sexta-feira, fevereiro 22, 2013

FILÓ



- Filó, chega mais. Sentaí, cara. Uma cerva?
- Cai bem. Maçarico ligado, sacumé.
- Vi sua mulher, ontem, no BBB. Os pessoal tá dizendo que ela tá bem. Dois meses, né.
- Já passou por três paredões.
- Ontem ela se acabou com aquele saradão. Embaixo do edredom pegou fogo.
- Bié, me chamou aqui pra me sacanear? Vou nessa.
- Qualé, Filó, tá todo mundo vendo. É o corno, em rede nacional. O Jair pôs até peiperviu no boteco dele. A cambulhada fica por lá até a madruga.
- Ele é um bundão. Quis chegar na Jurema e ela não deu a menor condição. É despeito. E a turma daqui é muito provinciana.
- Mas, Filó, essa porra não te incomoda?
- A Jurema me falou que um olheiro tinha convidado ela pro programa; me disse que era a chance da vida dela; ela sempre quis ser atriz; estudou no curso do Wolf Maia.
- Até aí tudo bem, Filó, mas ir pra baixo das cobertas com o saradão.
- Ela me disse que precisaria de estratégia para ficar o máximo de tempo no programa e até ganhar, se desse. Formar casal é boa tática. Mas tem de passar verdade, se não o Brasil desaprova. Ela está jogando.
- Sei lá, acho que não gostaria de ver minha mulher sendo encoxada por um saradão, embaixo do edredom. Eu só, não, O Brasil todo.
- Bié, o que você viu? Dois corpos se movimentando embaixo das cobertas. Tudo representação. Estratégia.
- Movimentação e gemidos. Como geme a Jurema.
- Encenação.
- E os beijos de língua na festa?
- Beijo técnico. Não são de língua. Ela fez curso, põe a língua na garganta.
- A dele, né?
- Bié...
- Filó, você...
- Bié, logo na primeira semana a Jurema levou um carro. Faturou 10 mil na prova da bomba. Ganhou viagem com acompanhante para Cancun. Tem chances de faturar um milhão e meio e a Playboy já conversou comigo.
- Filó, você...
- Bié, a Jurema sempre foi assediadíssima. Olha pra mim, você acha que mereço aquela mulher? Por um milagre, ela olhou pra mim, ficou comigo, diz que me ama, é carinhosíssima... Bié, numa situação dessa você olha proutro lado.
- Filó...
- Bié, vamos tomar a cerva e falar do nosso Fluminense. O Fred ontem não jogou nada.

domingo, fevereiro 17, 2013

SEM DEFINIÇÃO




- Raul, querido, sua panturrilha está fantástica. Proporções ótimas, carnatura densa, musculosa, ao mesmo tempo delicada. Delicada e viril.
- Dudica, estou com o Tarlis Bars como personal. Esta panturrilha é obra dele.
- O Bars é uma fortuna.
- Ele tem uma quedinha por mim. Me examinou e me encaixou 15 dias depois na agenda dele.
- Que raiva!!!
- Ele foi duro comigo. “Raul, que assimetria é essa? Panturrilha sem densidade, esmaecida; coxa sem definição; abdômen com gomos sem paralelismo acentuado. E o seu tórax? Meu alfajor, o que dizia Don Taylor sobre a relação tórax/abdômen? Mas, vou dar um jeito. Em nome de nosso passado.”
- Trabalho de alguns meses, Raulzinho. Não malho aqui há uns três meses.
- Notei.
- O quê? Viajei, fiquei uns tempos fora. O Johnny precisou dar uma parada estratégica e fomos dar um giro pela Ásia. Mas não estou gorda.
- Não disse isso.
- Seu olhar.
- Você está grande.
- Não estou gorda. Meu problema é a falta de definição. Minha barriga está chapada. Perna sem celulite. Tá vendo? E a bunda, e a bunda? Olha bem. Durinha. Aperta, porra. Só preciso definir.
- Em dois meses fica legal, Dudica.
- Tudo culpa do Johnny. Inventou da gente circular só por países escrotos. Afeganistão, Bangladesh, Iêmen, Irã, Butão, Nepal, interior da China e outras merdas. “Quando estivermos com os amigos vamos falar de lugares em que eles nunca foram. Vão querer morrer.” Quem quer falar que foi ao Iêmen? Agora, tô sem definição.
- Quer o Bars emprestado este mês?
- Só se você pedir a ele pra não ser mau comigo. Peça pra ele não dizer que estou gorda.
- Pode deixar. Você está sem definição, mas vai ficar ótima. Se não acredita, olhe minha panturrilha.

sábado, fevereiro 09, 2013

MATADOR INVISÍVEL



75 anos, corpo seco, lacônico. Profissão: matador.
Há menos de 10 anos na atividade, reputação ótima, no entanto. O nome profissional, Bill, dava a falsa impressão de ser ele nordestino. Errado.
Carioca, Bill, nome de batismo André, tinha agenda cheia. Começou por acaso. Conversava com um amigo, reclamava da merreca que recebia de aposentadoria. O amigo perguntou de chofre se ele mataria pessoas por dinheiro. André respondeu prontamente que sim, mataria. O amigo lhe disse que tinha uma parada para ele.
No dia seguinte, Jofre, um marginal da área, o entrevistou: “Sou intermediário. O homem não aparece. Cada serviço vale mil pratas. Você vai ficar com um segmento tranquilo. Seus clientes serão pessoas mais humildes. A mulher está de saco cheio do marido, ou vice-versa, contrata, você detona. Ex-namorado ciumento, marido corno, empregado aporrinhado com o chefe... Essas coisas. Só gente fodida. Tem de ser serviço limpo e, se der merda, você segura a bronca. A gente vai atrás da família, se vacilar.”
André não tinha família, achou desnecessário revelar. Em casa, pensou na proposta já aceita. Vivera dentro da lei, pagou impostos, tomou decisões aos olhos de todos corretas. Estudou, trabalhou, formou família. Teve filhos. Um morreu aos 20, acidente de carro. A filha casou-se e foi morar na Alemanha. Conversava com ela, por telefone, uma vez por ano. A mulher o deixou, foi viver com outro e morreu quando ele completou 60 anos. Visitou-a no hospital e ouviu-a dizer que os últimos cinco anos com Inácio foram os melhores da vida dela. Desculpou-se, lhe disse que nada tinha contra ele, fora bom marido, mas era estranho.
Voltou a morar no subúrbio de sua adolescência, desfez-se da casa e foi morar de aluguel. Entendeu que não viveria muito tempo. O dinheiro da casa seria para viver o que lhe restava do caminho.
Cinco anos de tédio. A oferta de trabalho. A primeira morte. Nenhuma emoção. Era estranho, mesmo. A mulher estava certa.
Gostava do que fazia não por sentir prazer em matar, mas por sentir que como matador era muito bom. Jofre lhe disse muitas vezes, nos últimos dez anos, que o homem estava satisfeitíssimo com seu trabalho, cogitava até subi-lo de patamar. Quem sabe umas encomendas de gente da classe média?
Estava satisfeito operando na faixa em que atuava. Entregava um, dois pacotes por mês. Incrementava a aposentadoria, tomava a cervejinha diária de fim de tarde com os amigos, jogava o buraquinho e pensava na vida.
O amigo que lhe inserira no esquema uma vez perguntou se pensava em parar. André olhou-o, ficou um tempo em silêncio e “Não, não pretendo. Quer dizer, tenho 75 anos, logo terei de parar, por enquanto, continuo”. O amigo: “Você não fica tenso, não sente remorso?”
André não era ligado a atividades culturais. Lazer: ver filmes de faroeste e policiais. O primeiro serviço, fez de forma esbaforida, em uma rua escura. O homem caiu, ele fugiu apressadamente, nenhuma culpa, mas estabanado.
Em Os imperdoáveis, o velho pistoleiro entra no salão, diversos homens atiram contra ele. Lentamente, o matador aponta sua arma, faz mira e mata um a um seus oponentes, calmamente.
Seu último serviço, uma mulher, Bill realizou dentro de um posto de saúde. Entrou, atirou à queima-roupa, saiu. Ao barulho do tiro todos correram. Ninguém o viu entrar nem sair. Era velho, pobre, em um bairro classe D estagnada. Era invisível.
Um derrame tirou André de circulação. Aos 78, estava inteiro de novo. Quis voltar. Jofre o dissuadiu. “Você prestou serviços preciosos. O homem gosta de você. Todo mês vai pingar 1 conto em sua conta. Quer que você treine alguém.”
André aceitou, convidou o Pereira, ancião franzino, cara de vovô bondoso. Jofre duvidou da escolha. André lhe disse: “Ele sabe atirar, vive sozinho, não tem o que fazer. Está só esperando a morte. É invisível como eu e gosta de matar. Não haverá melhor”.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

