sexta-feira, maio 20, 2011

A gatinha



Um filho é uma alegria, às vezes.
Suely tem um. Um só. Gravidez de risco. Os médicos garantiram que morreria, se não abortasse. Não morreu.
O marido um dia foi embora. Deixou-lhe o apartamento. Ela se sentiu falta da companhia, mas só isso.
O filho cresceu. Poucas vezes parava em casa. Trabalho, estudo, farras.
Voltando do mercado, Suely encontrou uma gatinha. Estava à morte. Recolheu-a, levou-a para casa, cuidou dela. A muito custo, muito remédio, muita dedicação viu a gatinha recuperar-se.
Era companhia melhor do que o ex-marido. Não sentia a ausência do filho. As brincadeiras da gatinha a divertiam.
O filho engravidou uma jovem. Casou-se. Pediu à mãe para morar com ela. Suely abriu as portas para a nora.
Deram-se bem, conversavam bastante. No colo de Suely, a gatinha. A nora era boa companhia. A gatinha era melhor. Humanos falam demais.
Nasceu a criança, os meses passaram. Um dia o neném adoeceu. O médico disse que ele era alérgico a pelo de gato.
O filho chegou em casa, depois da consulta, e deu um ultimato à mãe:
- Bruninho é alérgico a pelo de gato. A senhora escolhe: seu neto ou o gato. Se ficar com o gato, vamos sair daqui e iremos para a casa da mãe da Isadora.
Suely olhou para a gatinha, para o neto e, sem titubear: “A gatinha fica. Até morrer, eu ou ela, ficaremos juntas”.

quinta-feira, maio 05, 2011

SACI

- O que houve com o Saci?
- O Borges encheu ele de porrada.
- Não são amigos?
- Quantas vezes você escutou o Saci falando sobre a putaria da TV? As meninas dão à vontade porque a TV mostra como comportamento natural. Hoje, há mais homossexuais porque as novelas estão cheias de gays. Filhos não respeitam pais por causa da TV.
- E o Borges se importou com isso? O Saci fala essas merdas a vida toda.
- Com que ator da TV o Saci se parece?
- Lembra de longe o Lázaro Ramos. Ele ficava na bronca quando mencionávamos isso.
- Ele sempre se achou parecido com o Denzel Washington. Mas, agora, o Lázaro Ramos está fazendo papel de pegador em uma novela.
- Eu vi. É o novo José Mayer.
- O Saci acredita que a TV influencia todo mundo. Se faz mulheres darem à vontade, faz também mulheres darem pra ele, que, agora, está se achando igual ao Lázaro Ramos.
- Já estou entendendo o motivo das porradas que levou.
- Primeiro ele foi pra cima da Natália. Aquela mulatona da padaria. Se deu bem.
- Que isso?
- Depois parou a irmã do Pavio, disse que sempre a desejou e que era para ela acompanhá-lo até o apartamento dele. Ela foi.
- Ela não é noiva?
- O cara pirou. Começou a achar que era o Lázaro. Aí foi pra cima da mulher do Borges, a Neusa. Ele sempre teve um tesão louco nela. Desde a escola.
- Peraí, ele pegou e o Borges deu-lhe umas porradas?
- Nada, ele chegou na Neusa e disse que aquele era o dia de sorte dela, chamou-a pra fazer um amorzinho gostoso. Ela riu, depois foi se enfurecendo, pegou o celular e chamou o Borges.
- Por que o Saci não se mandou?
- Ele disse que ela estava fazendo charme, não estava ligando pra ninguém e que ele daria a chance de ela ter uma tarde de amor. O Borges chegou e arrebentou com ele. Só não matou porque separaram.
- Ele está todo estropiado. Estive com ele.
- Vai piorar. A irmã do Pavio não aceitou a bossa do cara da novela de dar uma bimbada e sair fora. Discretamente, por causa do noivo, falou com o Pavio.
- E o Pavio?
- O Pavio ficou um tempo com a Natália. Romance turbulento. Cheio de idas e vindas. A irmã contou que o Saci pegou o ex-amor dele.
- Como ela soube?
- O Saci não seguiu o roteiro. Lázaro Ramos, na novela, papa e manda a papada pra casa. O Saci gosta de conversar, contar vantagem, falou com a irmã do Pavio que havia traçado a Natália e também para ela não daria uma segunda oportunidade.
- O Saci?
- Está tranquilo. A Neusa foi só um acidente. Segundo ele, ela quer ser dele. Só tem medo do Borges. Um dia ele volta a ela. Por enquanto, há muitas mulheres para comer.
- Você não vai avisá-lo?
- Não. Ele morrerá feliz, sem perceber. Sentirá dor quando estiver sendo incinerado pelo Pavio. O cara é mau. Mas, mesmo destroçado, nunca vi o Saci tão confiante, feliz. Desencarnará artista.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

TIA

- Fofinha, que cara é essa?
- Fui assaltada, Gordo.
- Machucaram você?
- Estava no ponto, gente de montão em volta, o galalau chegou berrando: “Aí, tia, dinheiro, relógio e celular”.
- Pô, Gordo, tia. Tia o cacete. Tenho 19 anos. O cara era mais velho do que eu. Ele ficou puto e tirou meu relógio. “O dinheiro, o celular, porra”.
- Ninguém ajudou?
- Ajudar? Abri minha carteira, mostrei que não tinha um tusta, disse que não usava celular. A multidão, primeiro, me olhou com pena, depois, como se eu fosse alienígena.
- Bom, todos têm medo de se envolver, levar um tiro. Mas e o cara?
- Saiu andando. Parou, olhou o relógio e voltou: “Aí, tia, pode ficar com seu relógio. Esse bobo tá sofridão”.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

