sábado, julho 24, 2010

UMA DEFESA DE DEUS



Karen Armstrong, autora de The case for God, livro que faz uma “defesa” de Deus, disse à revista Época que “Os novos ateus são teologicamente iletrados. Como os fundamentalistas religiosos, eles infantilmente concebem Deus como um ser poderoso que os homens não conseguem enxergar”.
Teologicamente iletrados somos quase todos nós.
Escrevo sempre a partir do que vi/vejo acontecer dentro do grupo ao qual é filiada a igreja em que me congrego, mas não tenho ilusão alguma de que em outros grupos a situação seja diferente.
Frequentei o seminário maior (hoje, ele, no máximo, é do mesmo tamanho de outras espeluncas que dizem ensinar teologia) de meu grupo em duas ocasiões: começo das décadas de 80 e de 90. Em 10 anos constatei a queda de nível do ensino teológico. Na década de 80 estudei em um seminário com problemas semelhantes aos de outras instituições de ensino. Em 1990, me sentia participando, na maioria das aulas, de uma grande Escola Bíblica Dominical (com professores medíocres). Não gosto nem de imaginar o que é, hoje, a Casa de Profetas.
Em um seminário formam-se os que liderarão igrejas e os que alcançarão cargos elevados nas instituições que regulam a vida das comunidades de fé. Se são malformados, capitanearão igrejas incapazes de entender a simplicidade da mensagem do Evangelho e conduzirão seus grupos para o abismo.
O que fazem pastores medíocres, preguiçosos, avessos ao estudo? Têm uma visão. As orientações para o desenvolvimento da visão vêm diretamente de Deus ou de um mentor que teve visão semelhante, se deu ao trabalho de implantá-la e, posteriormente, faturou com ela. Poderia citar vários nomes, mas, sei lá, pode ser que alguém leia este texto e resolva me processar. Não estou podendo me envolver com rábulas.
Pastores medíocres são a grande maioria em um universo que, sim, tem excelentes homens e mulheres cumprindo seus deveres com brilho.
Em época de seminário, vi colegas recolhendo dos escaninhos onde os professores deixavam os trabalhos corrigidos, obras alheias bem avaliadas, que serviriam de matriz para as suas futuras tarefas. Havia um mercado de alunos produtores e compradores. A cola era livre. Esses alunos medíocres tornaram-se pastores medíocres, quase certamente.
O inocente dirá: “Tais indivíduos não conseguirão pastorear igrejas. Deus não permitirá”. Permite. Por que, não sei, mas permite.
Os concílios são convescotes. Se for bem relacionado, o medíocre tem pouso certo. Se não houver igreja à disposição, aguarda a vez numa instituição qualquer do grupo. É simples assim.
Karen Armstrong não é ligada a nenhum grupo religioso. Foi freira há algumas décadas. Hoje, crê em Deus. Acredito que muitos agem desta forma, hoje em dia.
A maioria, no entanto, por ser teologicamente iletrada, seguirá crendo em líderes medíocres. As igrejas continuarão crescendo numericamente, as massas nômades, que circulam de líder em líder, aumentarão e o descrédito da igreja entre os que usam um pedacinho do cérebro atingirá nível altíssimo.
Tudo isso é natural em uma cultura de valorização da mediocridade. Pouca gente lê e quando o faz gasta tempo com cabanas, paulos coelhos, símbolos secretos etc. Como é natural, quem sou eu para não aceitar. O que não aceito é quando afirmam que isso tem a ver com Deus. Aí, francamente, me emputeço.

COISA BONITA DE SE VER - Luma de Oliveira


Nada contra o silicone, mas seios naturais são outro departamento.
Nesta época, Luma não havia manchado seu currículo se deixando pegar por Renato Gaúcho.

MANO MENEZES

Gostei do Mano na seleção.
Muricy é técnico vitorioso, mas o futebolzinho dos times que treina é chato.
Eu, particularmente, preferia o Luxemburgo, mesmo reconhecendo que a fase pra ele não é das melhores há algum tempo.
Mano Menezes tem mais o perfil da Seleção.
Além de bom treinador, é educado. E há necessidade de muita educação pra aturar a pentelhação de imprensa e público.