A FESTA DO RIO



Passei os carnavais de minha adolescência em Macaé. Década de 60, século passado.
Um casal de primos, João Pinto e Elmira, cinco filhas e um filho me hospedavam do começo de janeiro até depois do carnaval, não importando os dias reservados para a folia de Momo.
Era um bom tempo e eu tinha contato com um aspecto romântico do carnaval. Ia aos bailes carnavalescos infantis do Fluminense macaense. A família toda se divertindo, dançando ao som das marchinhas. Voltávamos pela Rua Direita, encontrávamos amigos e, fantasiados, brincávamos uns com os outros.
Minha prima, cozinheira conceituada na cidade (nada a ver com os chefs de hoje que harmonizam espuma de abacate com nuvem de javali), funcionária do Grupo Escolar, transformava-se, literalmente, em um palhaço e saía com um grupo de 50 outros palhaços pelas ruas da cidade visitando lares e se esbaldando pelos logradouros da Princesinha do Atlântico.
Hoje em dia não sou mais chegado a carnaval. Houve uma época que deixei de apreciar o carnaval por motivos religiosos. Converti-me aos 20 anos. Acreditei em tolices que me foram ensinadas. Amadureci e não é mais essa a religião que me afasta da folia.
Pouca coisa associada ao carnaval me atrai. É uma festa de excessos. Muita gente aglomerada me afasta. E há a perversidade de nossos dias que cresce no carnaval.
As filhas de meus primos saíam à noite para o baile no mesmo Fluminense que eu frequentava à tarde. Lá pelas dez iam as cinco mais outras tantas moças da rua para o baile. Eu dormia na sala e via chegar uma a uma. A que enjoasse da festa vinha embora, sem correr risco algum. Um macaense ao ler este texto saberá que nos dias de hoje as coisas são diferentes.
Eram diferentes do que eu via, também. Um menino de 12 anos não percebe a atmosfera malévola que o cerca. Os daquela época, pelo menos, não percebiam.
Muito por causa desse momento de minha vida, jamais vi no carnaval a festa que assombra, ainda hoje, muitos evangélicos. Ninguém faz em quatro dias o que não faria nos outros 361.
Há uns dez anos, entrei no Metrô com a esposa e fui para Copacabana e Ipanema. A ideia era ver o movimento carnavalesco de rua e tomar um sorvete na Chaika, em Ipanema. Vimos pessoas fantasiadas caminhando de um lado para o outro, blocos minúsculos, muita gente rindo. Foi um dia tão bom que Rosangela e eu jamais o repetimos. Não me agradaria encontrar blocos de foliões que arrastam multidões de mijões pelas ruas. Não lido bem com bêbados (deficiência minha, reconheço). Prefiro, por isso, ficar em casa.
Na década de 90, participei, profissionalmente, do Impacto Carnaval da Convenção Batista Carioca. Fui a contragosto. A ideia de evangelizar foliões, em pleno Centro do Rio, de madrugada, não me era agradável. Arrastei Rosangela comigo e surpreendemo-nos. Há muita gente desesperada, fantasiada, com sorriso estampado no rosto. O desespero se manifesta depois de uma conversa de alguns minutos com um voluntário do Impacto. Foi uma experiência muito boa e reveladora.
Não sou dono da verdade, por isso não simplifico associando carnaval às forças satânicas, mas a inocência que tinha foi embora há décadas. O carnaval rende muito dinheiro, logo, os meios mais escabrosos são usados para fazê-lo atrair gente fraca, pronta a fazer lambança à menor oportunidade.
No passado, crentes encerravam-se em retiros espirituais no carnaval. Eu gostava muito. Algumas igrejas, atualmente, até desfilam na avenida em bizarras escolas de samba evangelísticas. (Deem um desconto para minha estranheza. Sou velho.)
Não direi o que você deve fazer no carnaval. Não é meu papel. De minha parte, ficarei em casa, darei uma saidinha para ver um bom filme e, se minha coluna permitir, quem sabe não dou umas voltas por Copacabana e Ipanema. Pena que a Chaika fechou.