DEMOCRACIA



A primeira experiência democrática dentro do Movimento foi um fiasco.
– Vocês podem eleger o próximo líder. Eu, enquanto estiver vivo, governo.
Nariz aceitou a conversa de democracia porque percebeu fraqueza no grupo, descontentamento. Não dava pra ficar matando os descontentes. Treinar mão-de-obra, fazer curso 5S, comprar livrinhos pra distribuir também era muito trabalhoso e dispendioso.
– Mas, aí, nesta reunião aqui, estamos abertos para ouvir queixas, sugestões. Todos os gerentes estão presentes, soldados, fogueteiros... Esta é uma fase de transição. Os que estiverem com a situação regularizada na secretaria do Movimento poderão pleitear qualquer posição no organograma de nossa instituição. Se tiver voto, assume. Em um primeiro momento, somente eu, os membros do Conselho e os gerentes cumpriremos o mandato até que o pútrido braço da morte nos leve. As eleições serão realizadas a cada três meses, por causa da altíssima rotatividade de nossos membros que são enjaulados ou morrem com frequência desestabilizadora. Alguém quer dizer alguma coisa?
– Eu gostaria de encaminhar algumas sugestões para o Conselho. Sugestões baseadas em reivindicações, principalmente, de alguns soldados e fogueteiros.
– Ah, Garganta, só poderia ser você o primeiro a falar. Fale à vontade, mas cuidado para não ferir os sentimentos de ninguém. Lembre-se, são os primeiros passos de nossa democracia.
Garganta esperou Nariz coçar o nariz. Aliás, era Nariz por causa deste cacoete.
– Nariz, gostaria de sugerir que fosse melhorada a qualidade dos armamentos dos soldados. Tem soldado com .38. A quase invasão da semana passada deu-se por causa disso. Está faltando planejamento estratégico. Os fogueteiros estão dispersos. Sugiro um choque de disciplina. Pesa contra nós, também, o fato de não termos ajudado nossos parceiros de comunidade adjacente em momento que precisaram de nós...
Garganta é falador, mas Nariz quando coçava o nariz sofregamente coisa boa não vinha.
– É por isso que relutei quando me falaram nessa porra de democracia. É só dar liberdade que já vem esculacho. Sou um cara sério. E você, Garganta, diz que não ajudei os parceiros, deixei a soldadesca sem equipamento e treinei mal os fogueteiros. Aê, acabou essa merda de democracia, voltou a valer a lei do mais forte. Leva esse puto do Garganta pro microondas. E que ninguém me fale mais em democracia por aqui. Só se for democracia a favor.

sábado, janeiro 15, 2011

PAPO RETO

A morte de Papo Reto me abalou.
Afogou-se nas enchentes. Logo ele, um peixe.
Papo Reto era um perdedor. Ou como manda a norma culta: um loser.
Eu não conheci melhor estofador, mas tinha o grave defeito de não enrolar cliente.
– O sofá é esse. Quanto o senhor cobra e em quanto tempo entrega?
– Compre um novo. Não vale a pena mexer nisso. Na loja a senhora compra novo, do mesmo nível, por preço mais baixo do que o do meu serviço. Mas ponha mais um dinheirinho, estique as prestações e compre coisa melhor, se não, ano que vem, a senhora vai procurar outro estofador.
Sempre ouvia impropérios depois dos diagnósticos. Não enganou ninguém, morreu na merda.
A mulher o deixou depois de três anos de casamento.
– Adorava Papo Reto, mas a sinceridade, a ausência de ambição, o pouco traquejo social. Acho que você é o único cara que sempre gostou dele.
É verdade. Gostava demais de Papo Reto.
Ele trabalhou por uns meses em uma empresa de contabilidade. Manutenia o escritório. Um faz-tudo. Não precisava lidar com pessoas estranhas.
O escritório ficou um brinco. Papo Reto era habilidoso e esmerava-se nas tarefas. A qualidade de seu serviço foi sendo percebida aos poucos. A bunda que se sentava em uma cadeira que já não tinha regulagem de altura, um dia percebia que a cadeira voltara a funcionar. Nos dias de hoje, bunda e cérebro produzem a mesma coisa, mas, mesmo assim, a dona dos dois sabia que Papo Reto andara por ali. Mesas bambas desbambearam, telefones funcionaram, ar-refrigerado refrigerava. Até um computador Papo Reto ressuscitou. O salário miudinho era compensado pela admiração silenciosa dos colegas.
Um final de tarde, o chefe que queria passar nas armas uma funcionária, chamou Papo Reto.
– Dê uma chegadinha na floricultura e pegue uma encomenda para mim. Já está separada.
– Não posso. Está quase no horário de minha saída e estou consertando um vazamento na cozinha. Há outros funcionários que podem fazer isso.
– Ou você vai buscar estas flores ou está na rua?
– Pra comer a lourinha não precisa flores. Ela se contenta em ser a primeira-comida do escritório. O pior é que até gostei de ter trabalhado aqui.
Papo Reto foi morar num cantão de Teresópolis há uns cinco anos.
– Quando chove muito o rio enche. Saio de casa, sento lá do alto pra ver. Coisa linda, Gordo. O rio que é calminho e desce na maciota, se transforma. A gente se entende. Às vezes, também me encho de fúria, mas tenho de me segurar, se não é cana. Mas, aí, é o lugar mais perto do céu que pode haver. Vejo gente umas duas vezes por mês. Quer coisa melhor? Sou eu, os cachorros e os gatos. Quando venho por aqui fico doido pra voltar.
Foi meu último papo com Papo Reto. Eu, ele e Tradição na Laranja Americana, no centro da cidade, há uns dois anos.
Era bom saber que Papo Reto estava por aqui. Ele se foi e deixou uma porção de papos sinuosos por aí. Estes, claro, estão muito bem, vivendo de garganta.

