terça-feira, junho 09, 2009

SOLUÇÃO

Senhores da diretoria, convoquei-os para esta reunião porque passamos por grave crise. As vendas despencaram. A empresa de consultoria que contratamos nos informa que o problema são os nossos gerentes. Eles estão atravessando grave período de baixa autoestima. Encontram-se desanimados, sem vigor para deixar fluir a criatividade que empurrará as vendas para cima. Erramos, ano passado, ao reduzir o número de secretárias. Hoje, percebo que é vital para nossa empresa que cada gerente tenha sua própria secretária. Sei que tivemos problemas com a justiça com as três queixas de assédio sexual, mas os consultores encontraram uma solução.
Amanhã, daremos início a novo processo de seleção. Contrataremos oito moças. Essas moças serão rigorosamente treinadas por Elon Varella, o fomentador de baba-ovos. Elon é a solução dos consultores. Ele participará, decisivamente, do processo de seleção. Disse-me que é possível criar um baba-ovo do nada, mas, e aí a tese é dele, o baba-ovo existe por uma deformação de caráter.
Essas moças descerebradas, mas capazes de lançar um elogio por minuto, elevarão novamente o moral de nossos gerentes que recuperarão a capacidade criativa. Nossos empregados, desculpem-me, colaboradores, voltarão a sentir o pulso forte dos gerentes e tornarão a render o que sempre renderam.
Elon, o fomentador, garantiu-me, também, que queixas de assédio não mais ocorrerão. A nova equipe de secretárias será tão ansiosa para agradar seus chefes que fará, docilmente, o que eles pedirem.
Além de competentes bajuladoras, as secretárias são exímias preparadoras de café, contam qualquer lorota pedida ao atender o telefone, fazem serviço bancário na hora do almoço e quando os gerentes forem dar uma mijadinha elas os acompanharão para a sacudidela final em suas pirocas murchas.

segunda-feira, junho 08, 2009

Resumindo: incompetentes

Quando vi o Flamengo, aos 15 minutos, dando passes de calcanhar e atendendo os gritos de olé da massa, percebi que ia dar merda.
Levantei-me da frente da TV e fui dormir.
Nem em meus piores pesadelos, no entanto, imaginava que sairíamos dos 2 a 0 pros 4 a 2 a favor do inimigo.
Pra melhorar minha semana só se os incompetentes que me chibatavam liberarem meu FGTS.

Priiiiiiiiiiiiiiiiiii...........

- Aêêêê, não falei que pegava a Jucinalva... priiiiiii
- Não sacaneia, pegou? priiiiii
- Ó! Ela deu uma volta no babaca do namorado e a gente foi lá pro Hot Love. priiiiiiii
- Aê, é melhor a gente falar disso depois. Rádio, sacumé. priiiiiiiiiiiiiiii
- Comi a Juci, Mané. Quero é que todo mundo saiba. priiiiiiiiii
- Você tá aonde? priiiiii
- No 311, vou ao Centro. priiiiiiii
- Em que altura? priiiiiiiiiii
- Na Estrada Velha. priiiiiiiii
- Você sabe quem é o namorado da Juci? priiiiiii
- É um bandidinho babaca, ela me falou. priiiiiiiiii
- Baixa o volume preu te dizer um lance. Ela é mulher do Caveira, o matador do Complexo, exatamente a área por onde seu ônibus está passando. priiiiiiiiii
- Ô..... priiiiiii
- Pelamordedeus! Não fale meu nome. Por que você acha que ninguém chega perto da Juci? Por timidez? priiiiiiiiii
- Você que me entregou, falando o nome do cara. priiiiiiiiiii
- Cumpadi, sei que pobre não tem refinamento, mas quantas Jucinalvas você acha que existem por aí? Ainda mais, gostosas? priiiii
- Eu... priiiii....
- Boa sorte, vou jogar esse rádio fora. priiiiiiiiii

quinta-feira, junho 04, 2009

quarta-feira, junho 03, 2009

PROFISSIONAL

- Parabéns, soube da promoção.
- Estava entre quatro pessoas e eu levei.
- A Clarinha me disse que sua indicação foi uma surpresa.
- Ninguém na Irmandade achava que seria eu.
- Enquanto tomamos esse chopinho, me conta, como foi que você chegou lá?
- Ricardo, sou profissional. Procurei saber o que o homem valoriza. Percebi que em condições normais não seria o escolhido. Como o homem gosta de elogios, passei a elogiá-lo sempre, discretamente. "Sapato bonito, chefe"; "Onde o senhor comprou essa camisa"; "Esse paletó caiu esplendidamente no senhor". Ele não tolera ser contrariado, mas gosta de pensar que convence as pessoas com seus argumentos. Qualquer assunto que tratava com ele eu começava discordando, depois me deixava convencer. O vaidoso é patético. Um dia, ele entrou no refeitório e eu estava comendo um pão doce que a Valerinha trouxe pra mim. Ofereci um pedaço, ele aceitou e adorou. Umas duas vezes por semana, trago um para ele. Me dava um trabalhão comprar, mas valeu.
- Só isso não daria a promoção a você. Ele tem de se preocupar com o melhor para a empresa. Você era o melhor?
- Ricardo, sou profissional. Aquilo lá é uma Irmandade. O dono é o éter. O homem se preocupa com quem é melhor pra ele. Essa minha abordagem, garanto, me deu 70% da promoção. Os outros 30% consegui desqualificando meus concorrentes. O homem é moralista, preocupado com o que os outros pensam. Fiz com que ele soubesse que a Jandira tinha uma parada com o Hernani, da Contabilidade. O Jeferson, cabeça quente, bastou que eu plantasse aqui e ali que o João estava queimando ele com o homem para que fosse tomar satisfações. Os dois saíram na porrada, no estacionamento. Sobrou pra mim.
- É, você é bom.
- Nada disso, sou profissional.
- Preciso ir, amado. Domingo você vai à igreja?
- Que pergunta, você sabe que não perco um culto. Sou profissional.

RAIVA

– A ira, a raiva, o ódio. Tudo isso explica o que fiz.
– Cara, você entrou no mercadinho, levou o dinheiro, deu um tapa na cara da mina e depois ainda mandou três balaços no peito dela.
– Tô te falando, entrei lá com raiva. Nem ia roubar aquele muquifo. Ia comprar um pacotinho de biscoito.
– Cara, foi tudo filmado, você tá em tudo que é TV.
– Caguei. O pior é que aquela mina era maneira, sempre me tratou legal.
– E por que você fez isso com ela?
– Raiva, cara. Raiva. Com raiva você faz coisas que Deus duvida.
– E agora, o que você vai fazer?
– Agora, eu já estou me emputecendo de estar conversando com você.

quinta-feira, maio 28, 2009

RECORTA & COLA - Textos bacanas que saem por aí



DE RATOS E HOMENS
Luiz Felipe Pondé
luiz.ponde@grupofolha.com.br
Folha de S. Paulo, 25/5/2009


Hoje estou no lado negro da força. Dormi mal. Um leitor pergunta: “você é contra a democracia?” Não! Eu?! Mas acho sim que a democracia moderna tem algo de idiota.
Mais do que um conceito, esta ideia é uma sensação, assim como um odor. Digo “idiota” no seguinte sentido: vivemos numa época na qual os idiotas venceram porque descobriram pelo voto que são maioria absoluta. Eles impõem ao mundo sua vida medida pelas estratégias de sucesso e pelo amor opressivo do medíocre – esta nossa face indesejável, estampada em nosso espelho íntimo. Antes de ser senhora do mundo, essa multidão de iguais vivia sua pequena vida, imersa num pessimismo modesto, de quem não tem para onde ir. Hoje, essa praga da vida estratégica e uma deformação em cada rosto.
Assumindo ares de senhores, os idiotas tomam conta do pensamento, construindo um mundo visto pelos olhos de quem só sabe viver contabilizando as vitórias de seu desejo.
Sua religião vira uma “espiritualidade” que crê num universo conspirando a favor de seu sucesso, fazendo do universo um idiota, como ele, só que infinito. Vivesse Kafka hoje, certamente escreveria histórias de medo sobre como a elite intelectual (talvez com face de rato) virou proletária, em busca de carreiras, somando seus pontos, escrevendo artigos para não serem lidos, somando suas mesquinharias, anulando a inteligência em nome do acúmulo.
O idiota faz da ética um divã a serviço de suas utopias de alcova. A modernidade, com sua vocação natural para fluxos administrativos e sistemas organizacionais, deixa o idiota em êxtase.
Criticar a democracia moderna nao implica amar regimes antidemocráticos. Implica, sim, reconhecer que a democracia é, também, em sua intimidade, uma forma específica de desastre.
Proponho o ensaio The masses in representative democracy (as massas na democracia representativa) do filósofo inglês Michael Oakeshott (século 20). Neste ensaio, ele narra o nascimento do anti-indivíduo ou homem massa. A diferença entre o filósofo inglês e o tratamento mais comum dado pelos especialistas ao homem massa é que para Oakeshott a ideia de que todo ser humano venha a ser um indivíduo autônomo é uma lenda Aí está um dos dogmas da democracia modema: todo homem é capaz de ter vida subjetiva válida e de ser “portador” de uma personalidade autônoma.
A sensibilidade democrática moderna, com sua mesquinha paixão pela felicidade, treme diante desta hipótese, apesar do acúmulo de evidências empíricas cotidianas a seu favor. O Renascimento criou a lenda do indivíduo como uma possibilidade aberta a todos, posteriormente concretizada nas revoluções modernas. Para aIém da ideia (comum) de que a sociedade ou a mídia esmaga o indivíduo nascente, Oakeshott duvida da probabilidade mesma de que exista em todos nós um indivíduo possível. O debate supera a mera questão política e adentra o campo da psicologia social e seus mecanismos de construção dos comportamentos. Não se trata·de reduzir a questão à cidadania, mas sim pensar nosso regime naquilo que ele tem de miséria moral.
A tese central de Oakeshott é: um dos grandes motores da democracia moderna é o ódio ao indivíduo e sua obscena capacidade de ser livre de modelos coletivos. Vivia o homem, na idade média, em sua pequena comunidade sem futuro, entre os terrores noturnos e as esperanças religiosas, quando foi despertado pelos sinos do sonho de virar o “senhor de sua alma”, superando seus determinantes sociais. Hamlet e Jó têm alma. Quem apenas quer ser feliz não suporta a sina de ter uma alma.
Os processos “de salvação” sempre esmagaram os indivíduos reais porque a autonomia (substância dos indivíduos de fato) não é irmã da felicidade, não “salva” ninguém. E os idiotas só querem ser felizes. Os totalitarismos do século 20 já foram parte do surto. O anti-indivíduo adora certezas, causas e utopias. Goza sentindo-se parte de um todo.
Perdidos nos escombros de sua vila natal, nosso homem massa se reencontrou na obsessão de grandes coletividades identificadas com um ideal de mundo. A ideia do “bem público” tornou-se seu credo. A verdade é que o homem massa·sempre fala em nome da liberdade, da autonomia, mas ele as detesta, porque teme o inferno que é a alma. As obras de autores como Kierkegaard, Nietzsche e Burckhardt (todos do século 19) são gritos contra esse ódio típico de quem é apenas sombra.