FOTOGRAFIA – arte, profissão e prazer



Fotografar já foi mais trabalhoso para amadores e profissionais. Amadores tinham à disposição máquinas com poucos recursos, lente fixa, flash de pouca potência e espaço reduzido para manobras artísticas. Profissionais possuíam máquinas poderosas, lentes intercambiáveis, flashes poderosos e recursos técnicos que lhes permitiam fazer imagens primorosas. Precisavam, também, de um caminhão para transportar o material de trabalho.
No presente artigo, interessa-nos, principalmente, o fotógrafo amador. Não é o caso de Selio Moraes, um profissional respeitado, que será usado como ilustração do notável progresso da fotografia nos últimos anos.
Selio fotografava eventos de um grupo religioso que se espalhava pelo Brasil. Viajava de Norte a Sul do país para desenvolver seu trabalho. Carregava o próprio equipamento no braço, que constava de dezenas de rolos de filmes, máquinas fotográficas, flashes, lentes etc. Precisava contar com a sorte de encontrar, na cidade onde se realizaria o evento, uma boa loja de revelação de fotos que fizesse serviço de qualidade e trabalhasse com rapidez.
Nos eventos Selio precisava “maximizar” seus rendimentos. O contratante lhe pagava, mas uma fonte de renda complementar vinha dos participantes que gostavam de comprar fotos em que apareciam e cenas marcantes do evento. Essas reuniões duravam de dois dias a uma semana. Selio, dedo nervoso, fazia centenas de fotos, que depois de reveladas eram expostas para venda. Precisava contratar auxiliares (as fotos eram fixadas em paredes, à disposição dos clientes, e havia a necessidade de gente para vendê-las, enquanto Selio fotografava), ir várias vezes à loja de fotos e manipular equipamento pesado e complexo. Uma trabalheira.
Selio, entre outras coisas, ainda fotografa eventos. Hoje, as circunstâncias são diferentes. Duas máquinas digitais resolvem todas as situações que surgem. Não há mais despesa com revelação de fotos que, muitas vezes, encalhavam; consequentemente, não há deslocamento para ir a lojas; acabaram-se os gastos com filmes e as fotos são mostradas aos interessados por meio de laptops.
Selio, sortudo, ainda encontrou nesses anos preciosa e luxuosa cooperação. Conheceu, namorou e casou com a bela Maria, companheira de todas as horas.
A revolução no mundo da fotografia pegou muita gente boa de surpresa.
“A Kodak foi a primeira empresa a criar a câmera digital, mas naquela época, a maioria de seus lucros vinha da vendas de produtos químicos utilizados nos filmes e eles tinham medo de investir em algo novo porque achavam que podia prejudicar o seu negócio tradicional”, disse Olivier Laurent, editor de notícias do British Journal of Photography. “Quando eles perceberam, o mercado digital tinha chegado para ficar, ultrapassado o filme e todos os concorrentes da Kodak tinham câmeras digitais muito superiores. As câmeras Kodak nunca foram boas e a empresa perdeu a reputação conquistada com o momento Kodak”.
Em 1992, Don Strickland, ex-vice-presidente da Kodak, disse segundo o The Guardian que a empresa estava pronta para dar espaço em seu negócio para as câmeras digitais, mas que seus chefes vetaram a ideia com medo de uma canibalização do filme. E para além dos concorrentes e suas câmeras digitais e da entrada tardia no mercado que ajudou a criar, a Kodak enfrentou nos últimos anos outro obstáculo com o qual outras fabricantes também estão tendo que lidar: os smartphones como câmeras cada vez melhores. Para Laurent, os telefones estão comendo o mercado de câmeras compactas. “Por que ter uma câmera compacta quando uma de 8 megapixels no iPhone é quase tão boa e ele está sempre lá no seu bolso?” Esse, como o próprio mercado de câmeras já sabe, é um obstáculo a ser ultrapassado nos próximos anos (http://tecnologia.terra.com.br/).
Tayssa Vandelli, jovem profissional da área, fala sobre máquinas analógicas e digitais: “Não usei muito a analógica. Utilizei-a por um curto período de tempo. Ela me ajudou a aprender a usar o modo manual mais rapidamente. Foi uma vantagem, enquanto fazia o curso. A qualidade das fotos é bem legal e o estilo “antigo” me agrada. A digital, obviamente, é mais rápida e você vê a foto, imediatamente. Alguns fotógrafos ainda preferem a analógica. Ao compararem fotos tiradas por duas máquinas, uma analógica e outra digital, com as mesmas especificações, estes profissionais garantem que a foto da analógica tem melhor qualidade”.
O fotógrafo do passado só conhecia a imagem que havia capturado quando a revelação era feita. Há quem veja vantagem nisso. O fotógrafo dos dias de hoje, certamente, não. Amadores e profissionais pragmáticos preferem o presente. O produto final está imediatamente à disposição, o que permite, também, a imediata correção de erros.
Os sobreviventes da era analógica (amadores, claro) se lembram de prender filmes incorretamente dentro da máquina, fotografar o aniversário da namorada e ter a desagradável surpresa, ao abrir a máquina para tirar o registro da bela batendo palminhas e assoprando velinhas, de ver que nenhuma foto havia sido tirada. Muitos romances acabaram por isso.
Luciana Almeida, 14 anos, atingida pela onda retro, usou a máquina fotográfica do pai, uma anciã, mas muito bem conservada, Olympus Trip. Deve ter embarcado em uma máquina do tempo para conseguir filme de 36 poses, mas, máquina na mão, saiu por aí clicando. “Foi uma experiência estranha. Primeiro porque só poderia tirar 36 fotos. Não sabia o que fotografar. É chato, também, não saber ali, na hora, se a foto ficou boa. Fotografei um passeio da escola. Sorte que meu celular tem uma câmera legal.”
A experiência da Luciana, segundo depoimento dela, foi válida, mas não será repetida: “Foi estranho. As fotos ficaram tremidas, cortei cabeças. Só três ficaram bacanas. Meu pai que levou pra revelar. Me zoou muito. E eu fotografei no automático. Não uso aquela máquina nunca mais”.
Fotógrafos preciosistas garantem que a qualidade da imagem digital não chega perto da conseguida com máquinas analógicas. A realidade, no entanto, é que não há mais tanta diferença assim. Para 99% das pessoas que usam máquina fotográfica não há diferença alguma. Essa discussão, aliás, já foi superada pelas novas gerações. Brevemente, as fotos geradas por celulares superarão a qualidade das obtidas por máquinas fotográficas. As compactas, pelo menos.
“Meu celular é só para telefonar”, diz a quase ludita Rita Alves, 50 anos. “Fotografo com uma Samsung digital. Uso transporte público por opção e, infelizmente, no Rio, ainda é perigoso puxar um smartphone dentro do ônibus. Talvez, um dia, ainda fotografe com celular, por enquanto, não”.
O Nokia PureView tem câmera poderosa em um celular. A mais poderosa, no momento. Absurdos 41 megapixels que permitem qualidade para imprimir um outdoor, zoom de 3X e lentes Carl Zeiss. O sistema operacional obsoleto e o alto preço (R$ 1.999,00) o mantém longe do público, mas logo isso mudará.
Redes sociais de fotografia como o Instagram têm milhões de associados usando IPhones e telemóveis com Android para exibir fotos amadoras com efeitos cheios de boa intenção para outros milhões de amadores.
A fotografia artística é para poucos. A maioria simplesmente paralisa momentos marcantes em imagens, sem preocupação de estar sendo original. Cora Rónai, de O Globo, diz: “Fotografia, na melhor acepção da palavra, é composição, enquadramento, deliberação. Registros visuais variados podem até prescindir disso, mas não vão muito longe como imagens”.
Fotos digitais são mais práticas, podem ser artísticas, criativas, surpreendentes (dependerá, sempre, de quem usa a máquina), mas perdem-se com relativa facilidade. Cabe um depoimento pessoal. Tenho fotos de família, em papel, da década de 50 do século passado. Sessenta anos depois de tiradas estão em perfeito estado, prontas para ser vistas. Nos últimos 20 anos saímos do disquetão para o pendrive e passamos por vários sistemas operacionais. Como armazenar as fotos digitalmente?
Uma amiga muito cuidadosa fotografa, guarda as fotos em um computador, faz becape para outro, armazena na nuvem (em dois lugares diferentes) e ainda imprime as melhores. É a única pessoa que conheço que faz isso.
Não voltaremos à máquina fotográfica analógica. Os fotógrafos amadores de agora continuarão na dúvida entre a compacta e o celular. Certeza, só uma: continuaremos fotografando. É maravilhoso – sempre foi – armazenar lembranças e, de vez em quando, revê-las.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

