domingo, maio 17, 2009

Vantagens da 3ª idade

Acho que já contei essa história, mas vale o repeteco.
Na década de 80, trabalhava na Manchete. Era revisor de textos e durante um bom tempo fiz mesa com um gay problemático.
Para a época, Henriquinho era um escândalo. Negro, corpo enxuto, cabelo pintado de louro e um mau humor do cão. Na maior parte do tempo, ao menos. Nunca o contrariei.
Passávamos as manhãs juntos, na mesma mesa. Um dia ele virou-se para mim e me pediu um favor: “Gordo, estou precisando comprar algumas roupas na Mesbla, mas não tenho cheques pra comprar no predatado. Você se importaria de ir até lá comigo? Você usaria seus cheques e eu lhe pagaria”.
Foram momentos dolorosos. Imaginei-me entrando na Mesbla com ele e depois pagando a conta. O que os vendedores não pensariam de mim?
Não fui. Dei uma desculpa, emprestei o cheque assinado para ele, mas não fui.
Senti vergonha de minha atitude, mas me senti pior ao constatar que não teria coragem de ir à loja com ele se me pedisse novamente.
Hoje, iria com um batalhão de drag queens. Não porque seja menos preconceituoso, só que já não me preocupo muito com a opinião alheia. É a velhice.

Vapor barato

Saíamos do Jornal do Brasil de madrugada para comer uns salgados na Central.
Formávamos um grupo de quatro, às vezes, cinco.
Dois do grupo sempre gostavam, na caminhada, de queimar um fuminho. O assunto era um só: malhar o governo militar.
O único que ficava tenso com a situação era eu. Era o único, também, que morava com mãe, pai, avó, tio, irmãos. Se fosse em cana teria de explicar muito a muita gente. Por sorte, nunca fomos.
Do jornal, na Av. Brasil, até a Central, era uma longa distância. Uns 40 minutos em passo de conversa fiada.
Alta madrugada, década de 70 e ia o vapor rumo à Central.
Hoje, não sobreviveríamos.

quarta-feira, maio 13, 2009

CANTORES QUE CURTI MUITO - Otis Redding

(Sittin' on) The dock of the bay foi sucesso póstumo de Otis Redding. Explodiu nas rádios um ano depois de sua morte em um acidente de avião, em dezembro de 1967. Na época, a música saiu por aqui em compacto duplo que não tirava da velha vitrola. A importância de Redding na minha vida musical é capital. Em 1967, ouvia Roberto Carlos e o pessoal da Jovem Guarda. A música de Otis Redding me levou, mais pra frente, a James Brown, Al Green, Smokey Robinson, Marvin Gaye. Otis Redding me fez um ouvinte parabólico. Depois dele passei a ouvir qualquer tipo de música e apreciar os diferentes sons do planeta.
Comprei um cd da coleção 2in1 que vem com The dock of the bay e The soul album, dois discaços. Recomendo o investimento. Em vez de ouvir replicadores (às vezes, bons), vá à fonte.

terça-feira, maio 12, 2009

O topo

Como se chega ao topo de uma organização?
Competência e criatividade não levam você até lá.
Sexo? Bem, sexo pode fazer com que você chegue perto do topo. No topo, não.
A vida corporativa é misteriosa.
Não é para inocentes, ingênuos, bem-intencionados...
Uma qualidade de quem está no topo é uma certa dose de canalhice.
Sangue-frio e desfaçatez também são requisitos dos senhores de escravos.
Mas o que eu gostaria mesmo é de saber como se chega lá.
Não que eu tenha interesse em estar no pico da montanha.
Falta-me disposição. Estou velho.
E acho que é necessário deglutir o indeglutível.

(Esse post eu puxei lá detrás pra cá. Gosto dele.)

Inebriante poder

- O leão mandou avisar que quer comer carne diferente. Disse que já está de saco cheio de zebras, veados, gnus...
- Por que isso? Eu, coelho, já tenho de me preocupar com águias, gato do mato, cobras... Agora, até Sua Majestade está querendo me comer.
- Há várias versões para a mudança de dieta. Uns dizem que ele quer fazer alimentação mais leve. Outros, bem na encolha, contam que ele, pesadão, já não tem agilidade para desviar-se das porradas de zebras e gnus. Mas ele não quer só coelhos, não. Até borboletas anda comendo. Diz que abre o apetite.
- Só faltava essa. A vida já é uma correria louca.
- Eu tenho uma terceira opinião sobre o real motivo dessa variação de cardápio. Dia desses eu estava observando, a distância segura, a família leão. O esquilo, folgado como ele só, em vez de desviar-se do grupo passou entre ele e ainda fez graça para um filhote. O leão olhou para a companheira e reclamou: “Essa turma não anda mais me respeitando. Vou tomar uma atitude.”
- Será que é isso?
- Claro que é. Poder, quem tem, exerce. E sobre todos. Agora, ninguém passa entre eles. Se passar, vira refeição.

