sábado, outubro 31, 2009

Pão com manteiga

Há coisas que não entendo.

Ao redor de mim, todos entendem. Ninguém protesta. Burro, então, sou eu.

A padaria, perto de minha cabana na Serra, abre às 6h30.

As portas se abrem, mas o pão ainda não está pronto, o café ficará dali a uns minutinhos e a caixa papeia longe de sua base de trabalho.

Este gordo, envelhecido e cheio de dores, tem pouquíssima paciência, por isso chego na padaria às 7h.

Antes, compro o jornal.

O único exemplar de O Globo que chega na Serra, guardado para mim pela gentil jornaleira.

A padaria é em frente.

Bom dia, dois pães frios com manteiga e um café puro.

Invariavelmente, o balconista me fará confirmar se o café é frio, mesmo, e se o pão vai na chapa.

Café puro. Pão frio. Se for na chapa, não quero.

Ele, ou ela, me olhará (na estupidez, pelo menos, não há diferença entre sexos) e encherá o copo de café e o depositará no balcão. Eu porei o açúcar e aguardarei o pão.

Três vezes em cinco (já me dei o trabalho de contar) não tem pão ali perto dele. Ele irá ao outro extremo da padaria pegá-lo.

Duas vezes em cinco (sim, contei, também), quando falta pão para o café servido no balcão não tem também para venda. O pão ainda estará no forno.

O balconista me deixará com o café no copo e se embrenhará nas entranhas da padaria. Quando retornar, meu café estará geladinho, ao gosto daquele estranho povo do Norte da América.

Perguntei esta semana ao rapaz que gerencia a padaria: Por que antes de servir o café não é preparado o pão?

Ele me olhou (acho que percebi admiração naquele olhar) e disse: O senhor está dando uma ótima ideia. Vou passar essa orientação pro meu pessoal.

Dispensei o café e fui para casa.

Abri o jornal e vi na manchete que alunos e professores de uma universidade hostilizaram uma aluna porque ela foi à aula de vestido curto. Ia me espantar, mas percebi que a história acontecera em São Paulo, a capital sertaneja do Brasil.

Nada que se dá em São Paulo deve se estranhar.

sábado, outubro 24, 2009

Paixão adolescente

Tenho comprado, regularmente, os CDs dos Beatles que saíram remasterizados e em embalagens caprichadas. A coleção é preciosa. Preciosíssima para quem, como eu, viveu a Beatlemania.
Sempre fui pobre. Pobre de bom gosto, mas pobre. Sortudo, tive pai que apreciava livros e música. Saía algo novo, eu ligava para o trabalho dele e, se houvesse dinheiro, no dia seguinte a bolacha estava rodando na Telefunken.
O primeiro disco dos Beatles que ouvi, ganhei de meu pai: Help! Não a edição inglesa, remasterizada agora, mas a que saiu aqui, a norte-americana.
A percepção que tenho dos Beatles é a da paixão pura. Adolescente não se preocupa com opinião de críticos. Não fui diferente. Influência só da rodinha.
Hoje em dia, por mais que tente ignorar a turminha que é paga pra veicular opiniões pessoais, não poucas vezes me vejo impelido a comprar CDs como um zumbi, manipulado por um bosta dono de bom texto.
Sentia prazer ouvindo Beatles. Participava de fã-clube. Falávamos sobre as novas músicas, dissecávamos os LPs. Aos 14 é ótimo ser ingênuo, apaixonado, inflamado. Aliás, não ser é um desperdício.
O pouco dinheiro está me obrigando a comprar os CDs um a um. Ótimo.
Há alguns meses, com os bolsos cheios, recém-saído da Penitenciária Covil de Serpentes, encontrei na Modern Sound quase todos os discos do Steely Dan. Como os dos Beatles, tinha-os em vinil. Sem toca-discos, há muitos anos não os ouvia. Aproveitei, então, a oportunidade e comprei todos de uma vez. Não os curti como esperava.
Os Beatles foram um fenômeno mundial e, sim, em determinado momento a bravata de John Lennon fez todo o sentido: eram mais populares do que Jesus Cristo.
Ser contemporâneo de um fenômeno não faz de ninguém o melhor crítico. Muita coisa sobre os Beatles soube muito depois. Viver a época de um fenômeno, no entanto, nos proporciona satisfação inigualável. Estávamos lá quando começou, fomos envolvidos por um sentimento de nossa geração. Amor de adolescente, sacumé.
Os Beatles nunca vieram ao Brasil. Quem apareceu por aqui foram os American Beatles. No Brasil, havia o Brazilian Beatles. Imagine, hoje, um American U2. E vindo a Lulalândia para consolar os fãs, tocando em lugar dos originais. Não dá para imaginar. É clichê, mas aqueles eram outros tempos.
Em tempos de ócio, ouvir os Beatles, de novo, tem me feito muito bem. Tenho a coletânea 1, com os singles do quarteto. Comprei Love, que foi usado num espetáculo do Cirque du Soleil. Consegui encontrar, no começo da década, Sgt. Peppers e Abbey Road, mas minhas paixões eram o Álbum Branco e Revolver. Comprei-os, finalmente.
Meu pai viveu, certa época, uma fase muito difícil. Não tinha ânimo para nada. Lia o dia inteiro e ouvia óperas. Todos nós o criticávamos. Na época, não se falava em depressão como doença. Ainda hoje, há tapados que a consideram um problema espiritual.
Ele é que estava certo. Sobreviveu por isso. O legado que me deixou foi o amor pela música e pelos livros... e aquele disco dos Beatles, início de minha vasta coleção de 4 mil vinis e, hoje, 5 mil CDs. Muita coisa prum pobre que mora num quarto e sala com esposa, cachorra e mais uns 3 mil livros.
Pobre, sim. Burro, jamais.

quinta-feira, outubro 22, 2009

A ARTE DE DEFECAR

Albert Einstein, para evitar gastar tempo com futilidades, tinha em seu armário vários ternos iguais. Não se angustiava como alguns de nós na hora de sair de casa.
Entendo o notável físico quando levo minha cadela para defecar.
Em primeiro lugar, ela define a direção que devo tomar. Ela, na ponta da guia, é quem me conduz. Saímos do prédio e ela para na primeira bifurcação. Um caminho leva para a rua, o outro para o interior do condomínio. Essa primeira decisão costuma ser rápida, antecedida de uma boa cheirada em vestígios de urina canina aqui e ali.
Se ela decidir ir para a rua, ótimo. Lá fora as alternativas são poucas. Direita ou esquerda.
Se resolver explorar o condomínio, me entrego aos poderes do alto. São vários caminhos, muitas direções, uma infinidade de cheiros que, maravilha, não consigo sentir.
Preparo-me para uns 20 minutos de idas e vindas, pulos de dentes arreganhados na direção de desavisados, pedidos de desculpas, um ou outro vá se foder...
Depois de me extenuar, ela escolhe, por exemplo, o quadrante sul da quadra. No quadrante, ela começa a percorrer grandes círculos que vão diminuindo até chegar ao que chamo de região X. Nesta região, posto-me no centro e ela dá muitas, muitas, muitas voltas ao meu redor até parar. Aí, sim, é o ponto X. O corpo dela se dobra para cima. A obra começará a ser feita.
Este é um momento de profunda comunhão entre mim e os poderes que regem o Universo. Clamo aos céus para que ninguém apareça, nenhum carro surja. Se isso acontece, ela se desconcentra e para. Se parar, vamos começar a buscar outro ponto X, que pode ser lá na puta que pariu.
Se considerarmos a consistência, um cão caga, como nós, humanos, de duas formas: mole ou duro. Cocô duro é mole. Cocô mole é duro. De recolher.
Cocô de cachorro, no entanto, não é só consistência. Há a forma. O tipo mais simples de recolher é o que classifico como cagalhão. Um bloco só, mole ou duro, que se recolhe de uma vez.
Enjoado é o pingadinho, que o cão vai largando por vários metros e você, com 150kg na carcaça, tem de ir catando, cantando mantras pacificadores.
Depois de defecar, minha amada cadela fica paradinha, aguardando que eu a limpe.
Limpo-a (se não fizer isso, acho que sou mordido) e, em introspecção, preparo-me para a mijadinha, que será dada, depois da repetição do ritual de escolha, no outro extremo do condomínio.
Ter um cão me fez dar o maior valor ao vaso sanitário. Ainda bem que nós humanos temos um lugar certo onde depositar nossos excrementos. Se assim não fosse, quanta energia despenderíamos num simples lançamento de barro. Os mais simples cagariam na frente de seus próprios lares, mas, e os provocadores? Estes passariam telegrama na porta dos desafetos e, certamente, não recolheriam a missiva.
Então, você que me lê, não deixe de apresentar preito de gratidão ao gênio que bolou o vaso sanitário. Essa figura que não conhecemos é muito mais genial do que o gênio dos ternos iguais.

segunda-feira, outubro 19, 2009

A estupidez humana

Religiosos fanáticos não esgotam o repertório de imbecilidades que reservam para seu público.
E tem gente boa querendo teocracia. Aí, como quer Saramago, só se Deus tomasse café com Ratzinger.