SACANAGEM

A polícia carioca quer usar munição colorida para que sejam identificadas as muitas balas perdidas que voam pelos céus da cidade.
Contarei o final do filme: as balas coloridas serão vendidas para a bandidagem pelos homens da lei.
Esses caras só podem estar de sacanagem quando propõem essas soluções estapafúrdias.

quinta-feira, julho 22, 2010

DIÁSPORA

Povos na diáspora lembram membros de igrejas que saíram de suas comunidades de origem por enfrentarem problemas com líderes autoritários.
Por associação, tiranos políticos são semelhantes a tiranos religiosos.
Criarei personagens para contar minha história. Qualquer semelhança com fatos verdadeiros é proposital.
João, aos 20 anos converteu-se em uma igreja evangélica histórica (o rótulo pode ser escolhido: tradicional, conservadora etc). Não tinha lá muita noção do que era ser evangélico. Naquela igreja aprendeu. 
Casou-se com uma menina da igreja. Os pais começaram a se interessar pelo Evangelho e até seu irmão, antes avesso à mensagem de Jesus Cristo, um dia atendeu o apelo feito pelo pastor.
João tem 45 anos, é diácono da igreja. A esposa, além de excelente musicista, lidera as mulheres da igreja. O casal tem dois filhos adolescentes, ambos integrados ao trabalho eclesiástico. Há muita gente na igreja de João com história parecida com a dele.
A igreja de João fará 50 anos. Metade da história de vida da comunidade, João viveu. Seus sogros vieram de outra igreja para, juntamente com outros, fundar aquela há cinco décadas.
O pastor que dirige a comunidade o faz há 40 anos. É homem sério, íntegro, de outro tempo. Não entende muita coisa que vê. Ensinou a igreja a pautar decisões na Bíblia. “Deus nos fala através da Palavra. Quando fala em nossos ouvidos, não é ele que está falando. É nosso cérebro nos pregando peças”, dizia sempre como advertência.
Em 50 anos, a igreja chegou a 456 membros. Cresceu em tempo difícil, anterior à sanha neopentecostal, em época que teologia da prosperidade era novidade.
“O pastor está cansado, não acompanha os jovens, precisamos de obreiro vigoroso. A igreja deve acelerar o crescimento”. Um diz, dois dizem, muitos dizem e chega o momento em que o velho pastor se aposenta (ou é aposentado) e um novo líder toma à frente do rebanho.
João não achou que a escolha fora bem conduzida. Escolheram um homem que só demonstrou eloquência vazia, simpatia forçada e muita vaidade. O novo pastor era o oposto do antigo e, por isso mesmo, a igreja o escolheu.
No primeiro ano, o pastor deu especial atenção ao trabalho jovem. A igreja vivia lotada. Cem novos membros se juntaram aos 456 que lá estavam. Mais da metade desses 100 vieram de outras igrejas, sedentos de novidades. 
No segundo ano, o novo pastor começou a mudar várias organizações da igreja. “Meus irmãos, não podemos usar métodos do século 20 no século 21. A igreja precisa mudar”. Os líderes achavam que o pastor estava certo. Os poucos que discordavam saíram. Sem traumas.
João saiu na primeira leva. A família resistiu. Foi para outra igreja do mesmo grupo, em bairro próximo. Lá ouviu que no começo do terceiro ano de pastorado de seu ex-líder este reuniu a igreja para informar que Deus lhe dera uma visão. A partir daquele momento, implantaria a visão que o Senhor lhe concedera. A igreja decidiria, mas se ele não pudesse fazer o que Deus lhe pedia deixaria o pastorado. 
O novo pastor era homem de Deus, mas já havia manobrado nos bastidores e sabia que imporia sua vontade. Os novos membros, a turma silenciosa que frequentava a igreja e alguns que ganhariam muito com a implantação de seu império garantiriam a vitória da “visão de Deus”.
Nos próximos meses, João veria chegar à sua nova igreja velhos companheiros de luta. Na nova igreja, o grupo seria visto sempre junto, conversando sobre assuntos da velha igreja. Relembrariam os bons tempos, falariam com saudades de programações que conduziram, não esconderiam a mágoa que nublava, agora, seus corações.
A outra igreja crescia. Dobrara o número de membros. Imitava descaradamente a metodologia da mãe de todas as igrejas picaretas. “Vocês nasceram para prosperar, ficar ricos, ganhar muito dinheiro. Deus tem horror à pobreza. Abomina doença. Gente doente é gente sem fé. Sou saudável e troco de carro todo ano por causa disso. Não quero contrariar meu Senhor”. E o povo mugia feliz.
Povos na diáspora lembram membros de igrejas que saíram de suas comunidades de origem por enfrentarem problemas com líderes autoritários. Vivem em grupos, lembrando-se do passado, sem jamais se integrarem completamente na nova pátria.