quarta-feira, maio 27, 2009

EM BUSCA DA EXCELÊNCIA

A empresa em que trabalhei me demitiu. Sem problemas, é direito de toda empresa fazer o que bem entende com seus funcionários.
O escritório de contabilidade terceirizado pela empresa que me demitiu cometeu um erro no preenchimento de uma das guias do FGTS.
Três meses depois, estou encalacrado na burocracia da Caixa Econômica Federal, à míngua.
A empresa em que trabalhei por 10 anos, 20% do meu tempo de vida, enquanto busca a excelência, caga e anda solenemente.
O escritório que presta serviço à empresa de ungidos que me demitiu me evita como a um leproso bíblico. E eu caminho, celeremente, para o desespero.
Não sei exatamente o que farei. Se pudesse dar vazão a meus bestiais instintos, já teria feito algo. Apesar de tudo, essas situações são muito instrutivas. Descobrimos com quem podemos contar, os que nenhuma serventia têm se revelam e constatamos que a tal ética cristã anda no ralo.
Mas esses fatos também nos fazem perceber como o pobre está desamparado diante da lei. Em um caso como este que me aflige, a solução seria simples: a empresa que me demitiu deveria ser multada com rigor como castigo por contratar escritório de contabilidade incompetente; o escritório incompetente também levaria chumbo, simplesmente, por ser incompetente e eu receberia meu dinheiro, imediatamente, para poder esquecer toda essa corja.

quarta-feira, maio 20, 2009

Já vai tarde

Tenho uma vizinha de quem gosto muito. É a única.
O marido a trata como uma ratazana.
Filho e neto vivem para escorraçá-la.
Sessenta e poucos anos, vive para os três parasitas.
Uma manhã dessas a vi falando com o marido, preocupada: “Você não está bem pra viajar, a estrada é perigosa. Por que não vai de ônibus?”
“Sai daqui, miserável”, foi a carinhosa resposta do maridão.
Muitas vezes me pego pensando sobre mim mesmo e acho que estou ficando amargo, intolerante, pouco solidário, descrente. Acredito que esteja, não sei. O que sei, com certeza, é que se eu fosse aquela mulher encorajaria o marido a viajar destemidamente e ficaria, de casa, desejando que ele descesse a serra por um precipício qualquer.

domingo, maio 17, 2009

Vantagens da 3ª idade

Acho que já contei essa história, mas vale o repeteco.
Na década de 80, trabalhava na Manchete. Era revisor de textos e durante um bom tempo fiz mesa com um gay problemático.
Para a época, Henriquinho era um escândalo. Negro, corpo enxuto, cabelo pintado de louro e um mau humor do cão. Na maior parte do tempo, ao menos. Nunca o contrariei.
Passávamos as manhãs juntos, na mesma mesa. Um dia ele virou-se para mim e me pediu um favor: “Gordo, estou precisando comprar algumas roupas na Mesbla, mas não tenho cheques pra comprar no predatado. Você se importaria de ir até lá comigo? Você usaria seus cheques e eu lhe pagaria”.
Foram momentos dolorosos. Imaginei-me entrando na Mesbla com ele e depois pagando a conta. O que os vendedores não pensariam de mim?
Não fui. Dei uma desculpa, emprestei o cheque assinado para ele, mas não fui.
Senti vergonha de minha atitude, mas me senti pior ao constatar que não teria coragem de ir à loja com ele se me pedisse novamente.
Hoje, iria com um batalhão de drag queens. Não porque seja menos preconceituoso, só que já não me preocupo muito com a opinião alheia. É a velhice.

Vapor barato

Saíamos do Jornal do Brasil de madrugada para comer uns salgados na Central.
Formávamos um grupo de quatro, às vezes, cinco.
Dois do grupo sempre gostavam, na caminhada, de queimar um fuminho. O assunto era um só: malhar o governo militar.
O único que ficava tenso com a situação era eu. Era o único, também, que morava com mãe, pai, avó, tio, irmãos. Se fosse em cana teria de explicar muito a muita gente. Por sorte, nunca fomos.
Do jornal, na Av. Brasil, até a Central, era uma longa distância. Uns 40 minutos em passo de conversa fiada.
Alta madrugada, década de 70 e ia o vapor rumo à Central.
Hoje, não sobreviveríamos.

quarta-feira, maio 13, 2009

CANTORES QUE CURTI MUITO - Otis Redding

(Sittin' on) The dock of the bay foi sucesso póstumo de Otis Redding. Explodiu nas rádios um ano depois de sua morte em um acidente de avião, em dezembro de 1967. Na época, a música saiu por aqui em compacto duplo que não tirava da velha vitrola. A importância de Redding na minha vida musical é capital. Em 1967, ouvia Roberto Carlos e o pessoal da Jovem Guarda. A música de Otis Redding me levou, mais pra frente, a James Brown, Al Green, Smokey Robinson, Marvin Gaye. Otis Redding me fez um ouvinte parabólico. Depois dele passei a ouvir qualquer tipo de música e apreciar os diferentes sons do planeta.
Comprei um cd da coleção 2in1 que vem com The dock of the bay e The soul album, dois discaços. Recomendo o investimento. Em vez de ouvir replicadores (às vezes, bons), vá à fonte.

terça-feira, maio 12, 2009

O topo

Como se chega ao topo de uma organização?
Competência e criatividade não levam você até lá.
Sexo? Bem, sexo pode fazer com que você chegue perto do topo. No topo, não.
A vida corporativa é misteriosa.
Não é para inocentes, ingênuos, bem-intencionados...
Uma qualidade de quem está no topo é uma certa dose de canalhice.
Sangue-frio e desfaçatez também são requisitos dos senhores de escravos.
Mas o que eu gostaria mesmo é de saber como se chega lá.
Não que eu tenha interesse em estar no pico da montanha.
Falta-me disposição. Estou velho.
E acho que é necessário deglutir o indeglutível.

(Esse post eu puxei lá detrás pra cá. Gosto dele.)

Inebriante poder

- O leão mandou avisar que quer comer carne diferente. Disse que já está de saco cheio de zebras, veados, gnus...
- Por que isso? Eu, coelho, já tenho de me preocupar com águias, gato do mato, cobras... Agora, até Sua Majestade está querendo me comer.
- Há várias versões para a mudança de dieta. Uns dizem que ele quer fazer alimentação mais leve. Outros, bem na encolha, contam que ele, pesadão, já não tem agilidade para desviar-se das porradas de zebras e gnus. Mas ele não quer só coelhos, não. Até borboletas anda comendo. Diz que abre o apetite.
- Só faltava essa. A vida já é uma correria louca.
- Eu tenho uma terceira opinião sobre o real motivo dessa variação de cardápio. Dia desses eu estava observando, a distância segura, a família leão. O esquilo, folgado como ele só, em vez de desviar-se do grupo passou entre ele e ainda fez graça para um filhote. O leão olhou para a companheira e reclamou: “Essa turma não anda mais me respeitando. Vou tomar uma atitude.”
- Será que é isso?
- Claro que é. Poder, quem tem, exerce. E sobre todos. Agora, ninguém passa entre eles. Se passar, vira refeição.

Nova onda

Tomei ciência da nova onda lendo a Folha de S.Paulo. Lá pela capital sertaneja, o último grito é ouvir música sem fone de ouvidos nos celulares turbinados que os presepeiros têm à disposição para comprar em qualquer loja.
Depois de três meses longe do transporte erótico, embarquei em uma viagem de metrô. Que alegria constatar que a moda sonora já chegou ao paraíso do batidão. Agora a sarração metropolitana tem trilha sonora. “Aê, vô te dizê, um dia como você”. Com essa letra doce fiz minha viagem. Claro que preocupado de o armário atrás de mim não ter alguma ideia.