Picasso

- Cara, você acredita que a Dudinha me deixou?
- Ó! Aquilo é a mó puta. Você sabia disso.
- Não fala assim. Ela tem a alma livre. Você é machão. Eu e ela ficamos três anos juntos.
- Ela te corneou os três anos. Não comi por causa de nossa amizade, sacumé.
- Tô mal, cara. Se ela quisesse voltar...
- Ela não vai voltar. Não, agora. O Picasso tá pegando.
- O Picasso? Mas ele é tudo o que ela sempre condenou em um homem. Truculento, controlador, não respeita a parceira.
- A Dudinha sempre foi chegada a um safanão. Cheguei a te alertar.
- Isso é idiotice. Dudinha é independente. Gosta de carinho, liberdade. Eu sempre dei espaço a ela, nunca a sufoquei.
- Por isso ela foi embora ou, talvez, porque você não seja o Picasso.

NUM FÓ

A revista TRIP vai encartar R$2,00 em alguns exemplares de sua próxima edição.
É um teste. Querem saber como anda a honestidade do brasileiro.
O dinheiro que retornar será encaminhado a instituições de caridade.
Compro a TRIP, regularmente.
Se encontrar os dois reais, não devolvo. Não irei aos Correios.
Além de pagar caro pela revista, ainda querem me dar trabalho.
Num fó.

Hypocryzya

O velho roqueiro anda emputecido.
Já anda de saco cheio de ver especialistas em empregabilidade (que porra será essa?) e jornalistas diplomados dizerem pra garotada tomar cuidado com o que posta em páginas de sítios de relacionamento.
Algumas empresas estão fuçando esses perfis para selecionarem futuros empregados, afirmam as figuras. O velho roqueiro grita, irado: “Fodam-se as empresas”.
Por questões que envolvem segurança, o gado é filmado até cagando. Todos toleram, porque se derrubam helicópteros o que não farão com humildes pedestres. O medo justifica (?) a invasão de privacidade.
O velho roqueiro, no entanto, acha intolerável esse descaramento de empresas fuçarem a vida alheia e usarem isso para a seleção de novos empregados e chocante o fato de nenhum desses especialistas apontar esta atitude como imoral.
A menina, bonita ou feia, que quiser postar uma foto de si mesma pelada, agarrada com o namorado ou a namorada, pode e deve fazê-lo. Ela não será melhor ou pior funcionária por causa disso.
O velho roqueiro é conservador, fã do ACDC, chora com os solos de David Gilmour, mas perde a cabeça com a hipocrisia.
O velho roqueiro não é chegado a filosofar nem apresentar diagnósticos, mas anda dizendo que nos ambientes corporativos todos comem todos, no sapatinho. Às claras, para a plateia, condenam o comportamento libidinoso.
Sabe das coisas, o ancião.

domingo, outubro 11, 2009

O voo dos urubus


A primeira vez que vi urubus de perto, criança ainda, foi em Macaé.
Aqui no Rio via-os no céu.
Há alguns metros de distância o bicho é horroroso.
O bom flamenguista tem simpatia pelo carniceiro. As torcidas rivais sacaneavam os rubro-negros chamando-os de urubu em alusão ao grande contingente de afrodescendentes que compunham a maior torcida do Brasil. Hoje, essas torcidas seriam enquadradas na lei, por racismo.
No final da década de 60, um maluco soltou um urubu no campo. Jogavam Flamengo e Botafogo. Hoje, o Flamengo ganha o Botafogo a toda hora. Naquela época, perdia sempre. Fim de jogo, Flamengo 2 a 1. Henfil popularizou o urubu no Jornal dos Sports e o “lixeiro dos ares” virou mascote da massa flamenguista.
Sempre levo no bolso, em minhas caminhadas aqui na serra, a máquina fotográfica. Pode aparecer um gamo, um tucano e gosto de estar pronto para captar esses mágicos instantes que a Serra de Inhaúma proporciona.
Semana passada, esbarrei com um bando de urubus fazendo a refeição matinal. Contei 23. Enfiei a mão no bolso e percebi que havia esquecido a máquina. Segui na caminhada. Uns 100m à frente, outro grupo de urubus. Parei e fiquei olhando.
É um bicho feio. Brigam muito entre eles por um naco de comida. São agressivos. Andam desengonçadamente. Basta, no entanto, que levantem voo para se tornarem aves graciosíssimas. Observei-os, durante algum tempo, fazendo voos rasantes do alce morto (bala perdida, sacumé) até a zebrinha desencarnada. É lindo. Nada voa como um urubu.
É isso que me dá esperança de o Flamengo chegar ao G4 e ao título.
Os urubus levantaram voo.

sábado, outubro 10, 2009

Transporte coletivo

Ando muito de ônibus.
Não gosto, mas não tenho escolha.
Quando entra uma grana, circulo de amarelinho, mas a coisa anda feia.
Estava, dia desses, no Norte Shopping. Na mão, uma sacola da Saraiva com livro e cd. Fiquei na dúvida: Kombi ou ônibus? Dúvida de pobre.
Embarquei no coletivo.
Motorista de ônibus dirige aos trancos. Ou ele aceleeeeera ou freeeeeeeia. Acho que a idéia é nos derrubar, passageiros descuidados. Eu, pesado, sou cauteloso. Agarro-me aos ferros e me arrasto até a roleta, ansioso pra largar a bunda numa cadeira e sofrer os solavancos, sentado.
Naquele dia fui imprevidente. De fora, achei que o ônibus tinha lugar. Não tinha. Um gênio desses que não sobe em coletivo nem sob a mira de um AK-43 resolveu que as cadeiras dos cata-cornos têm de ter bracinho. Resultado, gordo cidadão, como eu, se não encontrar cadeiras totalmente desocupadas, fica em pé. Não sei, acho constrangedor alojar meia bunda na perna de um desconhecido.
De pé, matutei: “Quatro da tarde, um percurso de 20 minutos, não é tão ruim”.
Três pontos depois o ônibus estava superlotado. Primeiro, uma meia-dúzia de mulheres com filhos, muitos filhos, de, no máximo, 5, 6 anos. Depois, um grupo de senhoras que saiu não sei de onde e se espalhou reivindicando todos os pontos possíveis de apoio. E, para finalizar, a praga das pragas: estudantes. Por que essas pestes gritam tanto?
Lá na frente, o piloto se esmerava. Sacudia a galera à vontade. O ônibus, micrão como chamam alguns debochados, não tinha cobrador. Quando a porta traseira era aberta pro desembarque das feras, o motorista contava com a boa vontade da turba para lhe informar quando poderia dar a partida. A cada um que ele derrubava nos degraus de saída, e depois de devidamente xingado, já que nós da zona norte não somos finos como o povo da zona sul, explicava: “Me desculpem, esse ônibus não tem espelho no salão, é ruim de ver aí atrás”.
Eu, com minha vasta experiência de usuário de coletivos, tinha uma certeza: vai dar merda. A esperança era que a merda se desse quando eu já tivesse descido.
Os estudantes desceram. Algumas mães, também. O ônibus já não estava tão cheio. Duas senhoras, destemidamente, se levantaram para ficarem pertinho da porta. Entre um ponto e outro, foram jogadas para trás e, minutos depois, lançadas para frente, quando o ônibus freou.
Desceu um rapaz que, educadíssimo, agradeceu. O atento motorista entendeu o agradecimento como uma autorização para ele partir. Fechou a porta e partiu com vontade. As duas senhoras, no meio dos degraus, bateram nos dois lados da escada de descida e foram ao chão. Eu, que também ia descer, segurei-me, se não cairia em cima das mirradas vovós e talvez estivesse, hoje, preso por homicídio.
Sou educado, quase um tijucano, mas não resisti e, um pouco contrariado, interpelei o motorista: “Ô seu feladaputa, três pessoas iam descer. Preste atenção no seu serviço”.
“É que não tem espelho no salão”, repetiu ele.
“Isso é problema do seu patrão, companheiro”.
As senhoras estavam lá, amontoadas no fundo da escada, sem conseguirem se levantar, escoradas na porta.
Aí, o motorista teve outra grande ideia, abriu a porta do ônibus.
Claro, as duas se estatelaram no asfalto.

quinta-feira, outubro 08, 2009

A melhor guitarra dos Stones

Jagger, Richards, Watts, Taylor e Wyman

Perguntaram a Mick Taylor, ex-guitarrista dos Rolling Stones, ali pelo começo da década de 70, se ele se arrependia de ter deixado o grupo.
Ele disse que não. “Se tivesse ficado nos Stones, as drogas teriam me matado”.
Mick Taylor ocupou o lugar de Brian Jones, que morreu afogado em uma piscina em circunstâncias estranhas. Taylor recebeu o convite para ingressar na banda e fez doce. Era um guitarrista mais qualificado do que o necessário para os Stones. (Tanto é verdade que depois dele entrou o medíocre Ron Wood que está no grupo até hoje.) Mas a projeção internacional dos Stones, acredito eu, acabou por convencê-lo de que era bom negócio “fazer um sacrifício”.
Com Mick Taylor, os Rolling Stones gravaram dois de seus melhores discos: “Exile on main street” e “Sticky fingers”. E é só ouvir com um mínimo de atenção para perceber a guitarra soberba que o cara tocava.