segunda-feira, julho 19, 2010

CULTO CONTEMPORÂNEO


PARECE INCONTESTÁVEL que, hoje, as pessoas são mais superficiais do que há poucas décadas. Vamos às evidências:
1- Textos em jornais e revistas são mais curtos. A Folha de S.Paulo, que se marqueteia como o jornal do futuro, aumentou o corpo de seus textos. Não foi por preocupação com o idoso.
2- Em novelas, no passado, quando o personagem aparecia “pensando”, estava sempre de boca fechada e demonstrava por expressões fisionômicas o que estava sentindo. Ouvíamos sua voz e sabíamos que ele “pensava”. Hoje, invariavelmente, o personagem que “pensa” falará sozinho, em voz alta. O telespectador estranharia ouvir a voz do personagem e não ver seu movimento de lábios.
3- Ainda em novelas. Não há personagem “cinza”. Ou é preto ou branco. O bom é boníssimo. O mau é pior do que picapau.
4- Lê-se mais, hoje. Dizem. A qualidade do que se lê, no entanto, é deplorável. Quem está entre os mais vendidos? Augusto Cury, Stephenie Meyer, Paulo Coelho, Zíbia Gasparetto. Lê-se poucos livros de literatura e muitos de auto-ajuda.
5- A música que faz sucesso é pobre e repetitiva, resvala quase sempre no mau gosto extremo. Só um exemplo: “O rebolation, o rebolation, xon, xon”. É de doer.
É neste contexto que vive a igreja evangélica atual. Se ela procurasse ser alternativa a este cenário tosco, ótimo. Infelizmente, a maioria das igrejas aderiu ao modelo simplista, popularesco, preguiçoso, despreocupado com a reflexão e, sem nenhuma surpresa, tem alcançado êxito de público.

“Os sermões devem voltar a ser rigorosamente expositivos para que a igreja ouça realmente a Palavra de Deus, e não opiniões humanas.” (W. Robert Godfrey)

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Romanos 12.2)

OS BATISTAS
NA DÉCADA DE 70 do século passado, a Convenção Batista Brasileira projetava alcançar, em 1982, ano do centenário da inauguração do trabalho batista no Brasil, 1 milhão de pessoas para seu rebanho.
Em 1977, Edir Macedo inventava a Igreja Universal do Reino de Deus. (Começou-a com seu cunhado Romildo Ribeiro Soares, que logo saiu da IURD para fundar a Igreja Internacional da Graça, também uma potência proprietária de canais de TV e locatária de horário nobre em emissoras de TV aberta.) Usando meios pouco convencionais, Macedo arregimentou, em pouco mais de 30 anos, 13 milhões de fiéis.
Os batistas, em 2010, gravitam em torno do 1 milhão de filiados e enfrentam sérios problemas de identidade.
A IURD influenciou nove entre dez igrejas evangélicas. (As duas maiores são onipresentes na TV: Internacional da Graça e Mundial do Povo de Deus.) Transformou-se em modelo de sucesso, mesmo utilizando meios obscuros para crescer. Aproveitou-se da carência, falsa esperteza e ignorância do brasileiro médio para amealhar somas altíssimas em curto período de tempo. Despertou inveja. Em cascata, surgiram centenas de malandros que fizeram de diversas igrejas, de variados matizes, fonte de lucro certo.
A Igreja Batista, claro, saiu chamuscada. Crentes bem-intencionados, porém, ingênuos, começaram a cobrar das lideranças de igrejas históricas, comportamento ousado como o dos líderes da IURD que por pouco não acharcavam seus seguidores. Sem perceberem, esses “inocentes” almejavam que suas igrejas se tornassem prósperas empresas. Muito em função dessas exigências, há, hoje, todo tipo de bizarrice em nossos arraiais (como gostavam de dizer os antigos). No mesmo bairro, encontram-se igrejas batistas com propósitos, sem propósitos, com células, sem células, com visão apostólica, de rito judaizante, portadoras da arca da aliança, sem arca alguma, que adotam o crescimento natural, fechadas com a rede ministerial, adeptas do louvor ininterrupto, etc. etc. Todas batistas, todas filiadas às convenções, todas donas da verdade.