Tiranetes

Trabalhava no Jornal do Brasil como revisor de texto. Deixei passar, por desatenção, na primeira página, Volta Redonda, em vez de Volta Grande. O texto era chamada para reportagem com o presidente milico da época. Se passasse errado, quase certamente estaria na rua.
O encarregado da oficina, o lendário Jorge Cachorrão, entrou na ampla sala da revisão, veio até minha mesa e mostrou-me a prova em papel com meu erro. Depois que vi, ele amassou e jogou fora. Somente ele e eu soubemos o que aconteceu.
Aprendi com Cachorrão que não há necessidade de expor o colega.
Na década de 90, trabalhei alguns penosos meses em uma empresa evangélica. Os colegas estavam descontentes com algumas medidas tomadas pelo líder. Reunimo-nos, a ralé, e resolvemos que apresentaríamos, respeitosamente (há que ser muito delicado ao dirigir-se a ungidos, eles são melindrosos), nossas reivindicações. O pastor-chefe abriu os trabalhos e pediu aos que quisessem dizer algo que o fizessem. Eu, já com quarenta e tal, acreditei. Os colegas quedaram-se em tumular silêncio. O gordo aqui falou e dançou. Chefes (em sua grande maioria) adoram subalternos que lhes sirvam como claque.
Na década de 80, trabalhei na Manchete. Havia todo um ritual que orientava a saída das revistas para a gráfica. As semanais na frente, as mensais aguardavam. A exceção era quando havia fechamento de uma mensal. Tavares, o único chefe inteligente com quem trabalhei, me pôs na distribuição enquanto ele descia para tomar um grau. Quando voltou me pegou distribuindo Sétimo Céu. “Gordo, você é uma besta” foi o começo. No final, acho que já estava me mandando tomar no cu (naquela época, tomar no cu não dá o cartaz de hoje). De minha parte, brindei-o com o bom repertório que aprendi nas ruas e alguma coisa que só conheci na igreja. Meia hora depois era como se nada tivesse acontecido. Homens agem assim.
Na JUERP trabalhei com um louco que foi posto pra fora de duas igrejas por indolência. Ele era chefe de quatro infelizes: eu entre eles. O idiota achava que eu telefonava demais. Para resolver a questão, soltou um memorando proibindo ligações durante o expediente. A secretária entregou o papel aos serviçais. Mais tarde ele chamou meus colegas e lhes disse que o memorando só valia para mim. Continuei telefonando até sair de lá, claro.
Concluindo, na Última Hora trabalhei durante três meses. Como no Jornal do Brasil, tinha de trabalhar sábados e domingos. Éramos 12 homens confinados em uma sala sem janela. Em compensação, o ar refrigerado nos congelava. Dez colegas fumavam. E fumavam muito. Nunca fui trabalhar sábado nem domingo. Um dia, Otávio, o chefe, me chamou e disse que se eu continuasse faltando me dispensaria. Honestamente, disse-lhe que fins de semana eu não iria. “Bom, vou segurar você uns dois meses, depois mando embora, tá ok?”, ele me disse. Não foi necessário, porque surgiu o emprego na Manchete, que era de segunda a sexta.
Não estendo a impressão terrível que tenho de chefes evangélicos para pessoas que conheci na vida “civil”, mas, confesso, no trabalho lidei com descrentes bem mais sérios e éticos do que os crentes com quem topei.

terça-feira, maio 05, 2009

DELÍCIA




Lily Allen é uma delícia.
Música pop é terreno perigoso. Um escorregão e lá vem baba.
Lily saiu de um primeiro disco saboroso e chegou ao segundo fazendo este despudorado aqui lamber as beiçolas.
It's not me. It's you é um disquinho muito bom. Letras bacaninhas, melodias que cravam na carne e, dentro das limitações do pop, diferente do anterior, Allright still. Diferente para melhor, em minha modestíssima opinião.

terça-feira, abril 28, 2009

GRIPE SUÍNA - Vai chegar matando

Quando a AIDS surgiu foi chamada de Peste Gay. Imaginava-se que só homossexuais a contraíam. Religiosos ignorantes (opa, acho que isso é redundância) diziam ser a AIDS o castigo de Deus para os sodomitas. O tempo passou e os mais esclarecidos, hoje, sabem com alguma segurança as formas de contágio da doença.
Digo os mais esclarecidos porque o recém-eleito presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acha que uma boa chuveirada depois do rala e rola é suficiente para evitar o contágio. A estupidez está dominando o mundo.
Só é contaminado pela AIDS, hoje em dia, aqueles que se atiram em um grupo de risco. Gente de vida promíscua, usuários de drogas displicentes e aqueles que fazem sexo sem proteção. Se você, solteiro, usa camisinha ou dedica-se aos embates solitários, tem pouca chance de contrair o vírus HIV. Da mesma forma, os casados que, a todo custo, mantêm-se firmes e não papam fora de casa.
A AIDS, pessoalmente, não me preocupa. Uso minha espada com parcimônia e sempre contra a mesma oponente. Tenho orgulho de manter meu fiofó apenas como rota de saída, com todo respeito pelos que têm o estranho prazer de fazê-lo, também, de rota de entrada. Egoísta, entendo que são remotas as chances de eu pegar AIDS.
A gripe suína, no entanto, é apavorante e me apavora. No começo do século passado, minha avó perdeu quatro filhos para a gripe espanhola. A gripe é absolutamente democrática e o contágio pelo ar leva-a ao mundo inteiro. A espanhola matou milhões em época de transporte difícil. A gripe aviária matou milhares e foi contida pelo rigor do combate empreendido pelo governo chinês. A suína eclodiu no México e entrou nos EUA e Canadá. É quase certo que virá para cá. Nossas autoridades não conseguem erradicar o mosquitinho da dengue, imaginem se tiverem de lutar contra invisíveis vírus que se propagam pelo ar.
Se o vírus desembarcar por aqui, a cada viagem de metrô tombarão dezenas. Não sei se por estar desempregado ando meio pessimista, mas acredito que a influenza porcina vai dar o que falar. E vai matar.

sexta-feira, abril 24, 2009

EXCELÊNCIA

- Nosso tribunal reúne-se para tratar de caso grave, porém, rotineiro nestes tempos de crise de valores. O réu, Geraldo Cordeiro de Lima, sofre grave acusação, que exporemos agora. Vossa Excelência, permita-me usar expressão bastante popular, foi pego no pulo.
- Vossa Excelência, discordo respeitosamente. Não foi apresentada prova alguma contra mim.
- Tilico, jovem e valoroso soldado de nossa comunidade, acusou Vossa Excelência de ser informante da polícia. Um X9, como o vulgo diz.
- As provas, Vossa Excelência, as provas.
- Tilico, acompanhado de dois membros respeitados de nossa agremiação, Mario Foguete e o condecorado soldado Miltão, com 37 mortes no irretocável currículo...
- Vossa Excelência, há dois anos sou gerente da boca. Nesse período crescemos 31% em vendas, reduzimos os confrontos com a polícia em 21%, vimos uma renovação de clientela na ordem de 39%. As outras agremiações nos convidam para palestras.
- Vossa Excelência me interrompeu quando diria que o nobre gerente foi visto pela comissão conversando com policiais. Logo depois sofremos ataques da polícia que nos infligiram sérios prejuízos.
- Não nego o encontro. Tratava do acerto do arrego. Os homens da lei queriam mais dinheiro para não atrapalharem o movimento.
- Vossa Excelência me toma por inocente? As negociações de arregos precisam seguir toda uma rotina. Não é o gerente que trata disso. De qualquer forma, o destino de Vossa Excelência já foi decidido pelo júri. Reconhecemos os relevantes serviços, agradecemos pelo tempo dedicado à agremiação, mas Vossa Excelência foi condenado à morte no micro-ondas. Em respeito a sua folha de serviços, não usaremos a espada samurai. A corte está dispensada.

COISA BONITA, LINDA, MARAVILHOSA DE SE VER - BEYONCE

Sasha Fierce não está com nada.

terça-feira, abril 14, 2009

ISRAEL E EU

Sempre gostei de escrever. Escrevia para mim e os muito chegados. Faltava-me confiança para expor meus textos a estranhos.

Começo da década de 80, eu estava no Seminário do Sul. Israel Belo de Azevedo, meu professor de Metodologia da Pesquisa, selecionou uma resenha que escrevi e leu-a como a melhor entre as feitas por todos os alunos. Ali ganhei segurança para escrever.

Mais tarde, Israel convidou-me para trabalhar com ele no Centro de História Viva do STBSB. Não pude ir. Na mesma época, comecei a trabalhar na Manchete. Trabalhara por 10 anos no Jornal do Brasil de onde saíra por absoluta inadequação ao emprego. A Manchete era mais do mesmo, mas pagava bem. Fui pra lá.

O STBSB passou por período turbulento, Israel foi para a Visão Mundial, depois para a UNIMEP e, mais tarde, veio para a Gama Filho.

A Manchete faliu e eu já estava na JUERP, que teve morte cerebral decretada no final dos anos 90. A situação ficou complicada para mim.

Israel telefonou-me e me convidou para um jantar. Ele estava trabalhando, também, com uma editora evangélica e convidou-me para fazer revisões e elaborar resenhas para o Prazer de Ler que saía encartado no Novas, do bravo Gilton. Trabalhávamos pela Internet e em meu primeiro provedor de acesso fui dependente dele.

Foi um tempo de dureza. A fim de levantar recursos, vendi alguns livros meus para Israel. Ele os comprou e algum tempo depois me chamou para devolvê-los. Não aceitei.

Por que estou escrevendo este texto?

Israel será operado de câncer na próstata. Eu sou hipertenso. Pode ser que não haja oportunidade de dizer o que direi agora, em outra ocasião.

Eu e Israel poderíamos ter sido grandes amigos. Nossos temperamentos nos separaram, mas sempre tive grande admiração por ele. Há um número ínfimo de pessoas, em nossa denominação, que despertam admiração: Israel é uma delas.

Sábado orarei por ele. Depois que se recuperar, vou procurá-lo para um abraço. Abraço dado, voltarei para o meu canto. Infelizmente, demonstrar amor não é uma de minhas qualidades.

sexta-feira, abril 03, 2009

JORNAL MEXIDINHO

Recebi crítica a trabalho que desenvolvi em um jornal por uns 10 anos. Não dei muita pelota. O crítico acertou e errou nos petardos que enviou, mas quando ele usou uma metáfora de ovos mexidos para desancar o jornal calou fundo ao meu coração. Explico: disse meu algoz que o jornal feito por mim lembrava ovos mexidos e ele não apreciava o acepipe. Só muito raramente, quando desejava sentir na carne como se alimentavam os pobres. Eu, sempre na base da pirâmide econômica, costumava adorar.

Minha avó fazia ovos mexidos deliciosos. Ainda solteiro, sempre ligava do trabalho e pedia a ela para me preparar um mexidinho. Era o neto favorito, ela fazia, sempre. Tenho de ser sincero e confessar que ela incrementava o mexidinho com umas batatas fritas cortadas em quadradinhos. Comia todos os dias, rindo.

A lembrança despertada pela crítica me fez, tal um D2, sair atrás do mexidinho perfeito. Conversei com minha querida sogra, mestra na preparação de frangos (em carne vermelha é sofrível). Expliquei-lhe, minuciosamente, como deveria ser elaborada a mistura de ovos, batatas, pimentão, cebola e tomate. Foi um fiasco. A grande quituteira de Inhaúma fracassou retumbantemente.

Conversei com a mana, herdeira desleixada dos segredos culinários da família. A técnica de elaboração do bife à milanesa, ela domina. Esqueceu, infelizmente, como fazer uma fritada de ovo com linguiça; não tem mais o segredo da preparação da sardinha casadinha; deixou escorrer memória abaixo a fórmula da carne seca desfiada no feijão. O mexidinho, me garantiu ela, sabe fazer.

