terça-feira, junho 12, 2012
QUE FATOS?
A leitura de jornais e revistas já não nos permite ter visão clara de um fato. “Contra fatos não há argumentos”, diziam os antigos. Que fatos? Peguemos como exemplo a história de Gilmar Mendes e Lula. Em VEJA, Lula é o vilão e Mendes, o mocinho. CARTA CAPITAL apresenta Mendes como o pilantra e Lula é o estadista sério. As duas apresentam argumentos para defender suas teses. Obviamente, qualquer fato (ou versão de fato) que surgir para contrariar as teses defendidas será escamoteado.
Eu, leitor, decidi. Não assino mais nenhuma revista semanal (a internet me fornece informação suficiente). Jornal, só compro na banca. No Rio de Janeiro, O Globo, por absoluta falta de opção.
Sempre gosto de tomar partido. Vou fazê-lo por simpatia.
Não vou com os cornos do José Dirceu. Sou contra ele.
Tenho ojeriza a Lula e Gilmar Mendes. Quero que os dois se fodam.
Entre o japonês e a loura, fico com a loura. Japoneses são irritantes.
Fatos não interessam a mais ninguém. São manipulados, segundo o interesse de quem os divulga. Noticiários, no passado, preocupavam-se em pelo menos parecer isentos. Hoje, jornais e revistas são extensos editoriais.
segunda-feira, junho 11, 2012
domingo, junho 10, 2012
HISTERIA & FLAGELO
Há muitos anos, o apresentador Nei Gonçalves Dias recebeu a então atriz infantil Natália Lage em seu programa de TV. Recordo-me que, em determinado momento, ele a pôs sentada sobre a perna e, naturalmente, lhe fez algumas perguntas. Natália tinha 10, 11 anos. Hoje, isso seria impensável.
Os tempos mudaram. Sempre fico em dúvida se para melhor ou pior. Não me aproximo de crianças. Converso com meninos e meninas quando eles tomam a iniciativa e sempre mantenho distância. Paranoia? Pode ser.
Depois das declarações de Xuxa ao Fantástico e a inevitável repercussão do que disse (“Fui abusada algumas vezes quando criança.”), mais do que dobrou o número de denúncias de casos de abuso sexual infantil o que é bom para lançar luz sobre homens e mulheres abusadores. Abusadores são próximos das crianças de que se aproveitam. Isso é fato comprovado por pesquisas sérias. (Revista VEJA: 97% dos casos o agressor convive com a criança; em 38% dos casos os pais são os abusadores, em 29%, os padrastos; 64% das vítimas são meninas; a maioria sofre abuso entre 6 e 10 anos; a violência persiste, em média, por 1 ano; 77% das crianças ficam severamente traumatizadas.)
O grande perigo que vejo é um gesto de carinho ser confundido com tentativa de abuso. Acredite, acontece. Crianças são, quase sempre, carinhosas. Aproximam-se, abraçam, beijam. Crianças latinas são assim. Quando acontece comigo procuro, delicadamente, afastar a criança. Não serei eu que vou destruir a espontaneidade da criança. Destruir os filhos é função dos pais.
O que o adulto deve fazer é evitar qualquer situação que o deixe à mercê de interpretações equivocadas. Estamos em momento de quase histeria. Eu mesmo já me peguei olhando com desconfiança para homens muito carinhosos com seus filhos. O abuso de crianças é um crime odioso, mas o medo de pais demonstrarem amor por seus filhos, temendo ser malcompreendidos, terá consequências desastrosas.
É inteligente adultos só se aproximarem de crianças sob a supervisão de seus pais. Os pais não devem se furtar de oferecerem a seus filhos muito carinho. São raríssimos os casos de a criança ser abusada por pai e mãe, simultaneamente. Basta, então, os pais prestarem bastante atenção em seus filhos e em seu cônjuge para perceberem qualquer situação estranha.
Um caso que tomei conhecimento pelo Profissão: repórter, da Globo: A criança, em uma festa, apresenta um rapaz à mãe. O rapaz, professor universitário, se aproxima da mulher e os dois se envolvem “romanticamente”. Ele vai viver com ela e a filha. A mulher confia tanto nele que deixa a filha, várias vezes, sozinha com o cara. A menina dorme na cama do professor. A mãe sabia e achava natural. Quando a filha contou à mãe o que estava acontecendo, a mulher se desesperou.