Resolução

Sempre tomamos resoluções em começo de ano.
Decidi apenas uma coisa: manter longe de mim, tanto quanto possível, pessoas desagradáveis.
As desagradáveis que já conheço, nem cumprimento mais.
Se passar por você e não cumprimentá-lo, tenha certeza de que não foi por acaso 

segunda-feira, janeiro 10, 2011

COISA BONITA DE SE VER - Elsa Martinelli

Irrelevância

Os religiosos já começaram a chiar porque Dilma retirou o crucifixo da parede e a Bíblia de cima da mesa?
Chiarão.
Agora, quem conta essas coisas para a imprensa?

Mau

Conheci um cara mau.
Convivi com ele até os 10 anos.
Severino, o Bill.
Uma vez vi-o arremessar um gatinho de poucos dias contra a parede.
Ele me olhou, riu e não entendeu porque nunca mais falei com ele.

Bom passado

Como era bom ouvir o Guns n Roses.
Recomendo o Greatest Hits.

domingo, janeiro 09, 2011

Facinha

Na minha frente, no ônibus, dois adolescentes conversavam.
– Vô nela. Sem problema?
– Se ela tiver a fim...
– Né isso. Você vai se chatear?
– Que papo estranho. Vai nela. Se ela quiser...
– Tô a fim de namorar, não. Só dar uma pegada.
– Aí é sacanagem. Você sabe que tô numa de ficar um tempo com ela.
– Melhor pra você. Dou uma pegada e ela fica liberada.
– Aí, ó, você tá dizendo que a mina é facinha. Cê vai chegar e pegar.
– Ela me dá mole. Só não peguei por nossa amizade.
– Aí, ó, por isso não. A gente não tem mais amizade. Pode pegar, à vera.
O garoto levantou, deu sinal de parada e desceu.
– Ô babaca, você tá duro. Eu paguei sua passagem.
– Foda-se, prefiro ir a pé. Facinha ela não é mesmo.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Pobreza extrema














Dilma Rousseff afirmou em seu discurso de posse que ao final de seu primeiro período de governo, em 2014, terá erradicado do Brasil a pobreza extrema. Se tiver êxito será a maior presidente da história brasileira. Maior, inclusive, do que o falastrão que a antecedeu.
A pobreza extrema é o horror em estado bruto. Assisti parte de um programa no canal por assinatura Futura sobre a prática do casamento infantil na Etiópia. Famílias que não conseguem sustentar suas filhas, as entregam a partir de 8 anos de idade para homens que com elas se casam. “Quanto mais novas melhores. Ainda não aprenderam as espertezas da vida”, disse um senhor de aparência distinta com sua prenda nas mãos.
No Brasil, por causa da miséria, muitas meninas caem na prostituição, muitas delas agenciadas pela família.
Se Dilma mantiver a palavra, e tudo não tiver sido discurso demagógico, em 2014, se ainda caminhar pela Terra, voto nela. Faço mais: irei às ruas por ela e não vou pedir tetinha para sugar.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

LOURAÇA NO SAMBA


Cá pra nós, quem vive sem amigos? Mas amigos nos deixam em roubadas indescritíveis. Como são amigos, a gente perdoa.
Tradição do Samba me convidou para uma de suas apresentações musicais. Tradição era cantor dos bons. A música que ele cantava... Meu Deus!!!
Não ia dar pra encarar sozinho. Convoquei o Velho Roqueiro como acompanhante.
– Porra, Gordo, roqueiro em roda de samba. Ainda mais com o Tradição. A gente não se topa. Tá puto comigo por algum motivo?
– Velho, já fiz sacrifícios maiores por você. Chamei o Homem de Preto, mas a mulher dele embarreirou. É você mesmo.
Fomos. Tradição estranhou a presença do Velho, mas não deixou de ficar satisfeito.
– Hoje, você ouvirá boa música. Obras engendradas com sentimento.
– Ó!
O Velho, para não agredir, monossilabava.
O cenário da apresentação era o salão da casa do Tradição. Cadeiras em círculo em que descansariam as bundas dos vinte e poucos espectadores e, no centro, espaço para os artistas.
Sentamos. Do lado do Velho alojou-se uma louraça. Uns cinquenta anos. Uma Lolita pra ele.
No centro, logo a nossa frente, o pandeirista se preparava. Retirou seu instrumento de um estojo de couro todo trabalhado e o acariciou com ternura. Parecia que apalpava as coxas de Scarlett Johansen. Os dedos tamborilavam a pele do pandeiro. Fez umas presepadas, pegou um copo de cerveja e lançou um sorriso torto para seu colega de cavaquinho. O único sorriso que vi. O grupo de samba do Tradição era seriíssimo.
O grupo estava formado: violões, cavaquinho, bandolim, pandeiro, tamborim, cuíca. Faltava o cantor.
Tradição chegou e dirigiu-se ao centro da roda.
No meu ouvido, o Velho murmurou:
– O sambeiro gosta de entrada triunfal.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! – o do pandeiro não admitia conversa.
– Gordo, vamunessa, vou dar um pau nesse babaca.
Tradição começou a cantar: “Bate outra vez, a esperança do meu coração...”
– Gordo, você vai ficar sozinho.
Do lado do Velho, a louraça gemeu no ouvido do ancião.
– Não nos deixe sós. Nem a mim nem a seu amigo.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
O Velho quando se emputece fecha o tempo. Normalmente, entra na porrada. Cuidar das escoriações acaba sobrando pra mim.
– Tá legal, Velho, vambora, depois me explico com o Tradição.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
– Gordo, vou ficar, surgiu uma situação.
Desta vez a música parou. Tradição nos deu um esporro. Falta de respeito com a música de raiz.
Peguei o Velho pelo braço, levei-o para fora.
– Que situação?
– Vou comer a loura.
– Velho, nas duas últimas trepadas você quase morreu.
– Exagerei no azulzinho.
– Você vai morrer.
– Se for fodendo, foda-se.
Voltei para a sala, desculpei-me, prometi silêncio.
O Velho, na orelha da loura:
– Vamos sair daqui. Somos indivíduos tristes. Sozinhos, o que somos? Juntos seremos melhores.
Loura sacana. Piscou pro Velho e arrematou:
– Juntos somos melhores: acasalando.
O Velho levantou-se com a loura e interrompeu o suingue de Tradição:
– Não deixe de me convidar, na próxima.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Cafezinho & Cervejinha