Críticas servem para pouca coisa. Raras têm alguma fundamentação. Essa, pelo menos, serviu para me fazer lembrar um tempo muito bom. O tempo em que estavam todos aqui: pai, mãe, tios, avó. E, de tempos em tempos, sinto uma puta saudade dessa turma.

sexta-feira, março 27, 2009

A TAXISTA E O PATRIARCA

Entrei no táxi, celular no ouvido. Disse à motorista onde queria ir e encerrei a conversa telefônica. Desancava religiões de um modo geral e a minha, em particular.
A taxista, uma senhora de cerca de 60 anos, virou-se para mim e despejou: “O senhor está certo, religião é coisa muito esquisita”.
Preparei-me para ouvir. Só contrario em conversa os muito chegados. A estranhos, prefiro ouvir. Se a conversa for interessante, ouço mesmo. Se não, ligo o Simpson.
Ela me disse pertencer a uma fraternidade espiritualista esotérica. “Não tem incorporação, médiuns...” Li e esqueci uma reportagem sobre o espiritualismo esotérico. Espiritualismo caça-níqueis como a prática religiosa de 90% das igrejas evangélicas. Valem-se da estupidez humana para mamar leite que jorra sem parar, mesmo de tetas quase secas.
“Tive problemas sérios e precisei falar com o Patriarca. Para chegar a ele temos de passar por seu secretário. Esperei dois meses em vão. Algumas vezes o encontrei no elevador, mas não podia dirigir a palavra a ele. O senhor não acha que isto está errado?”
Claro que acho, mas é parte da cena que a maioria dos líderes religiosos monta. Atribuem-se importância maior do que realmente têm e gente importante, sacumé, está sempre com a agenda lotada.
“Há 40 anos não entro num cinema. Às nove estou no táxi. Paro de trabalhar às duas, três da manhã. Não sou casada. Não tenho filhos. Não tenho amigos. Adoro trabalhar. Isso aqui é minha terapia. Posso conversar. De domingo a domingo estou no táxi, menos terça. Terça vou para a Fraternidade. Fico lá o dia todo. Cumpro todas as minhas obrigações. Quando tenho um problema, não consigo falar com o Patriarca. O senhor acha justo?”
Padres, pastores e pais-de-santo só olham para o próprio umbigo. Recebem, consultam e atendem os que lhes convêm. De longe, esses luminares enganam. Chegue perto e você verá como realmente são. Tem razão o Patriarca de manter os fiéis a distância.
“Todos os dias peço a Jesus para esta ser minha última encarnação. Não quero mais voltar”.
Fique tranquila, minha senhora, não voltará.

RECORTA & COLA - Textos bacanas que saem por aí


INCOERÊNCIA CATÓLICA
Drauzio Varela

Aos colegas de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.
Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos.
Não se deixem abater, é preciso entender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vida depois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: “Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus”, não é o que pregam?
É uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal. Nosso compromisso profissional é com a vida terrena, o deles, com a eterna. Enquanto nossos pacientes cobram resultados concretos, os fiéis que os seguem precisam antes morrer para ter o direito de fazê-lo.
Podemos acusar a Igreja Católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompatíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.
Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma se instalaria no instante em que o espermatozóide se esgueira entre os poros da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que um preIado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez, ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?
O arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, agiu em obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.
Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres que nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?
Não há o que reclamar. A política do Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.
Em nota à imprensa a respeito do episódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticano para a Família: “A igreja não pode nunca trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu término natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina”.
Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida da concepção até a morte? Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeias estão lotadas de bandidos cruéis e de assassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa da instituição à qual o senhor pertence.
Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios das pessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.
A esperança de que a instituição um dia adote posturas condizentes com os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela.Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.
Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniões cautelosas apenas o presidente da República e o ministro da Saúde. Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos. Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições.

sexta-feira, março 20, 2009

UM FILHO DA PUTA

Há alguns meses conheci um filho da puta.
Velhice à porta, pensei que filhos da puta não me enganassem mais. Imaginei que bastaria alguns minutos de conversa para identificá-los.
Subestimei a capacidade do filho da puta. Tratei-o bem, como um igual. Presenteei-o, elogiei-o, ri com ele.
Alguns dias antes de descobrir que se tratava de um autêntico filho da puta, percebi que não me encarava. Os grandes filhos da puta, os escolados, acabam com você olhando dentro de seus olhos.
Os que estão se iniciando na filho da putice, não. Eles ainda desviam o olhar. Mas é questão de tempo: uma vez na senda da canalhice, não há volta.
Amanhã ou depois, conhecerei um novo filho da puta. Eles são muitos. Nem por isso deixarei de acreditar nas pessoas.
Eu acredito.
Entre filho da puta e babaca, prefiro ser babaca. Não sei bem por que, me sinto melhor.

quinta-feira, março 05, 2009

MOTORISTAS DE TÁXI SÃO BACANAS

Motoristas de táxi têm percepção da temperatura ambiente diferente da dos humanos normais.

Faça sinal para um táxi nesse Rio de Janeiro que torra a 40°C. O ar-condicionado do carro estará desligado, as janelas fechadas e o cara-de-pau atrás do volante se comportará como se fosse taxista na Sibéria.

Obrigatoriamente, o cliente terá de fazer a pergunta: “O ar está funcionando?” O esquimó olhará para você e, em profundo exercício de percepção interior, considerará para si mesmo: “Esse cara é um babaca, vou dizer que o ar está quebrado e que eu estava, ó coincidência, indo pra oficina, agora”. Se ele perceber que você não é otário, mas solidário, dirá: “Está, sim, mas está desligado porque acabei de sair de uma pneumonia e só vim trabalhar para” levar o pão dos inocentes.” Ao sacar que nem otário nem solidário você é e que se não ligar o ar perderá uma corrida, o gelado piloto considerará se vale a pena levá-lo a seu destino. Se valer, enfurecido, ligará o ar. Vingativo, acionará o cedepleier, que logo tocará os maiores sucessos de Tati Quebra-Barracos.

O quadro melhora um pouco se você for cadastrado em uma cooperativa. O táxi será chamado por telefone, você dirá que quer o carro com ar ligado. “Sou norueguês e ainda não me acostumei com o calor do Rio”, você dirá. Faça qualquer sotaque, até de nordestino, o imbecil do outro lado da linha acreditará. Claro que não adiantará.

O retorno da cooperativa não virá. Você ligará, novamente, para saber de seu táxi. O atendente dirá, cínico: “Sr. Fulano, estávamos ligando. Sua viatura é a 345 e o motorista já está na sua porta”. Mentira. Na chuva ou no sol, você espera. Se for uns 15 minutos, é lucro. Dentro do carro, você sente o Rio em seu apogeu. O inferno deve ter essa mesma temperatura.

O homem de gelo ligou o ar segundos antes de você entrar. Não, não reclame. Esse momento é precioso. Em vez de se queixar, dirija à divindade em que crê uma prece, porque, quase certamente, o ar não estará refrigerando.

Sentindo na nuca o bafo quente da ventilação do esporrento aparelho de ar-condicionado, você terá a certeza de que é um babaca e pensará: “Na próxima vez, não admitirei isso”.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

PROMOÇÃO

- Aí, Tião, parabéns pela promoção.
- E só estou na empresa há um ano.
- Sem acidentes, né?
- Sem acidentes, sem multas, sem reclamação de passageiros.
- E aquela batida?
- A culpa foi da senhora do Palio. Advogada, gente boa, foi na garagem e assumiu tudo.
- Sorte sua. Aquele atropelamento também não foi culpa sua, né não?
- O cara atravessou embaixo da passarela. Não deu pra frear.
- Morreu?
- Infelizmente.
- Aquela vez que você brigou com o passageiro também não embaçou sua promoção, certo?
- O babaca encheu a mão na passageira. Ela chiou e o otário ainda a destratou. Tomei as dores da Alzira e dei umas porradas nele.
- Alzira, sua namorada?
- É.
- E o cara não reclamou.
- Avisei que se reclamasse dava um fim nele.
- Em um ano você matou um cara, acabou com o automóvel de uma mulher e encheu um passageiro de porrada. Mesmo assim, foi promovido por ser o melhor motorista da empresa.
- Que posso fazer se a concorrência é fraca.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

COISA BONITA DE SE VER - Isis Valverde


Estômago

- Sula, você está magérrima.
- Perdi 42kg.
- Caramba! Anel?
- Não, tirei um pedaço do estômago.
- Tá ótima. Fez plástica?
- Claro. Tirei os excessos.
- Foi um prazer te ver.
- Xau.

***
- Sula, não entendi. Por que você não disse pra ela que fez dieta? Há um ano você malha, come pouco...
- Fiquei com vergonha. Talvez ela não acreditasse... Sei lá. Todo mundo tá cortando o estômago. A vida inteira fui diferente. Não quero mais ser.

domingo, outubro 19, 2008

Coisa bonita de se ver - Fernanda Machado

Pagodeiros modernos

- E aí, vamos fechar o nome do grupo?
- Demorooô, pra mim é o melhor nome.
- Porra, Pingo, já existe um grupo de pagode com esse nome.
- Nada, Buda, eles mudaram o nome pra Konviquição.
- Ficou mais classudo, mas... Júnior, tem sugestão?
- Estremilique.
- Aí, tá no espírito. Nome alegre, festivo. Gostei.
- Buda, vamos pôr um x, um y e um k: Extremilyke.
- Boa, Pingo. Pega bem lá fora.
- Buda, o nome fechou. E a roupa?
- O Naldinho tava vendo isso.
- D. Iracema montou uns panos fó. Calça e camisa pretas. Blazers de cores diferentes pra cada um.
- Aí, no espírito. Tudo a ver com o nome. Tá surgindo um conceito, falado?
- Preto/azul, preto/amarelo, preto/verde. Gravata combinando com o blazer. Caraio, Buda, vamos bombar.
- Pingo, e a coreografia?
- Lindinha já armou tudo. Ela e a irmã, inclusive, vão entrar mostrando as carnes.
- Lindinha e a irmã, inclusa? Arrego! Agora só falta correr atrás das músicas.
- Isso aí, Naldinho, mas a música é detalhe.

domingo, junho 01, 2008

Polícia aflita

Se a polícia de Recife age como fez na partida entre Náutico e Botafogo, em frente às câmeras de TV, vista pelo Brasil, imagine o que não apronta nas madrugadas, com marginais e cidadãos, longe dos olhos do país.

segunda-feira, maio 26, 2008

Cu de bêbado

- Tô falando, foi sacanagem dos caras... Passaram uma gosma na sua bunda.
- Mas tá ardendo.
- Ninguém fez nada.
- Me enrabaram.
- Nada disso. Mas eu te avisei. Beber como você bebe... Cu de bêbado não tem dono.
- Me enrabaram e você não quer dizer.
- Você conhece os caras. Pergunta pra eles. Te viram caído na frente do clube. Resolveram te sacanear.
- Acabaram comigo. Como vou encarar a Soninha?
- Cara, e se tiverem te enrabado? Você tava desmaiado, não podia fazer nada.
- Viu! Me enrabaram.
- Tá certo, enrabaram. Eram quatro, não pude fazer nada. Argumentei. Disseram que ia sobrar pra mim.
- Você não fez nada?
- Eu te avisei: “Cu de bêbado não tem dono”. O meu tem. É meu. Não bebo, por isso.

