domingo, novembro 06, 2005

Luz e Trevas



Em foto, os dois líderes maiores dos Maçons Espada.
É raríssimo o encontro dos dois mestres supremos da, talvez, sociedade mais secreta do país.
A origem deste grupo que vive nos subterrâneos do subúrbio leopoldinense remonta ao final do século passado.
Em 2003, houve a primeira cisão dos espadas, com a saída de Tutuco que, parece, não era tão espada assim.
Os Maçons Espadas não têm sinais e palavras secretas.
É Trevas quem diz: “Não somos homofóbicos mas evitamos ser confundidos com pederastas”.

sábado, novembro 05, 2005

Bezerra da Silva, o grande

Adolescentes são folgados e eu gosto de usar bonés, por causa disso, noutro dia, na rua, um moleque passou por mim e disse:
– Tudo bem, Bezerra.
A referência era a Bezerra da Silva, o falecido sambista. O boné na minha cabeça era parecido com um dos que o cantor costumava usar. Interiormente, achei graça. Mas, pra não perder a pose, mandei de volta: “Mais ou menos, babaca”.
Adolescentes são folgados. Na maioria das vezes, meio estúpidos, mas não tanto a ponto de sacanear alguém desconhecido, 140kg de puro músculo e 1,80m. A não ser que...
Adolescentes são folgados e andam em bando. São como gnus: covardes, desajeitados e perigosos.
Cercaram-me, encheram-me de porrada e ainda disseram que eu apanhei porque tinha mexido com uma menina do bando.
Estropiado, ainda ouvi uma senhora dizer:
– Esse pessoal do samba não respeita ninguém.

terça-feira, outubro 11, 2005

Beleza eterna - Ava Gardner

A fila

Primeiramente, uma explicação para quem não é carioca ou, sendo, possui automóvel e não precisa se misturar com a ralé.
No Rio, há algum tempo, o idoso tinha reservado para ele alguns lugares nos ônibus, antes da roleta. Cada ônibus levava 5 vovôs, no máximo.
Com o advento do cartão magnético, os da feliz idade sentam-se junto com os outros passageiros. Tudo isso para explicar a confusão que vi ontem.


– Esses velhos são muito folgados. Por que não entram na fila, como todo mundo?
– Nós temos precedência, minha filha. A lei nos garante isso.
– A lei garante que a senhora viaje de graça e não furando fila.
– Menina, eu tenho 75 anos. Me respeite.
– A senhora não se dá ao respeito. Entra no final da fila. Eu estou contando. Enquanto o ônibus não vem, a senhora é a sétima velha que entra na minha frente. É muita malandragem.
– Malandragem... Trabalhei minha vida inteira para ouvir uma desocupada me chamar de malandra. Daqui a pouco vou ser agredida por fazer valer meus direitos.
– Vovó, o que o resto da fila vai fazer eu não sei, mas a senhora, na minha frente, não entra.
E não entrou mesmo.

Oi e Telemar: é fácir odiar.

Oi não é celular, eles mesmos dizem. O que será, então?
Depois de 25 dias, consegui passar o meu telemóvel pós-pago para pré-pago.
Imagino que esta seja uma operação de grande complexidade, por isso agradeço aqui neste concorrido espaço aos operosos funcionários da Oi que, junto comigo (afinal foram 23h27min de ligações), lograram êxito na árdua empreitada.
Grato: Luciana, Miro, Vânia, Luci, Mila, Antonio, Graça, Ana, Rafael, Jurandir, Carla, Otávio, Elcio, Mara, Denise e Otto. Não publico os respectivos números de ocorrência por julgar desnecessário, mas, creiam, vocês estarão para sempre em meu coração.
Sim, tenho de dizer que o telemóvel está funcionando direitinho.

sexta-feira, setembro 23, 2005

O gás

O Metrô do Rio de Janeiro tem lugares disponíveis para idosos, deficientes físicos, grávidas e mães (e pais) com crianças de colo.
Um erro de projeto na construção dos vagões do Metrê, no entanto, tem prejudicado esta população que, por isso, não exerce plenamente seu direito.
Os bancos destinados a estes passageiros especiais, logo que tocado por uma bunda de passageiro comum, desprendem um gás que provoca sono intenso no dono da bunda mencionada.
O que vemos, então, é um espetáculo bizarro: pernetas, buchudas, caquéticos e nenezinhos em pé, imprensados, e nos bancos destinados a estes desgraçados, infelizes vítimas do gás do sono roncam de prazer.
Ainda bem que o efeito do gás é temporário. Assim que chegam a sua estação de destino, os dorminhocos acordam milagrosamente.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Poderosas DESTINY'S CHILD

Adolescentinha

A adolescentinha subia as escadas preocupada. Com as duas mãos, juntava a saia às coxas.
Alguns metros atrás, Sátiro, atento, observava.
A jovenzinha, cuidadosa, olhou em volta para ver se alguém, aproveitando-se de eventual desatenção, tentava pelo menos vislumbrar o tesouro que escondia.
Sátiro olhou-a com cupidez. Deixou claro que estava ali para ver.
Assustada, a menina apertou o passo e desapareceu, veloz como só as adolescentinhas sabem ser.

O jegue mamador

Severino viveu 40 anos à sombra.
Ali, mamava leite bom, cremoso.
Quietinho, só morto teria deixado a suculenta teta.
Quis vir à luz.
Comer louras coxudas às claras.
Mostrar pros conterrâneos a vitória do jumento.
O jegue volta às trevas.
Mas acumulou muito leite nessas quatro décadas.
E, quem sabe, volta pra mamar mais um pouquinho nas próximas eleições.