Aqui se faz, aqui se paga

- Aqui se faz, aqui se paga. O que plantamos, colhemos. É nisso que acredito.
- Menelau, você tem 80 anos. Casou com uma mulher a quem não amava, porque era de família rica. Deu o golpe do baú e depois de alguns anos assumiu a empresa da família enganando os babacas dos seus cunhados. As melhores mulheres você comeu. Rico, boa pinta, papo escorregadio, não é de se estranhar que tenha sido assim. Foi um péssimo pai pros seus três filhos. Surpreendentemente, todos o veneram. Nunca lhe causaram problemas. Sua mulher, com toda galhada que carrega, jamais lhe foi infiel. Quando, Menelau, você vai começar a pagar o que fez? O que você plantou, um dia vai colher?
- Duque, você e sua moral burguesa. Nada faltou, a vida toda, nem à minha mulher nem a meus filhos.
- O dinheiro era dela. Você roubou seus cunhados, seu sogro, se apropriou do que era deles. É péssimo patrão. Paga mal, explora seus empregados. Arrogante, desprezível, perverso. Segundo suas crenças, quando você vai começar a pagar todo o mal que fez?
- Duque, você está extrapolando. Dirija e cale-se.
- Há 40 anos sou seu motorista. Todas as vezes que o rádio fala em algum meliantezinho de merda morto pela polícia, você, seu escroto, repete a mesma frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. Porra nenhuma, você nunca pagou nada. Quantas vezes o ouvi se vangloriar de ter destruído alguém, se gabar de ter comido uma garotinha oferecendo um qualquer prum pai mais filho da puta do que você...
- Pare esse carro, você está demitido.
- Menelau, eu queria ter coragem pra enfiar esse carro num paredão, mas quase que certamente você sairia incólume. Gente como você faz o que quer. Planta merda e colhe ouro. Dirija essa merda. Fico por aqui. Não aguento mais ouvi-lo dizer: “Aqui se faz, aqui se paga”. Estou a ponto de lhe dar um tiro nos cornos.

segunda-feira, setembro 28, 2009

GENTE MORTA

Vejo gente morta.
Londres me chama, mas fica proutra hora.
Dureza, sacumé.
Como um joelho, tomo um café e sigo pra caminhada diária.
Ouço tiros todas as noites. Hoje, pareciam estar mais perto. Não me impressiono. Nem eu nem os vizinhos.
Por isso acordo cedo, caminho e vejo mortos. Salto sobre eles. Indiferente.
Plugado, ouço Clash.
Filtro os barulhos da rua.
Atenção, só para o trânsito. Não quero ser barreira para outros caminhantes.
A polícia está atrás de mim.
Nada contra este gordo que se arrasta.
A lei discutia a identidade do último cadáver por que passei.
Desço a Automóvel Clube e até onde a vista encataratada enxerga nem sinal de mortos estendidos pelo chão.
Dou duas voltas, banho e cama.
Os atiradores dormem de manhã.
O barulho não me incomoda. Já incomodou.
De vez em quando, no entanto, o silêncio é bom.
Durmo pesado, sem sonhos.

MACUMBÉLICO

Evangélicos têm pavor de espíritas.
Não sei se ainda sou evangélico, mas jamais alimentei esse sentimento.
Vim de lá, sou macumbélico.
Seres humanos valem alguma coisa, ou não valem nada, independentemente de religião, cor, sexo, nível social, faixa etária...
Circulei pela igreja católica, espiritismo e, na maior parte da vida adulta, tenho sido evangélico. Frequento uma igreja batista, não muito regularmente, com prazer.
Na infância, em ocasiões especiais, meus pais me levavam ao Centro Espírita.
Dona Belinha, uma gorda simpática, era a mãe-de-santo. A casa em que ela morava tinha dois andares. Ficava em uma escadaria ao lado do antigo campo do América. Hoje, o Shopping Iguatemi. Da Teodoro da Silva víamos a casa branca, no alto. Parecia um castelo.
As crianças não participavam de toda a sessão espírita. Enquanto aguardávamos ser chamados, assistíamos televisão. Ou fingíamos assistir. A TV ficava em um nicho da parede, bem lá em cima, numa extremidade da sala. A sala era enorme. Ficávamos sentados na outra extremidade. O som, baixíssimo, não permitia que ouvíssemos nada. E, para ver, só de binóculos. Todo religioso é louco.
Descíamos para o terreiro na gira de crianças. Era engraçado vermos os adultos que nos davam esporro comportando-se como crianças traquinas e birrentas.
Minha tia Janete recebia uma criança bonita como ela e divertidíssima. Minha mãe fazia suas travessuras, também incorporada. Mas onde se juntam muitas crianças tem sempre uma que enche a paciência de todo mundo. Pentelhíssima era d. Leonor, uma respeitabilíssima sessentona que, montada, emprestava seu corpo para a criança mais desagradável daqui e dalém. A criança de d. Leonor estava sempre mastigando doces que o terreiro oferecia de montão.
Mastigava, amassava nas mãos e passava na boca dos desavisados. Boca cheia de doce e cuspe, a vontade era encher a velhinha de porrada. Mas criança do além, sei lá, ficávamos encagaçados de encarar.
As crianças dalém subiam não sei pra onde e nós, as daqui, também, para a TV quase muda. Terminada a sessão, desmoronando de sono, éramos arrastados pelos adultos para casa. Morávamos a três quarteirões do Centro, mas aquela caminhada de volta na madrugada parecia uma marcha sem fim. Tenho saudades.

quarta-feira, setembro 16, 2009

ALOFENO

- ‘Cê não entende nada de marketing. Importante é a embalagem. Uma embalagem bem transada agrega valor.
- Sanduíche natural pra vender bem tem de ser gostoso, só isso.
- Você pode vender o sanduíche embrulhado no papel laminado, mas aí seu produto é igual ao de vários concorrentes. Uma embalagem bem engendrada fará do seu um produto diferenciado.
- Mas encarece o produto. Teremos de repassar esse custo para o cliente final.
- Repassaremos e o público-alvo pagará. Acompanhe-me. Faremos a embalagem em papel reciclado verde. Escreveremos o nome do sanduíche: SANDUVITA. Informaremos na embalagem que o pão de nosso produto não contém Alofeno, porque é assado em fornos movidos a energia eólica. Para ficar bem claro, imprimiremos: “Sem Alofeno. Contém Delta 7”.
- Alofeno, Delta 7?
- Basta dizer que o Alofeno, além de agredir a camada de Ozônio, engorda. Já o Delta 7 é um eficaz inibidor de radicais flutuantes.
- ???
- Diga que esses radicais flutuantes são os maiores causadores de ataques cardíacos e tumores no cérebro. Se você perceber dúvida, informe que saiu na Veja. Ninguém lê revista, mesmo.
- Os sanduíches serão de frango e atum?
- Não é só isso. Você precisa ser proativo. Não vai estar escrito na embalagem, mas informe ao cliente que nossos frangos são criados em quintal, livres. São frangos que tiveram vida feliz. Não há perigo de terem trazido em sua carne energia ruim. Mencione que os atuns são criados em Araruama e só são abatidos depois que atingem a vida adulta. São mortos com injeção que não provoca dor, ouvindo Roberto Carlos.
- Acho que vai dar certo.
- Se fizermos isso, podemos cobrar 10 pratas o sanduba. E lembre-se, depois de feita a venda, fale ao cliente com semblante entre sério e exultante: “O Planeta Terra agradece sua opção pela vida”.

ODALISCAS TIJUCANAS

Há cenas que não esqueço.
Quase todos os dias, há uns 20 anos, passava na Videogame Center, simpática loja que funcionava em uma galeria da Praça S. Pena (depois cresceu, mudou-se para o Shopping Tijuca e eu lá não fui mais).
A VGC alugava fitas VHS, games e cds. Eram três lojas independentes em uma. Gravei centenas de fitas cassete de grupos que jamais conheceria, não fora a existência de utilidade pública da VGC. Comprei, também, alguns CDs, mas eram caríssimos.
A garotada que atendia nos balcões, meio arrogante com novos clientes e atenciosíssima com veteranos, se achava. Algumas das meninas se achavam com razão.
As meninas eram bacanas, bonitas, cobiçáveis. Os rapazes faziam força para parecerem descolados. Tijucanos, sacumé.
Um dia pus o pé dentro da loja e fiquei paralisado na porta. Do canto de meus lábios, um grosso fio de baba escorreu. A todo volume, tocava no som da loja a batida oriental de “Come out and play”, do Offspring. As meninas requebravam-se sensualmente, odaliscas tijucanas a me perturbarem o juízo.
Em dias que acho que está tudo uma merda, pego “Smash”, do Offspring, e ponho no cedepleier. Sento-me, aciono a faixa “Come out and play” e fecho os olhos.
Olhos fechados, vejo as odaliscas requebrantes, relaxo e...

terça-feira, setembro 08, 2009

POSITIVO

Positivo. Os quatro meliantes foram presos em flagrante. Alguém do prédio desconfiou e ligou pra nós. Um conseguiu evadir-se, mas já estamos mobilizando grande contingente para efetuar a captura o mais rapidamente possível.
Positivo. A quadrilha é perigosíssima. Há quase um ano assalta apartamentos aqui na Zona Sul. A metodologia é sempre a mesma. Abordam o morador em seu carro e o obrigam a levá-los para dentro do lar. Uma vez dentro da casa, roubam aparelhos eletrodomésticos, computadores, jóias, dinheiro... Sempre tratando os moradores com muita brutalidade. Neste último assalto, o que parece ser o líder do grupo, chegou a introduzir o cano da arma na boca do dono do apartamento.
Positivo. Infelizmente, há relatos de exacerbação de violência. Houve alguns estupros, sempre perpetrados contra filhas e esposas na frente de pais e maridos. O único assassinato que ocorreu deveu-se à recusa da vítima em conduzir os vagabundos à sua casa. O homem foi morto com quatro tiros.
Positivo. O casal que estava sendo roubado neste último apartamento veio à delegacia e fez o reconhecimento dos criminosos. Graças à ação dos vizinhos nada de mais grave aconteceu nem com o casal nem com suas filhas. Agora, estamos aguardando que outras vítimas se apresentem para fazer o reconhecimento.
Positivo. Os perversos ficarão detidos até o julgamento, se um bom advogado não conseguir que o aguardem em liberdade. É uma possibilidade. Depois, independentemente da pena, se, no cárcere, andarem para lá e para cá com uma Bíblia embaixo do braço; fizerem um curso qualquer: culinária, informática; e tiverem bom comportamento serão soltos em alguns meses.
Positivo. Eu recomendo aos que foram assaltados, tendo, ou não, testemunhado contra a quadrilha, a se mudarem. Se puderem vão para outra cidade. Normalmente, o facínora não é vingativo. Há muita gente nova para eles barbarizarem... mas, nunca se sabe. Vovó dizia sempre: “Seguro morreu de velho”.

segunda-feira, setembro 07, 2009

O patriota é um escroto.

Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!

Brrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrpppbrrppp!!!
– Cara, ‘cê tá louco? Não faça isso.
– O quê? Tô fazendo o quê?
– Você está esfregando seus lábios no ventre nu de sua filha e produzindo esses sons em que percebo alguma lascívia.
– Zeca, é um bebê. Minha filhinha. Ela adora.
– Cara, ‘cê pode ser acusado de estupro. Se algum brasiliense vir uma coisa dessa tu tá fu. Abuso sexual, sacumé. Pena dura. Pedofilia.
– Mas quando eu a pego no colo, minhas mãos, às vezes, esbarram na bunda dela.
– Louco! Louco! Louco! Como você ousa tocar nas partes íntimas de sua filha? Cara, você vai ser enquadrado como tarado.
– Eu dou banho nela. Troco as fraldas. Limpo a bundinha.
– Cara, procure ouvir o que você disse: “Limpo a bundinha”. Quer dizer, passa essas mãos cúpidas, acostumadas às mais depravadas libidinagens, nas inocents nádegas da criança. Você vai puxar 15 anos.
– Eu e minha mulher trabalhamos. Dividimos as tarefas do lar. Ela só aceitou casar se fizéssemos assim. Eu concordei.
– Isso pode pesar contra você. Dirão que tudo foi premeditado. Saiu-se com essa de divisão de tarefas para assediar, sem desconfiança, a inocente.
– Caraio, o que faço?
– Sua sorte é que estou te alertando. Não toque mais nessa criança. Nada de colinho. Boca na barriguinha. Cheirar os pezinhos, podofilia, nem pensar. Deixe essa criança aí, do jeito que está. Espere sua mulher chegar e acabe com esse negócio de divisão de tarefas.
– Vai dar divórcio.
– Melhor, pelo menos você fica em liberdade.

OPERÁRIO

WORKING CLASS HERO
John Lennon

As soon as your born they make you feel small,
By giving you no time instead of it all,
Till the pain is so big you feel nothing at all,

A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.

They hurt you at home and they hit you at school,
They hate you if you're clever and they despise a fool,
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules,

A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.

When they've tortured and scared you for twenty odd years,
Then they expect you to pick a career,
When you can't really function you're so full of fear,

A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.

Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you're so clever and classless and free,
But you're still fucking peasents as far as I can see,

A working class hero is something to be,
A working class hero is something to be.

There's room at the top they are telling you still,
But first you must learn how to smile as you kill,
If you want to be like the folks on the hill,

A working class hero is something to be.
A working class hero is something to be.
If you want to be a hero well just follow me,
If you want to be a hero well just follow me.

Working class hero saiu no disco de John Lennon e a Plastic Ono Band, em 1971.
O fucking da letra causou polêmica. A EMI-Odeon entrou em acordo com Lennon e permitiu que ele cantasse que o operário estava fodido, mesmo, mas, no encarte, o palavrão foi limado e saiu o velho asterisco (f***), ícone da hipocrisia gráfica. Os mais antigos se lembram da entrevista de Leila Diniz ao Pasquim, na década de 60. Ali o asterisco teve seu momento de glória.
De passagem, vi trecho do programa “O assunto é música”, do Multishow. O tema era John Lennon e comentava-se a atitude da gravadora, na época. O tom era de desaprovação à censura. Há, então, um corte para Lennon cantando WCH. As legendas apresentam a letra para os monoglotas e quem aparece, faceiro, é o ancião asterisco. Fodido ainda choca em 2009.
Meu relacionamento com palavrões sempre foi pacífico. Falo muitos deles. E escrevo-os, também. Tive uma tia que os falava com elegância. Conheço gente que me causa repugnância ao mencionar um singelo merda.
Não chego na casa de ninguém falando palavrões. Não posso exigir que outros tenham alcançado o nível evolutivo a que cheguei. Guardo os bons palavrões para usar entre amigos ou com gente não melindrosa. Ah, que horror guardo de melindrosos!
Em textos que escrevo, uso-os quando acho necessário. E quando não acho, também.

quarta-feira, setembro 02, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Kelly Hu

Indicação do Albatroz.

CAROCINHO

Ô Jão, você sabe que eu pegava. Nem dou nome das vadias que comi aqui no bairro. Ia sujar pra mim.
Comia na moral, Jão, no papo. Você sabe disso. Nunca paguei, nunca dei presente.
Jão, há um mês fazia isso. Trinta dias atrás.
Uma porra dum carocinho na garganta.
Nem me incomodava tanto. Ó como estou, Jão: careca, esquálido, destruído, destroçado, brocha.
Jão, quantas vezes você me viu andando lá pros lados do Nova América.
Você de carro e eu no trote.
Caraio, não consigo dar a volta no quarteirão.
Um carocinho tá me arrebentando, Jão.
Um porrão de remédios. Todo dia no hospital. Espero, espero, espero... Me confundo com os comprimidos. A cabeça vazia. Vomito, vomito... Cago, cago... Um carocinho, Jão.
Jão, há um mês pegava geral. Tô com 60 e cansei de passar meninas de 20.
Tudo no papo. Só pau. Hoje, o pau não levanta.
Um carocinho.
Jão, ainda tem três meses de tratamento. Sou um trapo depois de um mês. Daqui a três serei um resto de homem, morto.
Por causa de um carocinho.

sábado, agosto 29, 2009

UM CÃO QUE GOSTA DE SANGUE

Na televisão, vai começar o clássico Flamengo e Santo André.
Eu, Biriba, Salu e Osório morremos em 15 pratas cada para pagar o peiperviu. A casa era a minha; salgados e geladas os companheiros trouxeram.
– Gordo, todo mundo da GatoNet tá vendo esse jogo 0800. Você morre em 200 contos todo mês pra SKY e ainda temos de pagar pra ver o Mengão?
– Todo mundo, não, Biriba. Se vocês tivessem gato não estaríamos aqui.
– Gordo, esse teu cachorro é fuderoso de chato, não para de latir.
– Não fode, Osório, o cão é residente. Se eu fechar a janela ele silencia, mas aí tem calor, gripe suína, futum... Em vez de falar merda, pega lá umas geladas.
Na telona, o Mengão entra em campo para mais uma lambada. A campainha da porta toca.
– Gordo vacilão, não desligou essa bosta?
– Desliguei os telefones, caraio, a porta, não.
Porta aberta, uma mulher bufa e o cão late.
– O senhor tem de tomar conta desse seu cachorro.
– Minha senhora, desentendi. O cachorro está aqui dentro, preso.
Salu, um babaca, mandou:
– E atrapalhando. Não para de latir.
Deu a deixa pra jamanta.
– Esses latidos assustaram minha filhinha. Ela chegou em casa chorando. Está até agora soluçando.
– Quero, então, me desculpar com a senhora. Tomarei providências para que isso não volte a acontecer.
Fui educadíssimo, muito mais do que sou usualmente. Afinal, o Mengão estava em campo, meus 15 merréis na SKY, as geladas esquentando e os salgadinhos esfriando.
– Eu moro aqui há três meses e sempre me assusto com seu cachorro. Ele não deveria ficar na janela. Minha filhinha se desmanchando, só penso nisso.
Salu entreabriu a porta e provocou:
– Gordo, o Flamengo tá jogando um bolão. O Santo André não passou do meio do campo.
– Estamos acertados, minha senhora? Vou tomar providências.
– A providência que o senhor tem de tomar é proibir o cão de vir na janela.
– Madame, todo mundo sabe que essa porra de cachorro late, a janela tem grade...
– O senhor está sendo grosso.
– GOOOOLLL!!! Golaço, Gordo. Denis Marques.
– Madame...
– Minha filha não vai mais chorar por causa desse cachorro.
– Sua filha é a Sasha? Porra, a gente vive num bairro em que ouvimos tiros o dia todo e funk madrugada adentro. Essa criança lesada se assusta com latido.
– O senhor me respeite...
– Gordo, Gordo, o Zé Roberto tá jogando o fino. Tá perdendo...
– O senhor tem de me garantir que o cachorro não vem mais na janela. Se não, fico aqui.
– A senhora tem bom preparo físico?
– O quê?
– Biriba, solta o cachorro.
A mulher era pesada, mas rápida. Até onde vi o cachorro não a tinha abocanhado.
Entrei e ainda vi Zé Roberto sofrendo o pênalti que Leo Moura transformaria no segundo gol do meu Mengão.

