
terça-feira, setembro 29, 2009
segunda-feira, setembro 28, 2009
GENTE MORTA
Vejo gente morta.
Londres me chama, mas fica proutra hora.
Dureza, sacumé.
Como um joelho, tomo um café e sigo pra caminhada diária.
Ouço tiros todas as noites. Hoje, pareciam estar mais perto. Não me impressiono. Nem eu nem os vizinhos.
Por isso acordo cedo, caminho e vejo mortos. Salto sobre eles. Indiferente.
Plugado, ouço Clash.
Filtro os barulhos da rua.
Atenção, só para o trânsito. Não quero ser barreira para outros caminhantes.
A polícia está atrás de mim.
Nada contra este gordo que se arrasta.
A lei discutia a identidade do último cadáver por que passei.
Desço a Automóvel Clube e até onde a vista encataratada enxerga nem sinal de mortos estendidos pelo chão.
Dou duas voltas, banho e cama.
Os atiradores dormem de manhã.
O barulho não me incomoda. Já incomodou.
De vez em quando, no entanto, o silêncio é bom.
Durmo pesado, sem sonhos.
Londres me chama, mas fica proutra hora.
Dureza, sacumé.
Como um joelho, tomo um café e sigo pra caminhada diária.
Ouço tiros todas as noites. Hoje, pareciam estar mais perto. Não me impressiono. Nem eu nem os vizinhos.
Por isso acordo cedo, caminho e vejo mortos. Salto sobre eles. Indiferente.
Plugado, ouço Clash.
Filtro os barulhos da rua.
Atenção, só para o trânsito. Não quero ser barreira para outros caminhantes.
A polícia está atrás de mim.
Nada contra este gordo que se arrasta.
A lei discutia a identidade do último cadáver por que passei.
Desço a Automóvel Clube e até onde a vista encataratada enxerga nem sinal de mortos estendidos pelo chão.
Dou duas voltas, banho e cama.
Os atiradores dormem de manhã.
O barulho não me incomoda. Já incomodou.
De vez em quando, no entanto, o silêncio é bom.
Durmo pesado, sem sonhos.
MACUMBÉLICO
Evangélicos têm pavor de espíritas.
Não sei se ainda sou evangélico, mas jamais alimentei esse sentimento.
Vim de lá, sou macumbélico.
Seres humanos valem alguma coisa, ou não valem nada, independentemente de religião, cor, sexo, nível social, faixa etária...
Circulei pela igreja católica, espiritismo e, na maior parte da vida adulta, tenho sido evangélico. Frequento uma igreja batista, não muito regularmente, com prazer.
Na infância, em ocasiões especiais, meus pais me levavam ao Centro Espírita.
Dona Belinha, uma gorda simpática, era a mãe-de-santo. A casa em que ela morava tinha dois andares. Ficava em uma escadaria ao lado do antigo campo do América. Hoje, o Shopping Iguatemi. Da Teodoro da Silva víamos a casa branca, no alto. Parecia um castelo.
As crianças não participavam de toda a sessão espírita. Enquanto aguardávamos ser chamados, assistíamos televisão. Ou fingíamos assistir. A TV ficava em um nicho da parede, bem lá em cima, numa extremidade da sala. A sala era enorme. Ficávamos sentados na outra extremidade. O som, baixíssimo, não permitia que ouvíssemos nada. E, para ver, só de binóculos. Todo religioso é louco.
Descíamos para o terreiro na gira de crianças. Era engraçado vermos os adultos que nos davam esporro comportando-se como crianças traquinas e birrentas.
Minha tia Janete recebia uma criança bonita como ela e divertidíssima. Minha mãe fazia suas travessuras, também incorporada. Mas onde se juntam muitas crianças tem sempre uma que enche a paciência de todo mundo. Pentelhíssima era d. Leonor, uma respeitabilíssima sessentona que, montada, emprestava seu corpo para a criança mais desagradável daqui e dalém. A criança de d. Leonor estava sempre mastigando doces que o terreiro oferecia de montão.
Mastigava, amassava nas mãos e passava na boca dos desavisados. Boca cheia de doce e cuspe, a vontade era encher a velhinha de porrada. Mas criança do além, sei lá, ficávamos encagaçados de encarar.
As crianças dalém subiam não sei pra onde e nós, as daqui, também, para a TV quase muda. Terminada a sessão, desmoronando de sono, éramos arrastados pelos adultos para casa. Morávamos a três quarteirões do Centro, mas aquela caminhada de volta na madrugada parecia uma marcha sem fim. Tenho saudades.
Não sei se ainda sou evangélico, mas jamais alimentei esse sentimento.
Vim de lá, sou macumbélico.
Seres humanos valem alguma coisa, ou não valem nada, independentemente de religião, cor, sexo, nível social, faixa etária...
Circulei pela igreja católica, espiritismo e, na maior parte da vida adulta, tenho sido evangélico. Frequento uma igreja batista, não muito regularmente, com prazer.
Na infância, em ocasiões especiais, meus pais me levavam ao Centro Espírita.
Dona Belinha, uma gorda simpática, era a mãe-de-santo. A casa em que ela morava tinha dois andares. Ficava em uma escadaria ao lado do antigo campo do América. Hoje, o Shopping Iguatemi. Da Teodoro da Silva víamos a casa branca, no alto. Parecia um castelo.
As crianças não participavam de toda a sessão espírita. Enquanto aguardávamos ser chamados, assistíamos televisão. Ou fingíamos assistir. A TV ficava em um nicho da parede, bem lá em cima, numa extremidade da sala. A sala era enorme. Ficávamos sentados na outra extremidade. O som, baixíssimo, não permitia que ouvíssemos nada. E, para ver, só de binóculos. Todo religioso é louco.
Descíamos para o terreiro na gira de crianças. Era engraçado vermos os adultos que nos davam esporro comportando-se como crianças traquinas e birrentas.