Intelectuais

Rubem Fonseca, o escritor, e meu cunhado têm pelo menos uma coisa em comum: assistem a um filme por dia.
Todos os dias, o irmão de minha amada vê com atenção a Sessão da Tarde da Globo.

terça-feira, setembro 20, 2005

Recordar é viver - LAURA ANTONELLI

Loucura

Calote

– .......
– Alô!
– Panificação Dois Irmãos....
– Gostaria de falar com o senhor Adamastor Pessanha.
– Não tem ninguém aqui com esse nome.
– Mas eu já falei com ele nesse número.
– Este número é de uma padaria e não temos funcionários com esse nome.
– Seu Adamastor, é o senhor, não é? Fale comigo, nós podemos chegar a um acordo.
– Minha senhora, vou desligar, a padaria está cheia. Não tem nenhum Nestor aqui.
– Adamastor...

– ......
– Bom dia, o senhor Adamastor, por favor.
– Açougue Três Corações, a seu dispor.

terça-feira, setembro 13, 2005

O jumento

Severino, o jumento que preside a Cãmara, defendeu-se de uma das várias acusações que sofreu dizendo não ser maconheiro nem homossexual.
Eu também não.
Ele se considera digno por isso.
Eu não, mas sou humano, naturalmente corrompido.
Ele é uma cavalgadura.
Cavalgaduras são sempre inocentes, a não ser que queimem rosquinha ou um baseado.

Herói

– Não segura minha mão, se não te dou porrada.
(Ele vai bater na mulher e ela está grávida. Eu tenho de fazer alguma coisa. Preciso intervir.)
– Você é um covarde. Só bate em mulher. Veado, veado...
(Pode ser que fique só na discussão. Ele pode estar armado. Eu não tenho o hábito de brigar.)
– Veado, não. Quem é que te fez esse filho, sua vagabunda?
(Esse camarada é um animal e ela é bonita. Acho que se eu chamá-lo à razão...)
– Tá muito certo que foi você, né, mané?
(Cacete, ele deu um soco na cara dela. Será que ninguém intervirá? Ai, outro soco. Meu Deus, ela caiu. Deixa eu apressar o passo. Ela deve saber porque está apanhando.)

O ganho

– Sebá, tá voltando do batente?
– Tô morto. Virar laje é fó.
– Pensou naquela parada?
– Me põe na fita? Se cê me pô, tô dentro.
– Cê vai ficar no alto da passarela. Se tiver limpeza, dá um sinal com o boné.
– Ó...
– Quando a gente parar o carro no tiro, cê puxa.
– Falô
– Te dou 50, tá legal?
– Se tá. É três dias virando laje.

quarta-feira, agosto 31, 2005

A barraqueira

Almerinda
É a quarta vez que trago meu carro aqui. A borracha não está emborrachada. Fala sério, vocês são uns incompetentes.

Atílio, o lanterneiro
D. Almerinda, há três semanas a senhora vem aqui todos os dias reclamar do conserto de seu carro. Ninguém mais sabe o que fazer.

Almerinda
A borracha não está emborrachada. A pintura do pára-lama está diferente do resto do carro. Olhando assim não dá pra ver, mas com uma lupa possante, percebe-se.

Atílio
O dr. Gonzaga, nosso diretor do setor de emborrachados, está descendo para examinar a borracha de seu carro. Chamei também o Carlinhos Olho-de-Lince para ver se é fato que o pára-lama está pintado em um tom de verde diferente.

Almerinda
Aproveite e chame alguém para ver o rádio. Depois que ele saiu daqui só as estações ímpares estão funcionando.

Atílio
D. Almerinda, nós não mexemos no rádio. Mas, tudo bem, eu vou pedir ao RCA Victor para vir até aqui, também.

Almerinda
Vocês estão me fazendo perder dinheiro. Sou barraqueira. Uso meu carro para levar as barracas para os clientes.

Atílio
Então, estão explicados os arranhões no teto do carro. São as barracas.

Almerinda
Sou barraqueira profissional. Forro muito bem o teto do carro. Dentro do carro levo as barracas pequenas, feitas por minha filha, Almerindinha, que é barraqueirinha.

Atílio
O dr. Gonzaga está chegando.

Dr. Gonzaga
Atílio, você ainda não resolveu o problema de nossa querida barraqueira?

Almerinda
Vamos combinar, dr. Gonzaga, esse Atílio é um zé-mané. Além dos reparos, vou querer quatro pneus novos. Só de vir até aqui eles estão ficando carecas.

Dr. Gonzaga
Atílio, libere aquele Meriva 0km para d. Almerinda.

Atílio
Mas....

Dr. Gonzaga
É isso mesmo. A gente fica com o carro dela e ela leva o Meriva. Mande o Alexandre providenciar os papéis.

Almerinda
Qual é o carro, dr. Gonzaga?

Dr. Gonzaga
Esse prata metálico, superluxo. Tração nas quatro rodas, computador de bordo, hélices que o transformam em um pequeno helicóptero, motor de submersão que faz dele um micro-submarino. Funciona com cinco combustíveis: álcool, gasolina, gás, eletricidade e água.
Satisfeita, d. Almerinda?

Almerinda
É, melhorou, mas tem essa manchinha aqui embaixo do farol.