quinta-feira, agosto 27, 2009

MEMÓRIA LIBIDINOSA


Nada mais poderoso do que a memória libidinosa.
Livros e bons filmes, passados alguns meses, esqueço.
Mas a sacanagem e a libidinagem apreendidas na remota adolescência são inesquecíveis.
Baixei pelo Dreamule o "clássico" de Salvatore Samperi, Peccato veniale. Vi o filme há 40 anos, num poeira onde hoje está o Sambola, na Av. Suburbana.
Ver é força de expressão. Devorei-o.
Naqueles bons tempos podia-se entrar no cinema às duas da tarde e sair à meia-noite, depois de ver várias sessões do mesmo filme. Pecado venial assisti em várias sessões e em diversos dias. Tudo por causa de Laura Antonelli.
Minha mãe era leitora de fotonovelas. Amaioria era italiana. História com Laura Antonelli eu não perdia. Lia a Grande Hotel, que saía aos sábados, antes de minha santa mãezinha, no banheiro, homenageando a bela Antonelli.
Quando vi Laura Antonelli em tela grande, pedi aos poderes celestes que jamais permitissem que a encontrasse em pessoa. Tenho certeza que sucumbiria diante dela. Morreria chorando e rindo, feliz.
O Dreamule baixou quatro versões de Pecado venial.
Logo na primeira cena de sacanagem, percebi um pequeno corte. Alessandro Momo, o garoto sacana que papará a cunhada no final, lava o cabelo de Laura. A cena original mostra parte dos seios da deusa. Nesta, a cena está cortada.
Na segunda versão, a artística cena dentro do cinema em que o menino safado força a mão nas coxas da cunhada é mutilada. Não aparece a cunhadinha dando livre acesso às mãos do molequinho.
A terceira versão, com legendas em sei lá qual idioma, estava completíssima. Vi, 40 anos depois, o pivete traçar Laura Antonelli em alto estilo. Não tive esse prazer há 40 anos porque o filme teve a cena final cortada pela Ditadura Militar, da qual alguns babacas sentem saudade.
Minha memória pode não ser boa para muita coisa, mas descobri que sacanagem ela armazena muito bem.

Alessandro Momo morreu um ou dois anos depois de Peccato veniale. Anteriormente, fizera Malizia, também com Laura Antonelli. Partiu feliz.




PAI DOS BURROS




Ao apresentar Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-Comuns e frases feitas, de Humberto Werneck, a revista Época e o jornal Folha de S. Paulo usaram o mesmo recurso: o texto da apresentação é coalhado de clichês.
Involuntariamente, a obra conjunta ilustra bem o que é clichê: falta de criatividade.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Perereca, Deputado e dr. Cascatinha

Não sei se por haver tanta gente morando nas ruas, ficaram invisíveis alguns tipos folclóricos que sempre povoaram os bairros cariocas.
Na década de 60, morava no Grajaú, e por lá flanava a desbocada Perereca. Velha, alcoólatra, molambenta e constantemente provocada pela molecada. “Pudim de cachaça!”, gritava a criançada. “É a puta que os pariu, bando de veados”, esbravejava a cachaceira. Jamais soubemos de onde ela veio nem para onde foi.
Na Praça Seca, o Deputado discursava horas seguidas. O que dizia era ininteligível. Negro, magro e sempre de botas desancava o governo militar com vigor. Durante toda a década de 70 o vi na Praça, fazendo discursos incendiando alguém.
A última dessas figuras bizarras que conheci foi Demetrio, o dr. Cascatinha. Diferentemente de Perereca e do Deputado, Cascatinha gostava de conversar. Negro, estatura média, trajava sempre ternos gastos pelo uso. “Fui diretor de multinacional, hoje, vivo na rua por opção. Ganhei tanto dinheiro que resolvi experimentar como é a vida dos que nada têm”, dizia Demetrio. Mentia tanto que virou Cascatinha.
“Fui perseguido pela ditadura. Joguei muitos coquetéis molotófis em tanques do Exército”. Não resistíamos: “Demetrio, coquetel molotófi é feito com bala Toffee?” Ele, ar apalermado, já estava tratando de outro assunto: “Pouca gente sabe, mas a Fiat só emplacou no Brasil graças a mim. Os mais velhos lembram que havia um problema no motor do Fiat 147. Me chamaram pra resolver. Eu resolvi.”
Essas figuras fazem falta nas ruas do Rio. Eu me sentava, na Praça Seca, para ouvir o Deputado falar. Quem era aquele homem? Por que tanto ódio do regime militar? Loucura é descontrole fascinante.
Demetrio, que me disse uma vez ter outro nome, quando incorporava o dr. Cascatinha, nos divertia: “Recebi uma carta de George Bush”, falava, mostrava um envelope todo amassado e fazia suspense, esperando que perguntássemos qualquer coisa. “Mas o que o presidente dos Estados Unidos quer com você?”, o satisfazíamos. “Ele sabe que sou muito chegado ao primeiro-ministro Tony Blair. Conheci Tony em uma temporada que passei em Londres, aperfeiçoando meu Inglês e corrigindo os rumos de uma empresa que dirigia. O fato é que George quer que eu use minha influência para convencer Tony a apoiá-lo na invasão ao Iraque”. Nessas horas, juro, se o que Cascatinha dizia não fosse tão absurdo, eu acreditaria. Ele era um mentiroso convincente e, repentinamente, passei a olhá-lo de forma diferente.
Muitos dos que o ouviam, diziam: “Vai ver tem um fundo de verdade no que ele diz”.
Perereca e o Deputado morreram.
O dr. Cascatinha está por aí, contando suas lorotas. Espantoso é que há os que acreditam em suas histórias.

terça-feira, agosto 18, 2009

MISTÉRIO

Sonho é mistério.
Aos 20 anos parei de fumar.
Passei a ter um sonho recorrente: estava sempre fumando sobre o viaduto de Madureira ou uma passarela da Av. Brasil. Acordava duas vezes irado: por ter voltado a fumar e pelos péssimos locais escolhidos para a transgressão. Além da ira, me vinha um sentimento de impotência. Sucumbira ao cigarro.
Despertava, percebia que havia apenas sonhado. Vinha o alívio.
Há 35 anos parei de fumar.
Três dias atrás sonhei que estava fumando dentro de um bar em São Paulo e, por causa disso, entrava em uma briga com os homens da lei. O mau gosto pelos locais onde fumo em meus sonhos continua. São Paulo, arghhhh!!!! Mas não acordei emputecido nem com sentimento de culpa. Senti-me uma espécie de guerreiro de uma minoria oprimida.
Estranho.

sábado, agosto 15, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Marilyn Monroe


SOMBRA

Cansamos de avisar a Lindinha, com risco de nossas vidas, que o Jeremias era rabo de foguete. Para mim ela dizia, fiada no parentesco: “Tio, você vê perigo em tudo”.
A molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Jeremias se era verdade o que dizíamos, deixamos rolar.
Nem com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de a covardia ser comum diante de um matador.
Bom, o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do matador. Aos domingos, quando dava, Jeremias almoçava na casa de meu irmão. Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher, “Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer. Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu na lábia do Jeremias...
Meu irmão ligou pra mim me perguntando se podia acolher Lindinha. Ela não queria saber mais do Jeremias e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem gente daí que sabe que estou aqui. É bom vocês saírem daí. Vão pra casa dos primos, em Natal”.
Em Natal, Lindinha até voltou a estudar.
O Jeremias tocou o terror lá em casa, mas consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Se temos parentes em outras cidades? Não, não temos”.
Antes de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O mano ficou um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para onde ia.
Jeremias foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha família passar, agora era crente e só tinha amor no coração. O desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a família, que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares, daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que o cara tinha virado crente, mesmo.
Duas semanas depois abri o jornal e dei de cara com uma foto de Jeremias, morto. A mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.

Maracutaia

Assisti no Jornal da Globo e não guardei detalhes, mas a história é a seguinte: “Um belo dia, caiu na conta de um aposentado uma montoeira de grana. O suficiente para comprar o passe de Kaká e, com o troco, uma dúzia de Ferraris. O aposentado foi ao Banco do Brasil (só podia ser) e disse que o dinheiro não era dele.”
Mais de 10 anos se passaram e a grana ainda está lá. O aposentado já foi jogar buraco no céu dos idosos e a família, aflita, tenta meter a mão na bufunfa.
Ficarei alerta. Se um dia der uma sorte dessas, vou chupar o dindim aos pouquinhos. Está claro que esse pepê veio de uma maracutaia qualquer.

quarta-feira, agosto 12, 2009

LEGAIS

Humberto Cardoso, 74, e sua esposa foram assassinados dentro de casa, em Camboinhas, Niterói.
A morte do casal estava previamente decidida por seus algozes.
O caseiro, 22, disse que assim seria porque, uma vez reconhecido como integrante da quadrilha, seria denunciado.
Sobre o casal, revelou, candidamente, o caseiro assassino: "Os dois eram muito legais".
Se não fossem...

terça-feira, agosto 11, 2009

Renovação no Senado

Vanderlei Luxemburgo no Senado.
É, currículo ele tem.

