sábado, agosto 29, 2009

UM CÃO QUE GOSTA DE SANGUE

Na televisão, vai começar o clássico Flamengo e Santo André.
Eu, Biriba, Salu e Osório morremos em 15 pratas cada para pagar o peiperviu. A casa era a minha; salgados e geladas os companheiros trouxeram.
– Gordo, todo mundo da GatoNet tá vendo esse jogo 0800. Você morre em 200 contos todo mês pra SKY e ainda temos de pagar pra ver o Mengão?
– Todo mundo, não, Biriba. Se vocês tivessem gato não estaríamos aqui.
– Gordo, esse teu cachorro é fuderoso de chato, não para de latir.
– Não fode, Osório, o cão é residente. Se eu fechar a janela ele silencia, mas aí tem calor, gripe suína, futum... Em vez de falar merda, pega lá umas geladas.
Na telona, o Mengão entra em campo para mais uma lambada. A campainha da porta toca.
– Gordo vacilão, não desligou essa bosta?
– Desliguei os telefones, caraio, a porta, não.
Porta aberta, uma mulher bufa e o cão late.
– O senhor tem de tomar conta desse seu cachorro.
– Minha senhora, desentendi. O cachorro está aqui dentro, preso.
Salu, um babaca, mandou:
– E atrapalhando. Não para de latir.
Deu a deixa pra jamanta.
– Esses latidos assustaram minha filhinha. Ela chegou em casa chorando. Está até agora soluçando.
– Quero, então, me desculpar com a senhora. Tomarei providências para que isso não volte a acontecer.
Fui educadíssimo, muito mais do que sou usualmente. Afinal, o Mengão estava em campo, meus 15 merréis na SKY, as geladas esquentando e os salgadinhos esfriando.
– Eu moro aqui há três meses e sempre me assusto com seu cachorro. Ele não deveria ficar na janela. Minha filhinha se desmanchando, só penso nisso.
Salu entreabriu a porta e provocou:
– Gordo, o Flamengo tá jogando um bolão. O Santo André não passou do meio do campo.
– Estamos acertados, minha senhora? Vou tomar providências.
– A providência que o senhor tem de tomar é proibir o cão de vir na janela.
– Madame, todo mundo sabe que essa porra de cachorro late, a janela tem grade...
– O senhor está sendo grosso.
– GOOOOLLL!!! Golaço, Gordo. Denis Marques.
– Madame...
– Minha filha não vai mais chorar por causa desse cachorro.
– Sua filha é a Sasha? Porra, a gente vive num bairro em que ouvimos tiros o dia todo e funk madrugada adentro. Essa criança lesada se assusta com latido.
– O senhor me respeite...
– Gordo, Gordo, o Zé Roberto tá jogando o fino. Tá perdendo...
– O senhor tem de me garantir que o cachorro não vem mais na janela. Se não, fico aqui.
– A senhora tem bom preparo físico?
– O quê?
– Biriba, solta o cachorro.
A mulher era pesada, mas rápida. Até onde vi o cachorro não a tinha abocanhado.
Entrei e ainda vi Zé Roberto sofrendo o pênalti que Leo Moura transformaria no segundo gol do meu Mengão.

quinta-feira, agosto 27, 2009

MEMÓRIA LIBIDINOSA


Nada mais poderoso do que a memória libidinosa.
Livros e bons filmes, passados alguns meses, esqueço.
Mas a sacanagem e a libidinagem apreendidas na remota adolescência são inesquecíveis.
Baixei pelo Dreamule o "clássico" de Salvatore Samperi, Peccato veniale. Vi o filme há 40 anos, num poeira onde hoje está o Sambola, na Av. Suburbana.
Ver é força de expressão. Devorei-o.
Naqueles bons tempos podia-se entrar no cinema às duas da tarde e sair à meia-noite, depois de ver várias sessões do mesmo filme. Pecado venial assisti em várias sessões e em diversos dias. Tudo por causa de Laura Antonelli.
Minha mãe era leitora de fotonovelas. Amaioria era italiana. História com Laura Antonelli eu não perdia. Lia a Grande Hotel, que saía aos sábados, antes de minha santa mãezinha, no banheiro, homenageando a bela Antonelli.
Quando vi Laura Antonelli em tela grande, pedi aos poderes celestes que jamais permitissem que a encontrasse em pessoa. Tenho certeza que sucumbiria diante dela. Morreria chorando e rindo, feliz.
O Dreamule baixou quatro versões de Pecado venial.
Logo na primeira cena de sacanagem, percebi um pequeno corte. Alessandro Momo, o garoto sacana que papará a cunhada no final, lava o cabelo de Laura. A cena original mostra parte dos seios da deusa. Nesta, a cena está cortada.
Na segunda versão, a artística cena dentro do cinema em que o menino safado força a mão nas coxas da cunhada é mutilada. Não aparece a cunhadinha dando livre acesso às mãos do molequinho.
A terceira versão, com legendas em sei lá qual idioma, estava completíssima. Vi, 40 anos depois, o pivete traçar Laura Antonelli em alto estilo. Não tive esse prazer há 40 anos porque o filme teve a cena final cortada pela Ditadura Militar, da qual alguns babacas sentem saudade.
Minha memória pode não ser boa para muita coisa, mas descobri que sacanagem ela armazena muito bem.

Alessandro Momo morreu um ou dois anos depois de Peccato veniale. Anteriormente, fizera Malizia, também com Laura Antonelli. Partiu feliz.




PAI DOS BURROS




Ao apresentar Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-Comuns e frases feitas, de Humberto Werneck, a revista Época e o jornal Folha de S. Paulo usaram o mesmo recurso: o texto da apresentação é coalhado de clichês.
Involuntariamente, a obra conjunta ilustra bem o que é clichê: falta de criatividade.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Perereca, Deputado e dr. Cascatinha

Não sei se por haver tanta gente morando nas ruas, ficaram invisíveis alguns tipos folclóricos que sempre povoaram os bairros cariocas.
Na década de 60, morava no Grajaú, e por lá flanava a desbocada Perereca. Velha, alcoólatra, molambenta e constantemente provocada pela molecada. “Pudim de cachaça!”, gritava a criançada. “É a puta que os pariu, bando de veados”, esbravejava a cachaceira. Jamais soubemos de onde ela veio nem para onde foi.
Na Praça Seca, o Deputado discursava horas seguidas. O que dizia era ininteligível. Negro, magro e sempre de botas desancava o governo militar com vigor. Durante toda a década de 70 o vi na Praça, fazendo discursos incendiando alguém.
A última dessas figuras bizarras que conheci foi Demetrio, o dr. Cascatinha. Diferentemente de Perereca e do Deputado, Cascatinha gostava de conversar. Negro, estatura média, trajava sempre ternos gastos pelo uso. “Fui diretor de multinacional, hoje, vivo na rua por opção. Ganhei tanto dinheiro que resolvi experimentar como é a vida dos que nada têm”, dizia Demetrio. Mentia tanto que virou Cascatinha.
“Fui perseguido pela ditadura. Joguei muitos coquetéis molotófis em tanques do Exército”. Não resistíamos: “Demetrio, coquetel molotófi é feito com bala Toffee?” Ele, ar apalermado, já estava tratando de outro assunto: “Pouca gente sabe, mas a Fiat só emplacou no Brasil graças a mim. Os mais velhos lembram que havia um problema no motor do Fiat 147. Me chamaram pra resolver. Eu resolvi.”
Essas figuras fazem falta nas ruas do Rio. Eu me sentava, na Praça Seca, para ouvir o Deputado falar. Quem era aquele homem? Por que tanto ódio do regime militar? Loucura é descontrole fascinante.
Demetrio, que me disse uma vez ter outro nome, quando incorporava o dr. Cascatinha, nos divertia: “Recebi uma carta de George Bush”, falava, mostrava um envelope todo amassado e fazia suspense, esperando que perguntássemos qualquer coisa. “Mas o que o presidente dos Estados Unidos quer com você?”, o satisfazíamos. “Ele sabe que sou muito chegado ao primeiro-ministro Tony Blair. Conheci Tony em uma temporada que passei em Londres, aperfeiçoando meu Inglês e corrigindo os rumos de uma empresa que dirigia. O fato é que George quer que eu use minha influência para convencer Tony a apoiá-lo na invasão ao Iraque”. Nessas horas, juro, se o que Cascatinha dizia não fosse tão absurdo, eu acreditaria. Ele era um mentiroso convincente e, repentinamente, passei a olhá-lo de forma diferente.
Muitos dos que o ouviam, diziam: “Vai ver tem um fundo de verdade no que ele diz”.
Perereca e o Deputado morreram.
O dr. Cascatinha está por aí, contando suas lorotas. Espantoso é que há os que acreditam em suas histórias.

terça-feira, agosto 18, 2009

MISTÉRIO

Sonho é mistério.
Aos 20 anos parei de fumar.
Passei a ter um sonho recorrente: estava sempre fumando sobre o viaduto de Madureira ou uma passarela da Av. Brasil. Acordava duas vezes irado: por ter voltado a fumar e pelos péssimos locais escolhidos para a transgressão. Além da ira, me vinha um sentimento de impotência. Sucumbira ao cigarro.
Despertava, percebia que havia apenas sonhado. Vinha o alívio.
Há 35 anos parei de fumar.
Três dias atrás sonhei que estava fumando dentro de um bar em São Paulo e, por causa disso, entrava em uma briga com os homens da lei. O mau gosto pelos locais onde fumo em meus sonhos continua. São Paulo, arghhhh!!!! Mas não acordei emputecido nem com sentimento de culpa. Senti-me uma espécie de guerreiro de uma minoria oprimida.
Estranho.

sábado, agosto 15, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Marilyn Monroe


SOMBRA

Cansamos de avisar a Lindinha, com risco de nossas vidas, que o Jeremias era rabo de foguete. Para mim ela dizia, fiada no parentesco: “Tio, você vê perigo em tudo”.
A molecada a chamava no canto e, no maior cagaço, alertava, “Lindinha, o cara mata”. No dia que Lindinha ameaçou perguntar ao Jeremias se era verdade o que dizíamos, deixamos rolar.
Nem com meu irmão comentei. Talvez ele se metesse, apesar de a covardia ser comum diante de um matador.
Bom, o romance rolou. Por uns tempos até eu ganhei prestígio. Era o tio da mulher do matador. Aos domingos, quando dava, Jeremias almoçava na casa de meu irmão. Aproveitei meu prestígio temporário e saí fora da comunidade. Falei pra mulher, “Tá na hora de ajeitarmos aquele cafofo em Maricá”.
Amor bandido dá certo quando a mulher aceita chifres. Lindinha, vi crescer. Voluntariosa, cheia de personalidade. Achava que era inteligente, mas se caiu na lábia do Jeremias...
Meu irmão ligou pra mim me perguntando se podia acolher Lindinha. Ela não queria saber mais do Jeremias e ele prometera matá-la se fosse abandonado. “Meu mano, tem gente daí que sabe que estou aqui. É bom vocês saírem daí. Vão pra casa dos primos, em Natal”.
Em Natal, Lindinha até voltou a estudar.
O Jeremias tocou o terror lá em casa, mas consegui convencê-lo que tinha rompido com meu irmão. “Se temos parentes em outras cidades? Não, não temos”.
Antes de ir embora, o animal ainda rosnou: “O dia que encontrar sua sobrinha, mato”.
Fui a uma cidade próxima para telefonar e avisar meu irmão sobre a ameaça. O medo...
O mano ficou um ano em Natal e de lá saiu com a família sem dizer a ninguém para onde ia.
Jeremias foi preso, puxou uns oito anos de cana e quando saiu apareceu lá em casa. Humilde, me pediu desculpas por tudo que havia feito minha família passar, agora era crente e só tinha amor no coração. O desejo maior era pedir perdão a Lindinha. Expliquei que não tinha contato com a família, que desaparecera no mundo. Se um dia voltasse a ver meus familiares, daria o recado. Ele me rezou, leu a Bíblia, chorou. Sei lá, fiquei achando que o cara tinha virado crente, mesmo.
Duas semanas depois abri o jornal e dei de cara com uma foto de Jeremias, morto. A mulher que o matara: Lindinha. “Minha família rodou o país fugindo desse desgraçado, essa sombra. Resolvi que era melhor acabar com ele. Ele me viu e sorriu. Dei-lhe três tiros na cara”.