Gordo e Tradição do Samba não se viam há algum tempo.
O Gordo ligou pra ele, perguntou se tinha contatos, precisava falar qualquer coisa sobre a invasão do Complexo. Tradição não refugou e confirmou encontro com dois policiais numa mesa de fundo de um boteco na Praça de Inhaúma.
– Eles aceitaram falar, no mocó, agora que a poeira baixou. Mas aí, Gordo, sem vacilo. A poeira baixou, mas não assentou completamente, e os leões ainda têm dentes.
– Porra, Tradiça, assim eu quase desisto. Os caras têm o que contar? E se têm, por que vão abrir?
– Vingança. Levaram uma volta e estão querendo dar o troco.
No boteco, os caras despejaram. Cafezinho e Cervejinha estavam putos. Cafezinho falou primeiro.
– Rolou muita grana. Deixaram a gente de fora de sacanagem. Disseram que a gente tava visado. Visado, como? Moro aí em Pilares. Casa confortável, mas em Pilares. Minha parada de veraneio, em Rio das Ostras, pouca gente sabe. Só os firmões. Pô, a gente tava lá quando desceu um monte. Tudo escoltado. Não rolou nem um cafezinho pra nós.
– Sr. Cafezinho, uma dúvida: primeiro entraram na Vila Cruzeiro e só depois entraram no Complexo?
Cervejinha tomou a palavra:
– Na Vila foi limpo, todo mundo tava ligado: federal, exército, imprensa. Mas vivemos em busca de oportunidades. Os caras entraram atrás da bandidagem e a ninhada teria de sair por algum canto. E saiu. Brotou gente das entranhas da terra. E era só brotar que tinha quem cobrasse pedágio. Foi nessa que jogaram a gente pro alto. Pô, a gente já armou uma pá de esquema. Eu não posso reclamar, mas tem colega em dificuldade. Tenho minha moradia aqui em Inhaúma, mas todo fim de semana, quando dá, vou pro apezão no Recreio. A mulher já tá por lá. Num vem mais pra cá, não se adapta com a poeira do subúrbio. É vizinha da patroa do Polegar. São amigas. Pô, cara, essa parada é negócio. A gente só quer viver.
– Eu li em uma revista que lá em cima não podia falar “gente”, porque o bordão do Comando é “É nóis”. Isso é verdade.
Ficou todo mundo olhando meio sem entender para o Tradição.
– O Tradiça, isso não vem ao caso... Nós, a gente, a velhice é fó. Mas, então, vocês garantem que saiu muita gente?
– Saíram os grandões. Os ratinhos foram largados. Os maiores que ficaram não eram tão graúdos como se imaginavam.
– Vocês acham que agora as coisas vão melhorar?
– Eu e Cervejinha estamos ligados na Rocinha. Tenho ido ao monte duas vezes por semana para ser destacado na invasão daquela mina de ouro. Já falei com o Cervejinha, temos de ser proativos. Lá será uma invasão com propósitos e as primícias serão nossas.

sexta-feira, novembro 12, 2010

MÉDIA

Tiririca acertou menos de 30% do ditado feito para descobrir se ele é analfabeto.
Tive um chefe que é formado, graduado e pós-graduado que não chegaria aos 10%.

quinta-feira, novembro 04, 2010

AMOR FILIAL



Mãe, eu não precisava ouvir isso, agora.
Disse pro papai que a festa era no Flavinho.
Que Flavinho? Meu primo, filho da sua irmã.
Claro que papai não vai ligar pra confirmar. Além de bobão, ele não fala com a tia. Se ele perguntar qualquer coisa pro Flavinho, o primo me apoia.
Você nem é louca de falar qualquer coisa. Quer que papai saiba do cara da academia?
É só você me deixar em paz que fico na minha. Cuide de sua vida.
Ama nada. Nunca amou. Se você é infeliz com papai, resolva com ele.
Mentira. Ele não te corneia. Você sabe que não.
Ele vive para te agradar.
Mãe, nós somos iguais. Duas galinhas. Eu, ainda uma franguinha, mas gosto de piroca como você.
Que seguir seu caminho, nada. Não é minha intenção viver como você.
Não tenho compromisso. Disponho do meu corpo como bem entender.
Um dia, se encontrar alguém que valha à pena, sossego o facho.
Você não tem jeito. Foi péssima filha, é péssima esposa e mãe.
Julgo, sim. Você não vale porra nenhuma e ainda se atreve a me dar conselho.
Não preciso ouvir isso de você.
Vá se foder. Você não vai estragar minha noite.

MALDIÇÃO!!!



“Jake North, um menino britânico de 13 anos, fez sucesso em Mequinenza, Espanha, ao fisgar um peixe que tem o dobro de seu tamanho. A captura do catfish (uma espécie de bagre), que pesava pouco mais de 90 quilos, levou cerca de 25 minutos e um guia turístico local teve de ajudar a segurar o rapaz, para que o animal não o puxasse para dentro do rio.