Nova onda

Tomei ciência da nova onda lendo a Folha de S.Paulo. Lá pela capital sertaneja, o último grito é ouvir música sem fone de ouvidos nos celulares turbinados que os presepeiros têm à disposição para comprar em qualquer loja.
Depois de três meses longe do transporte erótico, embarquei em uma viagem de metrô. Que alegria constatar que a moda sonora já chegou ao paraíso do batidão. Agora a sarração metropolitana tem trilha sonora. “Aê, vô te dizê, um dia como você”. Com essa letra doce fiz minha viagem. Claro que preocupado de o armário atrás de mim não ter alguma ideia.

Tiranetes

Trabalhava no Jornal do Brasil como revisor de texto. Deixei passar, por desatenção, na primeira página, Volta Redonda, em vez de Volta Grande. O texto era chamada para reportagem com o presidente milico da época. Se passasse errado, quase certamente estaria na rua.
O encarregado da oficina, o lendário Jorge Cachorrão, entrou na ampla sala da revisão, veio até minha mesa e mostrou-me a prova em papel com meu erro. Depois que vi, ele amassou e jogou fora. Somente ele e eu soubemos o que aconteceu.
Aprendi com Cachorrão que não há necessidade de expor o colega.
Na década de 90, trabalhei alguns penosos meses em uma empresa evangélica. Os colegas estavam descontentes com algumas medidas tomadas pelo líder. Reunimo-nos, a ralé, e resolvemos que apresentaríamos, respeitosamente (há que ser muito delicado ao dirigir-se a ungidos, eles são melindrosos), nossas reivindicações. O pastor-chefe abriu os trabalhos e pediu aos que quisessem dizer algo que o fizessem. Eu, já com quarenta e tal, acreditei. Os colegas quedaram-se em tumular silêncio. O gordo aqui falou e dançou. Chefes (em sua grande maioria) adoram subalternos que lhes sirvam como claque.
Na década de 80, trabalhei na Manchete. Havia todo um ritual que orientava a saída das revistas para a gráfica. As semanais na frente, as mensais aguardavam. A exceção era quando havia fechamento de uma mensal. Tavares, o único chefe inteligente com quem trabalhei, me pôs na distribuição enquanto ele descia para tomar um grau. Quando voltou me pegou distribuindo Sétimo Céu. “Gordo, você é uma besta” foi o começo. No final, acho que já estava me mandando tomar no cu (naquela época, tomar no cu não dá o cartaz de hoje). De minha parte, brindei-o com o bom repertório que aprendi nas ruas e alguma coisa que só conheci na igreja. Meia hora depois era como se nada tivesse acontecido. Homens agem assim.
Na JUERP trabalhei com um louco que foi posto pra fora de duas igrejas por indolência. Ele era chefe de quatro infelizes: eu entre eles. O idiota achava que eu telefonava demais. Para resolver a questão, soltou um memorando proibindo ligações durante o expediente. A secretária entregou o papel aos serviçais. Mais tarde ele chamou meus colegas e lhes disse que o memorando só valia para mim. Continuei telefonando até sair de lá, claro.
Concluindo, na Última Hora trabalhei durante três meses. Como no Jornal do Brasil, tinha de trabalhar sábados e domingos. Éramos 12 homens confinados em uma sala sem janela. Em compensação, o ar refrigerado nos congelava. Dez colegas fumavam. E fumavam muito. Nunca fui trabalhar sábado nem domingo. Um dia, Otávio, o chefe, me chamou e disse que se eu continuasse faltando me dispensaria. Honestamente, disse-lhe que fins de semana eu não iria. “Bom, vou segurar você uns dois meses, depois mando embora, tá ok?”, ele me disse. Não foi necessário, porque surgiu o emprego na Manchete, que era de segunda a sexta.
Não estendo a impressão terrível que tenho de chefes evangélicos para pessoas que conheci na vida “civil”, mas, confesso, no trabalho lidei com descrentes bem mais sérios e éticos do que os crentes com quem topei.