Minha tia Janete recebia uma criança bonita como ela e divertidíssima. Minha mãe fazia suas travessuras, também incorporada. Mas onde se juntam muitas crianças tem sempre uma que enche a paciência de todo mundo. Pentelhíssima era d. Leonor, uma respeitabilíssima sessentona que, montada, emprestava seu corpo para a criança mais desagradável daqui e dalém. A criança de d. Leonor estava sempre mastigando doces que o terreiro oferecia de montão.
Mastigava, amassava nas mãos e passava na boca dos desavisados. Boca cheia de doce e cuspe, a vontade era encher a velhinha de porrada. Mas criança do além, sei lá, ficávamos encagaçados de encarar.
As crianças dalém subiam não sei pra onde e nós, as daqui, também, para a TV quase muda. Terminada a sessão, desmoronando de sono, éramos arrastados pelos adultos para casa. Morávamos a três quarteirões do Centro, mas aquela caminhada de volta na madrugada parecia uma marcha sem fim. Tenho saudades.
quarta-feira, setembro 16, 2009
ALOFENO
- ‘Cê não entende nada de marketing. Importante é a embalagem. Uma embalagem bem transada agrega valor.
- Sanduíche natural pra vender bem tem de ser gostoso, só isso.
- Você pode vender o sanduíche embrulhado no papel laminado, mas aí seu produto é igual ao de vários concorrentes. Uma embalagem bem engendrada fará do seu um produto diferenciado.
- Mas encarece o produto. Teremos de repassar esse custo para o cliente final.
- Repassaremos e o público-alvo pagará. Acompanhe-me. Faremos a embalagem em papel reciclado verde. Escreveremos o nome do sanduíche: SANDUVITA. Informaremos na embalagem que o pão de nosso produto não contém Alofeno, porque é assado em fornos movidos a energia eólica. Para ficar bem claro, imprimiremos: “Sem Alofeno. Contém Delta 7”.
- Alofeno, Delta 7?
- Basta dizer que o Alofeno, além de agredir a camada de Ozônio, engorda. Já o Delta 7 é um eficaz inibidor de radicais flutuantes.
- ???
- Diga que esses radicais flutuantes são os maiores causadores de ataques cardíacos e tumores no cérebro. Se você perceber dúvida, informe que saiu na Veja. Ninguém lê revista, mesmo.
- Os sanduíches serão de frango e atum?
- Não é só isso. Você precisa ser proativo. Não vai estar escrito na embalagem, mas informe ao cliente que nossos frangos são criados em quintal, livres. São frangos que tiveram vida feliz. Não há perigo de terem trazido em sua carne energia ruim. Mencione que os atuns são criados em Araruama e só são abatidos depois que atingem a vida adulta. São mortos com injeção que não provoca dor, ouvindo Roberto Carlos.
- Acho que vai dar certo.
- Se fizermos isso, podemos cobrar 10 pratas o sanduba. E lembre-se, depois de feita a venda, fale ao cliente com semblante entre sério e exultante: “O Planeta Terra agradece sua opção pela vida”.
- Sanduíche natural pra vender bem tem de ser gostoso, só isso.
- Você pode vender o sanduíche embrulhado no papel laminado, mas aí seu produto é igual ao de vários concorrentes. Uma embalagem bem engendrada fará do seu um produto diferenciado.
- Mas encarece o produto. Teremos de repassar esse custo para o cliente final.
- Repassaremos e o público-alvo pagará. Acompanhe-me. Faremos a embalagem em papel reciclado verde. Escreveremos o nome do sanduíche: SANDUVITA. Informaremos na embalagem que o pão de nosso produto não contém Alofeno, porque é assado em fornos movidos a energia eólica. Para ficar bem claro, imprimiremos: “Sem Alofeno. Contém Delta 7”.
- Alofeno, Delta 7?
- Basta dizer que o Alofeno, além de agredir a camada de Ozônio, engorda. Já o Delta 7 é um eficaz inibidor de radicais flutuantes.
- ???
- Diga que esses radicais flutuantes são os maiores causadores de ataques cardíacos e tumores no cérebro. Se você perceber dúvida, informe que saiu na Veja. Ninguém lê revista, mesmo.
- Os sanduíches serão de frango e atum?
- Não é só isso. Você precisa ser proativo. Não vai estar escrito na embalagem, mas informe ao cliente que nossos frangos são criados em quintal, livres. São frangos que tiveram vida feliz. Não há perigo de terem trazido em sua carne energia ruim. Mencione que os atuns são criados em Araruama e só são abatidos depois que atingem a vida adulta. São mortos com injeção que não provoca dor, ouvindo Roberto Carlos.
- Acho que vai dar certo.
- Se fizermos isso, podemos cobrar 10 pratas o sanduba. E lembre-se, depois de feita a venda, fale ao cliente com semblante entre sério e exultante: “O Planeta Terra agradece sua opção pela vida”.
ODALISCAS TIJUCANAS
Há cenas que não esqueço.
Quase todos os dias, há uns 20 anos, passava na Videogame Center, simpática loja que funcionava em uma galeria da Praça S. Pena (depois cresceu, mudou-se para o Shopping Tijuca e eu lá não fui mais).
A VGC alugava fitas VHS, games e cds. Eram três lojas independentes em uma. Gravei centenas de fitas cassete de grupos que jamais conheceria, não fora a existência de utilidade pública da VGC. Comprei, também, alguns CDs, mas eram caríssimos.
A garotada que atendia nos balcões, meio arrogante com novos clientes e atenciosíssima com veteranos, se achava. Algumas das meninas se achavam com razão.
As meninas eram bacanas, bonitas, cobiçáveis. Os rapazes faziam força para parecerem descolados. Tijucanos, sacumé.
Um dia pus o pé dentro da loja e fiquei paralisado na porta. Do canto de meus lábios, um grosso fio de baba escorreu. A todo volume, tocava no som da loja a batida oriental de “Come out and play”, do Offspring. As meninas requebravam-se sensualmente, odaliscas tijucanas a me perturbarem o juízo.
Em dias que acho que está tudo uma merda, pego “Smash”, do Offspring, e ponho no cedepleier. Sento-me, aciono a faixa “Come out and play” e fecho os olhos.