VIGOR ADOLESCENTE



O mercado, esse espertalhão que vive do nosso sangue, há muito tempo descobriu o adolescente. No passado, a adolescência começava aos 12 anos e encerrava-se com pompa aos 18. Hoje, a faixa etária estendeu-se. Começa aos 10 anos e algumas vezes se encerra aos 25. Há especialistas que só consideram terminada a adolescência quando o rapaz ou a moça saem da casa dos pais e se sustentam.
O mercado fatiou essa faixa etária e nos EUA os tweens (10 a 13 anos) têm altíssimo poder de fogo. Desde petizes os tweens compram suas próprias roupas, leem livros que lhes interessam, consomem ídolos fabricados para eles e fazem barulho. Depois dos 13 são teens (lá e cá, muito pela paixão que nutrimos pelo idioma de Justin Bieber).
“A adolescência é uma etapa intermediária do desenvolvimento humano, entre a infância e a fase adulta. Este período é marcado por diversas transformações corporais, hormonais e até mesmo comportamentais. Não se pode definir com exatidão o início e o fim da adolescência (ela varia de pessoa para pessoa), porém, na maioria dos indivíduos, ela ocorre entre os 10 e 20 anos de idade (período definido pela OMS – Organização Mundial da Saúde)” – http://www.suapesquisa.com.
Neste texto, quando falarmos de adolescentes, pensaremos em jovens de 13 a 18 anos (só para facilitar minha vida). Os termos tweens e teens não serão mais mencionados aqui. Fiquemos com os nossos pré-adolescente e adolescente.
O adolescente é fascinante. Um grupo poderoso, certamente. Na adolescência formamos os laços mais fortes. Em qualquer época da vida fazemos amizades, mas na adolescência cremos que essa ligação será para toda a vida.
Há adolescentes problemáticos (como há jovens, adultos e idosos). Não se falará deles neste texto, que é descaradamente uma apologia do vigor, entusiasmo e arrogância adolescente.

BARRA PESADA
Na adolescência formamos nossos grupos de amizade, definimos a carreira que seguiremos, corremos atrás de emprego e enlouquecemos com o sexo oposto. Tudo isso com hormônios explodindo dentro de nós. Nós, porque eu também passei por isso e sei que a barra pesa.
Estudei com uma menina desde o primário (agora, acho que é 1º Grau ou Ensino Fundamental) até o pré-vestibular. Aluna aplicadíssima, orgulho do papai e da mamãe, Sônia apaixonou-se por um malandro de nossa turma. Uma simpatia de garoto, mas vagabundo. Sônia não passou no Vestibular, concluiu precariamente o Ensino Médio e ainda engravidou. Engravidou em uma época que estigmatizava a mãe solteira terrivelmente. Retomei contato com ela, via Facebook, e ouvi em uma longa conversa as dificuldades que enfrentou: “Meus pais me apoiaram, mas só pude voltar a estudar 10 anos depois de meu filho nascer. Papai fez questão que eu criasse meu filho e só depois que ele faleceu é que minha mãe resolveu ficar com o menino para eu estudar. Hoje, tenho três filhos, todos casados. Estou viúva e mamãe vive comigo. Tem quase 100 anos”.
O adolescente está sempre a uma distância mínima do erro. E é fácil vacilar quando são tantas as oportunidades para fazermos lambança.
Devemos considerar que o adolescente com boa estrutura familiar tem mais chances de seguir caminho seguro. O deslumbramento derruba muitos garotos e garotas. E não são vítimas de deslumbramento só os jovens milionários do futebol.
A barra é pesada para o adolescente, mas ele sempre acha que dá para consertar as bobagens feitas. Às vezes, não dá. O sentimento de onipotência que acomete a garotada pode levá-la ao fundo do poço, mas, se bem trabalhado, esse sentimento pode ser transformado em confiança em si mesmo sem o exagero de se achar infalível.

ARROGÂNCIA
Arrogância é altivez, insolência, orgulho, presunção. É desagradável lidar com pessoas arrogantes. Eu me mantenho longe delas. O adolescente tem muita arrogância arraigada nele. Ele pode. Ele tem muito tempo pela frente. Ele e ela são desejados, cobiçados. Ele e ela terão muito dinheiro, poder. No meu entendimento, não chega a ser errado pensar assim. O certo, no entanto, é que toda essa presunção geralmente não leva a lugar algum.
As igrejas batistas se dividem em faixas etárias como estratégia para o treinamento de seus membros. Adolescentes carregam pedras. Fazem o que ninguém faz. Já irritei adolescentes, involuntariamente, quando eles vinham me apresentar uma ideia para melhorar uma atividade e eu dizia: “Sua ideia é boa, mas isso já foi feito e não deu certo”. Ouvi, como resposta, algumas vezes: “Não deu antes, pode dar agora”. Um dia ouvi, de verdade, e o projeto fracassado do passado “bombou” no presente. Aprendi. Trabalhar com adolescentes não é fácil, mas compensa, e muito.
Se a arrogância do adolescente se transforma em confiança genuína e ele consegue compreender que deve prestar atenção no que lhe está sendo dito e admitir que também erra de vez em quando, temos alguém precioso ao nosso lado. E ele, certamente, não precisa concordar submissamente com tudo o que vem da liderança.

VIGOR
Um texto na barra do segundo caderno de O Globo me chamou a atenção. Uma senhora, aos 70 anos, resolveu compor músicas no seu teclado Cassio. Em pouco tempo transformou-se em uma estrela da música islandesa (de lá saíram Sugarcubes, Bjork, Seabear). Em oito anos, Sigridur Nielsdóttir compôs 600 músicas. Não me interessa aqui a qualidade da obra de Sigridur. Importa a disposição, o vigor da velha senhora. É este vigor que o adolescente tem. Vigor/coragem de fazer o que os mais velhos temem empreender. Nada mais patético do que adolescente desanimado, conformado, sem entusiasmo.
Minha amada, na adolescência, ia para a igreja a pé. Inhaúma–Praça Seca, uns 10km. Do Campinho até a Praça, distribuía folhetos evangelísticos no lado direito da Cândido Benício. Na volta, da Praça até o Campinho, cobria o lado esquerdo. Pregava em ar livre, cantava no coral, fazia evangelismo em presídio... (era vigorosa e meio doida). Hoje, só de lembrar dessa época ela fica cansada. O adolescente tem essa disposição, o vigor físico, a vontade de transmitir aquilo em que ele acredita.

ENTUSIASMO
“Excitação da alma quando admira excessivamente”. Gosto dessa definição de entusiasmo tirada do Dicionário Michaellis. Também gosto de arrebatamento como sinônimo de entusiasmo. O adolescente é arrebatado, exagerado, apaixonado (uma boa parte deles, pelo menos) e, se acredita em uma causa, se atira de peito aberto.
Quem lida com adolescente na vida secular ou dentro de igreja sabe que precisa conquistá-lo. Um mesmo grupo de adolescente rende muito com um líder e não rende nada com outro. O adolescente, pela imaturidade, é muito dono da verdade; adora pegar quem o lidera em contradição; se regozija em arrancar máscaras. Depois de um tempo, e muitas tentativas, se não consegue, ele respeita quem o está capitaneando. E do respeito ao capitão passa ao entusiasmo à causa que o capitão defende. Já vi turmas que detestavam matemática passarem a amá-la depois de receberem aulas de verdadeiros mestres. Também já vi grupos debruçarem-se sobre a Bíblia inspirados por mestres que além de conhecer viviam as verdades das Escrituras.
Um grande erro, sempre em minha opinião, de adultos que trabalham com adolescentes é se comportarem como se fossem adolescentes. Não são, e eles percebem a impostura.
 O Fluminense, no passado, tinha um ponta-direita velocíssimo: Cafuringa. Fez um ou dois gols em toda a carreira. Seu problema: era tão veloz que na maioria das vezes saía pela linha de fundo com bola e tudo. Não sabia dosar a energia que tinha. Deu azar de não ter encontrado um técnico que o instruísse.
O adolescente tem pouca noção de que vive uma fase privilegiada da vida. Pode escolher e seguir o rumo que desejar. Sei que de muitos adolescentes foi roubada esta oportunidade, mas muitos que a têm deixam-na passar. O adolescente é responsável por sua história. Deve usar este vigor, entusiasmo e destemor para conseguir o melhor para si e para os seus.