O abuso de crianças é um flagelo, mas reagir histericamente a esses abusos pode ser pior. É uma cena linda ver um pai cobrir de beijos sua filha querida. Uma cena que, no futuro, talvez não vejamos mais.
sexta-feira, junho 08, 2012
ÁRVORES QUE GRITAM
Na década de 90, eu frequentava nobres residências cariocas. Em visita ao Príncipe do Jardim América, fui apresentado a um grupo de rock chamado Screaming Trees. O nababo pediu à criadagem que me servisse um farto banquete, enquanto ouvíamos o grupo na potente aparelhagem de som, que talvez não tivesse equivalente no Brasil. Saí da mansão do milionário com duas fitas cassetes com a música do Screaming Trees gravada.
Lembro-me disso porque ouço, agora, uns 20 anos depois, o novo cd de Mark Lanegan, Blues Funeral. Lanegan era a voz do Screaming. Nesses anos que se passaram adquiri toda a discografia do Screaming, quatro solos de Lanegan, três Lanegan/Isobel Campbell e muitas colaborações de Lanegan com diversos artistas em vários discos diferentes.
Uma tarde agradabilíssima com o bom amigo da alta roda carioca me fez conhecer um dos cantores que mais aprecio.
O FALADOR
18ºC. Frio na Serra. Sensação térmica por volta dos 10ºC. Ventos afiados. Cheguei na padaria lanhado. Fila grande, televisão ligada. A apresentadora lembrava o começo da campanha de vacinação contra a gripe. Um vizinho, agitadíssimo, berrava:
- Esse negócio de vacinação é pros pilantras meterem a mão.
Dois ou três prestaram atenção. O falador viu que tinha plateia, prosseguiu:
- A gente fica resfriado uma, duas vezes por ano, no máximo. Conheço meia-dúzia que tomou a vacina e ficou gripado. Febrão, cama. Isso é roubo. Aliás, aqui no Brasil é tudo roubo.
Uma senhora resolveu discordar:
- Também não é assim. Me vacinei ano passado e não me gripei. E, francamente, há muita corrupção no Brasil, mas nem todo mundo é corrupto.
O cara ganhou força:
- D. Olga, a senhora é uma pessoa boa, inocente, religiosíssima... Essa vacina é, sim, jogada de políticos e todos os políticos saqueiam o país. Quem entra quer se dar bem.
D. Olga, a senhora não tão inocente, aproveitou a bola levantada e cortou:
- Gerson, você já saiu candidato a vereador três vezes.
O indignado bambeou, mas não caiu:
- A senhora me conhece há muitos anos. Não pode duvidar de minha honestidade.
D. Olga era firmeza:
- Você disse que os que querem entrar para a política são corruptos. Você quer entrar para a política. Você é corrupto.
Antes de o ex-futuro político dizer qualquer coisa, um gaiato mandou lá do fim da fila:
- Gerson, reivindique seu direito constitucional de ficar calado. A coisa tá pegando pra você.
Gerson dirigiu-se pro fim da fila, pensei que pra tomar satisfações com o engraçadinho, mas, que nada, pegou foi o rumo de casa, pensando que, certamente, em algumas ocasiões o melhor que se faz é não falar.
domingo, maio 20, 2012
PERDÃO
Em 2006, escrevi o texto abaixo em post deste blog. O tempo passou e preciso dizer o que direi: Perdão, Dunga.
O GÊNIO E O CAPIAU
Atura-se um chefe incompetente e ignorante porque a alternativa, o desemprego, é pior.
Há um jogador de futebol que me faz sentar diante da tv para vê-lo jogar: Ronaldinho Gaúcho.Dunga, o medíocre, resolveu barrá-lo na Seleção. Os especialistas dizem que é pra mostrar quem manda no pedaço.Os mesmos especialistas afirmam que Gaúcho, na Seleção, não rende o mesmo que no Barcelona.Ronaldinho Gaúcho não precisa agüentar chefe medíocre.Não entendo por que não pede para que o esqueçam na Seleção e joga só pelo Barcelona, até o final de sua carreira.O artista deve apresentar-se para a platéia que quer assisti-lo.Deixe o capiau de gravata no bolso e o craque ucraniano dominarem a modalidade esportiva que tem semelhança com o futebol, mas futebol não é.
quinta-feira, abril 26, 2012
A GOSTOSA DO BAIRRO
Alfredo Medeiros chegara ao Bairro
há muitos anos. Aos 53, era casado com Lúcia, morena constantemente homenageada pela garotada do Bairro.