TROGLODITA

A palavra está na modinha. Usá-la-ei.
Tenho uma cisma que entendo ser geracional. Ó, bacana. Geracional. Mas, vamulá.
Não leio jornal eletrônico. Quando muito, dou uma olhadinha rápida neles e nos sítios de notícia.
Muito raramente, baixo músicas pro tocador de mp3. Dos meus CDs passo pros mão-na-roda.
Livro eletrônico (e-book em nosso idioma pátrio), sei não... Sou troglodita, mas reconheço que seria um conforto ter minhas centenas de livros em um Kindle, por exemplo.
Já pensei, mais de uma vez, em, no futuro, comprar um, quando a Amazon puser textos em português à disposição no Kindle (confesso, sou monoglota e não monogloto em inglês0.
Mas, maldição!, essa minha mania de ler jornal de papel todo santo dia me fez dar de cara com uma nota na Folha de S.Paulo. Dizia lá que problemas autorais com 1984, de Geoge Orwell, fizeram com que a Amazon, zelosa mamãe do Kindle, retirasse a obra dos aparelhos de seus clientes. Não comunicou a ninguém. Deu uma compensação e tirou o livro de quem já o havia baixado para seus Kindles. Eu, besta quadrada assumida, nem sabia ser isso possível, mas é. Os livros que a Amazon transfere para o Kindle não são de quem os compra e podem ser trocados a qualquer momento.
Nem todo livro que compro, leio. Alguns, não leio jamais. Outros, depois de comer poeira por vários anos, sabe-se lá por que, despertam minha curiosidade. Tiro-o da estante, dou uma geral e leio. Isso já ocorreu dezenas de vezes.
O Kindle, depois desse incidente, jamais será comprado por mim. Sigo com meus bons livros de papel, que, sendo bem cuidados, duram uma existência.
Aqui na terrinha, uma coisa sei que não acontecerá com eles: serem roubados. Já com o moderninho Kindle, pode ser que um belo dia a Amazon cisme de trocar seu exemplar de Marca humana por Veronika deve morrer. E você vai reclamar com quem?

sábado, agosto 01, 2009

COISA BONITA DE SE VER - SYLVA KOSCINA



Ah! minha garotice.

DA POBREZA

Claro que gostaria de ter mais dinheiro.
Mais saúde, também, obviamente.
Se fosse um pouquinho melhor do que sou, seria legal.
Já fui religioso. Não lamento essa minha fase, mas, graças a Deus (sim, sigo crendo em Deus), me livrei dela, deixei-a para trás.
Uma vez fui posto por uma cara amiga diante de uma questão, pelo menos para ela, crucial: “Gordo, você consegue ser feliz sendo pobre, morando onde mora?”
Quem consegue ser feliz? Quem consegue ser feliz só porque está com dinheiro no bolso? Sim, sei, com o papo cheio é mais fácil empanturrar-se com as delícias que a vida nos vende. Mas, e daí?
Nunca fui de muitas elucubrações. Por ser ignorante, sou pragmático. Relaciono-me com pessoas que têm dinheiro fruto de trabalho e outras que têm muito mais, ganho de forma fraudulenta. Ainda não esbarrei com o homem ou a mulher feliz.
Honestos e desonestos, mesmo endinheirados, buscam a felicidade.
A felicidade está sempre logo ali. É inalcançável. Alguém disse que vivemos momentos felizes. Creio nisso. Não adianta buscar a felicidade em amor, dinheiro, igreja... Em breves momentos, somos felizes. Por quê? Sei lá.
Eu, particularmente, quando estou rodeado de amigos, conversando, rindo, sinto-me imensamente feliz. Entrego os motivos dessa felicidade frugal: 1) Meus amigos são, realmente, meus amigos. Não há interesses escusos na aproximação; 2) Trocar impressões com pessoas de quem gostamos (eu me recuso a dividir a mesa com gente que não tolero), falar sobre projetos, rir de situações pitorescas é experiência indescritível; 3) Poder olhar dentro dos olhos de quem você sabe que o ama e é amado por você... É bom demais.
Ao longo da vida colhi alegrias e decepções. Eu e a torcida rubro-negra.
Às vezes, sou vencido pelo mau humor ao constatar que tantos pilantras se dão bem em prejuízo de pessoas capazes e honestas. O mau humor que sinto não decorre de o pilantra estar mamando em tetas que jorram leite em profusão. Minha ira é porque sabemos, eu e você, que aquele leite poderia estar forrando milhares e milhares de barrigas famintas. Então, não dá para ser feliz.
Dá para prolongar os momentos agradáveis que a vida nos proporciona e aí, sinceramente, alegro-me por não ser um ignorante. Extraio imenso prazer na leitura de um bom livro, deleito-me ouvindo o que entendo ser boa música, curto demais um bom filme.
Bem, sou casado com a mulher que amo, tenho bons amigos, os prazeres que aprecio me são acessíveis, jamais prejudiquei ninguém para “melhorar” na vida, não sou hipócrita e vivo do meu trabalho. Logo, acho que posso dizer que sou feliz.
Ou, talvez, seja apenas um babaca.

sexta-feira, julho 31, 2009

LEONARD COHEN, O FINO



Final de julho.
Nenhum disco que ouvi me causou tanto prazer quanto este Leonard Cohen – Live in London.
As músicas do cd duplo tenho todas em outros registros, mas Cohen canta/narra como nunca neste discão.
O grupo que o acompanha é maravilhoso.
Leonard Cohen, Bob Dylan e Neil Young, para mim, ouvinte de música, estão acima do bem e do mal, mas, em 2009, Cohen se destaca.

MONGA



O Jornal da Globo me fez recordar de meu encontro com Monga, a mulher gorila.
Adolescente, minhas férias eram curtidas em Macaé. Macaé da Leopoldina, pré-Petrobras. A praia era a Imbetiba. Cavaleiros era distante, fora da cidade. Pela Imbetiba, chegávamos à praia Campista. O velho Machado dizia que o nome era homenagem a uma família campista que, inteira, se afogara por ali. Acho que era sacanagem do velho que, como todo macaense, tinha horror à cidade peidona.
Na ocasião de meu encontro com Monga, já não ficava na casa de seu Machado. Hospedava-me no centro da cidade, na residência de primos. Elmira era a dona da casa. João Pinto, o marido, se virava numa casa dominada por mulheres. O outro homem por lá também era João. O apelido, Sossego, entregava a mansidão de quem era mimado por mãe e irmãs e não veio à Terra pra brigar.
Guta, a caçula, era um pouco mais velha do que eu e foi ela (miserável!) quem promoveu o desastroso e vergonhoso encontro deste pobre gordo com Monga, a selvagem mulher gorila. A noite chegando e ela, sem ter o que fazer, olhou pra mim, primo à disposição, e me convidou para ir ao parque de diversões.
Odeio, tenho ojeriza, não suporto parque de diversões, mas como recusar o convite de quem não me convidava para nada. Prima, sacumé. Fui.
Primeira parada, roda gigante. Não dava preu dizer: “Prima, aí, vai sozinha, tenho medinho de altura”. Embarquei, quase me caguei, mas me mantive firme. Quando a maldita roda parava e estávamos lá no alto, Guta, irrequieta, se movimentava pra lá e pra cá. A cadeira sacudia e eu pensava: “Por que nós, machinhos da espécie, nos preocupamos em impressionar as femeazinhas?”
No chão, enjoado, nos encontramos com outros primos. João Luís, o esperto, deu a idéia: “Vamos na Monga”. Destaquei o primo da manada e perguntei: “O que é Monga?” O primo explicou: “É uma mulher que se transforma em gorila diante de nossos olhos. Claro que é truque com espelhos”.
Um montão de crianças entrava para ver Monga. Era a sensação do parque. Do lado de fora, uma multidão esperava. Não vi perigo.
Lá dentro, tive a sensação que experimentaria décadas depois todas as vezes que andasse no metrô lotado. Não cabia mais ninguém ali.
Adeílson, vizinho de minha prima, nervosíssimo: “Meu medo é isso aqui desabar”. Esse escroto foi o responsável pela minha desdita. Fiquei com a frase na cabeça.
Monga apareceu. Uau, no escuro era linda. A VOZ começa: “Vocês verão a transformação desta bela mulher em um monstro perigoso e sanguinário. Mas não há motivo para pânico. Basta que vocês não provoquem a fera. A jaula que prende Monga é feita de material extremamente resistente”.
Na minha mente, a voz de meu primo: “É truque de espelhos...” Desgraçadamente, também a voz de Adeílson: “O perigo é isso aqui desabar...”
Fora da minha mente, a VOZ: “Por favor, silêncio, Monga está se descontrolando”.
Monga já era uma gorila, depois de lenta transformação.
“Por favor, por favor, silêncio, ela está tentando quebrar a jaula”.
E Monga urrava, rosnava, balia e sacudia as grades.
Adeílson, o veadinho, apertou meu braço.
“MEU DEUS, corram, Monga está descontrolada”.
O puto do Adeílson correu, e eu com ele.
Quando nos desvencilhamos dos panos da saída da tenda de Monga, demos de cara com a multidão que ficava à espera dos cagões. Eu, claro, fui o primeirão a sair.
Tentei explicar, pelo menos para os conhecidos, que corri porque achava qua a tenda ia desabar, cumé que eu ia ter medo de algo que sabia ser truque, logo eu, carioca, acostumado com Monga, Batman, Tarzan. Não adiantou. Até o fim das férias só ouvi falar da desejável, mas ignóbil Monga.
Foram minhas últimas férias em Macaé.
Por lá sou conhecido como o marido de Monga.

quinta-feira, julho 09, 2009

Coisa bonita de se ver - Ingrid Bergmann

Considero Ingrid Bergmann uma das mulheres mais belas que já vi.
Beleza que hoje não existiria. Sempre haveria um imbecil que lhe sugeriria um retoque no nariz perfeitamente imperfeito.