sábado, janeiro 05, 2013

EXIBICIONISMO PERIGOSO


Adolescentes mostram o corpo em fotos cada vez mais sensuais. O pior, não tomam cuidado e são vistas por predadores sexuais

(Texto publicado na revista ELOS | Agosto de 2012)

Maria Alice, 16 anos, estuda há cinco anos com um grupo de amigas. Mesma escola, mesmo bairro, frequentam os mesmos lugares. “A ideia foi da Soninha. A gente se fotografava em poses sensuais, mandava uma pra outra e nos dávamos notas. Não tinha foto de ninguém pelada, só de biquíni. Um garoto que ficava com a Vera copiou as fotos do celular dela e espalhou. Deu um rolo danado. Meu pai viu as fotos, me tirou da escola e não quer que eu ande mais com as meninas. Ele é de outra geração”.
A história de Maria Alice é fictícia. É o resultado de histórias de adolescentes que não veem nada de errado em exibir o corpo. Até porque a mensagem que a sociedade vem passando é essa mesma: usar o corpo para alcançar o sucesso é comportamento aceitável. Seduzir para subir na carreira profissional deve ser o padrão. “A socióloga inglesa Catherine Hakim diz que não há igualdade entre os sexos e incentiva as mulheres a usar todos os seus atributos para ascender na carreira” (Veja, 25/7/2012). Adolescentes e pré-adolescentes estão apenas afiando suas armas ao se mostrarem em poses eróticas para aqueles que desejam impressionar. Lamentavelmente, não só esses têm acesso à visão de seus corpos.
Um relato verdadeiro. Rafael mora em um condomínio. Circula pelas redes sociais fuçando a vida alheia. Tem muito tempo disponível. Não trabalha, aposentou-se por invalidez. Na rede, vai de perfil em perfil até encontrar os liberados. “Meninas que gostam de postar fotos sensuais, normalmente, deixam seus perfis disponíveis. Há aquelas que já são profissionais do sexo, a maioria, no entanto, é só exibicionista. A ingenuidade é que as põe em risco. Outro dia entrei no perfil de uma menina da Tijuca. Vi fotos dela na escola, em casa, em praias. Ela era maravilhosa. Em um dos álbuns havia fotos quentíssimas. Até topless. Menina doida. Estudei o perfil dela e descobri que estudava de manhã. O colégio dela eu já sabia qual era pelas fotos. Sou desocupado. Eu e todos os predadores sexuais. Resolvi fazer um teste. Fiquei nas imediações da escola dela. Parava meu carrinho e olhava. Fiz isso por três dias. Acabei vendo-a. Segui-a de longe e vi onde morava. No perfil dela, tomei conhecimento de uma festa a que ela iria. Para fechar meu teste, fui ao local que ela e amigos combinaram se encontrar para ir a tal festa. Vi quando ela chegou, andou com o grupo por uns 200 metros e entrou em um prédio. Pensei em ficar por ali para ver como ela sairia da tal festa, mas já estava ficando obcecado com a garota. Vai que ela sai sozinha, embriagada... Sou meio desajustado, reconheço, e estou sempre perto de fazer bobagem. Fui pra casa e não entrei mais no perfil dela.”
Adolescentes que gostam de se exibir não viverão como promíscuos no futuro. Esta não é uma regra. Adolescentes exibicionistas correm mais ricos de sofrer ataque sexual do que aqueles mais discretos. Isto, sim, é fato.
Filmar-se em situações íntimas pode ser constrangedor e muito perigoso. A atriz Carolina Dieckman teve seu computador invadido e dele furtadas fotos íntimas. O mesmo ocorreu com Scarlett Johansen. Um escândalo nas manchetes do final de julho foi o vídeo de uma assessora do Senado em pleno ato sexual. Não é natural, então, ter a intimidade invadida por estranhos.
A revista Veja trata de uma pesquisa feita nos Estados Unidos: “30% dos adolescentes americanos já praticaram alguma vez o sexting – ou seja, usaram seus smartphones para disparar mensagens contendo fotos em que aparecem nus, acompanhadas ou não de texto. O número, é claro, assusta. E os estudiosos da Universidade do Texas responsáveis pela pesquisa descobriram ainda outras pistas que ajudam a entender melhor esse fenômeno. A principal delas é que o sexting tem um vínculo com a prática “real” do sexo. De acordo com o levantamento, entre as adeptas do compartilhamento de fotos íntimas, cerca de 80% já praticaram sexo; o número de sexualmente ativas cai pela metade entre aquelas que também não se envolvem com sexting”.
Em 2008, a americana Jessica Logan se enforcou aos 18 anos após sua foto, feita na intimidade, passar pelos olhos de todos os colegas de escola. Uma reação exagerada de alguém que tinha outros distúrbios, mas quem pode saber como reagirá diante de uma situação como essa.
Os jovens entram na vida sexual ativa cada vez mais cedo. Quase sempre estão despreparados. Fazem sexo cedendo às pressões dos grupos com os quais convivem. Ao contrário do que se imagina, adolescentes que querem ser diferentes são minoria irrisória. A maioria integra-se ao bando, não quer ser percebido. Vestem-se igualmente, comportam-se da mesma forma. Quase nunca, mesmo os mais arrogantes, sabem o poder de sedução que exercem. Uma menina de 13 anos usando calcinha e sutiã, fazendo cara de periguete em foto postada para um amiguinho pode provocar bocejos no coleguinha e incendiar um velho predador que fortuitamente tem acesso à fotografia. Se atacada pelo predador, ninguém de bom senso dirá ser ela a culpada, mas o mal estará feito.
Pode parecer orientação careta, mas exerça sua sensualidade com alguma discrição. Use os meios de que dispõe para alcançar objetivos elevados. Estude, prepare-se, não creia quando lhe disserem que o caminho para uma vida bacana é fazer um casamento de interesse. O amor romântico ainda não acabou. Há pragmáticos que creem ser a conjunção de interesses o segredo do sucesso no casamento. Pode ser. Há, no entanto, maiores chances de se chegar à felicidade ao se juntar a alguém que misteriosamente abalou nossas estruturas. Só se pode levar este projeto à frente se, individualmente, construirmos nossa independência. O belo levará vantagens, mas só beleza não bastará.
A exibição do corpo em redes sociais põe em risco a integridade física de quem se expõe. Vivemos em sociedade e precisamos nos sujeitar a regras de convivência. Às vezes, nos julgamos incapazes de fazer mal a alguém. Lá fora, infelizmente, à espreita, há muitos que só desejam satisfazer seus próprios instintos. Não é inteligente facilitar a vida de tais pessoas.