terça-feira, maio 05, 2009

DELÍCIA




Lily Allen é uma delícia.
Música pop é terreno perigoso. Um escorregão e lá vem baba.
Lily saiu de um primeiro disco saboroso e chegou ao segundo fazendo este despudorado aqui lamber as beiçolas.
It's not me. It's you é um disquinho muito bom. Letras bacaninhas, melodias que cravam na carne e, dentro das limitações do pop, diferente do anterior, Allright still. Diferente para melhor, em minha modestíssima opinião.

terça-feira, abril 28, 2009

GRIPE SUÍNA - Vai chegar matando

Quando a AIDS surgiu foi chamada de Peste Gay. Imaginava-se que só homossexuais a contraíam. Religiosos ignorantes (opa, acho que isso é redundância) diziam ser a AIDS o castigo de Deus para os sodomitas. O tempo passou e os mais esclarecidos, hoje, sabem com alguma segurança as formas de contágio da doença.
Digo os mais esclarecidos porque o recém-eleito presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acha que uma boa chuveirada depois do rala e rola é suficiente para evitar o contágio. A estupidez está dominando o mundo.
Só é contaminado pela AIDS, hoje em dia, aqueles que se atiram em um grupo de risco. Gente de vida promíscua, usuários de drogas displicentes e aqueles que fazem sexo sem proteção. Se você, solteiro, usa camisinha ou dedica-se aos embates solitários, tem pouca chance de contrair o vírus HIV. Da mesma forma, os casados que, a todo custo, mantêm-se firmes e não papam fora de casa.
A AIDS, pessoalmente, não me preocupa. Uso minha espada com parcimônia e sempre contra a mesma oponente. Tenho orgulho de manter meu fiofó apenas como rota de saída, com todo respeito pelos que têm o estranho prazer de fazê-lo, também, de rota de entrada. Egoísta, entendo que são remotas as chances de eu pegar AIDS.
A gripe suína, no entanto, é apavorante e me apavora. No começo do século passado, minha avó perdeu quatro filhos para a gripe espanhola. A gripe é absolutamente democrática e o contágio pelo ar leva-a ao mundo inteiro. A espanhola matou milhões em época de transporte difícil. A gripe aviária matou milhares e foi contida pelo rigor do combate empreendido pelo governo chinês. A suína eclodiu no México e entrou nos EUA e Canadá. É quase certo que virá para cá. Nossas autoridades não conseguem erradicar o mosquitinho da dengue, imaginem se tiverem de lutar contra invisíveis vírus que se propagam pelo ar.
Se o vírus desembarcar por aqui, a cada viagem de metrô tombarão dezenas. Não sei se por estar desempregado ando meio pessimista, mas acredito que a influenza porcina vai dar o que falar. E vai matar.

sexta-feira, abril 24, 2009

EXCELÊNCIA

- Nosso tribunal reúne-se para tratar de caso grave, porém, rotineiro nestes tempos de crise de valores. O réu, Geraldo Cordeiro de Lima, sofre grave acusação, que exporemos agora. Vossa Excelência, permita-me usar expressão bastante popular, foi pego no pulo.
- Vossa Excelência, discordo respeitosamente. Não foi apresentada prova alguma contra mim.
- Tilico, jovem e valoroso soldado de nossa comunidade, acusou Vossa Excelência de ser informante da polícia. Um X9, como o vulgo diz.
- As provas, Vossa Excelência, as provas.
- Tilico, acompanhado de dois membros respeitados de nossa agremiação, Mario Foguete e o condecorado soldado Miltão, com 37 mortes no irretocável currículo...
- Vossa Excelência, há dois anos sou gerente da boca. Nesse período crescemos 31% em vendas, reduzimos os confrontos com a polícia em 21%, vimos uma renovação de clientela na ordem de 39%. As outras agremiações nos convidam para palestras.
- Vossa Excelência me interrompeu quando diria que o nobre gerente foi visto pela comissão conversando com policiais. Logo depois sofremos ataques da polícia que nos infligiram sérios prejuízos.
- Não nego o encontro. Tratava do acerto do arrego. Os homens da lei queriam mais dinheiro para não atrapalharem o movimento.
- Vossa Excelência me toma por inocente? As negociações de arregos precisam seguir toda uma rotina. Não é o gerente que trata disso. De qualquer forma, o destino de Vossa Excelência já foi decidido pelo júri. Reconhecemos os relevantes serviços, agradecemos pelo tempo dedicado à agremiação, mas Vossa Excelência foi condenado à morte no micro-ondas. Em respeito a sua folha de serviços, não usaremos a espada samurai. A corte está dispensada.