Olho por olho

Se pormos fé no relato de O Globo (domingo, 25/5), Itamar Paiva, 45, com seu possante Fiat Uno, avançou sinal vermelho em movimentada rua da Tijuca. Quase atropelou André Luis, que teve a infeliz idéia de levar três pré-adolescentes para comer uma pizza. Dois deles seus filhos.
André reclamou, esbravejou com o navalha. O rufião, então, deu ré e tentou fazer com o rabo o que não fez de frente: atropelar todo mundo. Não conseguiu.
O troglodita, que estava acompanhado por uma insana, saiu do carro e, com uma chave de roda, agrediu André, que está em coma, respirando por aparelhos.
Essas tragédias urbanas me comovem. Um adulto sai com seus filhos para comer uma pizza. Dá azar, encontra o facínora.
Sabemos onde tudo vai dar. O advogado já prometeu que Itamar vai se entregar. Nossa justiça é generosa com os abonados e Itamar já tem experiência em dar porrada nos outros. Não vai acontecer nada com ele. Já André precisará de sorte para sobreviver e não ter seqüelas.
Esse caso se resolveria facilmente se deixássemos de lado as burocracias jurídicas e retornássemos a primitivas leis. Alguém bastante forte poderia dar na cara do cidadão Itamar com a mesma chave de roda e a mesma violência. O que isso resolveria? Nada. Mas se Itamar fosse parar num leito de hospital, ao lado de André, já seria alguma coisa.

sábado, maio 03, 2008

SAUDADE

Perdi minha mãe há 16 anos. Na última vez em que estivemos juntos, acariciamos a mão um do outro, longamente. Era um domingo, ela estava em um leito de hospital e eu não a veria novamente.
Lembro-me bem da cena porque não era comum nos acariciarmos. Sou de uma família que não costuma demonstrar sentimentos com facilidade. Azar o meu.
Sempre me relacionei muito bem com minha mãe. Temperamentos semelhantes. Águas mansas num momento, ressaca devastadora logo a seguir. Qualidade: o bom humor, quase todo o tempo.
Sinto falta dela, e de minha avó, até hoje. As duas foram fundamentais para minha vida. Não há um dia em que não me lembre delas.
É inútil falar, mas falo. Quem tem mãe viva, dê a ela todo o carinho possível. É clichê, mas a morte nos leva sem aviso. Não seja um sobrevivente que vive a lamentar o amor que não demonstrou. Acredite, é doloroso e irremediável.

quarta-feira, abril 09, 2008

sexta-feira, abril 04, 2008

20 deitões

O ódio que sinto dos Correios e Telégrafos só chega perto do que alimento pela Telerj/Telemar/Oi.
Os Correios estão em greve.
Os briosos funcionários querem, entre outras coisas, aumento da grana que recebem por causa do risco que correm passeando pelo Rio.
Há alguns meses comprei um celular na Americanas.com.
Chegou o dia combinado para a entrega e nada. Liguei pra lá.
- Senhor, a encomenda está nos Correios. Eles não entregam onde o senhor mora. É área de risco.
Bom carioca não berra.
Comprei pela Internet porque sou preguiçoso e não quis ir à loja.
Da próxima vez, vou.
A Americanas e os Correios me fizeram viajar até a Penha.
Belisário Pena, depósito dos Correios, mais de 20 deitões rodavam de um lado pro outro sem ter o que fazer.
- Esse computador aqui não tem free cell?
- Meu aguerrido funcionário, desculpe interromper seu joguinho, mas dá pra você me entregar esta encomenda?
Claro que o trabalhador exemplar olhou pros lados pra ver se outro babaca se apresentava.
Os outros 19 estavam espertos e se fingiram de mortos.
- Vou ver pro Senhor.
- Vocês não pretendem voltar a entregar na Estrada Velha?
- Não dá, senhor, aquilo lá é cheio de pivetes.
- A rapaziada aqui é toda do Leblon, né?
Claro que o parvo não entendeu a ironia.
- A Americanas entregava lá.
- É, eles são malandros. Área braba eles jogam pra nós.
Me senti idiota conversando com aquele idiota.
A Americanas não entrega mais em Inhaúma (a bucólica Inhaúma) porque comprou o Submarino.
Sem concorrência, esses putos fazem o que querem.
Eu, de minha parte, não compro mais nada em Internet (exceção pros Cds na Velvet, que são entregues no meu trabalho).
- Senhor, não estou encontrando sua encomenda.
- Companheiro, é bom você encontrar. Se não, esses 20 deitões que estou vendo aqui não serão suficientes para conter minha fúria.
Quem é que disse que assistir seriado na televisão não serve pra nada?
Logo o parasita trouxe minha encomenda e eu voltei à longa caminhada embaixo de inclemente sol até o outro lado da Penha.
No trajeto sonhei com a máquina de teletransporte.
Não pra mim, mas pro envio de encomendas e a conseqüente extinção dos Correios.

quinta-feira, abril 03, 2008

Marrom

Seis da matina, faz frio na bucólica Inhaúma.
Homens e mulheres, silenciosos, caminham em direção ao metrô.
Ninguém fala com ninguém.
De repente, o silêncio é rompido.
E aí, Marrom?
Marrom, meu querido, tudo bem?
Passou a noite na esbórnia, Marrom?
Marrom, há quanto tempo...
Todos falam com Marrom e ele nem se dá ao trabalho de latir de volta.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Coisa bonita de se ver - Shakira


E não é rock.

Beber pra quê...

“Machos de mosca-da-fruta submetidos a uma constante inebriação com etanol ficaram mais excitados e desinibidos sexualmente, a ponto de não só voarem atrás de fêmeas, mas também de outros machos.
“O efeito fica mais intenso com a idade. Machos mais velhos ficaram mais desinibidos em relação ao mesmo sexo”
(Folha de S.Paulo, 4/1/2008).
É por isso que não bebo.

Gordo Falante 2007



O Gordo Falante, finalmente, liberou o resultado do melhor CD rock de 2007.
O Gordo é pobre, por isso o universo de discos que participam do prestigioso prêmio é limitado.
O Gordo é pobre e honesto, por isso não leva bola pra premiar ninguém (Bem, a honestidade é relativa. Nunca apareceu ninguém com um pepê para o favorecimento de uma bandinha qualquer. Se aparecer, o Gordo pensa, considera e sucumbe.)
O Gordo comprou, com suado dinheirinho ganho em muitas horas de labuta, 176 cds em 2007. Nem todos de rock e, óbvio, alguns relançamentos.
O Gordo é eclético e, de vez em quando, ouve até samba.
Sem mais delongas, o Gordo decidiu, baseado única e exclusivamente em seu gosto pessoal, que o melhor cd que ouviu em 2007 não foi um, mas dois: Baby 81, do Black Rebel Motorcycle Club, e Because of the times, do Kings of Leon.
Agradecimentos à Velvet que mediante envio, por transferência bancária, de papel-moeda me forneceu boa parte dos cds que participaram desta nobre seleta.

terça-feira, janeiro 01, 2008

BUM!

A manchete que gostaria de ver estampada nos jornais de 1° de janeiro:
MORTEIROS COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO DECEPAM MÃOS DE MILHARES DE BRASILEIROS.
É verdade, detesto fogos de artifício.

Sobriedade

- Júnior!!! Faz tempo, hein...
- Quase um ano. E aí?
- Tudo na mesma. E Sofia, as meninas?
- A mais velha fez 15. Tá me dando trabalho. Sofia é o que você conhece.
- Um sábado desses apareço.
- Será um prazer.
- Júnior, estou achando você diferente. Não sei bem o quê.
- Sobriedade. Há três meses não bebo.
- Eu...
- Você vai dizer que me conhece há 20 anos e nunca me viu sóbrio...
- Bom...
- Conheci Sofia de pileque; fiz minhas três filhas, alto; tenho mantido um bom casamento, de fogo; profissionalmente, sou bem-sucedido. Trabalho com uma garrafa de uísque em cima da mesa.
- Ordens médicas?
- Você sabe que não vou a médicos. Resolvi parar.
- Uma mudança grande.
- Minhas filhas, agora, me acham um chato. Dizem que não tenho animação pra nada. Sofia diz que não agüenta mais. Não sou mais o amante ardente que era. Meus empregados estranham porque não sou a simpatia que era.
- Volte a beber.
- Não dá. Esses anos todos vi um mundo enevoado. Agora, vejo tudo com clareza. Depois que se vê, não há como não ver.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Harajuku style


Gosto da forma aloprada dos adolescentes japoneses se vestirem.

Cabaço

- Souza, querido, finalmente, Magali perdeu a virgindade.
- Até que enfim, Ernesto. Dezenove anos...
- Muito carola. Culpa da mãe.
- Agora, você é um pai realizado.
- Claro. Ela está que é uma felicidade só. Foi pro shopping, ontem. Voltou cheia de roupas.
- Mas, como foi? Ela te deu detalhes?
- Ela intermediou uma parada no escritório em que trabalha com um fornecedor. Ofereceram um por fora considerável e ela, esperta, embolsou.
- Cara, você está com os olhos brilhando.
- Souza, estou orgulhosíssimo. Na primeira porrada, a menina arrumou 30 mil.
- Caraio!!!
- Estou orgulhoso, mesmo. Ensinei a ela o caminho das pedras.
- Agora que perdeu o cabaço vai tomar gosto.
- Pode parecer precipitado, mas já vislumbro pra ela uma carreira na política.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lilly Allen. Aiai!