Não havia mulher mais gostosa do que ela. Não pra nós. Quarenta e poucos anos,
enlouquecia os espadas. Era atração turística.
Estava com Alfredo há 23 anos, casada há 21. Não sentia mais por ele
qualquer tipo de paixão. Movia-lhe o volúvel coração, muito de vez em quando,
carinho e respeito. Não tinha caído no mundo por causa das filhas. Para sacudir
a rotina, de tempos em tempos, se ligava em alguém. Namorava, saía, se
apaixonava, trepava, até que enjoava e voltava a viver seu papel de esposa.
Alfredo, corno manso, sabia das aventuras da mulher, mas se fazia de besta.
Alfredo conheceu Lúcia quando estava no esplendor da beleza. (Se
ela, no passado, conhecera o esplendor, em que estado vivia agora. Como aquela
deusa pudera ter sido mais bela?)
Alfredo, que nunca fora chegado a escolas de samba, atendeu o
convite de uns amigos e foi ao ensaio da agremiação do Bairro. Tinha ganhado
uma bolada no jogo do bicho e estava, qual um Romário, bancando a mesa dos
deitões. Lúcia chegou com um grupo. Não foi por dinheiro que ela se aproximou
dele. Ele logo disse que era motorista de ônibus e que a muita grana era só
aquela noite. Ela confessou depois a ele que, naquela noite, o que a
impressionara fora o pouco apego dele ao dinheiro. Alfredo convidou-a para irem
a um cinema, no dia seguinte. Ainda ouviu um moleque sacaneando sua rainha:
“Vai sair com o coroa?” Saíram aquela e muitas outras vezes. Um ano depois
estavam casados.
Quando Lúcia viu Alfredo pela primeira vez não se impressionou.
Estava com Manelzinho,
o fodão do Bairro. Era alucinada por ele. A homarada não entendia o segredo que
Manelzinho escondia. O velho humorista Zé Trindade diria: “Tem borogodó”. E
tinha mesmo. Já passara o taco nas mais cobiçadas buças do lugar. E parecia que
o comilão sabia que ia morrer cedo. Queria todas, ao mesmo tempo. Até que um
dia um marido pouco afeito a ornamentos o desencarnou à porrada. Mas isto é
outra história. O que nos interessa é que Lúcia estava de quatro pelo cara, mas
tinha dignidade. Cansou-se das chifradas. Sentou-se à mesa, começou o papo com
Alfredo e logo estava aceitando convite para ir ao cinema com o motorista.
Manelzinho era um livre trepador, estava pouco preocupado com
exclusividade, entendia que a qualquer momento teria a morena de volta.
Insistiu, cercou, atacou, mas nossa rainha resistiu. Não sem esforço, porque
louquinha para dar pro filho da puta ela estava, mas Alfredo era tão gente boa,
a tratava com tanta consideração. Não merecia que ela o sacaneasse. Não com o
galinha do Manelzinho. Foi fiel por cinco anos. Quando soube do assassinato de
Manelzinho, sentiu-se livre para experimentar outros cacetes. E experimentou.
terça-feira, abril 24, 2012
VOLANTE DE CONTENÇÃO
Aos 22 anos, tenho a sensação de ter vivido uma vida inteira. Uma
vida que não queria para mim. Nasci aqui no Bairro, na Rua de Baixo. Desde
moleque fui muito popular. Jogava pra cacete. Ainda jogo. Clássico, diziam os
coroas que me viam no campinho, na rua. Era volante. Volante de contenção. Os
expertos exigiam que fosse meia. Não fiquei no Botafogo por causa disso: o
técnico queria que jogasse mais avançado. Sou volante de contenção, cabeça de
área.
A beleza do futebol é o desarme. É tirar o pão da boca. É ver o babaca
do atacante achar que vai meter na rede e você, na moral, roubar-lhe a bola. A
diferença entre mim
e os manés é que eu não só tirava a bola como dava seguimento à jogada.