Maracutaia

Assisti no Jornal da Globo e não guardei detalhes, mas a história é a seguinte: “Um belo dia, caiu na conta de um aposentado uma montoeira de grana. O suficiente para comprar o passe de Kaká e, com o troco, uma dúzia de Ferraris. O aposentado foi ao Banco do Brasil (só podia ser) e disse que o dinheiro não era dele.”
Mais de 10 anos se passaram e a grana ainda está lá. O aposentado já foi jogar buraco no céu dos idosos e a família, aflita, tenta meter a mão na bufunfa.
Ficarei alerta. Se um dia der uma sorte dessas, vou chupar o dindim aos pouquinhos. Está claro que esse pepê veio de uma maracutaia qualquer.

quarta-feira, agosto 12, 2009

LEGAIS

Humberto Cardoso, 74, e sua esposa foram assassinados dentro de casa, em Camboinhas, Niterói.
A morte do casal estava previamente decidida por seus algozes.
O caseiro, 22, disse que assim seria porque, uma vez reconhecido como integrante da quadrilha, seria denunciado.
Sobre o casal, revelou, candidamente, o caseiro assassino: "Os dois eram muito legais".
Se não fossem...

terça-feira, agosto 11, 2009

Renovação no Senado

Vanderlei Luxemburgo no Senado.
É, currículo ele tem.

TROGLODITA

A palavra está na modinha. Usá-la-ei.
Tenho uma cisma que entendo ser geracional. Ó, bacana. Geracional. Mas, vamulá.
Não leio jornal eletrônico. Quando muito, dou uma olhadinha rápida neles e nos sítios de notícia.
Muito raramente, baixo músicas pro tocador de mp3. Dos meus CDs passo pros mão-na-roda.
Livro eletrônico (e-book em nosso idioma pátrio), sei não... Sou troglodita, mas reconheço que seria um conforto ter minhas centenas de livros em um Kindle, por exemplo.
Já pensei, mais de uma vez, em, no futuro, comprar um, quando a Amazon puser textos em português à disposição no Kindle (confesso, sou monoglota e não monogloto em inglês0.
Mas, maldição!, essa minha mania de ler jornal de papel todo santo dia me fez dar de cara com uma nota na Folha de S.Paulo. Dizia lá que problemas autorais com 1984, de Geoge Orwell, fizeram com que a Amazon, zelosa mamãe do Kindle, retirasse a obra dos aparelhos de seus clientes. Não comunicou a ninguém. Deu uma compensação e tirou o livro de quem já o havia baixado para seus Kindles. Eu, besta quadrada assumida, nem sabia ser isso possível, mas é. Os livros que a Amazon transfere para o Kindle não são de quem os compra e podem ser trocados a qualquer momento.
Nem todo livro que compro, leio. Alguns, não leio jamais. Outros, depois de comer poeira por vários anos, sabe-se lá por que, despertam minha curiosidade. Tiro-o da estante, dou uma geral e leio. Isso já ocorreu dezenas de vezes.
O Kindle, depois desse incidente, jamais será comprado por mim. Sigo com meus bons livros de papel, que, sendo bem cuidados, duram uma existência.
Aqui na terrinha, uma coisa sei que não acontecerá com eles: serem roubados. Já com o moderninho Kindle, pode ser que um belo dia a Amazon cisme de trocar seu exemplar de Marca humana por Veronika deve morrer. E você vai reclamar com quem?

sábado, agosto 01, 2009

COISA BONITA DE SE VER - SYLVA KOSCINA



Ah! minha garotice.

DA POBREZA

Claro que gostaria de ter mais dinheiro.
Mais saúde, também, obviamente.
Se fosse um pouquinho melhor do que sou, seria legal.
Já fui religioso. Não lamento essa minha fase, mas, graças a Deus (sim, sigo crendo em Deus), me livrei dela, deixei-a para trás.
Uma vez fui posto por uma cara amiga diante de uma questão, pelo menos para ela, crucial: “Gordo, você consegue ser feliz sendo pobre, morando onde mora?”
Quem consegue ser feliz? Quem consegue ser feliz só porque está com dinheiro no bolso? Sim, sei, com o papo cheio é mais fácil empanturrar-se com as delícias que a vida nos vende. Mas, e daí?
Nunca fui de muitas elucubrações. Por ser ignorante, sou pragmático. Relaciono-me com pessoas que têm dinheiro fruto de trabalho e outras que têm muito mais, ganho de forma fraudulenta. Ainda não esbarrei com o homem ou a mulher feliz.
Honestos e desonestos, mesmo endinheirados, buscam a felicidade.
A felicidade está sempre logo ali. É inalcançável. Alguém disse que vivemos momentos felizes. Creio nisso. Não adianta buscar a felicidade em amor, dinheiro, igreja... Em breves momentos, somos felizes. Por quê? Sei lá.
Eu, particularmente, quando estou rodeado de amigos, conversando, rindo, sinto-me imensamente feliz. Entrego os motivos dessa felicidade frugal: 1) Meus amigos são, realmente, meus amigos. Não há interesses escusos na aproximação; 2) Trocar impressões com pessoas de quem gostamos (eu me recuso a dividir a mesa com gente que não tolero), falar sobre projetos, rir de situações pitorescas é experiência indescritível; 3) Poder olhar dentro dos olhos de quem você sabe que o ama e é amado por você... É bom demais.
Ao longo da vida colhi alegrias e decepções. Eu e a torcida rubro-negra.
Às vezes, sou vencido pelo mau humor ao constatar que tantos pilantras se dão bem em prejuízo de pessoas capazes e honestas. O mau humor que sinto não decorre de o pilantra estar mamando em tetas que jorram leite em profusão. Minha ira é porque sabemos, eu e você, que aquele leite poderia estar forrando milhares e milhares de barrigas famintas. Então, não dá para ser feliz.
Dá para prolongar os momentos agradáveis que a vida nos proporciona e aí, sinceramente, alegro-me por não ser um ignorante. Extraio imenso prazer na leitura de um bom livro, deleito-me ouvindo o que entendo ser boa música, curto demais um bom filme.
Bem, sou casado com a mulher que amo, tenho bons amigos, os prazeres que aprecio me são acessíveis, jamais prejudiquei ninguém para “melhorar” na vida, não sou hipócrita e vivo do meu trabalho. Logo, acho que posso dizer que sou feliz.
Ou, talvez, seja apenas um babaca.

sexta-feira, julho 31, 2009

LEONARD COHEN, O FINO



Final de julho.
Nenhum disco que ouvi me causou tanto prazer quanto este Leonard Cohen – Live in London.
As músicas do cd duplo tenho todas em outros registros, mas Cohen canta/narra como nunca neste discão.
O grupo que o acompanha é maravilhoso.
Leonard Cohen, Bob Dylan e Neil Young, para mim, ouvinte de música, estão acima do bem e do mal, mas, em 2009, Cohen se destaca.

MONGA



O Jornal da Globo me fez recordar de meu encontro com Monga, a mulher gorila.
Adolescente, minhas férias eram curtidas em Macaé. Macaé da Leopoldina, pré-Petrobras. A praia era a Imbetiba. Cavaleiros era distante, fora da cidade. Pela Imbetiba, chegávamos à praia Campista. O velho Machado dizia que o nome era homenagem a uma família campista que, inteira, se afogara por ali. Acho que era sacanagem do velho que, como todo macaense, tinha horror à cidade peidona.
Na ocasião de meu encontro com Monga, já não ficava na casa de seu Machado. Hospedava-me no centro da cidade, na residência de primos. Elmira era a dona da casa. João Pinto, o marido, se virava numa casa dominada por mulheres. O outro homem por lá também era João. O apelido, Sossego, entregava a mansidão de quem era mimado por mãe e irmãs e não veio à Terra pra brigar.
Guta, a caçula, era um pouco mais velha do que eu e foi ela (miserável!) quem promoveu o desastroso e vergonhoso encontro deste pobre gordo com Monga, a selvagem mulher gorila. A noite chegando e ela, sem ter o que fazer, olhou pra mim, primo à disposição, e me convidou para ir ao parque de diversões.
Odeio, tenho ojeriza, não suporto parque de diversões, mas como recusar o convite de quem não me convidava para nada. Prima, sacumé. Fui.
Primeira parada, roda gigante. Não dava preu dizer: “Prima, aí, vai sozinha, tenho medinho de altura”. Embarquei, quase me caguei, mas me mantive firme. Quando a maldita roda parava e estávamos lá no alto, Guta, irrequieta, se movimentava pra lá e pra cá. A cadeira sacudia e eu pensava: “Por que nós, machinhos da espécie, nos preocupamos em impressionar as femeazinhas?”
No chão, enjoado, nos encontramos com outros primos. João Luís, o esperto, deu a idéia: “Vamos na Monga”. Destaquei o primo da manada e perguntei: “O que é Monga?” O primo explicou: “É uma mulher que se transforma em gorila diante de nossos olhos. Claro que é truque com espelhos”.
Um montão de crianças entrava para ver Monga. Era a sensação do parque. Do lado de fora, uma multidão esperava. Não vi perigo.
Lá dentro, tive a sensação que experimentaria décadas depois todas as vezes que andasse no metrô lotado. Não cabia mais ninguém ali.
Adeílson, vizinho de minha prima, nervosíssimo: “Meu medo é isso aqui desabar”. Esse escroto foi o responsável pela minha desdita. Fiquei com a frase na cabeça.
Monga apareceu. Uau, no escuro era linda. A VOZ começa: “Vocês verão a transformação desta bela mulher em um monstro perigoso e sanguinário. Mas não há motivo para pânico. Basta que vocês não provoquem a fera. A jaula que prende Monga é feita de material extremamente resistente”.
Na minha mente, a voz de meu primo: “É truque de espelhos...” Desgraçadamente, também a voz de Adeílson: “O perigo é isso aqui desabar...”
Fora da minha mente, a VOZ: “Por favor, silêncio, Monga está se descontrolando”.
Monga já era uma gorila, depois de lenta transformação.
“Por favor, por favor, silêncio, ela está tentando quebrar a jaula”.
E Monga urrava, rosnava, balia e sacudia as grades.
Adeílson, o veadinho, apertou meu braço.
“MEU DEUS, corram, Monga está descontrolada”.
O puto do Adeílson correu, e eu com ele.
Quando nos desvencilhamos dos panos da saída da tenda de Monga, demos de cara com a multidão que ficava à espera dos cagões. Eu, claro, fui o primeirão a sair.
Tentei explicar, pelo menos para os conhecidos, que corri porque achava qua a tenda ia desabar, cumé que eu ia ter medo de algo que sabia ser truque, logo eu, carioca, acostumado com Monga, Batman, Tarzan. Não adiantou. Até o fim das férias só ouvi falar da desejável, mas ignóbil Monga.
Foram minhas últimas férias em Macaé.
Por lá sou conhecido como o marido de Monga.