BIZARRICES BATISTAS
1- Há igrejas batistas lideradas por pastores que foram nomeados apóstolos. A PIB da Bahia (já afastada da CBB) é uma delas. Há muitas outras. Esses pastores recebem “a unção” de apóstolos de outros apóstolos. São autoridades sobre bispos e pastores. Orientam uma rede de ministros.
 2- Há igrejas batistas judaizantes. Reconhecem a validade de ritos judaicos. Umas têm até arca da aliança. Quem lida com a música é levita. As atribuições das tribos de Israel são replicadas em grupos da igreja.
3- Há igrejas batistas que baseiam seu ministério em libertação de possessão demoníaca. Há algum tempo o batista não cria em crente possesso. Além de libertação, a cura interior é incentivada. Problemas psicológicos e psiquiátricos são tratados como se espirituais fossem.
4- Há igrejas batistas que menosprezam o poder da assembleia. Não são mais os membros da igreja que decidem seu destino. Basta o líder ter uma “visão do alto” para a decisão passar a ser deles.
5- Há igrejas batistas que distorcem o conceito do “ungido de Deus”. O “ungido de Deus” pode fazer o que bem entender na igreja.

BIZARRICES EVANGÉLICAS
1- Há igrejas combatendo demônios territoriais. Os demônios dominariam algumas regiões geográficas e só seriam expulsos com oração.
“A primeira batalha espiritual grandemente divulgada de Larry Lea em Candlestick Park, em 1990, teve como um de seus objetivos a expulsão dos “espíritos territoriais” de San Francisco. Além da crença de que são dadas responsabilidades a demônios específicos para que estes oprimam indivíduos, a doutrina dos “espíritos territoriais” defende que há também demônios sobre áreas geográficas, assim como sobre grupos nacionais, étnicos ou tribais, religiosos e até de gerações. De acordo com este ponto de vista é necessário que os cristãos identifiquem estes espíritos e os expulsem.”
Demônios que oprimem indivíduos lembram os espíritos obsessores do espiritismo de Alan Kardec.
2- Há igrejas que creem em maldição hereditária. Seu trisavô se envolveu com feitiçaria, você paga, hoje. Para resolver, oração para quebrar a maldição de seu antepassado.
“Talvez um dos casos que mais evidencia que um justo pode receber maldições devido a terceiros está relatado em 2Samuel 21. O texto fala de uma fome que Israel e o reinado de Davi estava passando por causa de uma quebra de aliança que Saul fez com os gibeonitas. A pergunta que não quer calar. O que tinha a ver Israel e Davi com o pecado de Saul e sua casa? Nada! No entanto, o povo e Davi foram castigados pelos pecados de Saul.”
A leitura do texto de 2Samuel 21 mostra que para reparar o malfeito do passado, Davi pergunta aos gibeonitas o que ele poderia fazer para reparar a situação. Os gibeonitas pediram a execução de sete descendentes de um desafeto. Davi, prontamente, manda executar.
Tragamos esta situação para os nossos dias. Uma igreja não está crescendo. Os mais espirituais perguntam a Deus o porquê da estagnação. “Deus” revela que há 35 anos o terreno da igreja foi comprado de forma fraudulenta. A família proprietária do terreno, à época, foi lesada. Os espirituais dirigiram-se a dois remanescentes da família e perguntaram: “Que podemos fazer por vocês? Como podemos reparar o que foi feito?” O remanescente mais velho respondeu: “Não queremos prejudicar a igreja. Desejamos vê-la crescer. Separe para nós sete virgens das mais belas e a maldição será retirada”.
Nenhum texto da Bíblia pode ser interpretado literalmente. Há ingênuos que fazem isso. A maioria o faz com má-intenção. Há, a se considerar, época em que o texto foi escrito, contexto, intenção do autor, gênero literário e, principalmente, discernimento intelectual do intérprete.
3- Há igrejas que pregam a teologia da prosperidade. O crente tem de ser rico, saudável e feliz. Se não é, é por falta de fé.
“K. Hagin diz, com base em Gálatas 3.13,14, que fomos libertos da maldição da lei, que são:
1) Pobreza;
2) Doença;
3) Morte espiritual.
Ele toma emprestadas as maldições de Deuteronômio 28 contra os israelitas que pecassem. Segundo essa doutrina, o cristão tem direito a saúde e riqueza; diante disso, doença e pobreza são maldições da lei. Eles ensinam que “todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças” e viver de 70 a 80 anos, sem dor ou sofrimento. Quem ficar doente é porque não reivindica seus direitos ou não tem fé. E não há exceções. Pregam que Isaías 53.4, 5 é algo absoluto. Fomos sarados e não existe mais doença para o crente. Os seguidores de Hagin enfatizam muito que o crente deve ter carro novo, casa nova própria, as melhores roupas, uma vida de luxo.”
Próspero, na teologia da prosperidade, é o dono do negócio. O povão, como não consegue chegar lá, deve ser culpado por falta de fé e excesso de pecado.