O desarme é jogada de excelência quando seguido por uma ligação
rápida com o ataque. Meu ídolo no futebol jamais chegou a um time grande, por
diversos motivos, o mais grave deles: o alcoolismo. Laudelino entornava. Era um Clodoaldo mamado.
Em um jogo no campo do Atlas, perto dos 40 anos, magérrimo, o vi fazer coisas
pelo Polígono, seu time, que, puta que pariu! Minha mãe, que me dava a maior
força, não entendia minha admiração: “Seu ídolo é um cachaceiro”. Bom, mãe não
entende porra nenhuma de futebol.
Sempre tive princípios. Sonhei jogar pelo meu Botafogo a vida toda.
O dinheiro que ganharia no clube seria mais do que suficiente. Volante, no
Botafogo, e casado com Marivone.
Não precisava de mais nada na vida. Tomei na bunda.
Meu casamento com Marivone acabou muito mais rapidamente do que
pensei. Se fosse um cara mais flexível, aceitaria as desculpas dela. Ela teve
razão em me cornear, mas homem não costuma aceitar essas paradas. Ainda mais
que a vadia era a maior rata de igreja. Ela veio com aqueles papinhos de a
carne é fraca, estava fragilizada, eu não dava atenção, só pensava em
trabalhar. A gente estava num período difícil, mas sou cara das antigas. Essas
coisas não se perdoam. Eu, não.
Conheci Marivone, eu com 15 e ela, 13 anos. Foi a primeira mulher
que beijei. Nem digo comer, é beijar, mesmo. Caraio, tinha uma pá de mina
querendo me dar e eu nunca tive momento de fraqueza, crise. Acho que é por isso
que não perdoo. Volante de contenção é foda.
Aos 16, transamos. Tudo cercado do maior cuidado. Foi a época que
deixei o Botafogo. Só pensava em Marivone. Sentia um ciúme louco dela. E os
caras cercavam sem piedade. Ela era linda. Era, não: é.
O técnico sempre me dizendo: “Você é habilidoso demais pra jogar aí
atrás”. Um porrão de empresários na minha cola. Minha mãe embarreirando. Treino
físico. Corre pra cá, corre pra lá. Adorava futebol, mas resolvi que não queria
ser profissional. Burrada de moleque. Naquela época eu queria Marivone, que
também me queria.
O pai dela me arranjou um bico na empresa em que ele trabalhava. Aos
19, era motorista de ônibus. Marivone deu a ideia: “Vamos casar, depois as
coisas melhoram”. Casamos, mas nada melhorou.
terça-feira, março 27, 2012
CHICO ANYSIO
Chico Anysio foi um gênio.
Aqui de longe, vejo um vacilo na carreira dele. Em determinado momento, ele poderia ter dado um pé no rabo da Globo e partido em busca de novos rumos. Ficou por lá, mesmo esperneando, e o guardaram em uma geladeira tríplex. Deve ter sido duro para ele ter seu humor chamado de velho em contraposição ao “jovem” humor da turma do Casseta. (Alguém, siceramente, acha graça no pessoal do Casseta & Planeta?) Mas ele teve escolha.
Depois de morto, a Globo faz a presepada de sempre: homenagens, homenagens, homenagens. Trata bem dois defuntos (Renato Aragão e Xuxa) e largou de mão um extraclasse que só morreu por esses dias.
E, por favor, não digam que Chico Anysio foi o Chaplin brasileiro. Colonizados, Chico foi muito maior.
Azar dele se comunicar em Português.
segunda-feira, março 26, 2012
BOM HOMEM
- Jamais esperaria ver você por aqui.
- Por que não? Nunca fomos melhores amigos, mas
nos relacionávamos amistosamente.
- Já estou preso há três anos. Nunca recebi
visitas. Nem amigos, nem parentes... Ninguém.
- Portinho, o que você fez causou horror no
bairro. Ninguém ganha popularidade estuprando uma menina de 14 anos. Ao sair
daqui, nem sonhe em aparecer por lá. Tem gente que quer e vai te matar, se
tiver chance.
- Aqui dentro também estou jurado. Gente que matou
três, quatro; ladrões cruéis; parricidas e matricidas... Todos me querem. Sou a
escória. Eu também me acho um merda, mas não me deixo matar.
- Por que você fez o que fez?