Chumbregas

- Fim de ano. Tenho horror, bródi.
- Ficou pra você a organização do almoço?
- Ó! O homem faz questão que eu organize.
- Quer que eu acerte com o Jonas?
- Não. Acertei no Chumbregas.
- Bem mais em conta.
- 30% mais barato. Baré Cola à vontade. Bife prensado, arroz, farofa de banana e, talvez, umas batatinhas. O café levo na térmica.
- A turma vai gostar.
- Tô cagando. O homem vai. Isso é que vale.
- Você vai encarar o boião do Chumbregas?
- Nada. Vou almoçado. Tenho respeito pelo meu estômago.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Meus sobrinhos

Sempre penso que não vou embarcar mais nestas Kombi criminosas que rodam pelo Rio, mas ando sempre duro, ônibus não aparece e aí acabo me entregando pros malucos.
Sábado chuvoso, onze e pau, lá vem a Kombi velha e eu não titubeio.
Estamos eu, o piloto, o cobrador e uma jovem. Não há troco pros meus dois reais. Tudo bem, vou pro fim da linha. A bonitinha desce. A Kombi é só minha.
Primeiro ponto da José dos Reis, uma turma está saindo de um aniversário. Mulheres, homens, crianças, bolo, coca-cola, pastéis... O olho do piloto cresce. Com jeitinho cabe todo mundo, não vai ficar ninguém a pé. Entraram 18. Fui forçado a lucubrar: Há pouco a solidão, o vazio. Agora, a proximidade com outros humanos. Bundas, pernas, sovacos, dentes. Tudo tão próximo.
Faltou-me coragem para puxar a máquina e disparar. Seria foto pra prêmio.
Na Praça de Inhaúma desceram todos.
Sozinho de novo.
Aí tio, vai pra onde? Pro Boêmios. Vou precisar abastecer, tudo bem? Claro que estava tudo bem.
Valeu, tio.
Não é a Zilda, ali na frente? O cobrador, É. ZIIIILLLLDDDAA!!! Ô querido! Vai namorar? Só de segunda a sexta. Vamu num chope? Já é. Entra aí, só vou levar o tio no Boêmios.
Esses meus sobrinhos...

Silêncio é ouro

- Me separei do Geraldo.
- Por que, Dilma? Trinta anos...
- Você é um pouco culpada.
- Eu?!?
- Você o convenceu a fazer terapia.
- Dilma, você vivia reclamando que ele era muito fechado, não se abria.
- Vera, meu marido é uma besta. Calado, achava que era inteligente, profundo. Quando começou a falar, descobri o jumento que sempre foi.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Juliana Lohmann - Coisa bonita de se ver

Desde que vi Juliana Lohmann em uma novela achei que ela iria longe na TV.
Na época, representava uma vampirinha adolescente (ou coisa parecida) em uma novela da Globo.
Ontem a vi em Mandrake, na HBO, e tive a impressão de não ter me enganado.
É bonita, não deixa a gente constrangido quando representa e tem muito para crescer.
Ela pode ser vista, também, no Paparazzo, o sítio erótico light do Império.

Joel Santana é seleção

Não gosto de futebol. Adoro o Flamengo.
Cago pra Dunga e seus anões.
Quebro o pau por causa de Obina, o bonde, e seus companheiros.
Estou felicíssimo com a ida do Mengão pra Libertadores.
Joel Santana é seleção.

Saco

Escrever é um saco.
Ler, não. Ler é puro prazer.
Claro, quando se lê o que quer, na hora em que se está disposto.
Escrever é um saco porque tem muita gente escrevendo bem.
Bom, talvez não seja tanta gente assim, mas dá pra ocupar uma existência lendo coisa boa.
Aí, penso no que escreveu um amigo: por que perder tempo escrevendo se podemos ganhá-lo lendo?
Se me pagassem para escrever, valeria a pena.
O trocado que ganhasse mandaria para a Velvet e de lá me enviariam cds e seria justificado o tempo despendido para batucar umas linhas.
Escrever é um saco, mas quando escrevo sempre me acho melhor do que sou.

terça-feira, setembro 11, 2007

Gordinha o cacete!

O homem de hoje, diante de Jane Fonda, em Barbarella, horrorizado diria: "Que monstra, que mulher enooooorme!"
Tudo bem, homem (?) de hoje, eu vivo no passado.
Cercado por Ava Gardner, Claudia Cardinale, Sophia Loren, Doris Day, Marilyn Monroe, Jane Fonda e, sim, uma fraqueza, a magricela Audrey Hepburn.

Grandes


Dois discos que não têm saído de meu cedepleier:
"Era vulgaris", do Queens of the Stone Age, e "Our love to admire", do Interpol.
À sua maneira, grandes, os dois.
Volto a falar sobre eles. Ou não.

Personal friend

Li na Folha de S.Paulo que tem gente pagando 50 pratas a hora por um personal friend.
O amigo pessoal bate papo com o cliente, vai ao shopping com o amiguinho e empresta o ouvido para o carente.
Eu, para ser personal friend de alguém cobraria muito mais. Tenho grande dificuldade de me aproximar de meus semelhantes, mas poria grande empenho em vencer essa limitação se fosse bem pago. Não gosto de humanos, mas adoro dinheiro.

O espectro

Assombrações, fantasmas, nunca acreditei nessas coisas, mas...
Há vinte e poucos anos fui com um amigo passar um fim de semana em uma cidade praiana. Jonas, todos os anos, passava as férias no que ele chamava de paraíso na terra. A cidade não me impressionou, as primas dele, sim. Entendi por que ali era o paraíso.
Sou cheio de defeitos, com uma qualidade: determinação. Aurora, a prima mais velha de Jonas, me encantou. Infelizmente, não tive oportunidade de conversar com ela. Por isso, uma semana depois voltei à cidade e disse a ela, sem rodeios, o que sentia. Começamos a namorar. Em três meses estávamos casados. Jonas foi o padrinho.
No período em que namorei Aurora, por três vezes Jonas me acompanhou nos fins de semana. Passava o dia na casa, conosco, à noite ia para um hotel. Eu dormia na casa e estranhava Jonas não fazer o mesmo. Aurora me explicou a razão: “Jonas nunca se acostumou com os fantasmas”.
“Você nunca viu nada, lá?”, me perguntou Jonas. Não, nunca. E continuei não vendo. Talvez por causa de Aurora.
Vivemos juntos seis anos intensos. Ela e as irmãs esbarravam nos espectros em todos os cômodos. Era só anoitecer. Estavam habituadas. “Eles não incomodam, só ficam nos olhando”.
Casamos, com dinheiro poupado, comprei uma lojinha e fui morar na casa assombrada. Os fantasmas, aparentemente, não viram em mim nada que valesse a pena olhar. Não me olhavam, eu não os via.
Uma madrugada, acordei para ir ao banheiro. Sentei-me na cama e à minha frente uma mulher me observava. Nossos olhares se cruzaram. Encarei-a sem medo, um pouquinho curioso. Ficamos ali, um de frente pro outro. Seu rosto, impassível, não transmitia nenhum sentimento. Pensei em acordar Aurora, mas para quê? Tornei a olhar a mulher, levantei-me, atravessei-a e fui mijar.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Mermão

- Mermão, cê simporta seu ti passar pra outra Kombi?
- Claro, vou descer depois do viaduto.
- Eu ia voltar daqui. Tô tomando preju nessa viagem. Só peguei você.
- Ô cara, o viaduto é aí na frente.
- Mermão, tava te dando uma idéia. Agora, desce aí. Nem precisa pagar.
- Nunca mais entro numa porra dessa.
- Entra sim. Num tem dinheiro pra pegar táxi, num tem ônibus na rua, num tem disposição pra andar a pé. Tem de pegar a gente mesmo.

Coisa bonita de se ver - Jessica Alba

Jessica Alba me chamou a atenção em um seriado de James Cameron, Dark Angel.
Jessica é linda e não compromete como atriz.
No Quarteto Fantástico, loura insípida, não está em seu apogeu.
Deslumbrante, podemos vê-la em Sin City.

Guerreiro

Nunca fui chegado a embates corporais. Dar e levar porrada nunca foi a minha.
Garotos, no entanto, brigam. Por afirmação, estupidez e um porrilhão de outros motivos.
Até o começo da adolescência, briguei duas vezes. Brigas arranjadas pelos bons amigos que me cercavam. Os dois oponentes que enfrentei, em comum comigo tinham a covardia. Um era um provocador covarde. O outro era só covarde.
Com o primeiro desentendi-me no recreio. Estava no ginásio. Discutimos e logo ouvi a frase temida: “Me espere lá fora, depois da aula”. Engoli em seco. Os amigos vibraram. Passei o recreio apavorado. Já estava subindo pra sala de aula, quando aquele que iria me encher de porradas se aproximou e, clemente, disse: “Dessa vez passa, mas na próxima...”
Eu aceitaria, jubiloso, os termos do cagão, mas os amigos interferiram: “Sem essa, depois da aula vocês vão resolver a parada, né, gordo?”. É, né.
A luta foi breve. Um começo de estudos: um ia pra lá, o outro vinha pra cá. Mantínhamos uma boa distância entre nós. Generoso, alertei meu desafeto sobre o perigo de ele ser atropelado. “Cuidado, você está no meio da rua.” Ó hipocrisia, queria era que um ônibus o esmagasse.
O poltrão, aproveitando-se de minha distração, investiu contra mim. Já ia me cagar quando o bundão tropeçou e caiu de costas no chão. Entendi que já tinha esgotado minha cota de generosidade e lancei-me, junto com meus 90kg, sobre as costas do parvo. Se quisesse poderia tê-lo sodomizado, mas nunca fui chegado a rosquinha masculina. Bati até os amigos nos separarem e me carregarem em triunfo.
A minha segunda pugna também foi acertada pelos amigos. O adversário era tão medroso quanto eu. Depois da aula, enquanto a turba, ávida de sangue, esperava por nós, escondemo-nos em uma sala e esperamos. Quando todos foram embora, saímos, atravessamos a rua e chupamos um chicabom na carrocinha que ficava em frente ao colégio.
Daquele dia até hoje, nunca mais ninguém me fez brigar.

sexta-feira, julho 27, 2007

PAN

É antipático, mas estou cagando pra quantas medalhas o Brasil vai ganhar no final do Pan.
O evento é interessante e dá pra perceber que se a imprensa não fosse tão preguiçosa boas histórias poderiam ser contadas, e não só de brasileiros.
Até domingo verei uma competição ou outra.
Não, vôlei masculino nem pensar.

terça-feira, julho 24, 2007

Inferno

- Tenho de comprar um analgésico pra minha mulher. Não sei qual, ela está grávida.
- É perigoso, mesmo. A minha, quando ficou esperando o Júnior, acho que só tomava Tylenol.
- Redoxon, será que faz mal?
- Vou ligar pra casa e perguntar a Solange.
******************
- Solange, na sua gravidez você podia tomar Redoxon?
- ...
- Hein!?!! Não, é a mulher do Fábio que tá grávida, e gripada...
- ...
- Você não conhece o Fábio. É um freguês aqui da banca.
- ...
- Mentira!?! Que mentira, Solange!
- ...
- Não engravidei ninguém...
- ...
- Mulher na rua, o cacete! Vou desligar.
- ...
- Você é louca.
******************
- Cara, me desculpe, minha mulher é muito ciumenta.
- Acabei te arranjando problema.
- O problema quem arrumou fui eu, quando me casei com ela. Mas não sei viver fora desse inferno.