quinta-feira, setembro 06, 2012

E AÍ, COMEU



 Av. Suburbana, trânsito engarrafado, o Velho Roqueiro olha pela janela do ônibus. Não se sente à vontade com pessoas, mas gosta de olhar pra elas. Gosta, principalmente, de olhar para belas meninas. Lá na frente, pela calçada, vêm três. Conversam animadamente. Falam alto. O barulho do trânsito é ensurdecedor. O Velho ouve as meninas, apesar do barulho. Ouve algumas frases, as mais gritadas.
– Se a dona Belinha souber vai te capar.
O Velho não entendia muito essas conversas. Como poderia uma menina ser capada? Elas se aproximavam e o Velho não tirava os olhos delas. A filha da dona Belinha era a que mais o atraía. Atrevida, marrenta, belíssima, vulgar. Ao passar embaixo da janela do ônibus paralisado os olhares da Bela e do Velho se cruzaram. Ela se incomodou.
– O que você ta olhando, velho? Sou gostosa, mas não pro seu bico.
O Velho raciocinava rapidamente. Muito Ramones.
– Sua mãe, como vai?
– Minha mãe é o cara...
– Você é filha da Belinha, né não? Você tá a cara dela. Te vi pequenininha.
A marrenta se desconcertou.
– Dá um beijão nela. O Angus mandou. Ela vai se lembrar. Se não, diga pra ela que fevereiro de 1998, em Angra, foi o melhor mês de minha vida.
O Velho era atrevido. Chutou.
– Isabel foi a mulher de minha vida. Você é Isabel como ela?
A garota ia responder. O ônibus andou. O Velho ainda ouviu a amiga da marrenta: “Dona Belinha com aquela cara de santa. Aí, ela comeu esse velho em Angra.”

SEM FIRULAS



Não há um jeito de imaginar como será nosso dia. Podemos planejar, pensar nos lugares em que deveremos ir, estabelecer metas de horário: “às 11h em tal lugar; meio-dia almoço; no máximo, às 3h, estou na Tijuca; médico, às 4h; pego um táxi, 6h estou dentro de casa.” Mas aí vem o acaso e...
Descia a Serra na boleia de um amigo. Ia ao Recreio dos Bandeirantes. O amigo estava indignado com a morte de uma jovem senhora de 33 anos, feita refém por um imbecil e morta por outro imbecil, este de farda. Olha o acaso.
Ativista de um movimento de defesa de direitos gays, o Cara de Gazela, o afoito motorista não conseguia conter a ira. Eu, egoísta, preocupado com as navalhadas no percurso. Se com ele dominando os próprios sentidos já eram muitas, imagine desvairado. Mas fomos bem.
No Recreio, peguei um dinheiro de trabalho e titubeei um pouco sobre o que fazer. Pago minhas contas em um banco daqui ou deixo para fazê-lo na Tijuca? A prudência me encaminhou para a agência bancária. Que louca ideia a de levar dinheiro para a famigerada Tijuca.
Pagas as contas, perguntei a um funcionário do banco onde pegar ônibus para a Tijuca. Ia ao cardiologista. “Aí na frente do banco, o 304. Vai pra Rodoviária.” Saí, abri o jornal e fiquei com um olho no padre e outro na missa.
No centro da pista da Av. das Américas, o Ligeirão. Precisava recarregar meu Bilhete Único. Nada de 304. Resolvi fazer a recarga. Depois entraria no Ligeirão, desceria no Terminal Alvorada e de lá iria para o bairro dos comedores de sardinha e arrotadores de garoupa.
Atravessei a rua, encaminhei-me à estação Benvindo Novais a tempo de ver acontecer, exatamente no lugar em que estava, uma cena que é comum na Serra, mas inusitada no lugar onde paulistas se recreiam. Por aqui a turma gosta de explodir carros.
A cena: Um motoqueiro e seu garupa abordam outro motoqueiro e tiram-lhe a moto. O garupa deveria ter algum transtorno de falta de amor (TFA) e danou-se a atirar contra o nada. O dono da motoca que seria roubada já havia se pirulitado. E o garupa atirava, atirava... (que merda de arma era aquela com balas à vontade?). Tentou fazer a moto do escafedido andar e nada. Ficou contrariado, bateu os pezinhos, bicou a moto caída no chão, voltou à moto em que estava, abraçou carinhosamente o amiguinho e gritou: “Vamos, porra!” E mais tiros lançou em direção ao nada. As balas só encontraram paredes. Ainda bem.
Não pude deixar de pensar que se estivesse onde estivera 5 minutos antes, talvez minha pouca mobilidade e grande volume me condenassem. Ou, quem sabe?, uns pipocos vindo em minha direção me dessem nova velocidade. O acaso, de novo.
Entrei na estação, liguei pro amigo da carona a fim de tranquilizá-lo. O ateliê dele é ali perto. Depois de contar a história, ouvi a aguda voz: “Veinho, não faça isso comigo. Você sabe que te amo. Tome cuidado. Beijão.” Apreciei o carinho, mas sou das antigas, gosto de ser amado por mulheres. Não é preconceito, mas sacumé.
Claro que não fui pra Tijuca. Busquei a segurança da Serra e a familiaridade de companheiros sem firulas. 

segunda-feira, setembro 03, 2012

As belas irmãs Deschanel


O dia em que fui Bat Masterson




Em visita a família amiga, lá pelas tantas, alguém mencionou a morte, aos 90 anos, de Gene Barry. Na sala, quase todos nos lembramos do personagem que o ator viveu em série que fez muito sucesso aqui no Brasil, na década de 60: Bat Masterson.
A musiquinha da série foi cantada em coro, comentamos alguns aspectos do filme e mudamos de assunto, como ocorre nos bons papos sem compromisso.
À noite, já em casa, voltei a pensar no velho herói e me lembrei de um momento traumático de minha vida: o dia em que fui Bat Masterson.
Um carnaval qualquer do começo da década de 60, meu pai levou-me à matinê do Clube da Light, no Grajaú. Estava fantasiado de Bat Masterson. A fantasia era um sucesso entre a criançada. Tinha bengala (a minha foi feita na carpintaria da Projetil), cartola, colete, gravatinha borboleta e revólveres.
Bat Masterson, o da televisão, era canhoto e usava só um revólver. Ganhava as paradas mais no charme do que com as armas. Geralmente, resolvia as pendências com algumas bengaladas.
O Masterson do Clube da Light usava dois revólveres prateados, dispensava o paletó (concessão ao verão carioca) e era avesso a conflitos físicos. A bengala, então, era cenográfica.
O Clube da Light era reduto de uma elitezinha merdéu. Na década de 50, não era permitida a entrada de negros em suas folias. Nos anos 60, meu pai era da diretoria do clube (e negro), por isso era lá que pulávamos no Carnaval.
Na portaria, a funcionária desarmava os Ivanhoés, Vigilantes Rodoviários, Zorros e, desgraçadamente, Bat Mastersons. Tive confiscados meus revólveres e bengala. Criança fica aborrecida, irritada, chateada... Eu, precoce, fiquei foi mesmo puto da vida.
“No final, é só pegar de volta, filhinho”, falou a mocinha. “Filhinho é o caraio”, acho que pensei em dizer, mas não disse.
No salão, o roda pra lá roda pra cá dos bailes carnavalescos. Era muito criança para aproveitar a única coisa boa de bailes de carnaval, o ninguém é de ninguém, mas me divertia. Criança se diverte com pouca coisa.
Fim de baile, vamos à portaria recolher as armas. A mocinha já tinha caído fora. Meu pai gostava de um papo e nunca se apressava. Muita gente fora embora. Entre eles, um puto, filho de pai antissocial, que levou minhas pistolas.
O porteiro me apresentou dois revólveres mixurucas, pretos, fininhos. Gostaria de ter reagido com mais bravura, mas chorei, chorei muito, chorei de fazer escândalo. Meu pai pegou a bengala da mão do porteiro e me confortou: “Depois compro outros revólveres iguais aos antigos pra você”.
Nunca comprou, mas me deu muitos discos e livros. Acho que ganhei com a troca. Não tenho sangue frio para ser matador.

