade, a ausência de ambição, o pouco traquejo social. Acho que você é o único cara que sempre gostou dele.
É verdade. Gostava demais de Papo Reto.
Ele trabalhou por uns meses em uma empresa de contabilidade. Manutenia o escritório. Um faz-tudo. Não precisava lidar com pessoas estranhas.
O escritório ficou um brinco. Papo Reto era habilidoso e esmerava-se nas tarefas. A qualidade de seu serviço foi sendo percebida aos poucos. A bunda que se sentava em uma cadeira que já não tinha regulagem de altura, um dia percebia que a cadeira voltara a funcionar. Nos dias de hoje, bunda e cérebro produzem a mesma coisa, mas, mesmo assim, a dona dos dois sabia que Papo Reto andara por ali. Mesas bambas desbambearam, telefones funcionaram, ar-refrigerado refrigerava. Até um computador Papo Reto ressuscitou. O salário miudinho era compensado pela admiração silenciosa dos colegas.
Um final de tarde, o chefe que queria passar nas armas uma funcionária, chamou Papo Reto.
– Dê uma chegadinha na floricultura e pegue uma encomenda para mim. Já está separada.
– Não posso. Está quase no horário de minha saída e estou consertando um vazamento na cozinha. Há outros funcionários que podem fazer isso.
– Ou você vai buscar estas flores ou está na rua?
– Pra comer a lourinha não precisa flores. Ela se contenta em ser a primeira-comida do escritório. O pior é que até gostei de ter trabalhado aqui.
Papo Reto foi morar num cantão de Teresópolis há uns cinco anos.
– Quando chove muito o rio enche. Saio de casa, sento lá do alto pra ver. Coisa linda, Gordo. O rio que é calminho e desce na maciota, se transforma. A gente se entende. Às vezes, também me encho de fúria, mas tenho de me segurar, se não é cana. Mas, aí, é o lugar mais perto do céu que pode haver. Vejo gente umas duas vezes por mês. Quer coisa melhor? Sou eu, os cachorros e os gatos. Quando venho por aqui fico doido pra voltar.
Foi meu último papo com Papo Reto. Eu, ele e Tradição na Laranja Americana, no centro da cidade, há uns dois anos.
Era bom saber que Papo Reto estava por aqui. Ele se foi e deixou uma porção de papos sinuosos por aí. Estes, claro, estão muito bem, vivendo de garganta.

3 comentários:

Belchior disse...

verbo maldito!! virou marca de zoação. doravante direi que vou ajustar meu carro. haahahahahahhahaha

Hanna disse...

Taí, de verdade, sou sua fã!
Grande beijo.

Utahy Santos disse...

A recíproca é verdadeiríssima.