COISA BONITA, LINDA, MARAVILHOSA DE SE VER - BEYONCE

Sasha Fierce não está com nada.

terça-feira, abril 14, 2009

ISRAEL E EU

Sempre gostei de escrever. Escrevia para mim e os muito chegados. Faltava-me confiança para expor meus textos a estranhos.

Começo da década de 80, eu estava no Seminário do Sul. Israel Belo de Azevedo, meu professor de Metodologia da Pesquisa, selecionou uma resenha que escrevi e leu-a como a melhor entre as feitas por todos os alunos. Ali ganhei segurança para escrever.

Mais tarde, Israel convidou-me para trabalhar com ele no Centro de História Viva do STBSB. Não pude ir. Na mesma época, comecei a trabalhar na Manchete. Trabalhara por 10 anos no Jornal do Brasil de onde saíra por absoluta inadequação ao emprego. A Manchete era mais do mesmo, mas pagava bem. Fui pra lá.

O STBSB passou por período turbulento, Israel foi para a Visão Mundial, depois para a UNIMEP e, mais tarde, veio para a Gama Filho.

A Manchete faliu e eu já estava na JUERP, que teve morte cerebral decretada no final dos anos 90. A situação ficou complicada para mim.

Israel telefonou-me e me convidou para um jantar. Ele estava trabalhando, também, com uma editora evangélica e convidou-me para fazer revisões e elaborar resenhas para o Prazer de Ler que saía encartado no Novas, do bravo Gilton. Trabalhávamos pela Internet e em meu primeiro provedor de acesso fui dependente dele.

Foi um tempo de dureza. A fim de levantar recursos, vendi alguns livros meus para Israel. Ele os comprou e algum tempo depois me chamou para devolvê-los. Não aceitei.

Por que estou escrevendo este texto?

Israel será operado de câncer na próstata. Eu sou hipertenso. Pode ser que não haja oportunidade de dizer o que direi agora, em outra ocasião.

Eu e Israel poderíamos ter sido grandes amigos. Nossos temperamentos nos separaram, mas sempre tive grande admiração por ele. Há um número ínfimo de pessoas, em nossa denominação, que despertam admiração: Israel é uma delas.

Sábado orarei por ele. Depois que se recuperar, vou procurá-lo para um abraço. Abraço dado, voltarei para o meu canto. Infelizmente, demonstrar amor não é uma de minhas qualidades.

sexta-feira, abril 03, 2009

JORNAL MEXIDINHO

Recebi crítica a trabalho que desenvolvi em um jornal por uns 10 anos. Não dei muita pelota. O crítico acertou e errou nos petardos que enviou, mas quando ele usou uma metáfora de ovos mexidos para desancar o jornal calou fundo ao meu coração. Explico: disse meu algoz que o jornal feito por mim lembrava ovos mexidos e ele não apreciava o acepipe. Só muito raramente, quando desejava sentir na carne como se alimentavam os pobres. Eu, sempre na base da pirâmide econômica, costumava adorar.

Minha avó fazia ovos mexidos deliciosos. Ainda solteiro, sempre ligava do trabalho e pedia a ela para me preparar um mexidinho. Era o neto favorito, ela fazia, sempre. Tenho de ser sincero e confessar que ela incrementava o mexidinho com umas batatas fritas cortadas em quadradinhos. Comia todos os dias, rindo.

A lembrança despertada pela crítica me fez, tal um D2, sair atrás do mexidinho perfeito. Conversei com minha querida sogra, mestra na preparação de frangos (em carne vermelha é sofrível). Expliquei-lhe, minuciosamente, como deveria ser elaborada a mistura de ovos, batatas, pimentão, cebola e tomate. Foi um fiasco. A grande quituteira de Inhaúma fracassou retumbantemente.

Conversei com a mana, herdeira desleixada dos segredos culinários da família. A técnica de elaboração do bife à milanesa, ela domina. Esqueceu, infelizmente, como fazer uma fritada de ovo com linguiça; não tem mais o segredo da preparação da sardinha casadinha; deixou escorrer memória abaixo a fórmula da carne seca desfiada no feijão. O mexidinho, me garantiu ela, sabe fazer.