CONCLUSÃO
O CULTO CONTEMPORÂNEO oferece facilidades. Cristianismo é serviço.
Nas páginas do Novo Testamento, onde habitam os verdadeiros apóstolos, não há relatos de vida mansa. De lá para cá, muita coisa mudou. No Ocidente, o cristianismo passou de religião contra o sistema para religião do sistema. Não é assim na maior parte do mundo.
Mesmo onde é religião do sistema, a genuína mensagem do Evangelho contraria quase todos os valores exaltados como corretos, adequados, contextualizados.
Ser cristão traz paz e contrariedades. O cristão não se acomoda. Fica em paz com sua consciência, em guerra com aqueles a quem contraria.
É mentira quando um líder religioso diz que a conversão ao cristianismo é garantia de vida mansa, muita saúde e felicidade nos relacionamentos. O cristão é servo. E servo trabalha, trabalha e trabalha. Há recompensa? Quem é cristão sabe que sim e a forma como ela vem.

“Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá.” (Gálatas 6.7)

IRMÃ



– Você sabe que sempre fui amarradão em sua irmã.
– Cara, ela é encrenca.
– Por que ela é diferente?
– É. Mas sei que ela é uma diferente gatíssima. Muito gostosona.
– Nada a ver. Sou parado no jeitão dela. Ela é mais do que bonita.
– Ela não fala com ninguém, esnobe pra caraio, tira onda com todo mundo. Comigo só faz cara de desprezo.
– Não é lésbica, é?
– Pode ser. Que eu saiba não namorou ninguém: nem homem nem mulher. Dezoito anos, sem amigos nem amigas. Passa o dia lendo, ouvindo música e escrevendo merda num bloquinho sem pauta. Quem escreve em bloco com caneta BIC?
– Ela é fera. Melhor aluna, só tira notão. O Bafo está na sala dela.
– Mas não estuda. Nem anota as aulas. Só presta atenção. Aliás, ela vive prestando atenção. Parece criatura do Stephen King.
– Você podia me dar um adianto com ela.
– Porra, é minha irmã mas não entendo aquela mina. Ela me acha um merda. Se te adiantar, te atraso. Sacou? Saia pra outra. Pegue uma normal.
– Você acha que sua irmã é doida?
– Acho, não. Tenho certeza. Já falei pra minha mãe que qualquer dia ela se mata.
– Exagero, mano.
– O caraio. Meu medo é que ela, antes de se matar, liquide todo mundo.
– Ela já deu pinta de que pode fazer alguma merda?
– Meu pai deu um note-book pra ela. Usa raramente. Só faz umas buscas, de vez em quando, nunca pelo Google. Prefere sair daqui, pegar ônibus e pesquisar na Biblioteca. Aos 15, se recusou a ir pra Disneyworld. Aos 18, não quis o carro que meus pais quiseram dar pra ela. Parte do dinheiro da viagem e do carro ela pegou e entocou no banco. De vez em quando, compra umas camisetas, jeans, tênis, e olhe lá.
– Acho isso duca. Tem consciência, não é consumista,  não quer agravar o aquecimento global.
– Ela acha essas paradas de aquecimento global, babaquice. Roupa ela usa porque não pode andar nua. Não quis o carro porque acha que não precisa. E não precisa, mesmo. Não sai de casa pra nada. Só pro curso.
– Sua irmã nua, cara... Você acha que nem devo tentar?
– Tente. Ela é louca. Vai que está numa de experimentar coisas novas...
– Aí, sei que você como irmão mais velho deve ficar grilado se, de repente, pintar algo entre ela e eu. Mas, garanto, vou devagar.
– Vá na velocidade que você quiser. Coma-a no primeiro encontro, se der. Faça ela usar o celular. Mermão, tenho maior medo daquela mina. Ela só lê, lê, lê e ouve música. Nada de pop. Nada de rock. Só música esquisita. Se você pegá-la, finalmente dormirei com meu quarto destrancado. Avisei meu pai e minha mãe e eles não me ouviram. Fodam-se, então. Quero chegar aos 20.