Maldito guia turístico. Deveria permitir a justa luta e, quem sabe?, o moleque viraria comida de peixe.

quinta-feira, outubro 28, 2010

COISA BONITA DE SE VER - Emily Rose

Sou fã de séries de TV.
Não é fácil fazer uma boa série.
Precisa de uma boa história, bom elenco, direção ágil.
Bom elenco para mim precisa ter OBRIGATORIAMENTE uma mulher, pelo menos uma, que nos faça sentar diante da TV para vê-la.
A boa atriz tem de ter carisma (beleza é legal, mas não fundamental), presença, precisa deixar claro que, sim, ela é tudo aquilo que estamos vendo.
Emily Rose é protagonista de Haven, nova série do SyFy.
Assisto séries pela TV (não tenho saco pra baixar pela Internet).
Estou, por isso, no segundo capítulo do seriado.
Por enquanto, o único motivo de estar acompanhando o programa é Emily Rose. E, por causa dela, seguirei toda a temporada.

Ah, se ela me desse bola



– Belinha, senta aqui. Eu fico no banco da frente.
– Tá legal!
– O Luquinha ficou chateado com você. Por que você não pega carona com ele?
– Vou dar mole pra ele, Dario? Se entrar naquele carro, o babaca vai espalhar que tá me pegando.
– E daí? Você liga pro que dizem?
– Né isso. Tô a fim de um carinha. Se ele pensar que tô com o Luquinha...
– Quem é o felizardo? Já se declarou?
– Não vou dizer e óbvio que não falei nada. Me insinuo, dou pinta, mas o cara é devagar. Chamo prum cinema, pra comer pizza...
– Aê, Belinha, já que falou nisso, me amarrei de você ter me chamado pra ver Tropa contigo. Tava dibob em casa, prostradão, quando você ligou.
– Ganhei os ingressos. Fiquei meio bolada de te chamar. Sei lá, sua namorada poderia encrencar.
– Nada. Tô sozinho há um tempão. Só tem rolado umas peguetes. Até que ando a fim de parada mais estável, mas, pô, tá difícil.
– Esse carinha que tô a fim. Acho que se der certo vai ser pra gente ficar um tempão junto.
– O cara é um felizardo. Você é a mó gata. Um doce de pessoa. A gente papeia bastante. Naquele dia do filme, quando a gente conversava na pizzaria, eu pensei, a Belinha é fodona, cabeça pra caraio.
– Quem é mais gata do que eu na escola?
– Não tem, Belinha. Os caras todos acham isso. Aê, quem é esse moleque? Ele é da escola?
– Da escola, da nossa série, de nossa sala, de nossa fileira.
– Peraí, o Mauro Lesado?
– Dario, meu ponto, vou descer.
– Amanhã, voltamos juntos?
– Acho que não. Estou pensando em aceitar a carona do Luquinha.

terça-feira, outubro 26, 2010

Se você tiver sorte ao embarcar em um ônibus...



Se você tiver sorte ao embarcar em um ônibus carioca e sentar, não festeje.
Ao seu lado se alojará um magrinho de pregas arrebentadas. As pernas do tísico enrabado não se fecharão. Encochar-te-á, o de fiofó arregaçado, até o momento de descer do coletivo.
Perto de você, alguém estará conversando pelo rádio.
Priiiii... Oi, querida, mais quinze minutos e estou chegando. Priiiiiii
Priiiii Ô, amor, entrei no banheiro agora. Um piriri brabo Priiiiii
Priiiii Toma um banhozinho, fofa. Quero você cheirosinha. Priiiiii
Priiiiiiii Cheirosinha? Sorte você não estar aqui. Ainda bem que não dá pra sentir o cheiro pelo rádio. Priiiiiii
Um dia sentiremos e o futuro, por incrível que pareça, será pior do que o presente.
Você está sentado. Um calor do cão. As pernocas do espalhado estão coladas na sua. Não pode piorar. Piorou. Celular com som. Racionais a todo volume. Som horroroso. Mano Brown por 40 minutos. O dono do celular canta junto. O asno crê que seu prazer é o dos outros passageiros.
Aêê, vai sentar? Não? Sento eu. Não dá pra comer esse espetinho e tomar essa cerva em pé. Fica tranquilo, primo, não vou entornar nada. Tô caretão. Não podia deixar o ônibus passar. Desculpa, primo. É que me amarro nessa farinha na carne. Vou tomar cuidado pra não te sujar. Você quer levantar? Peraí. Eeeepppaaaa! Pô, primo, derramou na sua calça porque você esbarrou. Quer descer, desça. Vai à merda!
Você pensa em ir junto, mas o esquálido arrombado resolve apear.
Moço, dá uma licença? O senhor pode me deixar dar uma olhada no jornal? Ah, é o grobo... Não, brigada, num gosto desse jornal, num tem nada pra ler. Era pra passar o tempo. Tô preocupada. Se não chegar em Cascadura até 8h, perco o outro ônibus. Aí, só 8h30. Vou chegar tardão em casa. Meu marido fica bolado. Ele é ciumento. Outro dia, só porque estava conversando com um vizinho ele quis me esculachar. Ah, não aceito isso de jeito maneira. Sabe...
Se você tiver sorte ao embarcar em um ônibus e sentar, não festeje. Talvez você precise descer no meio do caminho, fazer sinal prum táxi e seguir viagem.
Se você tiver sorte ao embarcar em um táxi e encontrar um motorista silencioso...

JÁ Visto

– A senhora tem 90 anos? Pô, a vovó está muito bem.
– Graças a Deus, meu filho.
– Quase um século. Caramba, não chego lá, nunca. A senhora viu coisa pra caraio.
– Vi sempre as mesmas coisas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

OS CAROLAS

A credibilidade da imprensa foi pro cacete nessa eleição. É minha impressão.
Em dois extremos, Veja e CartaCapital pugnam por seus candidatos.
Record e Globo, mais sutilmente, mostram desinteressado amor por seus favoritos.
Escândalos contra Serra são escondidos na Globo e escancarados na Record.
Escândalos contra Dilma são escondidos na Record e escancarados na Globo.
Na década de 90, atravessando a Baía de Guanabara, vi um cara despetalar um Jornal do Brasil e arremessá-lo ao mar pela janela da barca. Nas mãos ficou apenas com o Caderno B.
Lerei, a partir de hoje, os cadernos culturais de jornais e revistas. Política? Nããão!
Dia 31, irei ao mar. Religião é coisa que já me encheu o saco. E como os dois candidatos são religiosíssimos...

segunda-feira, outubro 04, 2010

SOU, MAS QUEM NÃO É?