Críticas servem para pouca coisa. Raras têm alguma fundamentação. Essa, pelo menos, serviu para me fazer lembrar um tempo muito bom. O tempo em que estavam todos aqui: pai, mãe, tios, avó. E, de tempos em tempos, sinto uma puta saudade dessa turma.

sexta-feira, março 27, 2009

A TAXISTA E O PATRIARCA

Entrei no táxi, celular no ouvido. Disse à motorista onde queria ir e encerrei a conversa telefônica. Desancava religiões de um modo geral e a minha, em particular.
A taxista, uma senhora de cerca de 60 anos, virou-se para mim e despejou: “O senhor está certo, religião é coisa muito esquisita”.
Preparei-me para ouvir. Só contrario em conversa os muito chegados. A estranhos, prefiro ouvir. Se a conversa for interessante, ouço mesmo. Se não, ligo o Simpson.
Ela me disse pertencer a uma fraternidade espiritualista esotérica. “Não tem incorporação, médiuns...” Li e esqueci uma reportagem sobre o espiritualismo esotérico. Espiritualismo caça-níqueis como a prática religiosa de 90% das igrejas evangélicas. Valem-se da estupidez humana para mamar leite que jorra sem parar, mesmo de tetas quase secas.
“Tive problemas sérios e precisei falar com o Patriarca. Para chegar a ele temos de passar por seu secretário. Esperei dois meses em vão. Algumas vezes o encontrei no elevador, mas não podia dirigir a palavra a ele. O senhor não acha que isto está errado?”
Claro que acho, mas é parte da cena que a maioria dos líderes religiosos monta. Atribuem-se importância maior do que realmente têm e gente importante, sacumé, está sempre com a agenda lotada.
“Há 40 anos não entro num cinema. Às nove estou no táxi. Paro de trabalhar às duas, três da manhã. Não sou casada. Não tenho filhos. Não tenho amigos. Adoro trabalhar. Isso aqui é minha terapia. Posso conversar. De domingo a domingo estou no táxi, menos terça. Terça vou para a Fraternidade. Fico lá o dia todo. Cumpro todas as minhas obrigações. Quando tenho um problema, não consigo falar com o Patriarca. O senhor acha justo?”
Padres, pastores e pais-de-santo só olham para o próprio umbigo. Recebem, consultam e atendem os que lhes convêm. De longe, esses luminares enganam. Chegue perto e você verá como realmente são. Tem razão o Patriarca de manter os fiéis a distância.
“Todos os dias peço a Jesus para esta ser minha última encarnação. Não quero mais voltar”.
Fique tranquila, minha senhora, não voltará.

RECORTA & COLA - Textos bacanas que saem por aí


INCOERÊNCIA CATÓLICA
Drauzio Varela

Aos colegas de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.
Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos.
Não se deixem abater, é preciso entender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vida depois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: “Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus”, não é o que pregam?
É uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal. Nosso compromisso profissional é com a vida terrena, o deles, com a eterna. Enquanto nossos pacientes cobram resultados concretos, os fiéis que os seguem precisam antes morrer para ter o direito de fazê-lo.
Podemos acusar a Igreja Católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompatíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.
Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma se instalaria no instante em que o espermatozóide se esgueira entre os poros da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que um preIado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez, ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?
O arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, agiu em obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.
Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres que nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?
Não há o que reclamar. A política do Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.
Em nota à imprensa a respeito do episódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticano para a Família: “A igreja não pode nunca trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu término natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina”.
Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida da concepção até a morte? Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeias estão lotadas de bandidos cruéis e de assassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa da instituição à qual o senhor pertence.
Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios das pessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.
A esperança de que a instituição um dia adote posturas condizentes com os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela.Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.
Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniões cautelosas apenas o presidente da República e o ministro da Saúde. Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos. Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições.

sexta-feira, março 20, 2009

UM FILHO DA PUTA

Há alguns meses conheci um filho da puta.
Velhice à porta, pensei que filhos da puta não me enganassem mais. Imaginei que bastaria alguns minutos de conversa para identificá-los.
Subestimei a capacidade do filho da puta. Tratei-o bem, como um igual. Presenteei-o, elogiei-o, ri com ele.
Alguns dias antes de descobrir que se tratava de um autêntico filho da puta, percebi que não me encarava. Os grandes filhos da puta, os escolados, acabam com você olhando dentro de seus olhos.
Os que estão se iniciando na filho da putice, não. Eles ainda desviam o olhar. Mas é questão de tempo: uma vez na senda da canalhice, não há volta.
Amanhã ou depois, conhecerei um novo filho da puta. Eles são muitos. Nem por isso deixarei de acreditar nas pessoas.
Eu acredito.
Entre filho da puta e babaca, prefiro ser babaca. Não sei bem por que, me sinto melhor.

quinta-feira, março 05, 2009

MOTORISTAS DE TÁXI SÃO BACANAS

Motoristas de táxi têm percepção da temperatura ambiente diferente da dos humanos normais.