quinta-feira, julho 09, 2009

Coisa bonita de se ver - Ingrid Bergmann

Considero Ingrid Bergmann uma das mulheres mais belas que já vi.
Beleza que hoje não existiria. Sempre haveria um imbecil que lhe sugeriria um retoque no nariz perfeitamente imperfeito.

A chefinha

Quase oito horas. Todo mundo doido pra ir embora, mas sem o boa noite da chefinha, ninguém saía.
- Cadê a chefinha?
- É só você olhar pela janela. Está lá embaixo, no estacionamento, rodeada de figurões.
- Pergunte se podemos ir embora?
- Você tá louco?
Na redação, estávamos em sete. Todos loucos pra ganhar as belas ruas de São Cristóvão, protetor dos motoristas e dos assalariados apressados.
Juju, belíssima e atrevida afrodescendente esperneou:
- Vou gritar aqui de cima e perguntar se dá pra gente se mandar.
O sub lembrou:
- Sei não, a chefinha hoje não tá de bom humor. Quando ela fica um tempão naquele canto da janela, olhando lá pra fora, é bom não abusar. O gaúcho saiu daqui falando fino com o joelhaço que levou.
- Olhando pra fora, não, pra dentro. Não há nada na paisagem de São Cristóvão para se ver.
Eu, lá no meu canto, sentadinho, esperando a chefinha se lembrar de nós, acabei ouvindo:
- Você que é peixe dela podia fazer alguma coisa.
Eu, peixe da chefinha. Aiai, quem me dera. Mas fui mencionado, tive de falar alguma coisa.
- Por que não pegamos os trecos dela, avisamos que estamos descendo, apagamos tudo e vamunessa.
Minha superior imediata (que só se envolvia sentimentalmente com novaiorquinos) não achou a ideia grande coisa, mas tinha um compromisso que parecia bastante promissor. Intempestivamente, levantou-se e, da janela, avisou à chefinha que estávamos saindo e levaríamos seus breguetes.
Bolsa e agasalho na mão, ouviu o aviso do sub:
- Tá esquecendo a Montblanc dela.
Juju, espevitada, pegou a caneta e deixou-a cair no chão.
Comoção na redação.
- Porra, quebrou?
- Meu Deus, ela adora essa caneta.
- Cacilda, e agora? Juju, você entrega e explica o que aconteceu.
- Porra nenhuma. A chefinha é educada, mas se eu mostrar essa caneta quebrada vai me espinafrar lá embaixo, na frente de todo mundo.
- PORRA, quebrou?
- Amassou a pena, a tampa não estava no lugar.
Um inocente sugeriu:
- Vamos fazer um rachuncho e dar uma nova pra ela.
Senti uma fisgada no bolso. Essa turma que usa Bic não tem noção do que é uma Montblanc. Saí do silêncio:
- Dependendo do modelo de Montblanc, vamos ter de deixar o salário em troca da caneta.
A gordinha se assustou:
- Tô fora. Não sei por que vocês têm essa pressa de ir embora. Tenho dinheiro, não.
O sub sentiu que precisava decidir:
- Juju, tampe a caneta, ponha dentro da bolsa, e vamos embora. Passamos rapidamente, damos boa noite e capinamos. Com sorte, ela não mexe nessa caneta, hoje. Em casa, vai deixar a bolsa em algum lugar. Amanhã, quando perceber a caneta quebrada, além de nós, haverá os suspeitos da casa. A chefinha é casada, tem filhos, empregada.
Eu, para conquistar a equipe que ainda me tinha sob observação, prometi:
- Se amanhã ela chegar aqui aborrecida e perguntar alguma coisa, eu mesmo lanço a suspeita sobre a empregada. Direi, “chefinha, provavelmente, sua assistente doméstica deixou cair a bolsa no chão e causou o acidente com a caneta”.
Todos me olharam com ar de reprovação, mas a alternativa era enfrentar a ira da chefinha.
A reunião de pauta do dia seguinte foi tensa, mas para nosso alívio lá estava a chefinha fazendo as anotações com sua Montblanc. Letra redonda, bonita, de quem, pelo menos naquele dia, não daria esporro em ninguém.

sábado, julho 04, 2009

Linchem o motorista

Em acidente de ônibus, morreu uma menina de 12 anos. Foi arrastada pelo coletivo. Ela ficou presa à porta e o motorista não viu.
Na televisão, pudemos ver o ônibus, superlotado, ser invadido pela turba de estudantes. Vimos, também, o desespero do motorista quando tomou consciência do que aconteceu.
O que não vi nem ouvi na televisão foi um comentário exato sobre de quem é a responsabilidade pela morte da menina. Claro, o motorista será julgado por homicídio doloso e está correto, mas é somente ele o responsável pela tragédia?
O prefeitinho Eduardo Paes garantiu fiscalização rígida para punir motoristas que barram a entrada de estudantes nos ônibus. O prefeitinho nunca subiu em um coletivo.
Grande parte da frota de ônibus, no Rio, é pouco maior do que Kombis. O motorista conduz a máquina assassina sozinho. Ele dirige, faz troco, fiscaliza as portas. Em passado remoto, seu auxiliar, o cobrador, o avisava quando podia dar partida no bólido.
Vejo, pelo menos uma vez por dia, gente caindo de ônibus por causa da “distração” de motoristas. Como o brasileiro não desiste nunca, a grande maioria que cai, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.
É sempre mais fácil culpar os motoristas, que trabalham cada vez mais e em piores condições. Transporte coletivo deveria ser responsabilidade do Estado (se o Estado fosse sério e não fizesse nomeações de apadrinhados/administradores como acontecia na falecida CTC). Enquanto o lucro alucinado for a motivação de empresários que dominam o setor no Rio, morrerá muita gente, mas na imprensa aparecerão apenas os casos mais sensacionais.
E o vilão sempre será o motorista.

Falar merda, direito de todos

Quatro alunos do Pedro II morreram em acidente de trânsito. Todos iam à escola, regularmente, em van pirata.
O pai de uma sobrevivente disse a O DIA que várias vezes empurrou a van para que ela pegasse. “Comemoro o fato de minha filha estar viva. Foi um milagre. Deus me deu o maior presente que poderia receber na vida”.
Todos falamos merda sem pensar. O simplismo de alguns raciocínios me irrita. Se Deus deu a ele um presente, entende-se que aos outros pais puniu, levando seus filhos.
É difícil para os pais envolvidos neste trágico evento considerarem que responsáveis pela morte e salvação das crianças são o acaso, o despreparo dos motoristas envolvidos e a irresponsabilidade deles, pais.
Deus está em todo lugar, mas de alguns lugares devemos cuidar nós mesmos.

quarta-feira, julho 01, 2009

A farra dos abutres

Michael Jackson foi um gênio. Aloprado, mas gênio.
Dizia-me um já falecido amigo: “Canta, dança e compõe muito bem. É gênio”.
Concordo e acrescento: se cercava dos melhores profissionais.
“Thriller” é um dos discos mais impressionantes que ouvi. Disco do porte de Sgt. Peppers, London Calling, Psychocandy...
No palco, vi poucos shows como os dele. Madonna? Não. O Queen de Fred Mercury? Talvez.
A vida pessoal de Jackson me interessa pouco, como, aliás, a de todo artista. É bom saber dos podres dos vizinhos.
Os garotinhos que, dizem, comeu, sempre tiveram papais e mamães mais interessados em levar um monte de grana do doidinho nos tribunais do que preservar os fiofós de seus pimpolhos.
Desde "Bad" não prestava mais atenção na música de Michael Jackson. Vi alguns clipes, ocasionalmente, na TV, de discos mais recentes.
Michael Jackson morreu agora, aos 50 anos, de causas ainda desconhecidas. Artisticamente, já estava morto há um bom tempo.
Os abutres festejam. Terão muita carne para comer.

sexta-feira, junho 26, 2009

Coisa bonita de se ver - Megan Fox

Transformer 1 e 2 não valem nada, mas tem Megan Fox, então, peraí: valem muito.