- Sei lá. Às vezes, acho que foi doideira. Achei
que ela queria dar pra mim. O jeito que me olhava. Toda hora ia lá em casa.
Em vez de falar com a Zildinha, ficava de papo furado comigo. Os namoradinhos,
a escola... Porra, e eu com isso? Aqueles olhos. Maior coxão. Corpaço de
mulher. Eu evitava ficar perto dela.
- Era amiga de sua filha. Não tem pai, viu em você
a figura paterna. O que você fez foi monstruoso.
- Pode até ser, mas eu estava com a maior tara
nela. E pensei que ela quisesse jogo. Lembra que nos papos no boteco os caras
diziam que tem uma porção de menina que gosta de homens mais velhos...
Experiência, sacumé.
- Sua família teve de sair do bairro, tá sabendo?
Começou uma conversa de que você violentava sua filha, com a conivência da
Glorinha.
- Elas não querem saber de mim com razão. Nunca
toquei em minha filha. Glorinha me escalpelaria se eu fizesse isso. Sabe o que
mais? Casei com a Glorinha com 22 anos, tenho 44, jamais a traí. A vida inteira
me mantive íntegro. Minutos de desvario me desgraçaram e à minha família.
- Portinho, todo mundo tinha a maior consideração
por você. A Glorinha é uma mulher bonita, amorosa, todo mundo via. Por que você
fez essa merda?
- Amílcar, de repente, cri que aquela menina
queria alguma coisa comigo. Impossível uma menina querer transar com um cara
mais velho? Uma vez estávamos no boteco: eu, você e o Barros. Você, Amílcar, me
disse que em uma ocasião estava tomando umas cervejas no Bambu, na Av. Brasil.
Uma menina se aproximou e te ofereceu um programa. Lembra que você falou: "Portinho, o bar estava cheio de garotos e ela veio se oferecer pra mim". Quantos
anos tinha a menina, Amílcar? Você me disse, uns 13, 14. E ela escolheu você.
- Portinho, era uma prostituta.
- Cara, não estou me justificando. Vocês saíram do
bar e foram para a casa dela. Refresque a memória. Recorda seu constrangimento
de passar pela sala da casa dela, com pai, mãe e cachorro vendo televisão? Você
foi trepar com a filha deles no quarto ao lado, parede fina de madeira. Você e
o Barros gargalharam com a história. O Barros mesmo só pegava menininha.
- Portinho, prostitutas.
- O Barros comia a sobrinha de 16 anos. A mulher
dele nunca soube.
- Portinho, foi consensual. A menina nem virgem
era mais.
- Eu achei que a menina me queria. Endoidei.
- Portinho, estou me arrependendo de ter vindo.
- Eu, você e Barros somos três filhos da puta.
Irônico é que eu, o único que admite, estou enjaulado.
- Você forçou a menina.
- Então, usei o método errado?
- Eu paguei, o Barros seduziu, você estuprou. Não
percebe a diferença?
- Não, Amílcar. Somos homens feitos. Elas são
meninas. Não quero duvidar da lógica de seu raciocínio. No fundo, sempre sonhei
em ser como você e o Barros: estúpido, alienado, egoísta, escroto. Vocês vivem a
vida. Fazem merda em cima de merda e ainda têm coragem de meter o dedo na cara
dos outros. Mesmo invejando a falta de escrúpulos de vocês, me batia um orgulho
de jamais, conscientemente, ter prejudicado alguém. Aí aparece essa menina, eu
faço essa merda e descubro que sempre vai me faltar alguma coisa para ser como
vocês.
sábado, março 10, 2012
A ESPOSA SUBMISSA
No consultório médico lotado, a mãe pede à filha.
- Ligue pro seu pai, pergunte onde ele está trabalhando, hoje.
- Pai, em que escritório o senhor está? Na Rio Branco?
- ...
- A mãe que perguntou. Vou passar o telefone pra ela.
- Oi, amor. Não, querido, não estou pedindo a Natália pra ligar pra você pra te vigiar.
- ...
- Eu estou aqui pertinho, no consultório da drª Lélia. De repente, poderíamos voltar com você.
- ...
- Tudo bem, querido, vou desligar. Não, não faço mais isso, mas não foi pra te vigiar.