Faça sinal para um táxi nesse Rio de Janeiro que torra a 40°C. O ar-condicionado do carro estará desligado, as janelas fechadas e o cara-de-pau atrás do volante se comportará como se fosse taxista na Sibéria.

Obrigatoriamente, o cliente terá de fazer a pergunta: “O ar está funcionando?” O esquimó olhará para você e, em profundo exercício de percepção interior, considerará para si mesmo: “Esse cara é um babaca, vou dizer que o ar está quebrado e que eu estava, ó coincidência, indo pra oficina, agora”. Se ele perceber que você não é otário, mas solidário, dirá: “Está, sim, mas está desligado porque acabei de sair de uma pneumonia e só vim trabalhar para” levar o pão dos inocentes.” Ao sacar que nem otário nem solidário você é e que se não ligar o ar perderá uma corrida, o gelado piloto considerará se vale a pena levá-lo a seu destino. Se valer, enfurecido, ligará o ar. Vingativo, acionará o cedepleier, que logo tocará os maiores sucessos de Tati Quebra-Barracos.

O quadro melhora um pouco se você for cadastrado em uma cooperativa. O táxi será chamado por telefone, você dirá que quer o carro com ar ligado. “Sou norueguês e ainda não me acostumei com o calor do Rio”, você dirá. Faça qualquer sotaque, até de nordestino, o imbecil do outro lado da linha acreditará. Claro que não adiantará.

O retorno da cooperativa não virá. Você ligará, novamente, para saber de seu táxi. O atendente dirá, cínico: “Sr. Fulano, estávamos ligando. Sua viatura é a 345 e o motorista já está na sua porta”. Mentira. Na chuva ou no sol, você espera. Se for uns 15 minutos, é lucro. Dentro do carro, você sente o Rio em seu apogeu. O inferno deve ter essa mesma temperatura.

O homem de gelo ligou o ar segundos antes de você entrar. Não, não reclame. Esse momento é precioso. Em vez de se queixar, dirija à divindade em que crê uma prece, porque, quase certamente, o ar não estará refrigerando.

Sentindo na nuca o bafo quente da ventilação do esporrento aparelho de ar-condicionado, você terá a certeza de que é um babaca e pensará: “Na próxima vez, não admitirei isso”.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

PROMOÇÃO

- Aí, Tião, parabéns pela promoção.
- E só estou na empresa há um ano.
- Sem acidentes, né?
- Sem acidentes, sem multas, sem reclamação de passageiros.
- E aquela batida?
- A culpa foi da senhora do Palio. Advogada, gente boa, foi na garagem e assumiu tudo.
- Sorte sua. Aquele atropelamento também não foi culpa sua, né não?
- O cara atravessou embaixo da passarela. Não deu pra frear.
- Morreu?
- Infelizmente.
- Aquela vez que você brigou com o passageiro também não embaçou sua promoção, certo?
- O babaca encheu a mão na passageira. Ela chiou e o otário ainda a destratou. Tomei as dores da Alzira e dei umas porradas nele.
- Alzira, sua namorada?
- É.
- E o cara não reclamou.
- Avisei que se reclamasse dava um fim nele.
- Em um ano você matou um cara, acabou com o automóvel de uma mulher e encheu um passageiro de porrada. Mesmo assim, foi promovido por ser o melhor motorista da empresa.
- Que posso fazer se a concorrência é fraca.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Isis Valverde


Estômago

- Sula, você está magérrima.
- Perdi 42kg.
- Caramba! Anel?
- Não, tirei um pedaço do estômago.
- Tá ótima. Fez plástica?
- Claro. Tirei os excessos.
- Foi um prazer te ver.
- Xau.

***
- Sula, não entendi. Por que você não disse pra ela que fez dieta? Há um ano você malha, come pouco...
- Fiquei com vergonha. Talvez ela não acreditasse... Sei lá. Todo mundo tá cortando o estômago. A vida inteira fui diferente. Não quero mais ser.