O observador de rabos

Abonados e sedentários que circulam pela cidade em automóveis perdem muito do saboroso contato com a ralé. Basta ouvir nosso líder máximo pontuar (essa é palavrinha de apedeuta que lê Paulo Coelho) sobre qualquer assunto para percebermos quanta sabedoria se escamoteia em cacholas aparentemente vazias.
Sentado no 687, em frente ao NorteShopping, degustava este gordo lascivo as páginas de uma Playboy, quando ouvi, desesperado, um homem batendo na porta traseira do coletivo.
Cabe breve digressão para não cariocas. Aqui na Cidade Maravilhosa, entramos pela porta da frente do ônibus, damos o dinheiro para o motorista, que dirige, faz troco e olha pro rabo de qualquer gostosa que estiver passando na rua ou entrando no ônibus. Quase sempre isso é feito com o coletivo andando.
Voltemos. O cara espancou a porta do ônibus, mas o piloto pelota não deu. Tirei os olhos da bunda de papel e vi o persistente passageiro correndo atrás do ônibus. Trânsito pesado, ônibus lento, no outro ponto o enfurecido corredor alcançou o ônibus.
- Seu filho da puta, você não me viu fazer sinal pro ônibus?
- Não, senhor – disse com tocante humildade o motorista/cobrador/observador de rabos.
- Eu quase derrubei a porta, seu veado. Você conhece o Amaral? Amanhã, vou à garagem te denunciar, filho da puta – gritava o desprezado passageiro.
Dentro do ônibus, ninguém dizia nada. Todos com cara de paisagem campestre. Eu, não. Detinha-me examinando um belo par de seios.
- É por isso, babacão, que vocês têm mesmo de vender bala no ônibus. (Cabe nova explicação a não cariocas. No Rio, depois de demitidos, muitos rodoviários abraçam a promissora carreira de baleiros.)
O grandão, aparentemente satisfeito com a demonstração de macheza diante do minúsculo piloto, atravessou a roleta e sentou-se.
Mas ônibus é ônibus. Um furdunço nunca vem sozinho.
Logo entrou um crente e pediu carona ao piloto.
- Meu amigo, não dá. O ônibus tem câmera.
- Eu vou descer depois do cemitério, adianta aí, amado.
- Não dá, você tem de descer.
Já tinha até fechado a revista. Bundas, peitos e coxas têm de ser apreciados com vagar. Acertei, porque o grandão acordou.
- Ô seu corno, deixa o cara passar, vou pagar a passagem dele. Você é mau caráter, mesmo.
O crente passou a roleta, agradeceu o favor do mastodonte e começou rápido e ríspido:
- Meus irmãos, quem entrega sua vida a Jesus é vitorioso, não aceita derrota. Estou precisando de 10 reais. Se cada um me der 1 real, meu problema está resolvido. Sou filho do Rei, não aceito não como resposta.
Não sei se ele arrumou os 10 reais, mas umas quatro senhoras deram, felizes, o dinheiro para o príncipe agressivo.
Bom, mais dez minutos, eu estaria em casa. O crente desceu, o grandão, logo depois da Praça de Inhaúma deu sinal e meus companheiros de viagem estavam tranqüilos. No fundão, um casal economizava o do motel,
O grandão, ao desembarcar, para manter o moral, ameaçou:
- Amanhã, falo com o Amaral, seu puto.
Ah, as surpresas da vida! O baixinho, que até ali nada dissera, desceu do ônibus e lançou seu grito de guerra:
- Ou eu mato ou morro!
Bonito, mas achei que ele morreria, mas sei o quanto é difícil controlar um corpo grande. O grandão tentou dar um pontapé no graveto e desequilibrou-se, ridiculamente. O baixinho era mau. Chutou a cara do gigante umas duas vezes. Quando o amigo do Amaral levantou de seu carão jorrava sangue. O tampinha aproveitou a confusão mental do pimpão e mandou-lhe um bico nos ovos. Não foi um procedimento elegante, mas bastante eficaz. Senti a dor abraçado à minha revista. Dali pra frente, foi um massacre. Bambala 7 x 0 Internacional, com Nilmar.
Já sentado em sua posição, o piloto tornou a olhar pro rabão da brancona. Claro que, agora, ela olhou de volta.

quarta-feira, junho 24, 2009

Espírito livre

- Chegou cedo na Lotérica, veio fazer uma fezinha?
- Nada. Acordei com barulho de louça sendo lavada, bica aberta. Vinha da cozinha de casa, levei o maior susto.
- Você acha que era sua falecida mãe?
- Pô, sem dúvida. Me arrumei e vim pra cá.
- Com todo respeito, mas fantasma não prefere atuar à noite?
- Vai lá e diz isso pra ela. Cara, igualzinho quando tava viva, fazia maior esporro preu acordar e procurar trabalho.
- Aí morreu, te deixou o táxi e três casas, duas pra você alugar.
- É, porra, trabalhar pra quê? O cara me dá a diária do táxi na boa e os dois inquilinos não atrasam o aluguel.
- Das duas uma: procure um psiquiatra ou um pai de santo.
- Tem certas coisas que não dá pra mudar. Já estou com 48, trabalhar, agora, pra quê?
- Você, não sei. Eu preciso. O homem já está me olhando.
- É por isso que não trabalho. Sou um espírito livre. Não tolero ser pressionado.

domingo, junho 21, 2009

O santo crédulo

Não costumamos dar pelota a intuições.
Aquela figura que apresentam a você e alguma coisa buzina, lá dentro do cérebro: “Se liga, isso não vale porra nenhuma”. Lá na frente confirmar-se-á o vaticínio cerebral. Mas, às vezes, não. Não é ciência exata. O fedapê da primeira impressão pode, por que não?, se sair um gente boa. Acontece.
Em empresa que trabalhei, haveria mudança de comando. O antigo comandante, figura bonachona, era homem sincero, afetuoso, delirante. A empresa, no entanto, precisava de gestor mais moderno, antenado com as novas tendências de mercado. O escolhido para substituir o veterano gestor parecia atender a todos esses requisitos. Como não ser moderno um homem que só andava de notebook embaixo do braço? Como não ser um grande gestor alguém que capitaneara grandes empresas? Como não ser espiritual alguém que deixara essas empresas para atender o chamado de Deus? E como era simpático esse novo gestor.
Aí, dentro da cabeça, escondida sei lá onde, a maldita vozinha: “Esse cara não vale porra nenhuma”.
O amigo Eduardo me disse que estava apaixonado. Gordo, ela é muito bonita, médica, 25 anos, mora sozinha em Ipanema. Os pais vivem em Penedo. Prosseguiu dizendo que estavam saindo há três meses e que ele tinha ficado quieto, sem contar pros amigos, por superstição.
Eduardo era muito supersticioso, feio, estava perto dos 40, não tinha profissão definida. Cheguei a imaginar que ele estava contando uma lorota, mas conheci Marisa uns dias depois. Era tudo o que ele falava, além de agradabilíssima.
E a vozinha, implacável: “Essa mulher, sei não”.
Eu até ia dar um toque no amigo Eduardo, mas olhei pra Marisa e pensei que nunca mais na vida ele toparia com uma igual. A felicidade em que ele estava... Foda-se minha intuição.
Todos conhecemos o velho ditado: “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”. Só que os santos modernos são muito crédulos. Creem com muita facilidade.
Gente que aceita determinado cargo e apregoa que por ele está renunciando a uma vida dezenas de vezes mais confortável existe. Mas são muito pouquinhos. E entre esses pouquinhos há os doidinhos.
Meu amigo Eduardo já há dois anos está com sua bela (e põe bela nisso).
O gestor risonho segue em sua estrada de marketing pessoal e mentira, iludindo os que querem ser iludidos.
E a vozinha me manda nova mensagem: “Gordo, cuide de sua vida”.
Cuidarei.

quinta-feira, junho 18, 2009

Coisa bonita de se ver - Katy Perry

E bastante agradável de se ouvir.


De esguicho

Não sou bom de papo com estranhos. Há ocasiões, no entanto, que não dá para evitar.
Entrei em um ônibus, no Engenho da Rainha, terra de bambas. Sentei e do meu lado alojou-se uma senhora. Ela chorava copiosamente. Encaramujei-me. Não adiantou, ela virou-se para mim e, como se nos conhecêssemos desde o dia que o Flamengo fez uma grande partida de futebol, desfiou sua triste (tristíssima, se considerasse como chorava) história.
O senhor conhece a padaria perto da locadora? Não, mas disse que sim. Dois portugueses são os donos, um casal sem filhos. Eles estão no Brasil há mais de 40 anos. Há seis meses, d. Carlota reuniu os quatro empregados e anunciou que precisaria dispensar dois. Eu trabalhava lá há quase 20 anos. Ela explicou os critérios da decisão já tomada.
Eu e o Tito sairíamos. Ficariam o Zeca e a Saló. O Zeca era como um filho para eles. A falta de filhos naturais deixou o casal muito carente. Zeca, moleque esperto, órfão, logo sacou que se se encostasse por ali não precisaria ser soldado no tráfico. A Saló, com sessenta e poucos anos, não conseguiria emprego. Ela sabia que seria difícil para mim e para o Tito, mas teríamos mais chances.
Entre ouvir a mulher e olhar a horrorosa paisagem do Engenho estava preferindo deixar as orelhas trabalharem. Tinha de dar um pitaco. Dei. Portugueses são péssimos patrões, né não? Não registram funcionários, pagam mal, são grossos. Sempre religiosíssimos. Católicos. Conheço o caso triste de um rapaz, duns 40 anos, que abandonou mulher e dois filhos para viver com a patroa portuguesa, uma senhora bastante idosa.
Então, dei sorte. Seu Joaquim e d. Carlota formam um casal muito distinto. Foram ótimos patrões. Ganhávamos um pouco mais do que os colegas da área, trabalhávamos em turnos, tínhamos folga semanal, férias, 13º e, em dezembro, ainda recebíamos abono e uma cesta de Natal farta. Levei tudo a que tinha direito: minha rescisão, FGTS e até a multa rescisória.
Hoje, estive lá porque seu Joaquim arranjou uma colocação para mim em outra padaria. Pro Tito ele já tinha arrumado. Eles são religiosos, mas, espíritas. Têm horror à igreja católica. Eu mesma fui pro espiritismo por influência deles.
Bom, seu choro, então, é de alegria e de saudade do bom emprego?
Não, estou chorando porque os donos da padaria em que vou trabalhar são evangélicos. O senhor já trabalhou com evangélicos?
Quando ela acabou de me dizer isso, olhamo-nos nos olhos um do outro, nos abraçamos e choramos. Lágrimas de esguicho.

terça-feira, junho 09, 2009

SOLUÇÃO

Senhores da diretoria, convoquei-os para esta reunião porque passamos por grave crise. As vendas despencaram. A empresa de consultoria que contratamos nos informa que o problema são os nossos gerentes. Eles estão atravessando grave período de baixa autoestima. Encontram-se desanimados, sem vigor para deixar fluir a criatividade que empurrará as vendas para cima. Erramos, ano passado, ao reduzir o número de secretárias. Hoje, percebo que é vital para nossa empresa que cada gerente tenha sua própria secretária. Sei que tivemos problemas com a justiça com as três queixas de assédio sexual, mas os consultores encontraram uma solução.
Amanhã, daremos início a novo processo de seleção. Contrataremos oito moças. Essas moças serão rigorosamente treinadas por Elon Varella, o fomentador de baba-ovos. Elon é a solução dos consultores. Ele participará, decisivamente, do processo de seleção. Disse-me que é possível criar um baba-ovo do nada, mas, e aí a tese é dele, o baba-ovo existe por uma deformação de caráter.
Essas moças descerebradas, mas capazes de lançar um elogio por minuto, elevarão novamente o moral de nossos gerentes que recuperarão a capacidade criativa. Nossos empregados, desculpem-me, colaboradores, voltarão a sentir o pulso forte dos gerentes e tornarão a render o que sempre renderam.
Elon, o fomentador, garantiu-me, também, que queixas de assédio não mais ocorrerão. A nova equipe de secretárias será tão ansiosa para agradar seus chefes que fará, docilmente, o que eles pedirem.
Além de competentes bajuladoras, as secretárias são exímias preparadoras de café, contam qualquer lorota pedida ao atender o telefone, fazem serviço bancário na hora do almoço e quando os gerentes forem dar uma mijadinha elas os acompanharão para a sacudidela final em suas pirocas murchas.

segunda-feira, junho 08, 2009

Resumindo: incompetentes

Quando vi o Flamengo, aos 15 minutos, dando passes de calcanhar e atendendo os gritos de olé da massa, percebi que ia dar merda.
Levantei-me da frente da TV e fui dormir.
Nem em meus piores pesadelos, no entanto, imaginava que sairíamos dos 2 a 0 pros 4 a 2 a favor do inimigo.
Pra melhorar minha semana só se os incompetentes que me chibatavam liberarem meu FGTS.