sexta-feira, julho 02, 2010

VIVA DUNGA!




A seleção dunguiana sai da Copa no mesmo estágio em que saiu a parreirense.
Baladeiros e santos: nada disso tem valor quando se trata de uma partida de futebol.
Para movimentar a gorduchinha há necessidade de jogadores habilidosos e em boa forma física.
No comando de uma seleção brasileira, é obrigatório que tenhamos um líder experimentado, bem educado, consciente do papel que cumprirá. Vai ganhar dinheiro, prestígio e, por isso, será muito pressionado. Xucros como Dunga não devem ter mais chance à frente do selecionado brasileiro.
Estou triste com a eliminação da seleção? Não. A vitória consolidaria um estilo escroto, tedioso, modorrento de se jogar futebol. Tomara que os Gansos do futuro não voltem a ser preteridos pelos Filipe Melos.

segunda-feira, junho 28, 2010

JEITOSINHO


Lionel Messi ainda não fez gol na Copa. Tem jogado bem, mas não deixou o dele nas redes adversárias. Há explicação.
Diego Maradona prometeu correr nu pelas ruas de Buenos Aires, caso seus garotos conquistem o tricampeonato.
Carlos Billardo, diretor da Federação de Futebol Argentina, não quis ficar para trás e prometeu ceder o feijãozinho ao jogador de seu escrete que assinalasse o gol do tri.
Cauteloso, Lionel Messi resolveu, então, não fazer gols. Na final, quando não marcar, escapará do “prêmio” e livrar-se-á de suspeitas de não ter feito o gol decisivo propositalmente.
Nos bastidores, comenta-se que Carlitos Tévez já pediu ao astro do Barcelona que lhe passe a bola para o gol decisivo. Tévez diz para quem quiser ouvir que acha Billardo muito jeitosinho.

quinta-feira, junho 24, 2010

SEM PEDIGREE

Itália foi pro espaço.
Faria bem à Copa um campeão sem pedigree.
Gana, por exemplo.

V

Assisti de uma sentada toda a primeira temporada de V.
Gostei bastante.
Vejo seriados com regularidade. Não sou fanático por nenhum deles. Quando me enchem o saco, abandono-os.
Outra razão para deixá-los pelo caminho é o número excessivo de perguntas que lançam. De Lost caí fora ali pelo meio da segunda temporada exatamente por causa disso. Lost pelo menos foi até o final (se respondeu às muitas perguntas que fez, não sei nem saberei).
Volto a V. Aprecio enredos com alienígenas. Alienígenas perversos, mais ainda. Alienígenas perversos que são répteis são ótimos. Se se escondem dentro de pele humana... Bom, aí a metáfora é tão óbvia que nós os dungas adoramos.
V é também sobre a tenacidade do mais fraco contra o mais forte. Há a luta do sentimento/empatia contra a indiferença/frieza. Admito, gosto dessas coisas.
V tem um elenco bacana, duas heroínas e uma vilã bem ajeitadas e muito espaço para trairagem.
Verei a segunda temporada. Se começarem a inventar, caio fora.

segunda-feira, junho 21, 2010

Terra do chocolate

E a Suíça tomou um gol.
Tomara que na próxima partida tome outro e vá pro inferno.