No Rio, só me irritou a reeleição de Crivella, o senador do povo.
O povo anda sempre mal acompanhado.
Aceito mudança de opinião.
Não acredito que Deus fale no ouvido de alguém.
Crivella afirma que Deus fala com ele. Aliás, andou vendo a mão divina em sua reeleição.
Em dois mil e pouco, Deus falou com o titio dele e garantiu que Lula formava fileiras com Satã.
Ninguém me disse isso. Não vi na Internet. Li no jornaleco porco que a Universal produz.
Li, também, que Lula ia tomar fazendas no interior.
Em minha família há pequenos proprietários de sítios em Minas Gerais.
Ficaram apavorados com a possibilidade de eleição de Lula.
Se Deus um dia se dignar a me dizer algo ao pé do ouvido, entenderei que ele não mudará de ideia alguns anos depois. O cara é o eterno, né não?
Crivella é o pior tipo de ser humano que existe: o que finge ser o que não é.
Prefiro o titio. Ele não engana ninguém. É o velho Palhares.

sexta-feira, outubro 01, 2010

DISSERAM

Lula, em propaganda eleitoral, afirmou: “No passado, disseram que eu fecharia igrejas...” A fala veio a propósito de campanha imbecil espalhada pela internet acusando o Poste de não crer em Deus.
Na Folha, Edir Macedo, dono da Universal, garante apoio ao Poste.
Quem “disseram” que Lula fecharia igrejas foi ele, Macedo, por intermédio dos trouxas que ele manipula.
Eu acho que essa até o Lula sabia.

quarta-feira, setembro 29, 2010

DESOBEDIÊNCIA


Geisy acordou, tomou banho e vestiu o minivestido rosa.
Estava um pouco acima do peso, mas adorava aquele vestidinho.
O pai, sábio, aconselhou: “Filha, esse vestido está muito curto. Ponha um outro”.
Ela sorriu, beijou o pai e foi para a faculdade.
Na Academia, os colegas a sacanearam, perseguiram, xingaram. Tudo por causa do vestido curto.
Ontem, Geisy levou um carro de R$ 100 mil do programa A Fazenda.
Ela é um dos 15 participantes que concorre a R$ 2 milhões.
Das vaias dos coleguinhas da UNIBAN (em novembro de 2009) até agora, Geisy arrumou dinheiro para ampla recauchutagem, apareceu em inúmeros programas de televisão, fez clip com Alexandre Frotta e entra, agora, no cast de A Fazenda.
Saiu do anonimato e vem esticando seus 15 minutos de fama, surpreendentemente.
Sorte de ela ter saído naquela manhã com aquele vestido rosa escrotíssimo.
Se tivesse ouvido o pai...

segunda-feira, setembro 27, 2010

PORCOS LUMINOSOS

Ingratos, os porcos luminosos da progressista capital sertaneja.
Vêm ao Rio de Janeiro, são recebidos com pompa, alegria e generosidade pela esquadra rubro-negra, que concede ao timerda vitória tranquila, e, suínos, cagam na entrada e na saída.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Morcego no poste

Precisei pagar dez reais e merreca ao TRE.
Multa por não ter votado em três eleições.
Enquanto o voto facultativo não vem, acho que vou preferir morrer em três e pouco a cada pleito.
É duro sair de casa para votar no poste ou no morcego.

quarta-feira, setembro 15, 2010

DONDOCA




Vi Dondoca longe.
Nos saltos, vestidão, óculos enormes.
Como ela sempre me ignorava, não me camuflei. Qual não foi minha surpresa (uso aqui expressão adorada pela emergente) quando ela veio em minha direção e me advertiu, severa:
“Velho, quero confrontá-lo com a Palavra da Verdade. Soube que andas com comportamento desviante. Trilhando sendas que não são lícitas a ovelhas do aprisco do divino mestre.”
Mandaria Dondoca pra casa do caraio não fosse uma segunda-feira, dia da semana que costumeiramente reservo para audição das obras completas do AC/DC. Cabeça leve, depois de horas ouvindo a guitarra de Angus Young, perguntei:
“Dondoca, não te vejo há um porrão de tempo. Há outro porrão de tempo você não fala comigo. Por que essa interpelação tão escrota aqui na terra sem calçada?”
Dondoca me olhou, franziu o sobrolho (ela franze o sobrolho; eu fico emputecido, mesmo) e disse:
“O seu linguajar apenas confirma o que me foi dito. Deveria eu, assim que o visse, adverti-lo biblicamente. Dorval pediu-me que o procurasse. Falou-me ele: ‘Exorta-o, mostre-lhe que ele precisa se tratar’.”
Comecei a ficar com medo. Dondoca falando comigo. Falando de um Dorval que não sabia quem era. Um Dorval que informou a ela sobre um tratamento a ser aplicado em mim. Já havia um grupo me olhando.
“Dondoca, não conheço Dorval algum. Doente não estou. Eu...”.
“Você precisa de tratamento espiritual. Internar-se por uma semana, ser mentoriado por verdadeiros servos do altíssimo. Servos que têm conexão direta com Jeovah shimah shenoh. Leia esse flyer. Os preços do tratamento espiritual são baixos se comparados aos ganhos que você terá. A internação pode ser paga parceladamente, no cartão. As exortações bíblicas, não. Pagamento à vista e individual.”
Se Dondoca tivesse me encontrado amanhã, terça, dia que reservo para purgar meus pecados ouvindo cantoras de MPB – Maria Gadu, Bethania, Ana Carolina – já teria virado pasta de futilidade.
“Dondoca, você me diz que estou virado no tinhoso e me vem com soluções materiais.”
“Fogo se apaga com água. Veja os cursos espirituais que oferecemos, faça um deles. Depois, submeta-se à disciplina do Senhor. A terapia de cura interior também é utilíssima. Se daqui a uns dois meses percebermos que você continua da mesma forma poderemos fazer uma regressão bíblica e, quem sabe?, descobrirmos maldição em algum ancestral seu.”
Resolvi deixar Dondoca falando sozinha. Nunca simpatizei com ela. Pessoa fútil, arrogante, prepotente. Agora que percebia que ela era doida... Sei lá, se ela me desse mole eu pegava.