Priiiiiiiiiiiiiiiiiii...........

- Aêêêê, não falei que pegava a Jucinalva... priiiiiii
- Não sacaneia, pegou? priiiiii
- Ó! Ela deu uma volta no babaca do namorado e a gente foi lá pro Hot Love. priiiiiiii
- Aê, é melhor a gente falar disso depois. Rádio, sacumé. priiiiiiiiiiiiiiii
- Comi a Juci, Mané. Quero é que todo mundo saiba. priiiiiiiiii
- Você tá aonde? priiiiii
- No 311, vou ao Centro. priiiiiiii
- Em que altura? priiiiiiiiiii
- Na Estrada Velha. priiiiiiiii
- Você sabe quem é o namorado da Juci? priiiiiii
- É um bandidinho babaca, ela me falou. priiiiiiiiii
- Baixa o volume preu te dizer um lance. Ela é mulher do Caveira, o matador do Complexo, exatamente a área por onde seu ônibus está passando. priiiiiiiiii
- Ô..... priiiiiii
- Pelamordedeus! Não fale meu nome. Por que você acha que ninguém chega perto da Juci? Por timidez? priiiiiiiiii
- Você que me entregou, falando o nome do cara. priiiiiiiiiii
- Cumpadi, sei que pobre não tem refinamento, mas quantas Jucinalvas você acha que existem por aí? Ainda mais, gostosas? priiiii
- Eu... priiiii....
- Boa sorte, vou jogar esse rádio fora. priiiiiiiiii

quinta-feira, junho 04, 2009

quarta-feira, junho 03, 2009

PROFISSIONAL

- Parabéns, soube da promoção.
- Estava entre quatro pessoas e eu levei.
- A Clarinha me disse que sua indicação foi uma surpresa.
- Ninguém na Irmandade achava que seria eu.
- Enquanto tomamos esse chopinho, me conta, como foi que você chegou lá?
- Ricardo, sou profissional. Procurei saber o que o homem valoriza. Percebi que em condições normais não seria o escolhido. Como o homem gosta de elogios, passei a elogiá-lo sempre, discretamente. "Sapato bonito, chefe"; "Onde o senhor comprou essa camisa"; "Esse paletó caiu esplendidamente no senhor". Ele não tolera ser contrariado, mas gosta de pensar que convence as pessoas com seus argumentos. Qualquer assunto que tratava com ele eu começava discordando, depois me deixava convencer. O vaidoso é patético. Um dia, ele entrou no refeitório e eu estava comendo um pão doce que a Valerinha trouxe pra mim. Ofereci um pedaço, ele aceitou e adorou. Umas duas vezes por semana, trago um para ele. Me dava um trabalhão comprar, mas valeu.
- Só isso não daria a promoção a você. Ele tem de se preocupar com o melhor para a empresa. Você era o melhor?
- Ricardo, sou profissional. Aquilo lá é uma Irmandade. O dono é o éter. O homem se preocupa com quem é melhor pra ele. Essa minha abordagem, garanto, me deu 70% da promoção. Os outros 30% consegui desqualificando meus concorrentes. O homem é moralista, preocupado com o que os outros pensam. Fiz com que ele soubesse que a Jandira tinha uma parada com o Hernani, da Contabilidade. O Jeferson, cabeça quente, bastou que eu plantasse aqui e ali que o João estava queimando ele com o homem para que fosse tomar satisfações. Os dois saíram na porrada, no estacionamento. Sobrou pra mim.
- É, você é bom.
- Nada disso, sou profissional.
- Preciso ir, amado. Domingo você vai à igreja?
- Que pergunta, você sabe que não perco um culto. Sou profissional.

RAIVA

– A ira, a raiva, o ódio. Tudo isso explica o que fiz.
– Cara, você entrou no mercadinho, levou o dinheiro, deu um tapa na cara da mina e depois ainda mandou três balaços no peito dela.
– Tô te falando, entrei lá com raiva. Nem ia roubar aquele muquifo. Ia comprar um pacotinho de biscoito.
– Cara, foi tudo filmado, você tá em tudo que é TV.
– Caguei. O pior é que aquela mina era maneira, sempre me tratou legal.
– E por que você fez isso com ela?
– Raiva, cara. Raiva. Com raiva você faz coisas que Deus duvida.
– E agora, o que você vai fazer?
– Agora, eu já estou me emputecendo de estar conversando com você.

quinta-feira, maio 28, 2009

RECORTA & COLA - Textos bacanas que saem por aí



DE RATOS E HOMENS
Luiz Felipe Pondé
luiz.ponde@grupofolha.com.br
Folha de S. Paulo, 25/5/2009


Hoje estou no lado negro da força. Dormi mal. Um leitor pergunta: “você é contra a democracia?” Não! Eu?! Mas acho sim que a democracia moderna tem algo de idiota.
Mais do que um conceito, esta ideia é uma sensação, assim como um odor. Digo “idiota” no seguinte sentido: vivemos numa época na qual os idiotas venceram porque descobriram pelo voto que são maioria absoluta. Eles impõem ao mundo sua vida medida pelas estratégias de sucesso e pelo amor opressivo do medíocre – esta nossa face indesejável, estampada em nosso espelho íntimo. Antes de ser senhora do mundo, essa multidão de iguais vivia sua pequena vida, imersa num pessimismo modesto, de quem não tem para onde ir. Hoje, essa praga da vida estratégica e uma deformação em cada rosto.
Assumindo ares de senhores, os idiotas tomam conta do pensamento, construindo um mundo visto pelos olhos de quem só sabe viver contabilizando as vitórias de seu desejo.
Sua religião vira uma “espiritualidade” que crê num universo conspirando a favor de seu sucesso, fazendo do universo um idiota, como ele, só que infinito. Vivesse Kafka hoje, certamente escreveria histórias de medo sobre como a elite intelectual (talvez com face de rato) virou proletária, em busca de carreiras, somando seus pontos, escrevendo artigos para não serem lidos, somando suas mesquinharias, anulando a inteligência em nome do acúmulo.
O idiota faz da ética um divã a serviço de suas utopias de alcova. A modernidade, com sua vocação natural para fluxos administrativos e sistemas organizacionais, deixa o idiota em êxtase.
Criticar a democracia moderna nao implica amar regimes antidemocráticos. Implica, sim, reconhecer que a democracia é, também, em sua intimidade, uma forma específica de desastre.
Proponho o ensaio The masses in representative democracy (as massas na democracia representativa) do filósofo inglês Michael Oakeshott (século 20). Neste ensaio, ele narra o nascimento do anti-indivíduo ou homem massa. A diferença entre o filósofo inglês e o tratamento mais comum dado pelos especialistas ao homem massa é que para Oakeshott a ideia de que todo ser humano venha a ser um indivíduo autônomo é uma lenda Aí está um dos dogmas da democracia modema: todo homem é capaz de ter vida subjetiva válida e de ser “portador” de uma personalidade autônoma.
A sensibilidade democrática moderna, com sua mesquinha paixão pela felicidade, treme diante desta hipótese, apesar do acúmulo de evidências empíricas cotidianas a seu favor. O Renascimento criou a lenda do indivíduo como uma possibilidade aberta a todos, posteriormente concretizada nas revoluções modernas. Para aIém da ideia (comum) de que a sociedade ou a mídia esmaga o indivíduo nascente, Oakeshott duvida da probabilidade mesma de que exista em todos nós um indivíduo possível. O debate supera a mera questão política e adentra o campo da psicologia social e seus mecanismos de construção dos comportamentos. Não se trata·de reduzir a questão à cidadania, mas sim pensar nosso regime naquilo que ele tem de miséria moral.
A tese central de Oakeshott é: um dos grandes motores da democracia moderna é o ódio ao indivíduo e sua obscena capacidade de ser livre de modelos coletivos. Vivia o homem, na idade média, em sua pequena comunidade sem futuro, entre os terrores noturnos e as esperanças religiosas, quando foi despertado pelos sinos do sonho de virar o “senhor de sua alma”, superando seus determinantes sociais. Hamlet e Jó têm alma. Quem apenas quer ser feliz não suporta a sina de ter uma alma.
Os processos “de salvação” sempre esmagaram os indivíduos reais porque a autonomia (substância dos indivíduos de fato) não é irmã da felicidade, não “salva” ninguém. E os idiotas só querem ser felizes. Os totalitarismos do século 20 já foram parte do surto. O anti-indivíduo adora certezas, causas e utopias. Goza sentindo-se parte de um todo.
Perdidos nos escombros de sua vila natal, nosso homem massa se reencontrou na obsessão de grandes coletividades identificadas com um ideal de mundo. A ideia do “bem público” tornou-se seu credo. A verdade é que o homem massa·sempre fala em nome da liberdade, da autonomia, mas ele as detesta, porque teme o inferno que é a alma. As obras de autores como Kierkegaard, Nietzsche e Burckhardt (todos do século 19) são gritos contra esse ódio típico de quem é apenas sombra.

quarta-feira, maio 27, 2009

EM BUSCA DA EXCELÊNCIA

A empresa em que trabalhei me demitiu. Sem problemas, é direito de toda empresa fazer o que bem entende com seus funcionários.
O escritório de contabilidade terceirizado pela empresa que me demitiu cometeu um erro no preenchimento de uma das guias do FGTS.
Três meses depois, estou encalacrado na burocracia da Caixa Econômica Federal, à míngua.
A empresa em que trabalhei por 10 anos, 20% do meu tempo de vida, enquanto busca a excelência, caga e anda solenemente.
O escritório que presta serviço à empresa de ungidos que me demitiu me evita como a um leproso bíblico. E eu caminho, celeremente, para o desespero.
Não sei exatamente o que farei. Se pudesse dar vazão a meus bestiais instintos, já teria feito algo. Apesar de tudo, essas situações são muito instrutivas. Descobrimos com quem podemos contar, os que nenhuma serventia têm se revelam e constatamos que a tal ética cristã anda no ralo.
Mas esses fatos também nos fazem perceber como o pobre está desamparado diante da lei. Em um caso como este que me aflige, a solução seria simples: a empresa que me demitiu deveria ser multada com rigor como castigo por contratar escritório de contabilidade incompetente; o escritório incompetente também levaria chumbo, simplesmente, por ser incompetente e eu receberia meu dinheiro, imediatamente, para poder esquecer toda essa corja.