terça-feira, agosto 14, 2012

O rock merece respeito



Quando era menino lá em Barbacena, o mundo era dividido em dois blocos: comunistas e capitalistas. Havia terceiro, quarto e quinto mundos, mas serão desconsiderados, aqui. Voltemos. Comunistas e capitalistas comiam criancinhas. Estes, assadas e temperadas; aqueles, cruas, já que eram broncos, grosseiros, cruéis.
O mundo era mais simples (ou parecia). Comunistas eram ateus. Capitalistas dividiam-se por várias religiões, inclusive as que negavam a existência de Deus. Comunistas e capitalistas desejavam destruir-se mutuamente. Nunca tentaram, efetivamente, levar a cabo a missão de destruição por medo do revide, que seria fatal. Dizia-se, à época, que o armamento nuclear disponível era capaz de pulverizar o planeta. Comunistas ateus e capitalistas religiosos tinham, no entanto, um inimigo comum: o rock.
Comunistas vociferavam que o rock era instrumento de dominação guiado pelas forças burguesas. Os perversos capitalistas usariam o rock para difundir seus valores nefastos entre a cândida juventude vermelha. Era a trilha sonora da decadência moral, veneno mortal com intento de solapar a sociedade igualitária que seria, um dia, construída pelos sinistros. Não foi, sabemos.
Capitalistas religiosos, por sua vez, não davam tanto cartaz aos comunas. Enquanto estes saracoteavam ao som de marchas militares, jovens capitalistinhas rebolavam à batida do rock. Capitalistas apavoravam-se com a ameaça de dominação comunista, mas havia relativa liberdade de expressão nas democracias ocidentais. Religiosos atribuíam ao rock o poder de minar as resistências espirituais de seus pimpolhos.
O rock evoluiu de diversos ritmos, misturou-se com outros e produziu artistas tão diferentes entre si que é impossível entender como se agrupam sob o mesmo rótulo.
Raul Seixas, aqui no Brasil, cantou que o diabo era o pai do rock. Muitos creram nisso. Antes de Raulzito, líderes religiosos acreditaram que havia mesmo uma ligação íntima entre o Tinhoso e roqueiros. Não é difícil entender o porquê.
Ali embaixo, naquele país de mulheres bonitas e homens bizarros, a ditadura militar desestimulava o rock nacional. Cantado em inglês, tudo bem, ninguém entendia mesmo (não estranhe, meu jovem, no século passado, o inglês, pasme!, não era falado por toda a população). Aí, veio a Guerra das Malvinas. Rock portenho só em castelhano. Se o rock chegou à Argentina e fez a juventude de lá esquecer o tango e a cumbia, chegaria a qualquer lugar.
O rock surgiu nos Estados Unidos, no final da década de 40, começo da de 50, do século passado. Cruzamento de vários ritmos, era branco no rockabilly de Elvis Presley e negro no rhythm and blues de Chuck Berry (na minha linha do tempo Bill Halley não existe). Nasceu transgressor, domesticou-se, rebelou-se, conformou-se, morreu, renasceu.
Isso, no entanto, é passado. O tempo de se quebrar discos em igrejas evangélicas se foi. A paranoia de se ouvir discos em rotação invertida para descobrir mensagens do capeta ficou em uma época que não nos traz orgulho. Qualquer cantor evangélico (ou gospel, de acordo com as preferências atuais), atualmente, entoa rock sem constrangimento nem medo de parecer carnal.
O velho comunismo esvaneceu-se. Ruiu como prédio do centro do Rio. Os chineses, bastiões do comunismo, se adaptaram e logo chegarão a ser a primeira economia do mundo. Nem comunismo nem capitalismo: pragmatismo.
Heróis trágicos do rock que morreram por desconforto, inadequação e angústia diante da vida não são mais tão comuns. Kurt Cobain suicidou-se com um tiro na boca; Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Ian Curtis foram às últimas consequências bebendo e cheirando o que podiam e não podiam; Amy Winehouse afogou-se em uísque. Roqueiros não morrem mais por desespero. São como os novos comunistas: pragmáticos.
Ídolos de rock e empresários gananciosos não são bons exemplos. Não têm vida compatível com a que é considerada correta por humanos com quem vale a pena conviver. Quase ninguém tem, sejamos sinceros. A música de todos os gêneros é influenciada por vários elementos, inclusive satânicos.
O Black Sabbath, de Ozzy Osbourne e Tony Iommi, tinha o nome associado a rituais de feitiçaria e o fato de Osbourne gostar de morder morcegos de plástico incrementou a mitologia do grupo (aliás, ele diz à revista piauí que esse morcego vai acompanhá-lo na lápide); Jimmy Page, do Led Zeppelin, dizia-se bruxo; Sympathy for the devil, música dos Stones que saiu em Beggar’s banquet, perturbou bastante os cristãos. A verdade é que o público de rock gostava desta rebeldia inócua, típica da mente adolescente. Líderes de igrejas, em vez de agirem como adultos, comportaram-se como crianças. Surgiu, forte, o satanismo fashion. Oportunistas perceberam que dava para ganhar um dinheiro fazendo cara de mau e se dizendo seguidor do capiroto. Os mesmos oportunistas que, em nossos dias, perceberam ser muito lucrativo dizer-se cantor gospel.
O cantor evangélico do passado, além de não ganhar dinheiro, tinha a vida vigiada de perto. Qualquer vacilo e lá ia a “carreira” ladeira abaixo. Os cantores gospel de hoje são profissionais, para o bem e o mal.
Finalizando e, espero, amarrando tudo.
Ritmos e melodias não pertencem a nenhuma entidade. São nossos e podemos usá-los em qualquer lugar. Eu, 58 anos, estranho louvor com funque (funk é outra coisa), passinho, coreografia... Limitação minha. A idade, sacumé.
Letras também não pertencem a nenhuma entidade. São nossas e podemos usá-las em qualquer lugar, desde que guiados pelo bom senso. Não vou entoar funque bandido, misógino, preconceituoso nem no interior de meu cérebro.
O rock é um velho senhor com alguma vitalidade, mas sem o fogo do passado. Fez bem e mal para muita gente. Não foi ele o fator determinante de fracassos e sucessos. Também não pode ser responsabilizado pela queda do comunismo. Muito menos de desviar jovens crentes dos retos caminhos do Senhor. Responsáveis por nossos destinos somos nós mesmos. Sabemos o que devemos fazer. Se não o fazemos...