Olhos fechados, vejo as odaliscas requebrantes, relaxo e...
Quase todos os dias, há uns 20 anos, passava na Videogame Center, simpática loja que funcionava em uma galeria da Praça S. Pena (depois cresceu, mudou-se para o Shopping Tijuca e eu lá não fui mais).
A VGC alugava fitas VHS, games e cds. Eram três lojas independentes em uma. Gravei centenas de fitas cassete de grupos que jamais conheceria, não fora a existência de utilidade pública da VGC. Comprei, também, alguns CDs, mas eram caríssimos.
A garotada que atendia nos balcões, meio arrogante com novos clientes e atenciosíssima com veteranos, se achava. Algumas das meninas se achavam com razão.
As meninas eram bacanas, bonitas, cobiçáveis. Os rapazes faziam força para parecerem descolados. Tijucanos, sacumé.
Um dia pus o pé dentro da loja e fiquei paralisado na porta. Do canto de meus lábios, um grosso fio de baba escorreu. A todo volume, tocava no som da loja a batida oriental de “Come out and play”, do Offspring. As meninas requebravam-se sensualmente, odaliscas tijucanas a me perturbarem o juízo.
Em dias que acho que está tudo uma merda, pego “Smash”, do Offspring, e ponho no cedepleier. Sento-me, aciono a faixa “Come out and play” e fecho os olhos.
Olhos fechados, vejo as odaliscas requebrantes, relaxo e...
terça-feira, setembro 08, 2009
POSITIVO
Positivo. Os quatro meliantes foram presos em flagrante. Alguém do prédio desconfiou e ligou pra nós. Um conseguiu evadir-se, mas já estamos mobilizando grande contingente para efetuar a captura o mais rapidamente possível.
Positivo. A quadrilha é perigosíssima. Há quase um ano assalta apartamentos aqui na Zona Sul. A metodologia é sempre a mesma. Abordam o morador em seu carro e o obrigam a levá-los para dentro do lar. Uma vez dentro da casa, roubam aparelhos eletrodomésticos, computadores, jóias, dinheiro... Sempre tratando os moradores com muita brutalidade. Neste último assalto, o que parece ser o líder do grupo, chegou a introduzir o cano da arma na boca do dono do apartamento.
Positivo. Infelizmente, há relatos de exacerbação de violência. Houve alguns estupros, sempre perpetrados contra filhas e esposas na frente de pais e maridos. O único assassinato que ocorreu deveu-se à recusa da vítima em conduzir os vagabundos à sua casa. O homem foi morto com quatro tiros.
Positivo. O casal que estava sendo roubado neste último apartamento veio à delegacia e fez o reconhecimento dos criminosos. Graças à ação dos vizinhos nada de mais grave aconteceu nem com o casal nem com suas filhas. Agora, estamos aguardando que outras vítimas se apresentem para fazer o reconhecimento.
Positivo. Os perversos ficarão detidos até o julgamento, se um bom advogado não conseguir que o aguardem em liberdade. É uma possibilidade. Depois, independentemente da pena, se, no cárcere, andarem para lá e para cá com uma Bíblia embaixo do braço; fizerem um curso qualquer: culinária, informática; e tiverem bom comportamento serão soltos em alguns meses.
Positivo. Eu recomendo aos que foram assaltados, tendo, ou não, testemunhado contra a quadrilha, a se mudarem. Se puderem vão para outra cidade. Normalmente, o facínora não é vingativo. Há muita gente nova para eles barbarizarem... mas, nunca se sabe. Vovó dizia sempre: “Seguro morreu de velho”.
Positivo. A quadrilha é perigosíssima. Há quase um ano assalta apartamentos aqui na Zona Sul. A metodologia é sempre a mesma. Abordam o morador em seu carro e o obrigam a levá-los para dentro do lar. Uma vez dentro da casa, roubam aparelhos eletrodomésticos, computadores, jóias, dinheiro... Sempre tratando os moradores com muita brutalidade. Neste último assalto, o que parece ser o líder do grupo, chegou a introduzir o cano da arma na boca do dono do apartamento.
Positivo. Infelizmente, há relatos de exacerbação de violência. Houve alguns estupros, sempre perpetrados contra filhas e esposas na frente de pais e maridos. O único assassinato que ocorreu deveu-se à recusa da vítima em conduzir os vagabundos à sua casa. O homem foi morto com quatro tiros.
Positivo. O casal que estava sendo roubado neste último apartamento veio à delegacia e fez o reconhecimento dos criminosos. Graças à ação dos vizinhos nada de mais grave aconteceu nem com o casal nem com suas filhas. Agora, estamos aguardando que outras vítimas se apresentem para fazer o reconhecimento.
Positivo. Os perversos ficarão detidos até o julgamento, se um bom advogado não conseguir que o aguardem em liberdade. É uma possibilidade. Depois, independentemente da pena, se, no cárcere, andarem para lá e para cá com uma Bíblia embaixo do braço; fizerem um curso qualquer: culinária, informática; e tiverem bom comportamento serão soltos em alguns meses.
Positivo. Eu recomendo aos que foram assaltados, tendo, ou não, testemunhado contra a quadrilha, a se mudarem. Se puderem vão para outra cidade. Normalmente, o facínora não é vingativo. Há muita gente nova para eles barbarizarem... mas, nunca se sabe. Vovó dizia sempre: “Seguro morreu de velho”.
segunda-feira, setembro 07, 2009
Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!
Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!
– Cara, ‘cê tá louco? Não faça isso.
– O quê? Tô fazendo o quê?
– Você está esfregando seus lábios no ventre nu de sua filha e produzindo esses sons em que percebo alguma lascívia.
– Zeca, é um bebê. Minha filhinha. Ela adora.
– Cara, ‘cê pode ser acusado de estupro. Se algum brasiliense vir uma coisa dessa tu tá fu. Abuso sexual, sacumé. Pena dura. Pedofilia.
– Mas quando eu a pego no colo, minhas mãos, às vezes, esbarram na bunda dela.