Meninas

Comprei, de uma tacada, os cds da Bjork, Regina Spektor, Feist, Macy Gray e Dolores O’Riordan. Ouvi Volta, de Bjork, e desisti de voltar a ouvi-lo, pelo menos por enquanto. Não compro mais disco de minha ex-deusa. No cedepleier só os antigos da esquimó. O anterior dela, Medusa, já tinha achado uma merda incompreensível. Volta comprei por causa de algumas resenhas que li dizendo estar Bjork mais pop. Pode ser, mas o nível ainda está elevado para mim. Feist achei legal. A comparação com Cat Power não procede. Gostei do cd. Estou ouvindo com atenção. Macy Gray e Dolores O’Riordan, encostarei. O começo de Dolores é enganador. Parece que vai. Não vai. No futuro, volto a elas. Regina Spektor, ufa!, é uma redenção. Cedezinho bacana. Músicas que temos vontade de ouvir de novo e voz gostosa que faz com que pensemos que o mundo não é tão ruim assim.

Desafogo

Levantei-me no escuro.
Caminhei, às apalpadelas, até o banheiro.
Olhos abertos, não via o vaso sanitário.
Abaixei-me e com as mãos senti a tábua.
Levantei-a.
Não conseguia vê-la.
Mijei. Mijei tudo o que tinha pra mijar.
Acordei, puto, num lago de água quente.

segunda-feira, julho 16, 2007

Correios, essa merda

Encomendei em loja de São Paulo, como faço quinzenalmente há alguns anos, alguns CDs.
O envio foi feito por SEDEX, o preço cobrado o do SEDEX, mas a encomenda não chegou a minha casa sob a alegação de que a região onde moro é área de risco.
Gostaria de saber da empresa que monopoliza os serviços de entrega no país, o que não é área de risco no Rio de Janeiro? Se os Correios consideram a cidade do Rio de Janeiro perigosa para que seus delicados funcionários possam exercer sua profissão, é melhor passar o serviço a quem tenha interesse e competência para exercê-lo.
Sairei amanhã de casa e embarcarei em um ônibus para pegar a encomenda numa segura agência dos Correios. Lá serei atendido por trêmulos funcionários, assustadíssimos por que tiveram de sair dos condomínios onde moram, fortemente protegidos, para "trabalhar" nas agências espalhadas por essa terrível cidade. Talvez as agências dos Correios tenham heliponto e os funcionários cheguem para "trabalhar" pelos ares.
Não conheço ninguém que envie cartas (só cobradores). Agora, os Correios se recusam a entregar encomendas. Pergunto: para que servem os Correios. Sim, para dar empregos a parentes de políticos no poder.
Outra dúvida: se o pessoal não vai mais à rua por medo, por que não dispensar esse excedente e ficar só com os funcionários internos? Sobrarão mais computadores pra turma jogar paciência.
As agências deveriam trabalhar de portas fechadas e não permitirem a entrada de estranhos. Sei lá, o estranho pode estar mal-intencionado.
Os Correios são mais um exemplo da ineficiência do Estado. Tudo, TUDO que tem o Estado por trás funciona mal. E, muitas vezes, somos obrigados a usar alguns serviços que esses merdas monopolizam.
Que merda o Brasil ter vencido.

sexta-feira, julho 06, 2007

Pequena flor

- O senhor se importa de eu me sentar a seu lado?
- De jeito nenhum.
- É que o cinema está vazio... O senhor pode pensar que sou um homossexual querendo abordá-lo.
- Se você me abordasse, diria, de forma gentil, que sou hétero e lamentava não poder corresponder a seu gesto de carinho. Ressaltaria que tinha ficado lisonjeado com sua escolha, mas que por ter sofrido educação muito rígida não conseguiria me relacionar sexualmente com um outro homem. Diria, também, que até terapia faço para, quem sabe, expandir meus horizontes.
- Mas, meu senhor, também sou heterossexual. Só pedi para sentar ao seu lado por causa da localização.
- Um dia, eu e você nos livraremos desses grilhões.
- Senhor, acho que vou me sentar em outro lugar.
- O que disse incomodou-o, certo? Temos tanta certeza de tudo. Uma pequena incerteza nos desestabiliza.
- Sou heterossexual, casado. Amo minha mulher.
- Mas quis sentar-se ao meu lado. Sentiu-se inseguro. Buscou em mim, refúgio. Quando as luzes se apagassem, talvez você vencesse a hesitação e...
- Por favor, vou sair daqui.
- Vá, mas não fugirá para sempre. Pequena flor, seu destino está traçado.

Que sorte, Bush não nasceu em Inhaúma


Vi, há algumas semanas, Dixie Chicks: shut up and sing. A preguiça, que amo e odeio, me impediu de postar algo antes. O que vi foi um ótimo documentário de Bárbara Kopple.
Natalie Maines, voz principal das Dixie, no começo da guerra no Iraque, em concerto em Londres, disse se envergonhar de ter nascido no Texas de George Bush.
A turma da Bushland caiu de pau. Bush-filho, na ocasião, tinha grande apoio dos americanos. As moças, por isso, foram chamadas de antipatriotas, vadias, vendidas e outras coisinhas mais. Grupo country que vendia enormidade, as Dixie foram boicotadas nas rádios sertanejas de lá. O sertanejo é um forte, mas também costuma ser muito reacionário.
O documentário mostra as Dixie Chicks em plena crise. São acompanhadas na intimidade, em bastidores de shows, nos palcos.
A elaboração de Taking the long way, discaço que ganharia cinco Grammys, também é mostrada, mas, principalmente, Bárbara Kopple detém-se na perplexidade das Dixie. O grupo tinha um público fiel, vendia disco de montão e, de repente, uma declaração impulsiva levou-as a um turbilhão.
O tempo mostrou que Natalie Maines estava certa, mesmo que involuntariamente. Hoje, odiar George Bush é mania mundial. Ainda bem que ele não nasceu em Inhaúma.

terça-feira, junho 12, 2007

O bom samaritano

- Sr. Orestes?
- Sim.
- Doutor Penafiel, tudo bem?
- Doutor, o senhor que eu trouxe...
- Sr. Orestes, infelizmente, ele morreu.
- Mas ele chegou aqui, aparentemente, bem.
- A polícia está chegando. Vão fazer algumas perguntas ao senhor.
- Doutor, eu expliquei na recepção. Sou motorista de ônibus. Vi esse senhor caído em um ponto. Parei, perguntei se ele estava bem. Percebi que não estava e convenci-o a vir até aqui.
- O senhor tem alguma testemunha?
- Havia algumas pessoas no ponto. Quem estava no ônibus, uma meia dúzia de gatos pingados, desceu e não quis me acompanhar.
- Sr. Orestes, sua história está esquisita. O falecido não caiu dentro do ônibus?
- Não, eu peguei o velho na rua.
- Ninguém faz isso.
- Eu fiz.
- Bom, acho que o senhor vai pagar caro por isso. Olha, a polícia está chegando.

sexta-feira, junho 08, 2007

Acabou

Ana Ivanovic esmigalhou Sharapova.
Ela é linda, joga muito, mas o Roland Garros pra mim acabou.

Aviso

Lula à Folha sobre a atitude de Chávez: "Eu acho que o mesmo Estado que oferece uma concessão, pode cassá-la".
Depois ninguém diga que se surpreendeu.
Como eu digo, hoje.
Afinal, acreditei nesse pilantra.

segunda-feira, junho 04, 2007

ZOÉ

Eu e Hernani gostávamos de Zoé.
Nunca brigamos por causa disso. Não tínhamos chance alguma com ela, então, por que brigar?
Zoé era uma graça. Cabelos pretos, olhos azuis, nariz atrevido.
Namorava um truculento e morava na Tijuca. Eram seus defeitos.
Hernani e eu andávamos do Grajaú à Tijuca para ficar de campana num boteco em frente ao prédio em que Zoé morava, na Conde de Bonfim. Sentávamos numa mesa do pé-sujo, pedíamos umas cocas e vigiávamos para ver se ela apareceria do outro lado da rua. Nunca apareceu.
Se aparecesse, nos esconderíamos.
Em sala de aula, sentávamos em ordem alfabética. Zoé, na minha frente; Sandra, sua irmã, atrás de mim. O grande momento de meu dia era quando ela se virava para me perguntar qualquer bobagem.
Graças a essa organização alfabética caí num grupo de trabalho de Zoé. Hernani ficou meio queimado, mas...
Na casa do objeto de nossa paixão, fiquei tão nervoso que devorei uma bandeja de salgadinhos.
Lembro-me disso e de ter levado uns cascudos dentro do elevador. Um bando de tijucanos degenerados os aplicou. Tenho impressão que o ódio que devoto à Tijuca nasceu aí.
Eu e Hernani fomos grandes amigos, em grande parte, por causa de Zoé.
Falávamos o tempo inteiro sobre ela.
Sonhávamos com ela.
É bom ter alguém com quem dividir um sonho.