Nós, os outros 30 pacientes da célebre oftalmologista, comprimidos na sala, fingimos que não percebemos a esculachada tomada pela madame. Ela, constrangida, se levantou, pegou a filha pela mão e foi embora.
Cariocas falam demais
Carioca fala no celular, em público, como se estivesse em casa, sozinho.
Ônibus cheio, figuraça em pé:
– Mô, to com maior saudade... Liguei pra você mais cedo... Ah, na hora que você ligou de volta não dava pra atender... Fiquei fazendo hora aqui pela Tijuca, só pra te ligar... Quero você, agora... Vou descer do ônibus... Seu marido já foi pra pelada?... Me espere nua.
Eu e os outros passageiros ficamos sem saber qual das peladas foi mais animada.
(Recolhido dentro do 636, em abril de 2002)
domingo, fevereiro 12, 2012
O PULGÃO
Como dizem os
boleiros: “A vida é uma caixinha de surpresas”. E é mesmo.
Encontrei um
conhecido na Saraiva, papeamos rapidamente e ele me convidou para um café. Mal
sentamos e ele começou a discorrer sobre os mais variados temas: Império
Romano, A juventude de Hitler, Mona Lisa, Revolução Industrial, presídios de
segurança máxima e outras porrocas. Fiquei pasmo. Aquele cara na minha frente
só falava de futebol, mais especificamente, sobre o Vasco. Tinha horror a ler
qualquer coisa. De onde viera aquele monte de informação?
Animei-me. Mandei um
tema: o rigoroso inverno europeu. Ele me confessou que vira alguma coisa nos
noticiários, mas pouco sabia. “E a greve de policiais e bombeiros, você é
contra ou a favor?” “Greve, que greve?”, rebateu o desinformado. Fui pro outro
lado do mundo. “E a China, hein?” Ele despertou. “Semana que vem tem um
documentário no Discovery. Não perderei.”
Ao ganhar novo
alento, o colega retomou o controle da prosa e me explicou em detalhes como vive
o pulgão dos pampas. Deve ter visto isso no Animal Planet.
sábado, fevereiro 11, 2012
OTITANDO
Não quero conflituar com você. Lembre-se que foi você que estartou esta discussão. Eu, em momento algum, afirmei que sua relação com a Dani estava colapsada. Ela me procurou, sim. Me disse que estava com borboletas no estômago. Tudo por causa do novo emprego, a nova função. Enquanto manicure, ela sentia-se segura, mas, agora, assumindo a vaga da designer de unhas, a insegurança bateu. Esse email que você printou e está me mostrando não revela nada diferente do que falei até o momento. Dani é uma mulher diferenciada, uma guerreira e ama você. O meu agir com ela tem sido sempre dentro do maior respeito. Somos amigos e só abdicarei deste status se ela assim o desejar.
Amado, se você continuar com esse ciúme, vai perder a mulher. Estar emocionalmente ligada a você não tem agregado valor à vida dela. Dani é dona de inteligência emocional formidável.
Veja bem, amado, considere o que lhe digo. A nível de comemorabilidade, este momento de promoção profissional pelo qual ela passou era para ser vivido com você, no entanto, ela me chamou para chorar pitangas. Examine-se, procure perceber o seu sentir. Faça isso, rapidamente. Foque no que importa, sem descuidar-se dos detalhes. Ela o ama, mas muitas vezes só o amor não basta. O amor constrói.
Amado, espero ter esclarecido tudo. Vou nessa. Um beijo no coração. Preciso passar na costureira pra pegar minha fantasia. Este ano sapucarei.
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
GOSTO DE DINHEIRO, MAS...
Gosto de
dinheiro.
A vida toda, sempre tive muito pouco. Faltou-me disposição e vontade
para fazer fortuna. Estranho, mas não condeno, jovens que sonham acumular o
primeiro milhão. Perto dos 60 anos, gostaria de ter sido menos perdulário ao
longo da vida.
Gosto de
dinheiro.
Muitos gostam. A maioria venera. E os que idolatram o dinheiro e a
vida confortável que ele proporciona fazem coisas que, caraio, fico pasmo.
Gosto de
dinheiro, mas afirmo: não teria coragem de desviar remédios de pacientes
terminais para ter bom apartamento, carro de luxo, vida mansa. O que fazer com
criminosos que não têm o menor escrúpulo em cometer esse tipo de atrocidade?