– Louco! Louco! Louco! Como você ousa tocar nas partes íntimas de sua filha? Cara, você vai ser enquadrado como tarado.
– Eu dou banho nela. Troco as fraldas. Limpo a bundinha.
– Cara, procure ouvir o que você disse: “Limpo a bundinha”. Quer dizer, passa essas mãos cúpidas, acostumadas às mais depravadas libidinagens, nas inocents nádegas da criança. Você vai puxar 15 anos.
– Eu e minha mulher trabalhamos. Dividimos as tarefas do lar. Ela só aceitou casar se fizéssemos assim. Eu concordei.
– Isso pode pesar contra você. Dirão que tudo foi premeditado. Saiu-se com essa de divisão de tarefas para assediar, sem desconfiança, a inocente.
– Caraio, o que faço?
– Sua sorte é que estou te alertando. Não toque mais nessa criança. Nada de colinho. Boca na barriguinha. Cheirar os pezinhos, podofilia, nem pensar. Deixe essa criança aí, do jeito que está. Espere sua mulher chegar e acabe com esse negócio de divisão de tarefas.
– Vai dar divórcio.
– Melhor, pelo menos você fica em liberdade.
– Cara, ‘cê tá louco? Não faça isso.
– O quê? Tô fazendo o quê?
– Você está esfregando seus lábios no ventre nu de sua filha e produzindo esses sons em que percebo alguma lascívia.
– Zeca, é um bebê. Minha filhinha. Ela adora.
– Cara, ‘cê pode ser acusado de estupro. Se algum brasiliense vir uma coisa dessa tu tá fu. Abuso sexual, sacumé. Pena dura. Pedofilia.
– Mas quando eu a pego no colo, minhas mãos, às vezes, esbarram na bunda dela.
– Louco! Louco! Louco! Como você ousa tocar nas partes íntimas de sua filha? Cara, você vai ser enquadrado como tarado.
– Eu dou banho nela. Troco as fraldas. Limpo a bundinha.
– Cara, procure ouvir o que você disse: “Limpo a bundinha”. Quer dizer, passa essas mãos cúpidas, acostumadas às mais depravadas libidinagens, nas inocents nádegas da criança. Você vai puxar 15 anos.
– Eu e minha mulher trabalhamos. Dividimos as tarefas do lar. Ela só aceitou casar se fizéssemos assim. Eu concordei.
– Isso pode pesar contra você. Dirão que tudo foi premeditado. Saiu-se com essa de divisão de tarefas para assediar, sem desconfiança, a inocente.
– Caraio, o que faço?
– Sua sorte é que estou te alertando. Não toque mais nessa criança. Nada de colinho. Boca na barriguinha. Cheirar os pezinhos, podofilia, nem pensar. Deixe essa criança aí, do jeito que está. Espere sua mulher chegar e acabe com esse negócio de divisão de tarefas.
– Vai dar divórcio.
– Melhor, pelo menos você fica em liberdade.
OPERÁRIO
WORKING CLASS HERO
John Lennon
As soon as your born they make you feel small,
By giving you no time instead of it all,
Till the pain is so big you feel nothing at all,
A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
They hurt you at home and they hit you at school,
They hate you if you're clever and they despise a fool,
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
When they've tortured and scared you for twenty odd years,
Then they expect you to pick a career,
When you can't really function you're so full of fear,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you're so clever and classless and free,
But you're still fucking peasents as far as I can see,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
There's room at the top they are telling you still,
But first you must learn how to smile as you kill,
If you want to be like the folks on the hill,
A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
If you want to be a hero well just follow me,
If you want to be a hero well just follow me.
Working class hero saiu no disco de John Lennon e a Plastic Ono Band, em 1971.
O fucking da letra causou polêmica. A EMI-Odeon entrou em acordo com Lennon e permitiu que ele cantasse que o operário estava fodido, mesmo, mas, no encarte, o palavrão foi limado e saiu o velho asterisco (f***), ícone da hipocrisia gráfica. Os mais antigos se lembram da entrevista de Leila Diniz ao Pasquim, na década de 60. Ali o asterisco teve seu momento de glória.
De passagem, vi trecho do programa “O assunto é música”, do Multishow. O tema era John Lennon e comentava-se a atitude da gravadora, na época. O tom era de desaprovação à censura. Há, então, um corte para Lennon cantando WCH. As legendas apresentam a letra para os monoglotas e quem aparece, faceiro, é o ancião asterisco. Fodido ainda choca em 2009.
Meu relacionamento com palavrões sempre foi pacífico. Falo muitos deles. E escrevo-os, também. Tive uma tia que os falava com elegância. Conheço gente que me causa repugnância ao mencionar um singelo merda.
Não chego na casa de ninguém falando palavrões. Não posso exigir que outros tenham alcançado o nível evolutivo a que cheguei. Guardo os bons palavrões para usar entre amigos ou com gente não melindrosa. Ah, que horror guardo de melindrosos!
Em textos que escrevo, uso-os quando acho necessário. E quando não acho, também.
John Lennon
As soon as your born they make you feel small,
By giving you no time instead of it all,
Till the pain is so big you feel nothing at all,
A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
They hurt you at home and they hit you at school,
They hate you if you're clever and they despise a fool,
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
When they've tortured and scared you for twenty odd years,
Then they expect you to pick a career,
When you can't really function you're so full of fear,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you're so clever and classless and free,
But you're still fucking peasents as far as I can see,
A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.
There's room at the top they are telling you still,
But first you must learn how to smile as you kill,
If you want to be like the folks on the hill,
A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
If you want to be a hero well just follow me,
If you want to be a hero well just follow me.
Working class hero saiu no disco de John Lennon e a Plastic Ono Band, em 1971.
O fucking da letra causou polêmica. A EMI-Odeon entrou em acordo com Lennon e permitiu que ele cantasse que o operário estava fodido, mesmo, mas, no encarte, o palavrão foi limado e saiu o velho asterisco (f***), ícone da hipocrisia gráfica. Os mais antigos se lembram da entrevista de Leila Diniz ao Pasquim, na década de 60. Ali o asterisco teve seu momento de glória.