quarta-feira, maio 20, 2009

Já vai tarde

Tenho uma vizinha de quem gosto muito. É a única.
O marido a trata como uma ratazana.
Filho e neto vivem para escorraçá-la.
Sessenta e poucos anos, vive para os três parasitas.
Uma manhã dessas a vi falando com o marido, preocupada: “Você não está bem pra viajar, a estrada é perigosa. Por que não vai de ônibus?”
“Sai daqui, miserável”, foi a carinhosa resposta do maridão.
Muitas vezes me pego pensando sobre mim mesmo e acho que estou ficando amargo, intolerante, pouco solidário, descrente. Acredito que esteja, não sei. O que sei, com certeza, é que se eu fosse aquela mulher encorajaria o marido a viajar destemidamente e ficaria, de casa, desejando que ele descesse a serra por um precipício qualquer.

domingo, maio 17, 2009

Vantagens da 3ª idade

Acho que já contei essa história, mas vale o repeteco.
Na década de 80, trabalhava na Manchete. Era revisor de textos e durante um bom tempo fiz mesa com um gay problemático.
Para a época, Henriquinho era um escândalo. Negro, corpo enxuto, cabelo pintado de louro e um mau humor do cão. Na maior parte do tempo, ao menos. Nunca o contrariei.
Passávamos as manhãs juntos, na mesma mesa. Um dia ele virou-se para mim e me pediu um favor: “Gordo, estou precisando comprar algumas roupas na Mesbla, mas não tenho cheques pra comprar no predatado. Você se importaria de ir até lá comigo? Você usaria seus cheques e eu lhe pagaria”.
Foram momentos dolorosos. Imaginei-me entrando na Mesbla com ele e depois pagando a conta. O que os vendedores não pensariam de mim?
Não fui. Dei uma desculpa, emprestei o cheque assinado para ele, mas não fui.
Senti vergonha de minha atitude, mas me senti pior ao constatar que não teria coragem de ir à loja com ele se me pedisse novamente.
Hoje, iria com um batalhão de drag queens. Não porque seja menos preconceituoso, só que já não me preocupo muito com a opinião alheia. É a velhice.

Vapor barato

Saíamos do Jornal do Brasil de madrugada para comer uns salgados na Central.
Formávamos um grupo de quatro, às vezes, cinco.
Dois do grupo sempre gostavam, na caminhada, de queimar um fuminho. O assunto era um só: malhar o governo militar.
O único que ficava tenso com a situação era eu. Era o único, também, que morava com mãe, pai, avó, tio, irmãos. Se fosse em cana teria de explicar muito a muita gente. Por sorte, nunca fomos.
Do jornal, na Av. Brasil, até a Central, era uma longa distância. Uns 40 minutos em passo de conversa fiada.
Alta madrugada, década de 70 e ia o vapor rumo à Central.
Hoje, não sobreviveríamos.

quarta-feira, maio 13, 2009

CANTORES QUE CURTI MUITO - Otis Redding

(Sittin' on) The dock of the bay foi sucesso póstumo de Otis Redding. Explodiu nas rádios um ano depois de sua morte em um acidente de avião, em dezembro de 1967. Na época, a música saiu por aqui em compacto duplo que não tirava da velha vitrola. A importância de Redding na minha vida musical é capital. Em 1967, ouvia Roberto Carlos e o pessoal da Jovem Guarda. A música de Otis Redding me levou, mais pra frente, a James Brown, Al Green, Smokey Robinson, Marvin Gaye. Otis Redding me fez um ouvinte parabólico. Depois dele passei a ouvir qualquer tipo de música e apreciar os diferentes sons do planeta.
Comprei um cd da coleção 2in1 que vem com The dock of the bay e The soul album, dois discaços. Recomendo o investimento. Em vez de ouvir replicadores (às vezes, bons), vá à fonte.

terça-feira, maio 12, 2009

O topo

Como se chega ao topo de uma organização?
Competência e criatividade não levam você até lá.
Sexo? Bem, sexo pode fazer com que você chegue perto do topo. No topo, não.
A vida corporativa é misteriosa.
Não é para inocentes, ingênuos, bem-intencionados...
Uma qualidade de quem está no topo é uma certa dose de canalhice.
Sangue-frio e desfaçatez também são requisitos dos senhores de escravos.
Mas o que eu gostaria mesmo é de saber como se chega lá.
Não que eu tenha interesse em estar no pico da montanha.
Falta-me disposição. Estou velho.
E acho que é necessário deglutir o indeglutível.

(Esse post eu puxei lá detrás pra cá. Gosto dele.)

Inebriante poder

- O leão mandou avisar que quer comer carne diferente. Disse que já está de saco cheio de zebras, veados, gnus...
- Por que isso? Eu, coelho, já tenho de me preocupar com águias, gato do mato, cobras... Agora, até Sua Majestade está querendo me comer.
- Há várias versões para a mudança de dieta. Uns dizem que ele quer fazer alimentação mais leve. Outros, bem na encolha, contam que ele, pesadão, já não tem agilidade para desviar-se das porradas de zebras e gnus. Mas ele não quer só coelhos, não. Até borboletas anda comendo. Diz que abre o apetite.
- Só faltava essa. A vida já é uma correria louca.
- Eu tenho uma terceira opinião sobre o real motivo dessa variação de cardápio. Dia desses eu estava observando, a distância segura, a família leão. O esquilo, folgado como ele só, em vez de desviar-se do grupo passou entre ele e ainda fez graça para um filhote. O leão olhou para a companheira e reclamou: “Essa turma não anda mais me respeitando. Vou tomar uma atitude.”
- Será que é isso?
- Claro que é. Poder, quem tem, exerce. E sobre todos. Agora, ninguém passa entre eles. Se passar, vira refeição.

Nova onda

Tomei ciência da nova onda lendo a Folha de S.Paulo. Lá pela capital sertaneja, o último grito é ouvir música sem fone de ouvidos nos celulares turbinados que os presepeiros têm à disposição para comprar em qualquer loja.
Depois de três meses longe do transporte erótico, embarquei em uma viagem de metrô. Que alegria constatar que a moda sonora já chegou ao paraíso do batidão. Agora a sarração metropolitana tem trilha sonora. “Aê, vô te dizê, um dia como você”. Com essa letra doce fiz minha viagem. Claro que preocupado de o armário atrás de mim não ter alguma ideia.

Tiranetes

Trabalhava no Jornal do Brasil como revisor de texto. Deixei passar, por desatenção, na primeira página, Volta Redonda, em vez de Volta Grande. O texto era chamada para reportagem com o presidente milico da época. Se passasse errado, quase certamente estaria na rua.
O encarregado da oficina, o lendário Jorge Cachorrão, entrou na ampla sala da revisão, veio até minha mesa e mostrou-me a prova em papel com meu erro. Depois que vi, ele amassou e jogou fora. Somente ele e eu soubemos o que aconteceu.
Aprendi com Cachorrão que não há necessidade de expor o colega.
Na década de 90, trabalhei alguns penosos meses em uma empresa evangélica. Os colegas estavam descontentes com algumas medidas tomadas pelo líder. Reunimo-nos, a ralé, e resolvemos que apresentaríamos, respeitosamente (há que ser muito delicado ao dirigir-se a ungidos, eles são melindrosos), nossas reivindicações. O pastor-chefe abriu os trabalhos e pediu aos que quisessem dizer algo que o fizessem. Eu, já com quarenta e tal, acreditei. Os colegas quedaram-se em tumular silêncio. O gordo aqui falou e dançou. Chefes (em sua grande maioria) adoram subalternos que lhes sirvam como claque.
Na década de 80, trabalhei na Manchete. Havia todo um ritual que orientava a saída das revistas para a gráfica. As semanais na frente, as mensais aguardavam. A exceção era quando havia fechamento de uma mensal. Tavares, o único chefe inteligente com quem trabalhei, me pôs na distribuição enquanto ele descia para tomar um grau. Quando voltou me pegou distribuindo Sétimo Céu. “Gordo, você é uma besta” foi o começo. No final, acho que já estava me mandando tomar no cu (naquela época, tomar no cu não dá o cartaz de hoje). De minha parte, brindei-o com o bom repertório que aprendi nas ruas e alguma coisa que só conheci na igreja. Meia hora depois era como se nada tivesse acontecido. Homens agem assim.
Na JUERP trabalhei com um louco que foi posto pra fora de duas igrejas por indolência. Ele era chefe de quatro infelizes: eu entre eles. O idiota achava que eu telefonava demais. Para resolver a questão, soltou um memorando proibindo ligações durante o expediente. A secretária entregou o papel aos serviçais. Mais tarde ele chamou meus colegas e lhes disse que o memorando só valia para mim. Continuei telefonando até sair de lá, claro.
Concluindo, na Última Hora trabalhei durante três meses. Como no Jornal do Brasil, tinha de trabalhar sábados e domingos. Éramos 12 homens confinados em uma sala sem janela. Em compensação, o ar refrigerado nos congelava. Dez colegas fumavam. E fumavam muito. Nunca fui trabalhar sábado nem domingo. Um dia, Otávio, o chefe, me chamou e disse que se eu continuasse faltando me dispensaria. Honestamente, disse-lhe que fins de semana eu não iria. “Bom, vou segurar você uns dois meses, depois mando embora, tá ok?”, ele me disse. Não foi necessário, porque surgiu o emprego na Manchete, que era de segunda a sexta.
Não estendo a impressão terrível que tenho de chefes evangélicos para pessoas que conheci na vida “civil”, mas, confesso, no trabalho lidei com descrentes bem mais sérios e éticos do que os crentes com quem topei.

terça-feira, maio 05, 2009

DELÍCIA




Lily Allen é uma delícia.
Música pop é terreno perigoso. Um escorregão e lá vem baba.
Lily saiu de um primeiro disco saboroso e chegou ao segundo fazendo este despudorado aqui lamber as beiçolas.
It's not me. It's you é um disquinho muito bom. Letras bacaninhas, melodias que cravam na carne e, dentro das limitações do pop, diferente do anterior, Allright still. Diferente para melhor, em minha modestíssima opinião.