Neste caso do
desvio dos remédios para pacientes com câncer, os envolvidos são um bandido de almanaque
(preso e chefiando os cúmplices do xadrez), dois ou três marginais de carreira
e uma dezena de gente como a gente. Aliás, como a gente não. Quero acreditar
que sou melhor do que isso.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
O ALBATROZ
Charles Baudelaire
Às vezes, por prazer, os marinheiros
Pegam um albatroz, essa imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar pelos golfos.
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, como um par de remos junto aos pés,
As asas de um branco imaculado.
Charles Baudelaire
Às vezes, por prazer, os marinheiros
Pegam um albatroz, essa imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar pelos golfos.
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, como um par de remos junto aos pés,
As asas de um branco imaculado.
Antes tão belo, como é feio caído em
desgraça
Tão fraco e desajeitado, até mesmo cômico!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo que outrora voava!
Tão fraco e desajeitado, até mesmo cômico!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo que outrora voava!
O Poeta é como o príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à multidão obscura,
As asas gigantes impedem-no de andar.
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à multidão obscura,
As asas gigantes impedem-no de andar.
sábado, janeiro 28, 2012
MULHER & FILHOS
-
É. Tá grandão, né.
-
Acho que não te viu.
-
Fingiu que não viu.
-
É a idade.
- Somos estranhos um ao outro. Ele não gosta de mim. Acho que não gosto
dele.
-
Seu filho, cara. É antinatural.
-
Você tem três?
-
Amo todos eles. Dou minha vida por meus filhos.
-
Seu mais velho tem uns dez?
-
Onze, nove e oito. Sou muito parceiro dos meus garotos.
-
Sempre fui mais chegado a minha menina. Com o garoto, até ali pelos 12 era
legal. Depois, sei lá.
-
E com sua filha, você se dá bem?
-
Não mais.
-
Então, o problema é você.
-
Mano, a vida é complicada. Não tem sentido, lógica. Bom provedor, sempre fui. A
mulher é dondoca. Queria casar. Casamos. O que ela quis, dei. Sempre atendi a
família. Fiz cursos para pais, frequentei terapia de casais quando vivemos uma crise.
Trabalhava muito, mas chegava cedo em casa. Procurava acompanhar a vida
estudantil das crianças. Às vezes, ficávamos até tarde papeando. Víamos TV juntos,
íamos a cinema no fim de semana, jantávamos fora. Amava a mulher, os filhos.
Sempre valorizei-a. Nunca a corneei. Dividi tarefas, cuidei da casa sempre que ela precisou. Até
a igreja ia com ela. “É importante, querido, que os meninos temam a Deus”, ela
dizia.
-
Um bom marido?
-
Mano, acho que fui. Marido de manual.
-
Porra, o que aconteceu?
-
Não tenho a menor ideia. De repente, meus filhos não conversavam mais comigo,
recusavam-se a sair nos fins de semana. Tudo o que eu dizia era bobagem. “Pai,
isso não tem nada a ver”, retrucavam sempre, com ar de desprezo. Mais pra
frente nem se davam ao trabalho de me responder. A mulher se bandeou pro lado
deles. Não queria mais sair, diálogo quase zero, sexo automático.
-
Cara, me desculpe, mas deve estar faltando elemento neste seu relato. Algo
desencadeou a série de situações que você me relatou.
-
Deve ter acontecido. Jamais descobri o que foi. Busquei o diálogo, procurei
ajuda profissional, recebi indiferença de volta.
-
O que você vai fazer?
-
Já fiz. Há dois anos. Desisti. Aos 42, larguei tudo. Reuni a família e informei
que ia embora. A mulher ameaçou espernear. Tranquilizei-a. Avisei que sairia com a
roupa do corpo e daria a ela uma boa pensão. Tive a impressão de ver tristeza
no rosto da menina. Mas foi só impressão. Sustento os três e não quero saber
deles nunca mais.
-
Por isso seu filho passou batido.
-
Vivo outra vida. Casei, serei pai, novamente.
-
É não errar de novo.
-
Não errei. Não mais do que erram todos os pais. A nova mulher tem temperamento
diferente. Estuda, trabalha, sabe do mundo. A criança, criarei como fiz com os
outros. Vou curti-la até os 11, 12... Depois, é loteria.
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