São Koko


Henri faz gol de mão e é, por isso, fedaputa.
Luis Fabiano usa os braços pra nocautear a Costa do Marfim e é fabuloso.
De minha parte, vale tudo. O juiz é quem deve estar ligado no jogo. Ele e os bandeirinhas.
O gol com os braços, a porrada no final e a expulsão de São Koko fizeram com que eu ficasse acordado até o final da partida.
Melhor do que tudo isso: Dunga, o escroto, chicoteando a imprensa que tem de entubar com um sorriso amarelo nos lábios.
Afinal, pode acontecer o inesperado: a seleção de merdas ser campeã.

sexta-feira, junho 18, 2010

COPA DOS COVARDES

Para mim, campeão europeu é o Barcelona, de Messi.
A Internazionale é um timeco retranqueiro que só joga no contra-ataque.
É legítimo, mas é horroroso de se ver.
Imagine todos os times jogando como a Inter. Ninguém fará gol em ninguém.
A Copa do Mundo, por enquanto, tem premiado os covardes.
Suíça, Sérvia, Brasil...
Times que me tiraram do estado catatônico, diante da tela: Argentina, Alemanha e Espanha.
Alguns outros me fizeram dormir e ainda houve aqueles que me fizeram sentir saudades de ver o Vascão jogando.

terça-feira, junho 01, 2010

PEIDÃO



Quando Severino soube que seu novo apelido, Flato, tinha relação com peido/flatulência jurou de morte o autor da piada.
O piadista, Alfredinho, ciente que estava jurado por Severino, conversou com a mulher, Aurora, e lhe disse que só por intervenção dela não morreria.
Aurora pensou em deixar rolar, mas sem Alfredinho a situação financeira ficaria ruim. Procurou Severino.
Atendeu-a Dirce, a mulher do Flato. Dirce não queria Aurora perto de Severino. Eram fogo e palha.
Aurora explicou porque estava ali. Dirce lhe pediu que fosse embora, ela resolveria.
Disse ao marido que não queria saber de mortes. Mais ainda, ele iria naquele momento se desculpar com Alfredinho.
Que babaquice era essa de se ofender por ser chamado de Flato. Se fosse ela o chamaria de Peidão.

sábado, maio 29, 2010

Copa 2010

Julio Cesar, a soldo da Nike, desceu a mamona na bola da Adidas.
Kaká, empapuçado pela Adidas, disse que a bola é o ó.
Até a bola rolar de verdade, haja saco pra bobajada.

quinta-feira, maio 27, 2010

SEXO COM TERNURA


Para chegar ao batente, Filó desloca-se por mais de duas horas.
Embarca no metrô lotado, encara fila inacreditável para viajar com o rabo em repouso e ainda pega outro ônibus entupido. Neste o rabo vai solto, desprotegido.
No mercado, trabalha no setor de frios. Presunto, mortadela, queijos... Belisca o dia inteiro. Sempre escondido dos feitores. É um bamba. Come sem as três câmeras apontadas para sua seção captarem.
Tem hora certa pra mijar. Em todo o percurso até o banheiro é vigiado. Os olhões o seguem. Não se espantaria se descobrisse que seu cu é filmado enquanto caga. Existem câmeras submarinas, né não?
Almoça no terreno do lado, sentado numa pedra, longe de todo mundo. Quem o vigia ali o faz à maneira antiga, com olhos que embaixo têm narizes e bocas.
Em dez minutos bota pra dentro a comida fria. Os outros 50 fica por ali mesmo, arriado. O dia não chegou à metade.
Vermelhinha, a ruivinha que adora, vem em sua direção. Poucas vezes conversaram. Ela se aproxima, pede pra sentar perto dele.
Ficou nervoso. Em segundos, imaginou milhões de coisas. No final de todas elas, comia a ruivinha.
– Filó, sei que não somos amigos, mas confio muito em você. Preciso de um dinheiro, fiz uma parada errada, tenho de tirar...
– Você está grávida, quer tirar a criança e está me pedindo dinheiro. É isso?
– Filó, entenda. Tenho só 19 anos, esse emprego de merda. O Porquinho me embebedou.
– A criança é do Porquinho?
– É, eu...
Falar o quê. Nem deu mais papo. Levantou-se. O patrão, hoje, ia levar meia hora do seu tempo. Vai entender mulher. Filó se empanturrou de mortadela.
Às 8h, o caminho de volta: ônibus, ônibus, metrô.
Perto de casa, a cervejinha com os amigos. Dora, morena maromenos, sempre insinuante.
Filó tinha princípios. Há seis meses se guardava pra Vermelhinha. Sexo precisa envolver sentimentos mais ternos, sempre lhe dizia a mamãe querida.
Tomou a saideira, disse qualquer coisa na orelha de Dora, foram prum motel e treparam muito.
No dia seguinte saiu atrás de outro emprego.

quarta-feira, maio 26, 2010

Quem sabe?