De passagem, vi trecho do programa “O assunto é música”, do Multishow. O tema era John Lennon e comentava-se a atitude da gravadora, na época. O tom era de desaprovação à censura. Há, então, um corte para Lennon cantando WCH. As legendas apresentam a letra para os monoglotas e quem aparece, faceiro, é o ancião asterisco. Fodido ainda choca em 2009.
Meu relacionamento com palavrões sempre foi pacífico. Falo muitos deles. E escrevo-os, também. Tive uma tia que os falava com elegância. Conheço gente que me causa repugnância ao mencionar um singelo merda.
Não chego na casa de ninguém falando palavrões. Não posso exigir que outros tenham alcançado o nível evolutivo a que cheguei. Guardo os bons palavrões para usar entre amigos ou com gente não melindrosa. Ah, que horror guardo de melindrosos!
Em textos que escrevo, uso-os quando acho necessário. E quando não acho, também.
quarta-feira, setembro 02, 2009
CAROCINHO
Ô Jão, você sabe que eu pegava. Nem dou nome das vadias que comi aqui no bairro. Ia sujar pra mim.
Comia na moral, Jão, no papo. Você sabe disso. Nunca paguei, nunca dei presente.
Jão, há um mês fazia isso. Trinta dias atrás.
Uma porra dum carocinho na garganta.
Nem me incomodava tanto. Ó como estou, Jão: careca, esquálido, destruído, destroçado, brocha.
Jão, quantas vezes você me viu andando lá pros lados do Nova América.
Você de carro e eu no trote.
Caraio, não consigo dar a volta no quarteirão.
Um carocinho tá me arrebentando, Jão.
Um porrão de remédios. Todo dia no hospital. Espero, espero, espero... Me confundo com os comprimidos. A cabeça vazia. Vomito, vomito... Cago, cago... Um carocinho, Jão.
Jão, há um mês pegava geral. Tô com 60 e cansei de passar meninas de 20.
Tudo no papo. Só pau. Hoje, o pau não levanta.
Um carocinho.
Jão, ainda tem três meses de tratamento. Sou um trapo depois de um mês. Daqui a três serei um resto de homem, morto.
Por causa de um carocinho.
Comia na moral, Jão, no papo. Você sabe disso. Nunca paguei, nunca dei presente.
Jão, há um mês fazia isso. Trinta dias atrás.
Uma porra dum carocinho na garganta.
Nem me incomodava tanto. Ó como estou, Jão: careca, esquálido, destruído, destroçado, brocha.
Jão, quantas vezes você me viu andando lá pros lados do Nova América.
Você de carro e eu no trote.
Caraio, não consigo dar a volta no quarteirão.
Um carocinho tá me arrebentando, Jão.
Um porrão de remédios. Todo dia no hospital. Espero, espero, espero... Me confundo com os comprimidos. A cabeça vazia. Vomito, vomito... Cago, cago... Um carocinho, Jão.
Jão, há um mês pegava geral. Tô com 60 e cansei de passar meninas de 20.
Tudo no papo. Só pau. Hoje, o pau não levanta.
Um carocinho.
Jão, ainda tem três meses de tratamento. Sou um trapo depois de um mês. Daqui a três serei um resto de homem, morto.
Por causa de um carocinho.
sábado, agosto 29, 2009
UM CÃO QUE GOSTA DE SANGUE
Na televisão, vai começar o clássico Flamengo e Santo André.
Eu, Biriba, Salu e Osório morremos em 15 pratas cada para pagar o peiperviu. A casa era a minha; salgados e geladas os companheiros trouxeram.
– Gordo, todo mundo da GatoNet tá vendo esse jogo 0800. Você morre em 200 contos todo mês pra SKY e ainda temos de pagar pra ver o Mengão?
– Todo mundo, não, Biriba. Se vocês tivessem gato não estaríamos aqui.
– Gordo, esse teu cachorro é fuderoso de chato, não para de latir.
– Não fode, Osório, o cão é residente. Se eu fechar a janela ele silencia, mas aí tem calor, gripe suína, futum... Em vez de falar merda, pega lá umas geladas.
Na telona, o Mengão entra em campo para mais uma lambada. A campainha da porta toca.
– Gordo vacilão, não desligou essa bosta?
– Desliguei os telefones, caraio, a porta, não.
Porta aberta, uma mulher bufa e o cão late.
– O senhor tem de tomar conta desse seu cachorro.
– Minha senhora, desentendi. O cachorro está aqui dentro, preso.
Salu, um babaca, mandou:
– E atrapalhando. Não para de latir.
Deu a deixa pra jamanta.
– Esses latidos assustaram minha filhinha. Ela chegou em casa chorando. Está até agora soluçando.
– Quero, então, me desculpar com a senhora. Tomarei providências para que isso não volte a acontecer.
Fui educadíssimo, muito mais do que sou usualmente. Afinal, o Mengão estava em campo, meus 15 merréis na SKY, as geladas esquentando e os salgadinhos esfriando.
– Eu moro aqui há três meses e sempre me assusto com seu cachorro. Ele não deveria ficar na janela. Minha filhinha se desmanchando, só penso nisso.
Salu entreabriu a porta e provocou:
– Gordo, o Flamengo tá jogando um bolão. O Santo André não passou do meio do campo.
– Estamos acertados, minha senhora? Vou tomar providências.
– A providência que o senhor tem de tomar é proibir o cão de vir na janela.
– Madame, todo mundo sabe que essa porra de cachorro late, a janela tem grade...
– O senhor está sendo grosso.
– GOOOOLLL!!! Golaço, Gordo. Denis Marques.
– Madame...
– Minha filha não vai mais chorar por causa desse cachorro.
– Sua filha é a Sasha? Porra, a gente vive num bairro em que ouvimos tiros o dia todo e funk madrugada adentro. Essa criança lesada se assusta com latido.
– O senhor me respeite...