A chefinha

Quase oito horas. Todo mundo doido pra ir embora, mas sem o boa noite da chefinha, ninguém saía.
- Cadê a chefinha?
- É só você olhar pela janela. Está lá embaixo, no estacionamento, rodeada de figurões.
- Pergunte se podemos ir embora?
- Você tá louco?
Na redação, estávamos em sete. Todos loucos pra ganhar as belas ruas de São Cristóvão, protetor dos motoristas e dos assalariados apressados.
Juju, belíssima e atrevida afrodescendente esperneou:
- Vou gritar aqui de cima e perguntar se dá pra gente se mandar.
O sub lembrou:
- Sei não, a chefinha hoje não tá de bom humor. Quando ela fica um tempão naquele canto da janela, olhando lá pra fora, é bom não abusar. O gaúcho saiu daqui falando fino com o joelhaço que levou.
- Olhando pra fora, não, pra dentro. Não há nada na paisagem de São Cristóvão para se ver.
Eu, lá no meu canto, sentadinho, esperando a chefinha se lembrar de nós, acabei ouvindo:
- Você que é peixe dela podia fazer alguma coisa.
Eu, peixe da chefinha. Aiai, quem me dera. Mas fui mencionado, tive de falar alguma coisa.
- Por que não pegamos os trecos dela, avisamos que estamos descendo, apagamos tudo e vamunessa.
Minha superior imediata (que só se envolvia sentimentalmente com novaiorquinos) não achou a ideia grande coisa, mas tinha um compromisso que parecia bastante promissor. Intempestivamente, levantou-se e, da janela, avisou à chefinha que estávamos saindo e levaríamos seus breguetes.
Bolsa e agasalho na mão, ouviu o aviso do sub:
- Tá esquecendo a Montblanc dela.
Juju, espevitada, pegou a caneta e deixou-a cair no chão.
Comoção na redação.
- Porra, quebrou?
- Meu Deus, ela adora essa caneta.
- Cacilda, e agora? Juju, você entrega e explica o que aconteceu.
- Porra nenhuma. A chefinha é educada, mas se eu mostrar essa caneta quebrada vai me espinafrar lá embaixo, na frente de todo mundo.
- PORRA, quebrou?
- Amassou a pena, a tampa não estava no lugar.
Um inocente sugeriu:
- Vamos fazer um rachuncho e dar uma nova pra ela.
Senti uma fisgada no bolso. Essa turma que usa Bic não tem noção do que é uma Montblanc. Saí do silêncio:
- Dependendo do modelo de Montblanc, vamos ter de deixar o salário em troca da caneta.
A gordinha se assustou:
- Tô fora. Não sei por que vocês têm essa pressa de ir embora. Tenho dinheiro, não.
O sub sentiu que precisava decidir:
- Juju, tampe a caneta, ponha dentro da bolsa, e vamos embora. Passamos rapidamente, damos boa noite e capinamos. Com sorte, ela não mexe nessa caneta, hoje. Em casa, vai deixar a bolsa em algum lugar. Amanhã, quando perceber a caneta quebrada, além de nós, haverá os suspeitos da casa. A chefinha é casada, tem filhos, empregada.
Eu, para conquistar a equipe que ainda me tinha sob observação, prometi:
- Se amanhã ela chegar aqui aborrecida e perguntar alguma coisa, eu mesmo lanço a suspeita sobre a empregada. Direi, “chefinha, provavelmente, sua assistente doméstica deixou cair a bolsa no chão e causou o acidente com a caneta”.
Todos me olharam com ar de reprovação, mas a alternativa era enfrentar a ira da chefinha.
A reunião de pauta do dia seguinte foi tensa, mas para nosso alívio lá estava a chefinha fazendo as anotações com sua Montblanc. Letra redonda, bonita, de quem, pelo menos naquele dia, não daria esporro em ninguém.

sábado, julho 04, 2009

Linchem o motorista

Em acidente de ônibus, morreu uma menina de 12 anos. Foi arrastada pelo coletivo. Ela ficou presa à porta e o motorista não viu.
Na televisão, pudemos ver o ônibus, superlotado, ser invadido pela turba de estudantes. Vimos, também, o desespero do motorista quando tomou consciência do que aconteceu.
O que não vi nem ouvi na televisão foi um comentário exato sobre de quem é a responsabilidade pela morte da menina. Claro, o motorista será julgado por homicídio doloso e está correto, mas é somente ele o responsável pela tragédia?
O prefeitinho Eduardo Paes garantiu fiscalização rígida para punir motoristas que barram a entrada de estudantes nos ônibus. O prefeitinho nunca subiu em um coletivo.
Grande parte da frota de ônibus, no Rio, é pouco maior do que Kombis. O motorista conduz a máquina assassina sozinho. Ele dirige, faz troco, fiscaliza as portas. Em passado remoto, seu auxiliar, o cobrador, o avisava quando podia dar partida no bólido.
Vejo, pelo menos uma vez por dia, gente caindo de ônibus por causa da “distração” de motoristas. Como o brasileiro não desiste nunca, a grande maioria que cai, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.
É sempre mais fácil culpar os motoristas, que trabalham cada vez mais e em piores condições. Transporte coletivo deveria ser responsabilidade do Estado (se o Estado fosse sério e não fizesse nomeações de apadrinhados/administradores como acontecia na falecida CTC). Enquanto o lucro alucinado for a motivação de empresários que dominam o setor no Rio, morrerá muita gente, mas na imprensa aparecerão apenas os casos mais sensacionais.
E o vilão sempre será o motorista.

Falar merda, direito de todos

Quatro alunos do Pedro II morreram em acidente de trânsito. Todos iam à escola, regularmente, em van pirata.
O pai de uma sobrevivente disse a O DIA que várias vezes empurrou a van para que ela pegasse. “Comemoro o fato de minha filha estar viva. Foi um milagre. Deus me deu o maior presente que poderia receber na vida”.
Todos falamos merda sem pensar. O simplismo de alguns raciocínios me irrita. Se Deus deu a ele um presente, entende-se que aos outros pais puniu, levando seus filhos.
É difícil para os pais envolvidos neste trágico evento considerarem que responsáveis pela morte e salvação das crianças são o acaso, o despreparo dos motoristas envolvidos e a irresponsabilidade deles, pais.
Deus está em todo lugar, mas de alguns lugares devemos cuidar nós mesmos.

quarta-feira, julho 01, 2009

A farra dos abutres

Michael Jackson foi um gênio. Aloprado, mas gênio.
Dizia-me um já falecido amigo: “Canta, dança e compõe muito bem. É gênio”.
Concordo e acrescento: se cercava dos melhores profissionais.
“Thriller” é um dos discos mais impressionantes que ouvi. Disco do porte de Sgt. Peppers, London Calling, Psychocandy...
No palco, vi poucos shows como os dele. Madonna? Não. O Queen de Fred Mercury? Talvez.
A vida pessoal de Jackson me interessa pouco, como, aliás, a de todo artista. É bom saber dos podres dos vizinhos.
Os garotinhos que, dizem, comeu, sempre tiveram papais e mamães mais interessados em levar um monte de grana do doidinho nos tribunais do que preservar os fiofós de seus pimpolhos.
Desde "Bad" não prestava mais atenção na música de Michael Jackson. Vi alguns clipes, ocasionalmente, na TV, de discos mais recentes.
Michael Jackson morreu agora, aos 50 anos, de causas ainda desconhecidas. Artisticamente, já estava morto há um bom tempo.
Os abutres festejam. Terão muita carne para comer.

sexta-feira, junho 26, 2009

Coisa bonita de se ver - Megan Fox

Transformer 1 e 2 não valem nada, mas tem Megan Fox, então, peraí: valem muito.