CINQUENTÕES

Na Warner, chegou ao fim a primeira temporada de Men of a certain age.

Talvez pelo tema, homens beirando os cinqüenta anos e suas realizações/decepções, o seriado me pegou e entusiasmou. Nenhum outro foi acompanhado por mim com tanto interesse neste ano de 2010. Por ser fissurado em tv, acompanho muitos seriados (melhor do que perder tempo com os bundões da política), mas o drama bem-humorado criado por Mike Royce e Ray Romano arrebatou minha preferência.
Ray Romano criou uma das melhores comédias de situação que assisti: Everybody loves Raymond. Em Everybody, elenco precioso, roteiro simples e criativo (simplicidade não é pra qualquer um) conjugados a direção exata produziram um seriado clássico que deixou saudade. Agora, com Men acerta de novo.
Men são três amigos (Ray Romano, Andre Braugher e Scott Bakula) vivendo os problemas da meia idade.

Joe (Ray Romano), recém-divorciado, tem dois filhos. Seu casamento acabou, principalmente por seu vício no jogo. Obsessivo, ansioso, compulsivo vê esses defeitos que atravancaram sua vida se reproduzirem no filho pré-adolescente. (Braeden Lemasters, o jovem ator que representa seu filho na série é excepcional.) Joe poderia ter sido um jogador de golfe de primeira linha. Não seguiu carreira por não suportar pressão.

Terry (Scott Bakula) é o solteirão boa pinta que pega a mulherada. Ator que não deu lá muito certo, vive de bicos e, aparentemente, leva vida mansa. As reflexões de seu personagem em mais de um momento calaram fundo nesse meu coraçãozinho sentimental. Sempre animado, chega ao final da primeira temporada convicto de que o papo de seguir o sonho é furadíssimo. O grande problema é que pouca gente sabe quando desistir do sonho (os que sonham, claro) e passar a viver no mundo real.
Owen (Andre Braugher) é casado, três filhos, bem resolvido no matrimônio. Só no matrimônio. Trabalha como vendedor na concessionária do pai, um ex-craque de futebol. Oprimido pelo pai, Owen vê-se, aos 50 anos, sem muitas alternativas profissionais.
Men of a certain age, no entanto, é principalmente uma série de exaltação à amizade masculina. Homens fazem amigos na entrada da adolescência. Amigos que não são esquecidos.
O ritual dos três amigos que caminham todos os dias, reduzem os dramas uns dos outros a uma piada e sempre guardam para si os problemas que lhe afligem a alma é tipicamente masculino. Mulheres expõem as entranhas. Homens, jamais.
Amigos ouvem, tentam ajudar sem a babaquice do aconselhamento, aceitam as diferenças comuns entre humanos e esforçam-se em manter a leveza no relacionamento. A amizade dos personagens de Men of a certain age é igual à de homens de meia idade de todo o mundo.
Séries norte-americanas se não atingem uma certa meta de audiência são canceladas, inapelavelmente. Men of a certain age já tem uma segunda temporada garantida. Se não tivesse, o espectador não ficaria desapontado. Mike Royce e Ray Romano fecharam o primeiro ano sem deixar ganchos para o próximo.
O gancho de Men of a certain age é a qualidade da série. Quem viu o primeiro ano verá o segundo. Tenho certeza disso. 


Outras séries bacanas: Breaking bad; Fringe; Dexter; Chuck; Drop dead Diva; Justified (apesar da dublagem tenebrosa)

terça-feira, setembro 14, 2010

VOVÓ

Minha vovó, dona de sabedoria profunda, dizia pra nós, netinhos: “Quem tem amigos não morre pagão”.
A vovó de Poste Rousseff deveria dizer coisa semelhante.
Eu, crânio de pedra, não ouvi vovó.
A vovó do Brasil, mais esperta, ouviu e fez amigos.
Poste será presidente de Lulalândia.
Eu morrerei pagão.

quinta-feira, setembro 09, 2010

SONHO



O colombiano Edward Hernández, 70cm de altura, considerado pelo livro Guinness dos Recordes o menor homem do mundo, sonha ser goleiro de futebol.
O ser humano é fascinante. Sempre crê no impossível.