terça-feira, abril 28, 2009

GRIPE SUÍNA - Vai chegar matando

Quando a AIDS surgiu foi chamada de Peste Gay. Imaginava-se que só homossexuais a contraíam. Religiosos ignorantes (opa, acho que isso é redundância) diziam ser a AIDS o castigo de Deus para os sodomitas. O tempo passou e os mais esclarecidos, hoje, sabem com alguma segurança as formas de contágio da doença.
Digo os mais esclarecidos porque o recém-eleito presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acha que uma boa chuveirada depois do rala e rola é suficiente para evitar o contágio. A estupidez está dominando o mundo.
Só é contaminado pela AIDS, hoje em dia, aqueles que se atiram em um grupo de risco. Gente de vida promíscua, usuários de drogas displicentes e aqueles que fazem sexo sem proteção. Se você, solteiro, usa camisinha ou dedica-se aos embates solitários, tem pouca chance de contrair o vírus HIV. Da mesma forma, os casados que, a todo custo, mantêm-se firmes e não papam fora de casa.
A AIDS, pessoalmente, não me preocupa. Uso minha espada com parcimônia e sempre contra a mesma oponente. Tenho orgulho de manter meu fiofó apenas como rota de saída, com todo respeito pelos que têm o estranho prazer de fazê-lo, também, de rota de entrada. Egoísta, entendo que são remotas as chances de eu pegar AIDS.
A gripe suína, no entanto, é apavorante e me apavora. No começo do século passado, minha avó perdeu quatro filhos para a gripe espanhola. A gripe é absolutamente democrática e o contágio pelo ar leva-a ao mundo inteiro. A espanhola matou milhões em época de transporte difícil. A gripe aviária matou milhares e foi contida pelo rigor do combate empreendido pelo governo chinês. A suína eclodiu no México e entrou nos EUA e Canadá. É quase certo que virá para cá. Nossas autoridades não conseguem erradicar o mosquitinho da dengue, imaginem se tiverem de lutar contra invisíveis vírus que se propagam pelo ar.
Se o vírus desembarcar por aqui, a cada viagem de metrô tombarão dezenas. Não sei se por estar desempregado ando meio pessimista, mas acredito que a influenza porcina vai dar o que falar. E vai matar.

sexta-feira, abril 24, 2009

EXCELÊNCIA

- Nosso tribunal reúne-se para tratar de caso grave, porém, rotineiro nestes tempos de crise de valores. O réu, Geraldo Cordeiro de Lima, sofre grave acusação, que exporemos agora. Vossa Excelência, permita-me usar expressão bastante popular, foi pego no pulo.
- Vossa Excelência, discordo respeitosamente. Não foi apresentada prova alguma contra mim.
- Tilico, jovem e valoroso soldado de nossa comunidade, acusou Vossa Excelência de ser informante da polícia. Um X9, como o vulgo diz.
- As provas, Vossa Excelência, as provas.
- Tilico, acompanhado de dois membros respeitados de nossa agremiação, Mario Foguete e o condecorado soldado Miltão, com 37 mortes no irretocável currículo...
- Vossa Excelência, há dois anos sou gerente da boca. Nesse período crescemos 31% em vendas, reduzimos os confrontos com a polícia em 21%, vimos uma renovação de clientela na ordem de 39%. As outras agremiações nos convidam para palestras.
- Vossa Excelência me interrompeu quando diria que o nobre gerente foi visto pela comissão conversando com policiais. Logo depois sofremos ataques da polícia que nos infligiram sérios prejuízos.
- Não nego o encontro. Tratava do acerto do arrego. Os homens da lei queriam mais dinheiro para não atrapalharem o movimento.
- Vossa Excelência me toma por inocente? As negociações de arregos precisam seguir toda uma rotina. Não é o gerente que trata disso. De qualquer forma, o destino de Vossa Excelência já foi decidido pelo júri. Reconhecemos os relevantes serviços, agradecemos pelo tempo dedicado à agremiação, mas Vossa Excelência foi condenado à morte no micro-ondas. Em respeito a sua folha de serviços, não usaremos a espada samurai. A corte está dispensada.

COISA BONITA, LINDA, MARAVILHOSA DE SE VER - BEYONCE

Sasha Fierce não está com nada.

terça-feira, abril 14, 2009

ISRAEL E EU

Sempre gostei de escrever. Escrevia para mim e os muito chegados. Faltava-me confiança para expor meus textos a estranhos.

Começo da década de 80, eu estava no Seminário do Sul. Israel Belo de Azevedo, meu professor de Metodologia da Pesquisa, selecionou uma resenha que escrevi e leu-a como a melhor entre as feitas por todos os alunos. Ali ganhei segurança para escrever.

Mais tarde, Israel convidou-me para trabalhar com ele no Centro de História Viva do STBSB. Não pude ir. Na mesma época, comecei a trabalhar na Manchete. Trabalhara por 10 anos no Jornal do Brasil de onde saíra por absoluta inadequação ao emprego. A Manchete era mais do mesmo, mas pagava bem. Fui pra lá.

O STBSB passou por período turbulento, Israel foi para a Visão Mundial, depois para a UNIMEP e, mais tarde, veio para a Gama Filho.

A Manchete faliu e eu já estava na JUERP, que teve morte cerebral decretada no final dos anos 90. A situação ficou complicada para mim.

Israel telefonou-me e me convidou para um jantar. Ele estava trabalhando, também, com uma editora evangélica e convidou-me para fazer revisões e elaborar resenhas para o Prazer de Ler que saía encartado no Novas, do bravo Gilton. Trabalhávamos pela Internet e em meu primeiro provedor de acesso fui dependente dele.

Foi um tempo de dureza. A fim de levantar recursos, vendi alguns livros meus para Israel. Ele os comprou e algum tempo depois me chamou para devolvê-los. Não aceitei.

Por que estou escrevendo este texto?

Israel será operado de câncer na próstata. Eu sou hipertenso. Pode ser que não haja oportunidade de dizer o que direi agora, em outra ocasião.

Eu e Israel poderíamos ter sido grandes amigos. Nossos temperamentos nos separaram, mas sempre tive grande admiração por ele. Há um número ínfimo de pessoas, em nossa denominação, que despertam admiração: Israel é uma delas.

Sábado orarei por ele. Depois que se recuperar, vou procurá-lo para um abraço. Abraço dado, voltarei para o meu canto. Infelizmente, demonstrar amor não é uma de minhas qualidades.

sexta-feira, abril 03, 2009

JORNAL MEXIDINHO

Recebi crítica a trabalho que desenvolvi em um jornal por uns 10 anos. Não dei muita pelota. O crítico acertou e errou nos petardos que enviou, mas quando ele usou uma metáfora de ovos mexidos para desancar o jornal calou fundo ao meu coração. Explico: disse meu algoz que o jornal feito por mim lembrava ovos mexidos e ele não apreciava o acepipe. Só muito raramente, quando desejava sentir na carne como se alimentavam os pobres. Eu, sempre na base da pirâmide econômica, costumava adorar.

Minha avó fazia ovos mexidos deliciosos. Ainda solteiro, sempre ligava do trabalho e pedia a ela para me preparar um mexidinho. Era o neto favorito, ela fazia, sempre. Tenho de ser sincero e confessar que ela incrementava o mexidinho com umas batatas fritas cortadas em quadradinhos. Comia todos os dias, rindo.

A lembrança despertada pela crítica me fez, tal um D2, sair atrás do mexidinho perfeito. Conversei com minha querida sogra, mestra na preparação de frangos (em carne vermelha é sofrível). Expliquei-lhe, minuciosamente, como deveria ser elaborada a mistura de ovos, batatas, pimentão, cebola e tomate. Foi um fiasco. A grande quituteira de Inhaúma fracassou retumbantemente.

Conversei com a mana, herdeira desleixada dos segredos culinários da família. A técnica de elaboração do bife à milanesa, ela domina. Esqueceu, infelizmente, como fazer uma fritada de ovo com linguiça; não tem mais o segredo da preparação da sardinha casadinha; deixou escorrer memória abaixo a fórmula da carne seca desfiada no feijão. O mexidinho, me garantiu ela, sabe fazer.

Críticas servem para pouca coisa. Raras têm alguma fundamentação. Essa, pelo menos, serviu para me fazer lembrar um tempo muito bom. O tempo em que estavam todos aqui: pai, mãe, tios, avó. E, de tempos em tempos, sinto uma puta saudade dessa turma.

sexta-feira, março 27, 2009

A TAXISTA E O PATRIARCA

Entrei no táxi, celular no ouvido. Disse à motorista onde queria ir e encerrei a conversa telefônica. Desancava religiões de um modo geral e a minha, em particular.
A taxista, uma senhora de cerca de 60 anos, virou-se para mim e despejou: “O senhor está certo, religião é coisa muito esquisita”.
Preparei-me para ouvir. Só contrario em conversa os muito chegados. A estranhos, prefiro ouvir. Se a conversa for interessante, ouço mesmo. Se não, ligo o Simpson.
Ela me disse pertencer a uma fraternidade espiritualista esotérica. “Não tem incorporação, médiuns...” Li e esqueci uma reportagem sobre o espiritualismo esotérico. Espiritualismo caça-níqueis como a prática religiosa de 90% das igrejas evangélicas. Valem-se da estupidez humana para mamar leite que jorra sem parar, mesmo de tetas quase secas.
“Tive problemas sérios e precisei falar com o Patriarca. Para chegar a ele temos de passar por seu secretário. Esperei dois meses em vão. Algumas vezes o encontrei no elevador, mas não podia dirigir a palavra a ele. O senhor não acha que isto está errado?”
Claro que acho, mas é parte da cena que a maioria dos líderes religiosos monta. Atribuem-se importância maior do que realmente têm e gente importante, sacumé, está sempre com a agenda lotada.
“Há 40 anos não entro num cinema. Às nove estou no táxi. Paro de trabalhar às duas, três da manhã. Não sou casada. Não tenho filhos. Não tenho amigos. Adoro trabalhar. Isso aqui é minha terapia. Posso conversar. De domingo a domingo estou no táxi, menos terça. Terça vou para a Fraternidade. Fico lá o dia todo. Cumpro todas as minhas obrigações. Quando tenho um problema, não consigo falar com o Patriarca. O senhor acha justo?”
Padres, pastores e pais-de-santo só olham para o próprio umbigo. Recebem, consultam e atendem os que lhes convêm. De longe, esses luminares enganam. Chegue perto e você verá como realmente são. Tem razão o Patriarca de manter os fiéis a distância.
“Todos os dias peço a Jesus para esta ser minha última encarnação. Não quero mais voltar”.
Fique tranquila, minha senhora, não voltará.