O observador de rabos

Abonados e sedentários que circulam pela cidade em automóveis perdem muito do saboroso contato com a ralé. Basta ouvir nosso líder máximo pontuar (essa é palavrinha de apedeuta que lê Paulo Coelho) sobre qualquer assunto para percebermos quanta sabedoria se escamoteia em cacholas aparentemente vazias.
Sentado no 687, em frente ao NorteShopping, degustava este gordo lascivo as páginas de uma Playboy, quando ouvi, desesperado, um homem batendo na porta traseira do coletivo.
Cabe breve digressão para não cariocas. Aqui na Cidade Maravilhosa, entramos pela porta da frente do ônibus, damos o dinheiro para o motorista, que dirige, faz troco e olha pro rabo de qualquer gostosa que estiver passando na rua ou entrando no ônibus. Quase sempre isso é feito com o coletivo andando.
Voltemos. O cara espancou a porta do ônibus, mas o piloto pelota não deu. Tirei os olhos da bunda de papel e vi o persistente passageiro correndo atrás do ônibus. Trânsito pesado, ônibus lento, no outro ponto o enfurecido corredor alcançou o ônibus.
- Seu filho da puta, você não me viu fazer sinal pro ônibus?
- Não, senhor – disse com tocante humildade o motorista/cobrador/observador de rabos.
- Eu quase derrubei a porta, seu veado. Você conhece o Amaral? Amanhã, vou à garagem te denunciar, filho da puta – gritava o desprezado passageiro.
Dentro do ônibus, ninguém dizia nada. Todos com cara de paisagem campestre. Eu, não. Detinha-me examinando um belo par de seios.
- É por isso, babacão, que vocês têm mesmo de vender bala no ônibus. (Cabe nova explicação a não cariocas. No Rio, depois de demitidos, muitos rodoviários abraçam a promissora carreira de baleiros.)
O grandão, aparentemente satisfeito com a demonstração de macheza diante do minúsculo piloto, atravessou a roleta e sentou-se.
Mas ônibus é ônibus. Um furdunço nunca vem sozinho.
Logo entrou um crente e pediu carona ao piloto.
- Meu amigo, não dá. O ônibus tem câmera.
- Eu vou descer depois do cemitério, adianta aí, amado.
- Não dá, você tem de descer.
Já tinha até fechado a revista. Bundas, peitos e coxas têm de ser apreciados com vagar. Acertei, porque o grandão acordou.
- Ô seu corno, deixa o cara passar, vou pagar a passagem dele. Você é mau caráter, mesmo.
O crente passou a roleta, agradeceu o favor do mastodonte e começou rápido e ríspido:
- Meus irmãos, quem entrega sua vida a Jesus é vitorioso, não aceita derrota. Estou precisando de 10 reais. Se cada um me der 1 real, meu problema está resolvido. Sou filho do Rei, não aceito não como resposta.
Não sei se ele arrumou os 10 reais, mas umas quatro senhoras deram, felizes, o dinheiro para o príncipe agressivo.
Bom, mais dez minutos, eu estaria em casa. O crente desceu, o grandão, logo depois da Praça de Inhaúma deu sinal e meus companheiros de viagem estavam tranqüilos. No fundão, um casal economizava o do motel,
O grandão, ao desembarcar, para manter o moral, ameaçou:
- Amanhã, falo com o Amaral, seu puto.
Ah, as surpresas da vida! O baixinho, que até ali nada dissera, desceu do ônibus e lançou seu grito de guerra:
- Ou eu mato ou morro!
Bonito, mas achei que ele morreria, mas sei o quanto é difícil controlar um corpo grande. O grandão tentou dar um pontapé no graveto e desequilibrou-se, ridiculamente. O baixinho era mau. Chutou a cara do gigante umas duas vezes. Quando o amigo do Amaral levantou de seu carão jorrava sangue. O tampinha aproveitou a confusão mental do pimpão e mandou-lhe um bico nos ovos. Não foi um procedimento elegante, mas bastante eficaz. Senti a dor abraçado à minha revista. Dali pra frente, foi um massacre. Bambala 7 x 0 Internacional, com Nilmar.
Já sentado em sua posição, o piloto tornou a olhar pro rabão da brancona. Claro que, agora, ela olhou de volta.

quarta-feira, junho 24, 2009

Espírito livre

- Chegou cedo na Lotérica, veio fazer uma fezinha?
- Nada. Acordei com barulho de louça sendo lavada, bica aberta. Vinha da cozinha de casa, levei o maior susto.
- Você acha que era sua falecida mãe?
- Pô, sem dúvida. Me arrumei e vim pra cá.
- Com todo respeito, mas fantasma não prefere atuar à noite?
- Vai lá e diz isso pra ela. Cara, igualzinho quando tava viva, fazia maior esporro preu acordar e procurar trabalho.
- Aí morreu, te deixou o táxi e três casas, duas pra você alugar.
- É, porra, trabalhar pra quê? O cara me dá a diária do táxi na boa e os dois inquilinos não atrasam o aluguel.
- Das duas uma: procure um psiquiatra ou um pai de santo.
- Tem certas coisas que não dá pra mudar. Já estou com 48, trabalhar, agora, pra quê?
- Você, não sei. Eu preciso. O homem já está me olhando.
- É por isso que não trabalho. Sou um espírito livre. Não tolero ser pressionado.

domingo, junho 21, 2009

O santo crédulo

Não costumamos dar pelota a intuições.
Aquela figura que apresentam a você e alguma coisa buzina, lá dentro do cérebro: “Se liga, isso não vale porra nenhuma”. Lá na frente confirmar-se-á o vaticínio cerebral. Mas, às vezes, não. Não é ciência exata. O fedapê da primeira impressão pode, por que não?, se sair um gente boa. Acontece.
Em empresa que trabalhei, haveria mudança de comando. O antigo comandante, figura bonachona, era homem sincero, afetuoso, delirante. A empresa, no entanto, precisava de gestor mais moderno, antenado com as novas tendências de mercado. O escolhido para substituir o veterano gestor parecia atender a todos esses requisitos. Como não ser moderno um homem que só andava de notebook embaixo do braço? Como não ser um grande gestor alguém que capitaneara grandes empresas? Como não ser espiritual alguém que deixara essas empresas para atender o chamado de Deus? E como era simpático esse novo gestor.
Aí, dentro da cabeça, escondida sei lá onde, a maldita vozinha: “Esse cara não vale porra nenhuma”.
O amigo Eduardo me disse que estava apaixonado. Gordo, ela é muito bonita, médica, 25 anos, mora sozinha em Ipanema. Os pais vivem em Penedo. Prosseguiu dizendo que estavam saindo há três meses e que ele tinha ficado quieto, sem contar pros amigos, por superstição.
Eduardo era muito supersticioso, feio, estava perto dos 40, não tinha profissão definida. Cheguei a imaginar que ele estava contando uma lorota, mas conheci Marisa uns dias depois. Era tudo o que ele falava, além de agradabilíssima.
E a vozinha, implacável: “Essa mulher, sei não”.
Eu até ia dar um toque no amigo Eduardo, mas olhei pra Marisa e pensei que nunca mais na vida ele toparia com uma igual. A felicidade em que ele estava... Foda-se minha intuição.
Todos conhecemos o velho ditado: “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”. Só que os santos modernos são muito crédulos. Creem com muita facilidade.
Gente que aceita determinado cargo e apregoa que por ele está renunciando a uma vida dezenas de vezes mais confortável existe. Mas são muito pouquinhos. E entre esses pouquinhos há os doidinhos.
Meu amigo Eduardo já há dois anos está com sua bela (e põe bela nisso).
O gestor risonho segue em sua estrada de marketing pessoal e mentira, iludindo os que querem ser iludidos.
E a vozinha me manda nova mensagem: “Gordo, cuide de sua vida”.
Cuidarei.

quinta-feira, junho 18, 2009

Coisa bonita de se ver - Katy Perry

E bastante agradável de se ouvir.


De esguicho

Não sou bom de papo com estranhos. Há ocasiões, no entanto, que não dá para evitar.
Entrei em um ônibus, no Engenho da Rainha, terra de bambas. Sentei e do meu lado alojou-se uma senhora. Ela chorava copiosamente. Encaramujei-me. Não adiantou, ela virou-se para mim e, como se nos conhecêssemos desde o dia que o Flamengo fez uma grande partida de futebol, desfiou sua triste (tristíssima, se considerasse como chorava) história.
O senhor conhece a padaria perto da locadora? Não, mas disse que sim. Dois portugueses são os donos, um casal sem filhos. Eles estão no Brasil há mais de 40 anos. Há seis meses, d. Carlota reuniu os quatro empregados e anunciou que precisaria dispensar dois. Eu trabalhava lá há quase 20 anos. Ela explicou os critérios da decisão já tomada.
Eu e o Tito sairíamos. Ficariam o Zeca e a Saló. O Zeca era como um filho para eles. A falta de filhos naturais deixou o casal muito carente. Zeca, moleque esperto, órfão, logo sacou que se se encostasse por ali não precisaria ser soldado no tráfico. A Saló, com sessenta e poucos anos, não conseguiria emprego. Ela sabia que seria difícil para mim e para o Tito, mas teríamos mais chances.
Entre ouvir a mulher e olhar a horrorosa paisagem do Engenho estava preferindo deixar as orelhas trabalharem. Tinha de dar um pitaco. Dei. Portugueses são péssimos patrões, né não? Não registram funcionários, pagam mal, são grossos. Sempre religiosíssimos. Católicos. Conheço o caso triste de um rapaz, duns 40 anos, que abandonou mulher e dois filhos para viver com a patroa portuguesa, uma senhora bastante idosa.
Então, dei sorte. Seu Joaquim e d. Carlota formam um casal muito distinto. Foram ótimos patrões. Ganhávamos um pouco mais do que os colegas da área, trabalhávamos em turnos, tínhamos folga semanal, férias, 13º e, em dezembro, ainda recebíamos abono e uma cesta de Natal farta. Levei tudo a que tinha direito: minha rescisão, FGTS e até a multa rescisória.
Hoje, estive lá porque seu Joaquim arranjou uma colocação para mim em outra padaria. Pro Tito ele já tinha arrumado. Eles são religiosos, mas, espíritas. Têm horror à igreja católica. Eu mesma fui pro espiritismo por influência deles.
Bom, seu choro, então, é de alegria e de saudade do bom emprego?
Não, estou chorando porque os donos da padaria em que vou trabalhar são evangélicos. O senhor já trabalhou com evangélicos?
Quando ela acabou de me dizer isso, olhamo-nos nos olhos um do outro, nos abraçamos e choramos. Lágrimas de esguicho.