16



De manhã, dar de cara com uma adolescente morta, queimada, desfigurada tira o apetite do mais duro e escolado guerreiro. Não ia dar pra encarar o café com leite e o sanduba de fritada.
Parei diante do corpo e olhei para a menina. Logo a reconheci. Morava a dois blocos de distância do meu. Jurema, o nome dela. Menina bonita, cobiçada pela garotada e por uns mais velhos, também.
Não é sábio parar perto de corpos chacinados. A bandidagem é sensível. O matador não gosta de solidariedade à vítima. Se morreu é porque merecia, reduz o populacho.
Baixinho, ouço em meu ouvido direito, vindo da boca de uma velhinha: “Ela estava namorando um cara do movimento. O grupo inimigo invadiu o baile. Morreram três. Ela apanhou muito”.
Saí de fininho. Um peso na carcaça. Parei no boteco. O assunto: Jurema. “Tadinha, começou a namorar o moleque há uma semana. Não sabia nada dele. Morreu na inocência”.
Há um tempo passei por Jurema na portaria.
“Tio, tem um cigarro?”
“Não fumo, querida. Sai dessa, cigarro faz mal.”
“Sou viciada, não, tio, fumo de onda.”
Sorrisão bonito de quem vai viver um caralhão de anos.
Corri pro ônibus, me sentei, ia abrir o jornal.
“O senhor mora aí no condomínio? O corpo da menina ainda está lá? Morte besta. Pura imprudência de garoto. Ela deu mole pro Dom. Ele chegou junto, ela recuou. O cara ficou doido. Soube que ela estava namorando, mobilizou a tropa pra fechar a conta com a menina”.
Deixei o cara falando sozinho, desci do ônibus e caminhei de volta pra casa. Trabalhar o caraio.
Aos 65 anos, dei-me conta que não entendia mais o mundo onde vivia.
Pelos 18, tive uma namoradinha de quem gostava demais. Ela nem tanto. Um dia encontrou coisa melhor e saiu fora. Fiquei puto. Quando a encontrei com o cara, falei muita merda, parti pra cima, entrei na porrada. No chão, corno espancado, chorei. Mas levantei-me e parti pra várias outras.
Hoje, não haveria briga.
Hoje, é matar ou morrer.
Virei a esquina e, de longe, vi que o corpo estava lá, coberto por um plástico preto. Parei diante do cadáver, uma vontade doida de descobri-lo. Aquele corpo precisava ficar exposto, a revelar a todos: “Morri porque estava com 16 anos e agi como se 16 anos tivesse”.

COLONIZADOS



Encostei o umbigo no balcão do McDonalds e pedi à caixa:
– Suco de laranja, um sanduíche de peixe e um de frango.
– O quê?
– Peixe, frango e laranja?
– Um Big Taste?
– Orange juice, McFish e McChicken.
Os olhos da menina se iluminaram. Enfim, eu falava o idioma dela.

quarta-feira, setembro 08, 2010

LONGA VIDA AOS ANDRÉ FIORI!

Lá pelos 20 e poucos anos de idade, rodava a cidade do Rio para comprar meus vinis.
Duro, ia na Farelo. Rua da Carioca, pertinho da Praça Tiradentes. Comprava discos que eram destinados para divulgação. Entrava, cumprimentava o Neguinho e ia para o balcão pescar. Gastava tanto que logo passei a ter tratamento especial.
Quando pintava um carregamento, o Neguinho me ligava: “Gordo, amanhã vamos pôr os discos no balcão”. Corria para lá e numa salinha, junto com outros famintos (todos mais esfomeados do que eu, afinal, eram lojistas), disputava discos quase a porrada.
A Hi-Fi, no Rio Sul, vendia a preço exorbitante, mas tinha uma promoção engana-trouxa: a cada 10 discos o bobo levava um “de graça”. Levei muitos. A Hi-Fi vendia o que outras lojas não ofereciam.
De qualquer forma, havia oferta pujante de discos na cidade. O Rio Sul tinha quatro, cinco lojas que vendiam discos. Lojas grandes, pequenas. Hoje, creio que só se encontra disco por lá na Saraiva.
Os vinis sumiram, vieram os cds e minha disposição de circular pela cidade em busca da bolacha perfeita acabou. Voltei a comprar como fazia em minha época de adolescente. Tinha duas, três lojas de preferência e nelas comprava.
A fartura da época do vinil (Gramophone, Modern Sound, Gabriella, Farelo, MotoDisco etc.) acabou. No Rio, sobreviveu a Modern Sound, que tem bom acervo, mas é um pouco conservadora. Encontra-se lá, mais facilmente, um Steely Dan do que um XX.
Hoje compro discos (tenho resistência insana a baixar música) em livrarias (Travessa, FNAC e Saraiva, que daqui a pouco deixarão de vender cds) e na Velvet.
A Velvet é uma loja física no centro de São Paulo. Para mim é loja virtual. Mas uma loja virtual com seres humanos no atendimento. Há uns cinco anos sou freguês, compro, praticamente, todos os meses. Adquiro cds novos, peço importados para repor meus vinis, sempre sendo atendido com presteza, atenção e profissionalismo.
O dono (ou um dos donos) da Velvet, André Fiori, é um cara que ama música. Conhece seu trabalho como poucos e esse é um diferencial no atendimento.
Há quem julgue que importante para o país é um bom presidente da república, outros acham que fundamental é termos grandes cientistas e por aí vai.
Porra nenhuma, o que não pode faltar neste país são idealistas apaixonados que toquem negócios como livrarias e lojas de disco. Esses caras é que são fundamentais para manter nossa saúde mental.
Longa vida para os André Fiori!

quarta-feira, setembro 01, 2010

SORTE



– É, Ivone, eu estava errado.
– Querido, erramos os dois. Não pensei do Paulinho nos dar essa boa vida. Casa, carro, bairro bacana.
– Com 13 anos parou de estudar.
– Ficava o dia inteiro atrás de mim. Só queria varrer, fazer limpeza na cozinha, banheiro. Achei até que ele era doido.
– Bem que você gostava...
– Os outros três estudaram, fizeram faculdade.
– E estão na merda. De vez em quando me espetam.
– O Paulinho sempre nos ajuda.
– Quem diria, o moleque tinha tudo pensado. Virou o bambambã da faxina, se mandou pros EUA e hoje está rico.
– Não tem desentupidor de latrina melhor do que ele.
– O moleque me dá orgulho. Tá mostrando pros gringos o valor do brasileiro. Encaramos cagalhões com um sorriso no rosto.
– Nossa Cacildinha, em vez de fazer Comunicação, poderia ter aprendido a barbear pentelho. Estaria rica em Miami.
– Gênio, na família, um só. Demos sorte.