– Gordo, Gordo, o Zé Roberto tá jogando o fino. Tá perdendo...
– O senhor tem de me garantir que o cachorro não vem mais na janela. Se não, fico aqui.
– A senhora tem bom preparo físico?
– O quê?
– Biriba, solta o cachorro.
A mulher era pesada, mas rápida. Até onde vi o cachorro não a tinha abocanhado.
Entrei e ainda vi Zé Roberto sofrendo o pênalti que Leo Moura transformaria no segundo gol do meu Mengão.
Eu, Biriba, Salu e Osório morremos em 15 pratas cada para pagar o peiperviu. A casa era a minha; salgados e geladas os companheiros trouxeram.
– Gordo, todo mundo da GatoNet tá vendo esse jogo 0800. Você morre em 200 contos todo mês pra SKY e ainda temos de pagar pra ver o Mengão?
– Todo mundo, não, Biriba. Se vocês tivessem gato não estaríamos aqui.
– Gordo, esse teu cachorro é fuderoso de chato, não para de latir.
– Não fode, Osório, o cão é residente. Se eu fechar a janela ele silencia, mas aí tem calor, gripe suína, futum... Em vez de falar merda, pega lá umas geladas.
Na telona, o Mengão entra em campo para mais uma lambada. A campainha da porta toca.
– Gordo vacilão, não desligou essa bosta?
– Desliguei os telefones, caraio, a porta, não.
Porta aberta, uma mulher bufa e o cão late.
– O senhor tem de tomar conta desse seu cachorro.
– Minha senhora, desentendi. O cachorro está aqui dentro, preso.
Salu, um babaca, mandou:
– E atrapalhando. Não para de latir.
Deu a deixa pra jamanta.
– Esses latidos assustaram minha filhinha. Ela chegou em casa chorando. Está até agora soluçando.
– Quero, então, me desculpar com a senhora. Tomarei providências para que isso não volte a acontecer.
Fui educadíssimo, muito mais do que sou usualmente. Afinal, o Mengão estava em campo, meus 15 merréis na SKY, as geladas esquentando e os salgadinhos esfriando.
– Eu moro aqui há três meses e sempre me assusto com seu cachorro. Ele não deveria ficar na janela. Minha filhinha se desmanchando, só penso nisso.
Salu entreabriu a porta e provocou:
– Gordo, o Flamengo tá jogando um bolão. O Santo André não passou do meio do campo.
– Estamos acertados, minha senhora? Vou tomar providências.
– A providência que o senhor tem de tomar é proibir o cão de vir na janela.
– Madame, todo mundo sabe que essa porra de cachorro late, a janela tem grade...
– O senhor está sendo grosso.
– GOOOOLLL!!! Golaço, Gordo. Denis Marques.
– Madame...
– Minha filha não vai mais chorar por causa desse cachorro.
– Sua filha é a Sasha? Porra, a gente vive num bairro em que ouvimos tiros o dia todo e funk madrugada adentro. Essa criança lesada se assusta com latido.
– O senhor me respeite...
– Gordo, Gordo, o Zé Roberto tá jogando o fino. Tá perdendo...
– O senhor tem de me garantir que o cachorro não vem mais na janela. Se não, fico aqui.
– A senhora tem bom preparo físico?
– O quê?
– Biriba, solta o cachorro.
A mulher era pesada, mas rápida. Até onde vi o cachorro não a tinha abocanhado.
Entrei e ainda vi Zé Roberto sofrendo o pênalti que Leo Moura transformaria no segundo gol do meu Mengão.
quinta-feira, agosto 27, 2009
MEMÓRIA LIBIDINOSA

Nada mais poderoso do que a memória libidinosa.Livros e bons filmes, passados alguns meses, esqueço.
Mas a sacanagem e a libidinagem apreendidas na remota adolescência são inesquecíveis.
Baixei pelo Dreamule o "clássico" de Salvatore Samperi, Peccato veniale. Vi o filme há 40 anos, num poeira onde hoje está o Sambola, na Av. Suburbana.
Ver é força de expressão. Devorei-o.
Naqueles bons tempos podia-se entrar no cinema às duas da tarde e sair à meia-noite, depois de ver várias sessões do mesmo filme. Pecado venial assisti em várias sessões e em diversos dias. Tudo por causa de Laura Antonelli.
Minha mãe era leitora de fotonovelas. Amaioria era italiana. História com Laura Antonelli eu não perdia. Lia a Grande Hotel, que saía aos sábados, antes de minha santa mãezinha, no banheiro, homenageando a bela Antonelli.
Quando vi Laura Antonelli em tela grande, pedi aos poderes celestes que jamais permitissem que a encontrasse em pessoa. Tenho certeza que sucumbiria diante dela. Morreria chorando e rindo, feliz.
O Dreamule baixou quatro versões de Pecado venial.
Minha mãe era leitora de fotonovelas. Amaioria era italiana. História com Laura Antonelli eu não perdia. Lia a Grande Hotel, que saía aos sábados, antes de minha santa mãezinha, no banheiro, homenageando a bela Antonelli.
Quando vi Laura Antonelli em tela grande, pedi aos poderes celestes que jamais permitissem que a encontrasse em pessoa. Tenho certeza que sucumbiria diante dela. Morreria chorando e rindo, feliz.
O Dreamule baixou quatro versões de Pecado venial.
Logo na primeira cena de sacanagem, percebi um pequeno corte. Alessandro Momo, o garoto sacana que papará a cunhada no final, lava o cabelo de Laura. A cena original mostra parte dos seios da deusa. Nesta, a cena está cortada.
Na segunda versão, a artística cena dentro do cinema em que o menino safado força a mão nas coxas da cunhada é mutilada. Não aparece a cunhadinha dando livre acesso às mãos do molequinho.
A terceira versão, com legendas em sei lá qual idioma, estava completíssima. Vi, 40 anos depois, o pivete traçar Laura Antonelli em alto estilo. Não tive esse prazer há 40 anos porque o filme teve a cena final cortada pela Ditadura Militar, da qual alguns babacas sentem saudade.