domingo, junho 03, 2007

Sharapova, o dragão e 22 cabeças-de-bagre

Que celulite!
Tarde de domingo, chuva, frio...
Na ESPN Brasil, Maria Sharapova e um dragão duelavam.
Eu, magnetizado, procuro as celulites da deusa.
Jogo duro, quebra de serviço de um lado e de outro. Sharapova, linda, lutava, gemia, me enlouquecia.
O locutor da ESPN Brasil, a todo momento, anunciava que logo após o embate entre bela e mocréia seria transmitida a sensacional partida protagonizada pelos poderosos escretes de Peru e Equador, diretamente de Madri. Jogo que eu não poderia deixar de perder.
Sharapova, como São Jorge, continuava sua peleja contra o dragão.
O futebol, vá lá, começou.
De vez em quando, minha visão da bela era atrapalhada pelo quadradinho no cantinho da tela com imagens da pelada madrilenha.
Se ainda fosse a pelada russa.
O duelo não acaba e o louco locutor nos manda passar pro ESPN Internacional. Sharapova continuaria jogando por lá. Ali seria exibido o jogão para turistas peruanos e equatorianos em visita a Corruptolândia.
Corri para ver Sharapova no outro canal. Vi dois palhaços de raquete na mão.
Emputeci-me e zapeei.
Quando passei pela ESPN Brasil de novo, vi o final do jogo de Sharapova.
A emissora interrompera o jogo da divina para transmitir 10 minutos do final do primeiro tempo do inebriante futebol de várzea jogado por nossos vizinhos de continente.
Nesse intervalo de tempo, Sharapova cravou a lança no coração do dragão.

quinta-feira, maio 31, 2007

Muito bom

Um amigo, depois de ler texto que escrevi, fez um reparo: "Por que muito bom e não ótimo?"
Expliquei. Por dois motivos: muito bom, pra mim, é mais do que ótimo. E, principalmente, não gosto da palavra ótimo.
Minha mãe, na fase espírita de sua vida, dizia sobre determinadas pessoas que mal conhecia e já não gostava. “Meu anjo da guarda não cruzou com o dessa mulher”. O problema era criado pelos anjos da guarda que, muito sensíveis, não simpatizavam com qualquer um.
Eu e as palavras temos relação semelhante. De algumas eu não gosto mesmo. Jamais direi que algo me impactou, prefiro escrever mais, dar bandeira de velho e afirmar que o novo disco da Bjork me causou impacto.
Então, sempre que alguma coisa em minha vida for muito boa, será muito boa . Nunca, ótima.

quarta-feira, maio 30, 2007

CALDO

Moleque, à tarde, freqüentava a piscina da Associação Atlética Vila Isabel.
Morava há pouco tempo na Vila, sentia saudades do Grajaú, mas a água... No Grajaú, me banhava no Country. Não ia todo dia. Tinha de andar muito e a preguiça sempre foi minha sombra.
Na Vila, não. Morava no final da 28 e o clube era no meio da Avenida. O banho era diário.
Por um tempo, ir à piscina era programa prazeroso. Solzão, água fresca, coca cola, batata frita e o papo com os iguais. Muito bom!
Dezembro chegou, vieram as férias e os babacas: rapazes e moças mais velhos do que nós, os iguais.
Os babacas-macho, para impressionar as fêmeas babacas, se mostravam dando caldos em nós: menores, mais fracos e ainda sem interesse em impressionar ninguém.
Quando os babacas exageravam nos caldos, os guarda-piscinas (na verdade, babacas investidos de autoridade) desviavam os olhos das bundas das meninas e chamavam a atenção dos caras. Mas era raro isso acontecer. Como nunca fui muito chegado a ser torturado, abandonei as águas.
Minha vizinha de porta era uma priminha linda. Morenaça, uns dois anos mais velha do que eu, altona, passava por uma jovem recém-saída da adolescência. Sempre íamos às Casas da Banha a mando de nossas mães. Eu via, então, o efeito que Bete causava. Pescoços machos quase se quebravam ao vê-la passar.
Um dia Bete me mostrou sua carteira de nova sócia da AAVI. Sua mãe deixaria que ela fosse à piscina se eu a acompanhasse. Relutei, tentei escapar, mas acabei indo. Claro que não contei nada a ela sobre os babacas.
Pode ter sido imaginação, mas tive a impressão de perceber um frêmito de excitação nos babacas ao me verem chegando.
Bete ainda estava no chuveirinho e eu já dentro dágua, pronto para o suplício. Os babacas se jogaram na piscina e nadaram em minha direção. Quando me cercaram, Bete já estava do meu lado. O babaca-alfa se aproximou para afundar minha resignada cabeça. Bete protestou:
- Você não vai fazer isso com meu primo.
O alfa examinou a morena e,
- Seu primo?
- É, meu primo.
Ganhei, ali, salvo-conduto para tomar meus banhos de piscina sem ser aporrinhado.
O babaca-alfa e minha prima namoraram um tempo até que a mãe dela, titia, descobrisse que eu não era um guarda-cabaço confiável.
Ela nunca mais deixou Bete ir à piscina comigo e eu, já ficando esperto, abandonei a água doce e dediquei-me ao mar, antes que o alfa voltasse sua ira contra mim.

sexta-feira, maio 18, 2007

A vida real, essas coisas

Essa eu gostaria de ter escrito, mas, infelizmente, a vida real me superou.
O texto foi retirado de reportagem do Jornal da Globo. O golpe é o do falso seqüestro, aplicado de dentro do presídio.

– Alô senhora? (...) Eu quero uma quantia de 20 mil pra soltar ele daqui.
– Ai meu Deus, aonde eu vou arranjar isso? Nem trabalho eu não tenho.
– Quem tá com a senhora aí?
– Eu tô dentro de uma igreja.
– A senhora tá dentro da igreja?
– Tô, dentro da igreja. Eu limpo a igreja pra igreja.
– A senhora é cristã?
– Sou cristã.
– Olha só, a senhora me desculpa, tá? O que eu fiz com a senhora foi só um trote, tá bom?
– “Ahãm”.
– Senhora, a senhora tá escutando o que eu tô falando? Isso é um meio de eu arrumar dinheiro. Dar trote nas pessoas, tá bom?
– “Ahãm”. Cadê meu filho?
– O seu filho não tá aqui comigo não. Foi meu comparsa que entrou chorando e a senhora pensou que foi seu filho. A senhora no começo falou o nome dele. Falou Júlio e depois falou Bruno, não falou?
– Falei.
– Então, foi onde eu entrei dizendo que eu era seu filho. Que o seu filho tava aqui. Tá bom?
– Tá bom (chorando). – A senhora vai orar por mim? Hein, senhora?
– Vou.
– Tá, fica com Deus.
– Obrigada.

quarta-feira, maio 16, 2007

Fome de saber

- Tá lendo o Expresso, agora?
- Hoje, tô. Junto com o jornal veio um pacote de Bauducco.
- O Meia Hora, ontem, deu um sanduba de mortadela.
- Tô sabendo. Quando cheguei na banca tinha acabado.
- Acho legais essas promoções. Incentivam o povo a ler.
- É... O jornaleiro me deu um toque que amanhã, com o Extra, tem pão e queijo mais café com leite.

Discaço

Neon Bible, do Arcade Fire, é um grande disco.
Havia expectativa quanto a esse segundo trabalho do grupo.
Funeral, o disco de estréia, é perfeito.
A banda, no entanto, lidou bem com a pressão.
Estão em Neon Bible muitas das qualidades de Funeral (inventividade, melodias primorosas, arranjos originais, tesão), mas o disco não é cópia do primeiro.
Mesmo a besteirada de gravar dentro de igreja para alcançar um som melhor pode-se descontar da inexperiência do grupo.
Temos de considerar, também, que, infelizmente, há necessidade de se produzir notícias para um tipo de imprensa e público que adoram essas babaquices.
Mas, Neon Bible é um discaço.
O Arcade Fire já cumpriu sua missão no volátil mundo do rock.

quarta-feira, maio 09, 2007

Cesar Maia tem seguidores

Está lá na Época OnLine.
As coisas estão ficando esquisitas, muito esquisitas.

Esqueça São Pedro
Prefeitura de São Paulo pede que médium controle o tempo para a chegada do papa

O clima não será dos melhores para receber o papa Bento XVI. Os meteorologistas prevêem frio e pancadas de chuva. Para evitar o caos na cidade, a prefeitura de São Paulo decidiu usar um método pouco ortodoxo: vai usar o poder da médium Adelaide Scritori, presidente da Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC), para elevar a temperatura e “limpar” o céu. Isso mesmo. O pedido marca o início de uma parceria assinada com a instituição, mantida por uma seguradora que lhe destina anualmente 20% de seu faturamento. “É o que nos permite assessorar o governo sem cobrar pelo serviço”, diz Osmar Santos, assessor da FCCC. Para ajudar São Paulo a receber o papa, a médium da FCCC teria elevado a pressão atmosférica na Argentina a fim de antecipar a chegada da frente fria à capital paulista de quarta-feira (9/5) para terça (8/5). Com isso a temperatura cairia em 10º C no sudeste antes da chegada de uma massa de ar polar que afugentaria as nuvens do céu da cidade.

Clique na imagem pra ler o ofício da "autoridade":


quarta-feira, abril 25, 2007

Humanidade

Depois de muita reflexão e pesquisa, concluí que a humanidade se divide em três grandes grupos. Descrevo, a seguir, o comportamento dos representantes desses grupos.
Diante do alarido que acompanha a cópula de dois gatos saudáveis, o representante do primeiro grupo vira-se na cama e pensa, antes de voltar a dormir: “Uau, é o mundo seguindo seu curso”.
O do segundo se dá ao trabalho de levantar-se da cama e jogar um balde d'água em cima dos devassos. “Eu não fodo, ninguém fode”.
O último representante vê onde os gatos trepam e, no local, põe comida envenenada, esperançoso que ali, na noite seguinte, extenuados com a orgia sexual, os felinos façam ali sua última refeição. “O prazer dos outros me irrita profundamente”.
Às vezes, me dá vontade de jogar água nos gatos, mas quase sempre me viro pro outro lado e durmo.
O dia que eu preparar comida envenenada, espero ter coragem para eu mesmo comê-la.