Meu interesse pela Seleção Brasileira acabou em 1994.
Dunga, Parreira e Zagallo encheram as medidas.
O tetra chegou porque Baggio mandou a bola nas nuvens, isto depois de uma pelada que fez ninar o mais resistente insone.
A seleção que vai à Copa em 2010, segundo os analistas mais gabaritados, deve chegar ao título fazendo percurso semelhante ao traçado pelos cabeças de bagre de 1994.
O que gostaria que acontecesse dificilmente se concretizará, mas ficaria feliz vendo os soldados de Dunga sendo despachados logo na primeira fase da Copa.
Para o título torço pela Argentina. Uma seleção passional campeã, dirigida por um alucinado, seria ótimo de ver.
Quem sabe?

terça-feira, maio 25, 2010

DELICINHA



Havia comoção no morro.
Delicinha voltaria no final de semana.
Indulto de Dia das Mães.
A mãe do facínora, quando soube que o filho estaria nas ruas, viajou para a casa de um sobrinho, em Porto Velho, Rondônia, lugar mais próximo do inferno que ela conhecia.
Delicinha foi dono do morro por 12 terríveis anos. Na época, era conhecido como Tonhão e aterrorizava as meninas da comunidade. Não se contentava em estuprar, barbarizava as mocinhas com quem cismava. Espantoso que tenha durado tanto tempo no poder. Escapou uma dezena de vezes de atentados bem urdidos. À polícia precisou cevar com muitos milhares de reais para escapar das várias vezes que foi capturado, sempre denunciado por anônimos moradores do morro.
De repente, Tonhão virou Delicinha. Liberado pela polícia depois de nova captura, sem dinheiro, raiva pura, resolveu passar uma temporada em Cabo Frio. Nas areias da praia, conheceu Filipinho. Filipinho, 26 anos, classe média alta, designer de moda, encantou-se com o charme naif de Tonhão.
Conversaram, saíram na noite, beberam e acabaram trocando fluidos em ardente noite de amor. Filipinho, em erupção, sussurrou no ouvido de Tonhão: “Você é uma delicinha”.
Tonhão não entendeu como tinha chegado até aquele ponto. Pensou, seriamente, em dar um tiro em Filipinho. Contrariando sua natureza homicida, conversou com o amante. Contou-lhe toda sua vida. Disse-lhe que já havia estuprado dezenas de mocinhas.
Filipinho horrorizou-se, mas tentou traçar o perfil psicológico do amor praiano. Explicou-lhe que o furor com que desabava sobre as meninas nada mais era do que ódio. Ele, Tonhão, não suportava fazer sexo com mulheres. Escondia-se atrás do preconceito. Reprimia a verdadeira natureza. Era uma fêmea presa em cárcere grotesco.
Tonhão, antes de voltar ao Rio, deu um fim em Filipinho. Não foi por se descobrir homossexual que se tornou pessoa mais sensível. Era o filho da puta de sempre.
No morro não pegou mais meninas. Agora, escolhia os moleques e os fazia sodomizá-lo. Não os agredia. Não os torturava. Obrigava-os a chamarem-no de delicinha.
Batia e matava como antes, todos se encagaçavam só de vê-lo. Tratavam-no por Tonhão, menos os que haviam tido o desprazer de enrabá-lo. Estes o chamavam delicinha.
Durante toda a semana que antecedeu a volta de Tonhão, centenas de jovens garanhões se mudaram do morro. Na comunidade, homens só ficaram os muito velhos ou os brochas.
Tonhão voltou e quem o viu não o reconheceu. Travestido, era agora uma mulher, se não bonita, ao menos passável.
A alguns anciãos informou:  “Voltarei para cumprir o resto de minha pena. Casei-me, estou feliz, estudo publicidade na prisão. Meu marido é pastor. Agora, sou só Delicinha”.

sábado, abril 24, 2010

O Gordo voltou

– Gordo, querido, por onde você anda?
– Trampo novo, sacumé...
– Trampo? Termo malandro velho.
– Florzinha, gosto demais de você. É bonita, um doce e conhece palavras. Uau!!!