Minha memória pode não ser boa para muita coisa, mas descobri que sacanagem ela armazena muito bem.
Na segunda versão, a artística cena dentro do cinema em que o menino safado força a mão nas coxas da cunhada é mutilada. Não aparece a cunhadinha dando livre acesso às mãos do molequinho.
A terceira versão, com legendas em sei lá qual idioma, estava completíssima. Vi, 40 anos depois, o pivete traçar Laura Antonelli em alto estilo. Não tive esse prazer há 40 anos porque o filme teve a cena final cortada pela Ditadura Militar, da qual alguns babacas sentem saudade.
Minha memória pode não ser boa para muita coisa, mas descobri que sacanagem ela armazena muito bem.
Alessandro Momo morreu um ou dois anos depois de Peccato veniale. Anteriormente, fizera Malizia, também com Laura Antonelli. Partiu feliz.
PAI DOS BURROS
quarta-feira, agosto 26, 2009
segunda-feira, agosto 24, 2009
Perereca, Deputado e dr. Cascatinha
Não sei se por haver tanta gente morando nas ruas, ficaram invisíveis alguns tipos folclóricos que sempre povoaram os bairros cariocas.
Na década de 60, morava no Grajaú, e por lá flanava a desbocada Perereca. Velha, alcoólatra, molambenta e constantemente provocada pela molecada. “Pudim de cachaça!”, gritava a criançada. “É a puta que os pariu, bando de veados”, esbravejava a cachaceira. Jamais soubemos de onde ela veio nem para onde foi.
Na Praça Seca, o Deputado discursava horas seguidas. O que dizia era ininteligível. Negro, magro e sempre de botas desancava o governo militar com vigor. Durante toda a década de 70 o vi na Praça, fazendo discursos incendiando alguém.
A última dessas figuras bizarras que conheci foi Demetrio, o dr. Cascatinha. Diferentemente de Perereca e do Deputado, Cascatinha gostava de conversar. Negro, estatura média, trajava sempre ternos gastos pelo uso. “Fui diretor de multinacional, hoje, vivo na rua por opção. Ganhei tanto dinheiro que resolvi experimentar como é a vida dos que nada têm”, dizia Demetrio. Mentia tanto que virou Cascatinha.
“Fui perseguido pela ditadura. Joguei muitos coquetéis molotófis em tanques do Exército”. Não resistíamos: “Demetrio, coquetel molotófi é feito com bala Toffee?” Ele, ar apalermado, já estava tratando de outro assunto: “Pouca gente sabe, mas a Fiat só emplacou no Brasil graças a mim. Os mais velhos lembram que havia um problema no motor do Fiat 147. Me chamaram pra resolver. Eu resolvi.”
Essas figuras fazem falta nas ruas do Rio. Eu me sentava, na Praça Seca, para ouvir o Deputado falar. Quem era aquele homem? Por que tanto ódio do regime militar? Loucura é descontrole fascinante.
Demetrio, que me disse uma vez ter outro nome, quando incorporava o dr. Cascatinha, nos divertia: “Recebi uma carta de George Bush”, falava, mostrava um envelope todo amassado e fazia suspense, esperando que perguntássemos qualquer coisa. “Mas o que o presidente dos Estados Unidos quer com você?”, o satisfazíamos. “Ele sabe que sou muito chegado ao primeiro-ministro Tony Blair. Conheci Tony em uma temporada que passei em Londres, aperfeiçoando meu Inglês e corrigindo os rumos de uma empresa que dirigia. O fato é que George quer que eu use minha influência para convencer Tony a apoiá-lo na invasão ao Iraque”. Nessas horas, juro, se o que Cascatinha dizia não fosse tão absurdo, eu acreditaria. Ele era um mentiroso convincente e, repentinamente, passei a olhá-lo de forma diferente.
Muitos dos que o ouviam, diziam: “Vai ver tem um fundo de verdade no que ele diz”.
Perereca e o Deputado morreram.
O dr. Cascatinha está por aí, contando suas lorotas. Espantoso é que há os que acreditam em suas histórias.
Na década de 60, morava no Grajaú, e por lá flanava a desbocada Perereca. Velha, alcoólatra, molambenta e constantemente provocada pela molecada. “Pudim de cachaça!”, gritava a criançada. “É a puta que os pariu, bando de veados”, esbravejava a cachaceira. Jamais soubemos de onde ela veio nem para onde foi.
Na Praça Seca, o Deputado discursava horas seguidas. O que dizia era ininteligível. Negro, magro e sempre de botas desancava o governo militar com vigor. Durante toda a década de 70 o vi na Praça, fazendo discursos incendiando alguém.
A última dessas figuras bizarras que conheci foi Demetrio, o dr. Cascatinha. Diferentemente de Perereca e do Deputado, Cascatinha gostava de conversar. Negro, estatura média, trajava sempre ternos gastos pelo uso. “Fui diretor de multinacional, hoje, vivo na rua por opção. Ganhei tanto dinheiro que resolvi experimentar como é a vida dos que nada têm”, dizia Demetrio. Mentia tanto que virou Cascatinha.
“Fui perseguido pela ditadura. Joguei muitos coquetéis molotófis em tanques do Exército”. Não resistíamos: “Demetrio, coquetel molotófi é feito com bala Toffee?” Ele, ar apalermado, já estava tratando de outro assunto: “Pouca gente sabe, mas a Fiat só emplacou no Brasil graças a mim. Os mais velhos lembram que havia um problema no motor do Fiat 147. Me chamaram pra resolver. Eu resolvi.”
Essas figuras fazem falta nas ruas do Rio. Eu me sentava, na Praça Seca, para ouvir o Deputado falar. Quem era aquele homem? Por que tanto ódio do regime militar? Loucura é descontrole fascinante.