sábado, agosto 04, 2012

MENININHAS


Os homens andam por baixo. Dúvidas? Nas duas principais novelas em exibição, Cheias de charme e Avenida Brasil (as duas na TV Globo), não há personagens masculinos fortes. Sandro (Marcos Palmeira) é um malandro; Tufão (Murilo Benício), um bobão; Max (Marcello Novaes), um idiota inescrupuloso; Leleco (Marcos Caruso), um chato. Agora, as mulheres...
Admitamos: quando inventarem o sêmen sintético, os homens serão caçados nas ruas como gazelas. O que é desnecessário, a natureza descarta. Por enquanto, somos necessários para a reprodução, mas daqui a uns 50 anos, sei não.
Eu mesmo sempre achei mulheres mais interessantes do que homens. Nunca as entendi, no entanto, adoro tê-las por perto. Homens, de modo geral, são monotemáticos, mulheres estão sempre surpreendendo.
Vemos no cinema, na tevê e na vida real que mulheres não precisam mais de homens para alcançar prazer sexual. Brigitte Nielsen trocou Sylvester Stallone por outra mulher. Na época, um escândalo. Anne Heche separou-se de Steve Martin e foi viver com Ellen DeGeneres (mais tarde DeGeneres a deixou e ela quase morreu de desespero). Ninguém deu muita pelota pro assunto. Na pré-história, a mocinha não se orgulhava de perder a virgindade com qualquer zé-mané; hoje, ela fica profundamente constrangida de ser virgem aos 18 anos sem ter cedido a um zé-arruela qualquer.
Saudade não tem idade? Tem sim. Em minha adolescência (meados do século passado), lembro-me da dificuldade, em festinhas, de encontrar um par para pespegar um furtivo ósculo. Manhã fria de julho, garota bonitinha à minha frente, na fila da padaria, confidencia (força de expressão, todos na fila do pão ouvimos) à coleguinha: “Ficou com quantos, ontem, no aniversário da Zu?” A outra fofinha: “A festa tava meio caída. Só peguei quatro”. Vivi na época errada.
Meninas relatando experiências sexuais com outras meninas, muitas, ainda, afirmando que é só brincadeirinha, está se tornando comum. Neste momento, deveria fazer a ressalva de que não sou preconceituoso. Mentiria. Sou preconceituoso e de um outro tempo. Vago, qual zumbi, por esta terra estranha.
Pobres de nós, homens que gostamos de mulheres. Nosso fim chegou? Falta pouco, mas ainda não. Homens e mulheres foram criados para a completude. Deus assim nos fez.
Afirmei que tenho meus preconceitos. Todos nós temos. Luto com as amarras que me são impostas pela idade e procuro estar atento aos movimentos da vida, entretanto, percebo com alguma clareza a desvalorização do papel do homem.
Resistamos, não nos sintamos diminuídos e antes que comecemos a ser caçados como inúteis, mostremos que também podemos ser sensíveis, delicados, ternos, carinhosos, mimosos. Quase uma menininha.

sábado, junho 30, 2012

O cidadão



Ontem, no Recreio, entrei em um McDonalds e comprei uma torta de maçã para viagem. Atravessei a rua, entrei no BRT e extasiei-me no ônibus do futuro.
Desci no terminal Alvorada e embarquei no Del Castilho, via Linha Amarela. Sentei-me, abri o saco de papel e comi a torta de maçã. Não tinha onde descartar o lixo. Pensei em fazer o que já havia feito várias vezes: deixar o lixo por ali mesmo, mas... Rio + 20, crianças ecologicamente corretas, câmeras escondidas.
Desci em Del Castilho com o saco na mão (o de papel), procurei lixeiras e... Entrei no 943 (antigo 896) e, depois de curta mas acidentada viagem, desembarquei na Serra.
O lixo, comigo. Eu, cidadão.
Já dentro de casa, joguei o saquinho recreense na cesta de lixo da cozinha. Orgulhosão.
Rosangela chegou, bebeu um copo dágua, abriu o lixo e sacaneou: “Saquinho de McDonalds? E a dieta?”
Eu, cidadão. Cidadão babaca, mas cidadão.

segunda-feira, junho 18, 2012

EM BUSCA DA VERGONHA PERDIDA


Não sou saudosista, mas, aproximando-me da velhice, começo a sentir falta de algumas características que eram caras aos antigos.
Nelson Rodrigues dizia que havíamos perdido a capacidade de nos escandalizar. Hoje, perdemos a vergonha. Vergonha, só a de ter vergonha.
Nepotismo sempre houve no Brasil. No passado, entretanto, mesmo o político empregador de parentes mais descarado tinha um certo pudor. Evitava abrigar em seu gabinete, de uma tacada, mulher, filhos, cunhados, amante... Pego com a boca na botija, envergonhava-se, genuinamente. Não é assim em nossos dias. Flagrado, o sustentador da família à custa do nosso dinheirinho faz cara de ultrajado, arma biquinho de magoado e, candidamente, diz: “Não vejo problema em empregar meus queridos. Têm competência, são de confiança, devem ser punidos por serem meus parentes?”
A falta de vergonha, o despudor, o desejo desenfreado de ganhar dinheiro a qualquer custo criou uma geração sem noção de brio, ética, honestidade. Há bem pouco tempo foi presa uma mulher que participava de uma quadrilha que desviava dinheiro de remédios para pacientes terminais. A facínora morava em um apartamento avaliado em R$ 1 milhão. Sua aparência era a da titia simpática que faz torta de maçã pros sobrinhos.
Outro caso chamou minha atenção. Em repartição de um Detran qualquer todos roubavam. Todos, não. Havia um honesto. Filmou bandidos e bandidas, que faziam festa a cada real roubado dos contribuintes. De novo, os meliantes eram gente como a gente.
Fui chefiado por figuraça que tinha uma frase síntese, definidora da vida do “homem sagaz”, como ele gostava de dizer: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Bochecha ainda se preocupava em deixar pirão para os que viessem depois. Hoje, a frase serve a muitos com pequena, mas vital alteração: “Farinha pouca, só o meu pirão”.
Se não temos vergonha, fazemos qualquer coisa. No passado, por humildade (ou falsa humildade), evitava-se, ao se escrever textos relatando realizações pessoais, a primeira pessoa do singular. O autor usava a primeira do plural (eu, particularmente, não gosto do recurso), lembrava-se de pessoas que o ajudaram e, se evangélico, concluía com o clichê: “a Deus toda honra e toda glória”.
Eu organizava um jornal evangélico. Antes de enviá-lo para a gráfica submetia-o à apreciação do chefe. Nunca estava bom. Meu líder era pastor. Vaidosíssimo, como quase todos os ungidos. Resolvi fazer o jogo dele e preparei uma edição de 16 páginas com 13 fotos do humilde servo. Ele adorou e eu pedi para sair.
Todos, se normais, somos vaidosos, mas ninguém precisa ser um Cristiano Ronaldo a se olhar nos telões da vida a todo momento.
Um apóstolo lusitano, proprietário de uma igreja familiar, gosta de publicar no jornal de sua comunidade as graduações, pós-graduações e doutorados que obteve na vida. Se vivesse dez vidas o gajo não conseguiria tantos títulos. Vaidade.
Outro jornal evangélico publicou edição comemorativa do Dia do Pastor. Nas páginas do semanário, obreiros que se destacaram ao longo da história do grupo religioso. Entre eles, faceiro, o atual diretor do jornal. Não há mais constrangimento com o autoelogio. E alguns cínicos ainda retrucam: “Se eu não me elogiar, quem elogiará?”
Este tipo de atitude é normalíssimo, hoje. Não só entre evangélicos. Há pavões umbandistas (já estive lá, sei como é), católicos, ateus.
Autoelogio e marketing pessoal são a mesma coisa. Ninguém tem tempo de ver suas qualidades serem reconhecidas. É mais seguro fazer propaganda de si mesmo. Vender-se como produtos. Há muitos trouxas para comprar produtos fajutos.
Quem faz amigos desinteressadamente? Buscam-se relacionamentos que poderão ser úteis no futuro. Não sei onde vamos parar. Salvo engano meu (e me engano muito), seria bom se parássemos, refletíssemos e buscássemos a vergonha perdida. Nós que nos dizemos cristãos, pelo menos.