RECORTA & COLA - Textos bacanas que saem por aí


INCOERÊNCIA CATÓLICA
Drauzio Varela

Aos colegas de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.
Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos.
Não se deixem abater, é preciso entender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vida depois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: “Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus”, não é o que pregam?
É uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal. Nosso compromisso profissional é com a vida terrena, o deles, com a eterna. Enquanto nossos pacientes cobram resultados concretos, os fiéis que os seguem precisam antes morrer para ter o direito de fazê-lo.
Podemos acusar a Igreja Católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompatíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.
Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma se instalaria no instante em que o espermatozóide se esgueira entre os poros da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que um preIado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez, ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?
O arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, agiu em obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.
Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres que nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?
Não há o que reclamar. A política do Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.
Em nota à imprensa a respeito do episódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticano para a Família: “A igreja não pode nunca trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu término natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina”.
Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida da concepção até a morte? Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeias estão lotadas de bandidos cruéis e de assassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa da instituição à qual o senhor pertence.
Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios das pessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.
A esperança de que a instituição um dia adote posturas condizentes com os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela.Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.
Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniões cautelosas apenas o presidente da República e o ministro da Saúde. Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos. Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições.

sexta-feira, março 20, 2009

UM FILHO DA PUTA

Há alguns meses conheci um filho da puta.
Velhice à porta, pensei que filhos da puta não me enganassem mais. Imaginei que bastaria alguns minutos de conversa para identificá-los.
Subestimei a capacidade do filho da puta. Tratei-o bem, como um igual. Presenteei-o, elogiei-o, ri com ele.
Alguns dias antes de descobrir que se tratava de um autêntico filho da puta, percebi que não me encarava. Os grandes filhos da puta, os escolados, acabam com você olhando dentro de seus olhos.
Os que estão se iniciando na filho da putice, não. Eles ainda desviam o olhar. Mas é questão de tempo: uma vez na senda da canalhice, não há volta.
Amanhã ou depois, conhecerei um novo filho da puta. Eles são muitos. Nem por isso deixarei de acreditar nas pessoas.
Eu acredito.
Entre filho da puta e babaca, prefiro ser babaca. Não sei bem por que, me sinto melhor.

quinta-feira, março 05, 2009

MOTORISTAS DE TÁXI SÃO BACANAS

Motoristas de táxi têm percepção da temperatura ambiente diferente da dos humanos normais.

Faça sinal para um táxi nesse Rio de Janeiro que torra a 40°C. O ar-condicionado do carro estará desligado, as janelas fechadas e o cara-de-pau atrás do volante se comportará como se fosse taxista na Sibéria.

Obrigatoriamente, o cliente terá de fazer a pergunta: “O ar está funcionando?” O esquimó olhará para você e, em profundo exercício de percepção interior, considerará para si mesmo: “Esse cara é um babaca, vou dizer que o ar está quebrado e que eu estava, ó coincidência, indo pra oficina, agora”. Se ele perceber que você não é otário, mas solidário, dirá: “Está, sim, mas está desligado porque acabei de sair de uma pneumonia e só vim trabalhar para” levar o pão dos inocentes.” Ao sacar que nem otário nem solidário você é e que se não ligar o ar perderá uma corrida, o gelado piloto considerará se vale a pena levá-lo a seu destino. Se valer, enfurecido, ligará o ar. Vingativo, acionará o cedepleier, que logo tocará os maiores sucessos de Tati Quebra-Barracos.

O quadro melhora um pouco se você for cadastrado em uma cooperativa. O táxi será chamado por telefone, você dirá que quer o carro com ar ligado. “Sou norueguês e ainda não me acostumei com o calor do Rio”, você dirá. Faça qualquer sotaque, até de nordestino, o imbecil do outro lado da linha acreditará. Claro que não adiantará.

O retorno da cooperativa não virá. Você ligará, novamente, para saber de seu táxi. O atendente dirá, cínico: “Sr. Fulano, estávamos ligando. Sua viatura é a 345 e o motorista já está na sua porta”. Mentira. Na chuva ou no sol, você espera. Se for uns 15 minutos, é lucro. Dentro do carro, você sente o Rio em seu apogeu. O inferno deve ter essa mesma temperatura.

O homem de gelo ligou o ar segundos antes de você entrar. Não, não reclame. Esse momento é precioso. Em vez de se queixar, dirija à divindade em que crê uma prece, porque, quase certamente, o ar não estará refrigerando.

Sentindo na nuca o bafo quente da ventilação do esporrento aparelho de ar-condicionado, você terá a certeza de que é um babaca e pensará: “Na próxima vez, não admitirei isso”.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

PROMOÇÃO

- Aí, Tião, parabéns pela promoção.
- E só estou na empresa há um ano.
- Sem acidentes, né?
- Sem acidentes, sem multas, sem reclamação de passageiros.
- E aquela batida?
- A culpa foi da senhora do Palio. Advogada, gente boa, foi na garagem e assumiu tudo.
- Sorte sua. Aquele atropelamento também não foi culpa sua, né não?
- O cara atravessou embaixo da passarela. Não deu pra frear.
- Morreu?
- Infelizmente.
- Aquela vez que você brigou com o passageiro também não embaçou sua promoção, certo?
- O babaca encheu a mão na passageira. Ela chiou e o otário ainda a destratou. Tomei as dores da Alzira e dei umas porradas nele.
- Alzira, sua namorada?
- É.
- E o cara não reclamou.
- Avisei que se reclamasse dava um fim nele.
- Em um ano você matou um cara, acabou com o automóvel de uma mulher e encheu um passageiro de porrada. Mesmo assim, foi promovido por ser o melhor motorista da empresa.
- Que posso fazer se a concorrência é fraca.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Isis Valverde


Estômago

- Sula, você está magérrima.
- Perdi 42kg.
- Caramba! Anel?
- Não, tirei um pedaço do estômago.
- Tá ótima. Fez plástica?
- Claro. Tirei os excessos.
- Foi um prazer te ver.
- Xau.

***
- Sula, não entendi. Por que você não disse pra ela que fez dieta? Há um ano você malha, come pouco...
- Fiquei com vergonha. Talvez ela não acreditasse... Sei lá. Todo mundo tá cortando o estômago. A vida inteira fui diferente. Não quero mais ser.

domingo, outubro 19, 2008

Coisa bonita de se ver - Fernanda Machado

Pagodeiros modernos

- E aí, vamos fechar o nome do grupo?
- Demorooô, pra mim é o melhor nome.
- Porra, Pingo, já existe um grupo de pagode com esse nome.
- Nada, Buda, eles mudaram o nome pra Konviquição.
- Ficou mais classudo, mas... Júnior, tem sugestão?
- Estremilique.
- Aí, tá no espírito. Nome alegre, festivo. Gostei.
- Buda, vamos pôr um x, um y e um k: Extremilyke.
- Boa, Pingo. Pega bem lá fora.
- Buda, o nome fechou. E a roupa?
- O Naldinho tava vendo isso.
- D. Iracema montou uns panos fó. Calça e camisa pretas. Blazers de cores diferentes pra cada um.
- Aí, no espírito. Tudo a ver com o nome. Tá surgindo um conceito, falado?
- Preto/azul, preto/amarelo, preto/verde. Gravata combinando com o blazer. Caraio, Buda, vamos bombar.
- Pingo, e a coreografia?
- Lindinha já armou tudo. Ela e a irmã, inclusive, vão entrar mostrando as carnes.
- Lindinha e a irmã, inclusa? Arrego! Agora só falta correr atrás das músicas.
- Isso aí, Naldinho, mas a música é detalhe.

domingo, junho 01, 2008

Polícia aflita

Se a polícia de Recife age como fez na partida entre Náutico e Botafogo, em frente às câmeras de TV, vista pelo Brasil, imagine o que não apronta nas madrugadas, com marginais e cidadãos, longe dos olhos do país.

segunda-feira, maio 26, 2008

Cu de bêbado

- Tô falando, foi sacanagem dos caras... Passaram uma gosma na sua bunda.
- Mas tá ardendo.
- Ninguém fez nada.
- Me enrabaram.
- Nada disso. Mas eu te avisei. Beber como você bebe... Cu de bêbado não tem dono.
- Me enrabaram e você não quer dizer.
- Você conhece os caras. Pergunta pra eles. Te viram caído na frente do clube. Resolveram te sacanear.
- Acabaram comigo. Como vou encarar a Soninha?
- Cara, e se tiverem te enrabado? Você tava desmaiado, não podia fazer nada.
- Viu! Me enrabaram.
- Tá certo, enrabaram. Eram quatro, não pude fazer nada. Argumentei. Disseram que ia sobrar pra mim.
- Você não fez nada?
- Eu te avisei: “Cu de bêbado não tem dono”. O meu tem. É meu. Não bebo, por isso.

Olho por olho

Se pormos fé no relato de O Globo (domingo, 25/5), Itamar Paiva, 45, com seu possante Fiat Uno, avançou sinal vermelho em movimentada rua da Tijuca. Quase atropelou André Luis, que teve a infeliz idéia de levar três pré-adolescentes para comer uma pizza. Dois deles seus filhos.
André reclamou, esbravejou com o navalha. O rufião, então, deu ré e tentou fazer com o rabo o que não fez de frente: atropelar todo mundo. Não conseguiu.
O troglodita, que estava acompanhado por uma insana, saiu do carro e, com uma chave de roda, agrediu André, que está em coma, respirando por aparelhos.
Essas tragédias urbanas me comovem. Um adulto sai com seus filhos para comer uma pizza. Dá azar, encontra o facínora.
Sabemos onde tudo vai dar. O advogado já prometeu que Itamar vai se entregar. Nossa justiça é generosa com os abonados e Itamar já tem experiência em dar porrada nos outros. Não vai acontecer nada com ele. Já André precisará de sorte para sobreviver e não ter seqüelas.
Esse caso se resolveria facilmente se deixássemos de lado as burocracias jurídicas e retornássemos a primitivas leis. Alguém bastante forte poderia dar na cara do cidadão Itamar com a mesma chave de roda e a mesma violência. O que isso resolveria? Nada. Mas se Itamar fosse parar num leito de hospital, ao lado de André, já seria alguma coisa.

sábado, maio 03, 2008

SAUDADE

Perdi minha mãe há 16 anos. Na última vez em que estivemos juntos, acariciamos a mão um do outro, longamente. Era um domingo, ela estava em um leito de hospital e eu não a veria novamente.
Lembro-me bem da cena porque não era comum nos acariciarmos. Sou de uma família que não costuma demonstrar sentimentos com facilidade. Azar o meu.
Sempre me relacionei muito bem com minha mãe. Temperamentos semelhantes. Águas mansas num momento, ressaca devastadora logo a seguir. Qualidade: o bom humor, quase todo o tempo.
Sinto falta dela, e de minha avó, até hoje. As duas foram fundamentais para minha vida. Não há um dia em que não me lembre delas.
É inútil falar, mas falo. Quem tem mãe viva, dê a ela todo o carinho possível. É clichê, mas a morte nos leva sem aviso. Não seja um sobrevivente que vive a lamentar o amor que não demonstrou. Acredite, é doloroso e irremediável.