Demetrio, que me disse uma vez ter outro nome, quando incorporava o dr. Cascatinha, nos divertia: “Recebi uma carta de George Bush”, falava, mostrava um envelope todo amassado e fazia suspense, esperando que perguntássemos qualquer coisa. “Mas o que o presidente dos Estados Unidos quer com você?”, o satisfazíamos. “Ele sabe que sou muito chegado ao primeiro-ministro Tony Blair. Conheci Tony em uma temporada que passei em Londres, aperfeiçoando meu Inglês e corrigindo os rumos de uma empresa que dirigia. O fato é que George quer que eu use minha influência para convencer Tony a apoiá-lo na invasão ao Iraque”. Nessas horas, juro, se o que Cascatinha dizia não fosse tão absurdo, eu acreditaria. Ele era um mentiroso convincente e, repentinamente, passei a olhá-lo de forma diferente.
Muitos dos que o ouviam, diziam: “Vai ver tem um fundo de verdade no que ele diz”.
Perereca e o Deputado morreram.
O dr. Cascatinha está por aí, contando suas lorotas. Espantoso é que há os que acreditam em suas histórias.
terça-feira, agosto 18, 2009
MISTÉRIO
Sonho é mistério.
Aos 20 anos parei de fumar.
Passei a ter um sonho recorrente: estava sempre fumando sobre o viaduto de Madureira ou uma passarela da Av. Brasil. Acordava duas vezes irado: por ter voltado a fumar e pelos péssimos locais escolhidos para a transgressão. Além da ira, me vinha um sentimento de impotência. Sucumbira ao cigarro.
Despertava, percebia que havia apenas sonhado. Vinha o alívio.
Há 35 anos parei de fumar.
Três dias atrás sonhei que estava fumando dentro de um bar em São Paulo e, por causa disso, entrava em uma briga com os homens da lei. O mau gosto pelos locais onde fumo em meus sonhos continua. São Paulo, arghhhh!!!! Mas não acordei emputecido nem com sentimento de culpa. Senti-me uma espécie de guerreiro de uma minoria oprimida.
Estranho.
Aos 20 anos parei de fumar.
Passei a ter um sonho recorrente: estava sempre fumando sobre o viaduto de Madureira ou uma passarela da Av. Brasil. Acordava duas vezes irado: por ter voltado a fumar e pelos péssimos locais escolhidos para a transgressão. Além da ira, me vinha um sentimento de impotência. Sucumbira ao cigarro.
Despertava, percebia que havia apenas sonhado. Vinha o alívio.
Há 35 anos parei de fumar.
Três dias atrás sonhei que estava fumando dentro de um bar em São Paulo e, por causa disso, entrava em uma briga com os homens da lei. O mau gosto pelos locais onde fumo em meus sonhos continua. São Paulo, arghhhh!!!! Mas não acordei emputecido nem com sentimento de culpa. Senti-me uma espécie de guerreiro de uma minoria oprimida.
Estranho.
sábado, agosto 15, 2009
SOMBRA
Cansamos de avisar a Lindinha, com risco de nossas vidas, que o Jeremias era rabo de foguete. Para mim ela dizia, fiada no parentesco: “Tio, você vê perigo em tudo”.
A molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Jeremias se era verdade o que dizíamos, deixamos rolar.
Nem com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de a covardia ser comum diante de um matador.
Bom, o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do matador. Aos domingos, quando dava, Jeremias almoçava na casa de meu irmão. Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher, “Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer. Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu na lábia do Jeremias...
Meu irmão ligou pra mim me perguntando se podia acolher Lindinha. Ela não queria saber mais do Jeremias e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem gente daí que sabe que estou aqui. É bom vocês saírem daí. Vão pra casa dos primos, em Natal”.
Em Natal, Lindinha até voltou a estudar.
O Jeremias tocou o terror lá em casa, mas consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Se temos parentes em outras cidades? Não, não temos”.
Antes de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O mano ficou um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para onde ia.
Jeremias foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha família passar, agora era crente e só tinha amor no coração. O desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a família, que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares, daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que o cara tinha virado crente, mesmo.
Duas semanas depois abri o jornal e dei de cara com uma foto de Jeremias, morto. A mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.
A molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Jeremias se era verdade o que dizíamos, deixamos rolar.
Nem com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de a covardia ser comum diante de um matador.
Bom, o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do matador. Aos domingos, quando dava, Jeremias almoçava na casa de meu irmão. Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher, “Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer. Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu na lábia do Jeremias...
Meu irmão ligou pra mim me perguntando se podia acolher Lindinha. Ela não queria saber mais do Jeremias e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem gente daí que sabe que estou aqui. É bom vocês saírem daí. Vão pra casa dos primos, em Natal”.
Em Natal, Lindinha até voltou a estudar.
O Jeremias tocou o terror lá em casa, mas consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Se temos parentes em outras cidades? Não, não temos”.
Antes de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O mano ficou um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para onde ia.
Jeremias foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha família passar, agora era crente e só tinha amor no coração. O desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a família, que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares, daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que o cara tinha virado crente, mesmo.
Duas semanas depois abri o jornal e dei de cara com uma foto de Jeremias, morto. A mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.
Maracutaia
Assisti no Jornal da Globo e não guardei detalhes, mas a história é a seguinte: “Um belo dia, caiu na conta de um aposentado uma montoeira de grana. O suficiente para comprar o passe de Kaká e, com o troco, uma dúzia de Ferraris. O aposentado foi ao Banco do Brasil (só podia ser) e disse que o dinheiro não era dele.”
Mais de 10 anos se passaram e a grana ainda está lá. O aposentado já foi jogar buraco no céu dos idosos e a família, aflita, tenta meter a mão na bufunfa.
Ficarei alerta. Se um dia der uma sorte dessas, vou chupar o dindim aos pouquinhos. Está claro que esse pepê veio de uma maracutaia qualquer.
Mais de 10 anos se passaram e a grana ainda está lá. O aposentado já foi jogar buraco no céu dos idosos e a família, aflita, tenta meter a mão na bufunfa.
Ficarei alerta. Se um dia der uma sorte dessas, vou chupar o dindim aos pouquinhos. Está claro que esse pepê veio de uma maracutaia qualquer.
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